O Mistério da torre de cristal
14 Chá e intrigas.
Quando os últimos convidados saíram, respirei relaxada, a noite transcorreu bem.
— Felizmente, deu tudo certo – falei para mim mesma.
— Por que não daria? – Victor atrás de mim, indagou.
— Não sei, são pessoas tão diferentes.
— Com certeza, mas fiquei surpreendido com seu amigo Eduardo.
— Sim, Eduardo é muito inteligente e muito educado. Vamos para cama, agora.
— Sim, vá se preparando que já vou, só vou tomar um conhaque.
Conhecia muito bem aquela frase, poderia questioná-lo, falando que já havia bebido demais, mas resolvi que não queria embates.
— Estarei esperando por você.
Como sempre, eu coloquei uma das minhas camisolas francesas de seda e renda, na penumbra, recostei os travesseiros e esperei, refletindo sobre o fato de sempre estar esperando o meu marido na cama. Nunca havia convivido com um casal de verdade, pois, fui criada por minha avó viúva, mas pressentia algo errado, pois porque um homem viril, estaria sempre reticente para fazer amor com sua jovem esposa. Não percebi quando adormeci. Em estado de semiconsciência, noto a lençol ser retirado de cima do meu corpo, imagino que Victor havia chegado, subia sobre mim, senti seu peso, levantava a minha camisola, sem nenhuma preliminar, estranhei abri ou olhos e em cima de estava outro homem, me assustei, dei um pulo, as luzes se acenderam, meu marido estava parado na porta com a mão, no interruptor.
— Desculpe-me, não queria assustá-la.
— Não foi você, tive um pesadelo.
— Outra vez? Deseja algo? Talvez, um copo d’água?
— Não, obrigada.
— Isso está se tornando frequente.
— Estou bem. Só quero que venha para cama comigo.
— Você tem certeza.
— Sim, tenho.
Victor era gentil, não havia impulsos de paixão ou luxúria, quando tirava minha roupa e beijava o meu corpo com delicadeza, me acaricia suavemente.
— Lívia, tenha um filho meu – pedia quando entrava em mim.
— Sim. O que você quiser – sussurrei na sanha do desejo.
Depois do gozo, deitados lado a lado na nossa cama, eu me enchi de coragem para falar.
— Victor, eu estava pensando em terminar a faculdade, antes de ter um filho, faltava tão pouco.
Ele saiu do torpor e virou o rosto para mim.
— Por quê? Você não precisa disso, pode ter tudo que quiser.
— Eu sempre sonhei em me formar, era um desejo da minha avó, ela trabalhou duro até o fim da vida para me ajudar a cursar a faculdade, só parei porque ela morreu e tive que trabalhar mais para me sustentar.
Ele se voltou para mim, passou os dedos suavemente pelo meu rosto.
— Querida, acho muito louvável da sua parte, querer realizar um sonho da sua avó e seu, mas não é necessário tanto esforço em vão. Mas, vamos negociar, você engravida, tem o bebê e, depois, volta a estudar, está bem?
— Por que essa urgência?
— Porque é um sonho meu ter um filho.
Na quarta-feira, Victor viajou, saiu cedo, levando uma pequena mala. A ideia de ficar sozinha naquele apartamento me deixava bem desconfortável, poderia convidar Monique para passar uns dias comigo, mas morava bem distante do emprego dela, apesar de ter certeza que não se recusaria, seria um sacrifício e tanto para ela.
Naquele mesmo dia, recebo um telefonema a mando da senhora Valdez, um convite para o chá que foi providencial, para aliviar um pouco a minha solidão, para não dizer, o meu medo, por isso, evitava olhar os espelhos e os cantos do apartamento, deixava todas as luzes acesas, ligava a TV.
No meio da tarde, um pouco antes da hora combinada, tomei o elevador para descer dois andares, com receio de ir pelas escadas, sozinha. Toquei a campainha e uma mulher bonita e jovem, muito magra e de ar sério veio me atender.
— Senhora Rahner – Ela estendeu a mão par mim. – Sou Vanessa, secretária da senhora Valdez. Por favor, entre, já estávamos esperando a senhora para o chá.
— Obrigada.
Minha expressão a fez responder à pergunta não feita.
— Eu estava de folga, no dia em que se conheceram. Recomendei muito a senhora Valdez não sair sozinha, por causa desses ocasionais pequenos lapsos de memória, mas ela é muito teimosa. Por aqui, por favor.
O apartamento da senhora Valdez tinha arquitetura parecida com o nosso, mas parava aí a semelhança, ao lugar era exageradamente decorado, com peças caras e um tanto exuberantes, bem diferente do gosto extremamente refinado do meu marido. Encontrei a minha anfitriã na saleta íntima, já diante da mesa posta para o chá, ao seu lado um lindo gato persa branco dormia em uma almofada de seda.
— Senhora Rahner, que bom revê-la. Fico feliz por ter aceito meu convite, não há muitas pessoas novas para eu conversar. Por favor, sente-se.
A minha anfitriã se ergueu, me cumprimentou com dois beijos no rosto e indicou a cadeira a frente para eu sentar, enquanto Vanessa se retirava e voltava logo a seguir com um bule com água quente, que depositou na mesa, sobre bandeja forrada com uma delicada toalha de renda, tomou um lugar ao meu lado e começou a nos servir, com muita presteza.
— Obrigada pelo convite, também, foi bom para mim, Senhora Valdez. Mas, por favor, me chame de Lívia.
— Eu prefiro café, mas estou restringida, por recomendações médicas – a senhora revelou, de modo casual, após tomar um pequeno gole do seu chá — Como vai a vida de casada, Lívia?
— Boa. Victor é um marido muito atencioso – Tomei um gole, eu também preferia café.
— Já estão providenciando a nova geração de Rahner? – Não entendia porque todo mundo só falava em filhos, estava me sentido uma égua reprodutora.
— Estamos conversando sobre o assunto ainda, penso em terminar a faculdade primeiro.
— Mas, não pense demais, se quer deixar o seu marido feliz.
— Como assim?
— Senhora Eleonor, por favor, só são boatos, não sabemos se realmente é verdade – Vanessa se intrometeu na conversa.
— Sim, mas todo mundo comentava — a senhora rebateu.
— Comentavam o quê? – Tinha que saber para tirar minhas próprias conclusões.
— São só boatos. – Vanessa tenta amenizar, eu espero, a senhora não consegue mais se segurar.
— Eu ouvir dizer que Estela, a avó de Victor, fez uma cláusula no seu testamento, declarando que o neto só teria total controle da empresa, depois do nascimento do primeiro filho, dentro de um casamento sólido e legal. Pois, uma parte das ações pertenceriam ao bebê, sob a chancela do pai. Claro que o testamento é secreto, mas alguém deixou escapar.
— Pode ser mentira – rebato.
— Evidente que pode, querida. Porém, conhecendo Estela e a maneira dela agir pode ser muito bem verdade.
— Senhora Rahner, não acredite nessas bobagens – Vanessa interveio, no entanto, comecei a relembrar a insistência de Victor para termos um filho.
— Se você conhecesse Estela e o jeito que criou aquele garoto, poderia pensar que, talvez, fosse verdade – concluiu a velha bruxa.
— De que jeito? – Deixo escapar
— Ela era muito exigente e controladora, o pobre garoto vivia sob o olhar dela, vigiado como uma pedra preciso, afinal, era o último e único portador dos preciosos genes dos Rahner.
Depois, desse incômodo dialogo, Vanessa fez de tudo para desviar a conversa para assuntos mais amenos e banais, porém, mal consegui engolir o que foi me oferecido.
No fim do chá, pedi licença para ir embora, pois eu me sentia bastante nervosa com aquela conversa, imaginando se Victor estava escondendo algo de mim, da verdadeira razão para o nosso casamento, seria eu só uma parideira para garantir a ele o controle da empresa?
Vanessa me levou até a porta.
— Senhora Rahner, não ligue para que a senhora Valdez fala – segredou. – Ela está um tanto senil, já não disfarça mais o rancor que tinha pela outra senhora Rahner, a avó do seu marido. – Eu a interroguei com o olhar esperando uma resposta. – A senhora Eleonor era apaixonada pelo senhor Rodolfo Rahner, marido da senhora Estela e avô do seu esposo, mas ele nunca se dispões a abandonar a esposa, por isso a mágoa.
— Você está dizendo que ela falou isso tudo, só para criar discórdia no meu casamento?
— Possivelmente.
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