O Mistério Da Estrela
2 Capítulo 1: Geillis (Arthur's Bane Parte 2)
Notas iniciais
Esse capítulo foi bem difícil de escrever e, eu espero, responde algumas das perguntas de vcs a respeito da história.
P.S.: O nome da estrela é celta, eu andei dando uma pesquisada, então acho que está certo o significado. Ah!, e a pronúncia é "Gáilis", ok?
ENJOY!
AVISO: Reeditado em 14/05/2013
O frio era intenso. A neve soprava, castigando o pequeno acampamento. Merlin se encolhia num canto mais afastado — as mãos amarradas, tentando não tremer — enquanto Arthur dormia profundamente. Ele não conseguia entender como o rei tinha a habilidade de cair no sono nos lugares mais inusitados. Talvez fosse o duro treinamento que Arthur fora obrigado a se sujeitar desde muito criança; talvez fosse sua preguiça real, tão grande quanto seu ego. Ou talvez um pouco dos dois; ele não sabia ao certo.
Merlin desviou o olhar de Arthur, pousando-o intensamente sobre Mordred, que abertamente encarava de volta. O saxão líder da caravana pegou-o olhando na direção dos dois, próximos à fogueira, e apontou a espada em sua direção, um sorriso convencido no rosto:
–Está olhando o quê?
Com isso, o jovem mago abaixou o olhar para a neve. O sorriso zombeteiro do saxão aumentou, e, ainda com a espada em mãos, ele espetou o pão de um prato que jazia na neve, levantou à altura dos olhos e olhou para novamente Merlin:
–É isso o que você quer? — perguntou maldosamente. Depois retirou o pão da ponta da espada e o jogou no ar:
–Pegue. — ele gargalhou.
Merlin, faminto, instintivamente impulsionou-se para frente, mas viu com tristeza quando o pão caiu no meio caminho, inalcançável para ele.
–Talvez devêssemos alimentá-los. — Mordred sugeriu, os olhos ainda sobre o mago.
–Para quê? — o líder retorquiu, analisando sua espada.
–Eles ficarão pele e osso. — Mordred tentou argumentar.
–Morgana quer escravos, não porcos para assar. — o outro rebateu, contrariado.
Pela primeira vez, Mordred desviou o olhar para o saxão, lançando-o um olhar severo:
–Então vá mais devagar. — ele pediu secamente.
Apontando para Merlin com a espada, como se para ilustrar a situação, o líder explicou:
–Quanto antes chegarmos, antes pego meu dinheiro.
A discussão foi interrompida bruscamente por uma explosão no céu, chamando a atenção de todos no acampamento — inclusive Arthur, que acordou sobressaltado. O clarão resultante espalhou-se no ar, vencendo a escuridão da gélida noite. Segundos depois, a fonte da explosão rasgava o firmamento, aproximando-se mais e mais da Terra, ficando cada vez maior.
Merlin arregalou os olhos, observando a bola de fogo prateada. De repente, toda a cena da caverna lhe passou diante dos olhos, e o sentimento de inquietação novamente se apoderou dele. Então era isso. A estrela estava ali, caindo diante de seus olhos. Ele se levantou de um salto, esticando-se o máximo que as cordas lhe permitiam.
"Além dos que cobiçam seu poder divino, há o risco de acabarem se corrompendo." Ele reprimiu um xingamento, lembrando-se das palavras de Kilgarrah. Precisava chegar até ela antes que outros com objetivos menos nobres a alcançassem. Mas como? Ele e Arthur precisavam escapar, e rápido.
O jovem mago estreitou os olhos para Mordred que, assim como os outros, havia se levantado e olhava atentamente para o céu, alheio ao significado daquilo. Precisava tomar cuidado com o jovem druida, ele concordou internamente. Por alguma razão, ele sentia que ele acabaria dificultando seus planos. Ele sentia também que não era coincidência a fato de ele estar ali logo naquele momento em particular.
Percebendo a preocupação de Merlin, o líder saxão voltou-se em sua direção, rindo:
–Hoje é seu dia de sorte, garoto. — ele zombou e apontou para o céu — Faça um pedido para a estrela cadente. Porque realmente só um milagre como aquele pode ajudar vocês agora. — ele aconselhou, referindo-se à captura deles e ao possível iminente confronto com Morgana.
Merlin reprimiu a vontade de rir, porque o saxão não sabia o quão perto ele estava da verdade. Sim, ela seria o milagre feito especialmente para salvá-los.
Ele voltou o olhar para o céu — sentindo o olhar perfurante de Mordred e o confuso de Arthur sobre ele — e procurou parecer inocente e ignorante de qualquer conhecimento sobre o que estava acontecendo. Não precisava levantar suspeitas.
Foi com desespero que ele viu a estrela passar rapidamente sobre o acampamento e desaparecer no horizonte. Ainda estava a uma altitude respeitável, então ele calculou que ela cairia longe demais para que ele pudesse ter alguma noção de sua localização. Ele se sentiu estúpido por pensar que ela cairia em algum lugar próximo. Claro que não seria tão fácil assim, nunca era.
Após algum tempo, todos se desinteressaram pelo céu e voltaram ao que faziam antes da repentina aparição da estrela, conversando e bebendo ou simplesmente dormindo, no caso de Arthur e alguns outros.
***
A dezenas de quilômetros dali, o estrondo do impacto foi ensurdecedor. Contudo, ocultos do mundo pelo deserto de neve e pela forte nevasca que soprava, a cratera e o som poderiam muito bem ter passado despercebidos.
http://www.youtube.com/watch?v=teGoa2kgGrM– Sacra
A primeira coisa de que ela se deu conta foi o frio. Ela estava congelando. Tremia de forma incontrolável, trajando apenas aquele vestido fino. Estava fraca também, fraca demais. Ela já tinha sido avisada dos efeitos negativos que a "viagem" poderia causar, no entanto, ela só conseguiu se sentir mole e entorpecida. O frio era tão intenso que diminuía a dor consideravelmente, e ela agradeceu por aquilo.
Gemendo, ela abriu os olhos pela primeira vez. Ela viu o céu, tão distante, tão inalcançável. Lindo. Então era assim que o firmamento parecia para os humanos, ela pensou vagamente. Era algo que ela sempre se perguntara. E ainda havia a neve. Branca, macia sob o toque de seus dedos dormentes e curiosos.
Ela olhou em volta, ousando levantar o pescoço um pouco para enxergar melhor o ambiente ao redor. A cratera era enorme. Dezenas de metros de diâmetro, talvez.
Após alguns segundos, a dor se manifestou, vencendo a barreira analgésica do frio. Com um gemido de desistência ela abaixou a cabeça, não ousando esforçar demais o novo corpo. Apenas ficou ali, imóvel, tentando decidir o que fazer. Tinha sido estúpida. Um cálculo errado e ela tinha caído longe demais de onde ela pretendia. Tinha caído longe demais do bendito acampamento. Claro, ela não tinha planejado cair sobre eles, exatamente, apenas distante o suficiente para que ela pudesse chegar até eles sem maiores dificuldades e sem que levantasse suspeitas. Ela grunhiu. Agora estava perdida e tinha a fraqueza e o efeito paralisante do frio com que lutar.
Teria que apelar para algo extremo. Fraca do jeito que estava, usar sua forma original, nem que de forma reduzida, seria arriscado demais. Se, com esse corpo em perfeito estado, usar sua forma original requereria muita energia, ela não queria nem imaginar o que aconteceria com ela, com seu corpo humano debilitado, como estava naquele instante.
Mas era sua única chance. Ela duvidava que conseguiria se levantar sair simplesmente caminhando, ou que alguém viesse resgatá-la. Não naquele fim de mundo. Não, era precisava tentar. Nem que chegar até o acampamento lhe custasse seus últimos esforços. Ela sabia que, uma vez encontrando Emrys, tudo ficaria bem.
Respirando fundo, ela fechou os olhos, concentrando-se na fagulha de calor restante em seu corpo. Todo o calor da queda obliterado pelo frio extremo. Com um pouco de esforço, ela se sentiu levitar, seu corpo ficando sem peso, mudando de forma. Em poucos segundos ela se transformou completamente. Recobrando um pouco mais a consciência, como alguém que fica mais forte e alerta depois de uma descarga de adrenalina, sua forma pequena e luminosa riscou novamente o ar gélido, deixando os sinais de sua queda para trás.
Ela acelerou, vencendo a distância com pressa; ela sabia que tinha pouco tempo até que chegasse ao seu limite. O que não durou muito. Depois da descarga de energia se esgotar, ela se viu exausta demais para continuar. Ela acreditava estar indo na direção certa, e esperava que a distância percorrida fosse suficiente. Caso contrário, ela estaria perdida. Sua "missão" estaria acabada antes mesmo de começar.
O ponto luminoso falhou uma vez, diminuindo de altitude e velocidade, até pousar suavemente, mudando de forma mais uma vez. Ela abriu os olhos, esperando encontrar algum sinal que a dissesse que ela havia conseguido. Nada. Somente metros e mais metros de pura e cruel neve. Sua visão falhou, e ela lutou para se manter acordada, emitir algum som que fosse. Em vão. Desesperada, ela se viu caindo mais e mais em um abismo de inconsciência.
***
Já era tarde da noite e Morgana tinha sonhos irrequietos. Revirava-se se um lado para o outro, suando frio, os dedos agarrando firmemente o cobertor. As cortinas chicoteavam violentamente, e as velas há muito tinham se extinguido. Aithusa estava prostrado junto à feiticeira, emitindo ruídos mínimos, como se para trazê-la de volta do sonho ruim. Abrindo as asas em um sinal de estresse, ele abaixou a cabeça, cutucando Morgana levemente com o nariz. Estava preocupado com a feiticeira, há tempos ela não tinha sonhos tão violentos.
"Ela se viu em meio à neve. Quilômetros e mais quilômetros de neve. Apesar de seu vestido longo e do casaco grosso, ela sentia muito frio. Involuntariamente, ela se abraçou. Ficou ali de pé, imóvel. Olhou em volta: era noite, e o fato de que a nevasca era rigorosa naquele deserto branco a impedia de ver muito à frente. Não tinha certeza, mas aquele lugar parecia familiar.
De repente, uma explosão no céu a cegou por alguns instantes, iluminando o inferno gelado abaixo. Recuperando-se rapidamente, Morgana levantou o olhar para o céu ainda a tempo de ver a explosão se condensar em um ponto e cair como um cometa, sua cauda prateada desenhando o céu em uma trajetória sempre descendente.
Maravilhada, Morgana arregalou os olhos, observando atentamente enquanto o ponto passava sobre sua cabeça, chocando-se ferozmente com o solo, destruindo tudo num raio de dezenas de metros. Finalmente conseguindo se mexer, ela cuidadosamente se moveu em direção ao local do impacto, a curiosidade a vencendo.
Ao chegar na borda do precipício, Morgana arquejou, a boca pendendo aberta. Era uma forma humana. Tudo o que ela conseguia ver era que a forma era pequena e curvilínea demais para ser masculina. Estreitando os olhos, ela tentou apurar a visão, a nevasca e a escuridão realmente não estavam ajudando.
Lentamente, como se a neve quisesse formar uma parede entre ela e a forma ali estendida, a nevasca começou a aumentar à frente dela, ficando cada vez mais forte e mais sólida. Ela tentou usar a força, usar magia para se livrar da maldita neve, tudo em vão. A neve continuava a se acumular, oprimindo-a."
Ela abriu os olhos de repente, sentando-se. A respiração aos arquejos, os olhos muito azuis arregalados. Ela ficou encarando a parede de pedra oposta, as imagens do sonho ainda vívidas demais em sua mente. Ela mal registrou Aithusa ao seu lado, tentando chamar sua atenção ao tocar sua mão com o nariz. Parecia preocupado e ao mesmo tempo aliviado por Morgana finalmente estar acordada. Virando-se para o pequeno dragão, ela sorriu minimamente, acariciando de leve o topo de sua cabeça. Voltou a atenção para a parede, sua expressão pensativa e calculista, distante.
Seria aquele um dos seus sonhos "proféticos"? Ela acreditava que sim. Durante várias vezes as visões que ela tinha haviam se mostrado corretas. E Morgana não ousaria duvidar mais de seus poderes. Não depois do que aprendera com Morgause.
Morgause. Ela fechou os olhos, visualizando uma lembrança perdida. Acontecera no ano em que, supunham, Morgana tinha sido "sequestrada". Ela aprendera tanto com a irmã naquele ano. Numa dessas ocasiões, as irmãs haviam discutido sobre todos os tipos de criaturas mágicas. Quando Morgause se pôs a falar sobre as estrelas, aquilo chamara a atenção da feiticeira mais nova. Morgana se surpreendera ao descobrir que, de fato, as estrelas eram inteligentes e observavam os humanos. Ainda mais quando a irmã mencionara que elas, embora raramente, vinham à Terra sob a forma humana e que aquele que a capturasse e comesse seu coração obteria seus enormes poderes.
Morgana, na época, ficara horrorizada com a perspectiva de arrancar o coração de alguém, ainda mais de uma estrela, e comê-lo. Agora a ideia não parecia tão má para ela. Afinal, ela sabia que estava disposta a fazer o que fosse para destruir Emrys e tomar o trono de Camelot.
Ela sorriu para a parede de forma distorcida. Se seu sonho estivesse certo, havia uma estrela na Terra sob a forma humana. E, a julgar pela forma que tinha visto, Morgana calculou que seria uma mulher. Ela enterrou as unhas na palma da mão. Precisava encontrá-la. Com a ajuda dos poderes que ganharia ao obter o Diamair e a estrela, finalmente poderia conseguir tudo aquilo por que vinha lutando.
***
O sol brilhava tímido no começo daquela manhã, resultado da nevasca da noite anterior. O acampamento, situado entre morros de neve, que barravam a pouca luz, parecia ainda mais escuro. Isto, adicionado ao silêncio que pairava sobre o acampamento, impedia Merlin de relaxar e dormir. Ele estava sentado, pés e mãos amarrados, pensativo.
De repente, ele vê uma figura se levantar em meio à massa de corpos adormecidos. O feiticeiro desperta de seus pensamentos e observa atentamente Mordred se aproximar. Seu rosto é inexpressivo quando ele se ajoelha na frente de Merlin. Ele põe uma mão dentro do casaco e de lá retira um pão. Ele o estende ao jovem mago:
–Você quer? — ele pergunta seriamente.
–Por que está fazendo isso? — Merlin desce o olhar para o alimento, como se para ilustrar a pergunta.
Mordred se vira para a forma adormecida de Arthur e explica:
–Ele salvou minha vida uma vez. Tenho uma dívida com ele. — e secamente ele acrescenta, voltando a olhar o feiticeiro — Não me julgue tão rápido.
Olhando no fundo dos olhos de Merlin, como se pudesse ler sua alma, Mordred pergunta:
–Você me teme, não é, Emrys?
Como se atingido por um raio, Merlin absorve suas palavras. "Mas é preciso que fique atento, Emrys, pois a estrela influenciará o curso dos acontecimentos através daquele que você teme mais." À lembrança das palavras do Vates, Merlin só consegue encarar Mordred de forma estática.
Seria Mordred a pessoa de que a profecia falava? Não, aquilo era impossível. Mordred era a ruína e a estrela era a salvação. Sim, aquilo não fazia sentido. Mesmo que fosse uma mera suposição, a simples possibilidade de que a estrela agisse ao lado de alguém como Mordred era assustadora e de certa forma quase hilária. Certo, aquilo era ridículo, ele concordou. Reprimindo a vontade balançar a cabeça, Merlin rejeitou o pensamento rapidamente.
Perdido em seu próprio turbilhão confuso de pensamentos, Merlin quase não ouviu as palavras seguintes de Mordred:
–Conheço o ódio e a suspeita com que os homens tratam quem tem magia. — ele suspirou de forma amarga — Nós não somos tão diferentes. Eu também aprendi a esconder meu dom. Eu prometo, seu segredo está a salvo comigo. — e depositou o pão próximo a Merlin.
Procurando por alguma resposta, mas não querendo revelar suas suspeitas, Merlin finalmente conseguiu força suficiente para articular:
–O que Morgana procura em Ismere? – ele mudou de assunto, procurando disfarçar sua preocupação direcionando-a para Morgana.
Mordred virou-se para o feiticeiro, encarando-o silenciosamente por alguns segundos, antes de responder:
–O Diamair.
–O que é isso? -Merlin franziu o cenho.
–Na língua do meu povo significa "a chave". — o druida explicou.
–Chave para o quê?
–A chave para o conhecimento. — Mordred respondeu finalmente.
Mordred se afastou, o olhar de desconfiança de Merlin ainda perfurando suas costas. Achou melhor acabar a conversa ali mesmo, não queria que alguém acordasse e o visse aos cochichos com um dos prisioneiros. Além do mais, pelas suas contas, aquela seria sua vez de ficar de vigia. O que ele gostava, o tempo a sós o ajudava a pensar.
Ele caminhou distraidamente por alguns minutos, distanciando-se ligeiramente do acampamento. Precisava pôr as ideias em ordem antes que tivesse de voltar. Estava frustrado. Cansado de as pessoas o tratarem com a mesma suspeita. E com Merlin não era diferente. Desde quando era garoto, o feiticeiro o encarava daquela maneira. Quase o havia deixado morrer da última vez que tinham se encontrado. E agora o olhava como se esperasse que a qualquer momento ele fosse puxar uma espada e cortar sua garganta e a de Arthur. Como se ele fosse capaz de fazer algum mal ao rei. Arthur tinha salvado sua vida. E, apesar de tudo o que tinha passado, ele entendia o que significava lealdade e gratidão.
Ele subiu um dos muitos montes de neve que circundavam o acampamento, procurando vislumbrar algum inimigo ou mesmo a forma distante da fortaleza de Ismere. Sem nada ver, ele rapidamente deu as costas para a imensidão branca, quando algo lhe chamou a atenção. Era fraca demais, mas a magia era definitivamente presente. Ele estreitou os olhos muito azuis e girou nos calcanhares, procurando pela fonte daquele poder.
Era uma forma pálida, quase tão branca quanto a neve. Estava a muitos metros de distância, tanto que ele teve dificuldade para distingui-la a princípio. Ele estreitou os olhos, procurando ver melhor. Uma onda de pânico passou por ele quando percebeu que era uma pessoa.
http://http://www.youtube.com/watch?v=Q32jEWJaS6Y Clair de Lune
Ele correu, vencendo as centenas de metros o mais rápido que suas pernas enrijecidas pelo frio permitiam. Ele parou a poucos metros da figura, a respiração ofegante pela corrida difícil, contemplando-a, assimilando cada traço. Seus olhos se arregalaram quando ele percebeu que era uma mulher jovem, aproximadamente de sua idade. A neve tinha se acumulado sobre seu corpo frágil e enrijecido, cobrindo boa parte de seus braços, pernas e torso. Apesar da situação, ele registrou vagamente que ela era linda. Os cabelos loiros, compridos, adornavam o rosto pálido. Com o semblante sereno, os braços abertos, postos de cada lado do corpo e o vestido prateado, ela poderia muito bem ser um anjo.
Lentamente, ele pareceu sair do estado paralisado que se encontrava, e soltou uma respiração que não sabia que estava segurando. Depois, lembrando-se que ela poderia estar machucada ou pior que isso, ele se censurou mentalmente. Mordred se aproximou e cuidadosamente se ajoelhou ao lado dela. Ele estendeu a mão, tocando uma de suas bochechas geladas, acariciando. Seu polegar tocou seus lábios ligeiramente abertos e ele sentiu uma respiração quente lhe tocar a pele. Era fraca demais, mas definitivamente presente. Como se para se certificar de que ela estava realmente viva, ele pressionou gentilmente os dedos em seu pescoço, sentindo a débil pulsação de seu sangue. Ele respirou aliviado. Estava viva, mas por um fio.
Mordred retirou seu pesado casaco e o pôs sobre a jovem. Ela já começava a assumir uma estranha cor arroxeada. Levantou seu torso suavemente, colocando-a deitada em seu colo. Ele fechou os olhos e tocou a ponte do nariz com os dedos. Precisava salvá-la, mas como? Não poderia levá-la neste estado de volta ao acampamento. Não com todos aqueles animais. Talvez quando ela estivesse mais forte e pudesse se proteger melhor, mas não assim.
Ele não era nenhum médico, teria de usar sua magia. Conhecia uma que poderia fortalecê-la, mas era algo que ele acreditava estar acima de seus poderes. Comprimindo os lábios, Mordred olhou em volta, como se para se certificar de que ninguém estava olhando. Obviamente, não havia ninguém ali. Ele fechou os olhos e respirou fundo. Precisaria se concentrar. Posicionou uma mão sobre o coração da garota. Sussurrando as palavras, ele abriu os olhos, que lampejaram dourado em seguida. Ele olhou para baixo, observando avidamente se tinha sortido efeito. Nada. A garota continuava estática, seu corpo pesado e enrijecido em seus braços.
Ele reprimiu um xingamento. Aquilo seria mais difícil que ele pensara. Não podia deixá-la morrer, entretanto. Mordred não entendia direito, mas sabia que não se perdoaria se a deixasse morrer. Guiado por este pensamento, ele fechou novamente os olhos por alguns segundos, sentindo a magia que, assim como seu sangue, corria por suas veias. Ele se concentrou naquela sensação. Sentiu a magia correr mais rápido por seu corpo, concentrando-se nas pontas de seus dedos, que formigavam. Era uma experiência completamente nova, aquele poder. Ele sorriu. Abrindo os olhos novamente, ele sussurrou as palavras de forma mais firme, e as íris claras lampejaram dourado mais uma vez.
A garota sugou o ar audivelmente, como se aquele fosse o próprio sopro da vida. A magia dentro dela se elevando e a aura de poder espalhando-se em ondas ao seu redor. Seu peito começou a subir e descer rapidamente, num ritmo irregular. Logo a cor voltou às suas bochechas arroxeadas, assumindo uma adorável cor rosada. A postura tensa de Mordred relaxou e ele pendeu para frente, sentindo-se cansado de repente.
Após alguns segundos, a testa da jovem se franziu, suas sobrancelhas se unindo, e ela piscou, abrindo os olhos. A princípio tudo o que ela viu foi uma figura borrada pairando sobre ela. Ainda confusa e fraca, ela se debateu, assustada. Mordred, contudo, estreitou seu aperto sobre ela, gentilmente restringindo-a, impedindo-a de se machucar e de machucá-lo. Ao mesmo tempo, ele sussurrava suavemente:
–Calma, eu não vou te fazer mal. — procurou assegurá-la.
Ela piscou mais algumas vezes, e sua visão afinal entrou em foco. Quando viu o rosto da pessoa que se inclinava sobre ela, ela rapidamente o reconheceu. Mordred. Ela arquejou e seus olhos se arregalaram. Quantas vezes o tinha observado lá do alto? Incontáveis. Tinha o visto crescer e virar um homem. Por alguma razão, ele era um dos humanos que ela mais gostava de observar. Tinha alguma coisa a ver com os olhos dele, ela concluíra. Ela se sentia intrigada por eles.
Aqueles olhos. Como era possível que fossem ainda mais claros tão de perto? Um sorriso lentamente se formou em seus lábios. Ficaram ali, encarando um ao outro durante alguns preciosos momentos. Por fim, quando a curiosidade falou mais alto, Mordred conseguiu perguntar:
–Quem é você? De onde veio? — ele sussurrou, dúvida e incredulidade preenchiam sua voz.
Ainda sorrindo, ela desviou o olhar do rosto dele e olhou para o céu cada vez mais brilhante, como se para ilustrar sua resposta. Ele seguiu seu olhar, confuso, e levou alguns segundos para falar novamente:
–Do céu? — ele indagou cheio de descrença.
Então ele se lembrou do fenômeno da noite anterior, entendimento passando por seu rosto. Ela era a estrela cadente, uma criatura poderosa. Claro, aquilo fazia sentido, agora que podia sentir claramente a magia dela pulsando com mais força diante de si. Era como se sua própria magia tivesse obrigado a dela a voltar a correr por seu corpo, fazendo-o funcionar novamente.
A mente do jovem começou a girar. Mas como aquilo era possível? É claro, ele era um druida, sabia sobre as criaturas mágicas. Seu pai lhe falara das lendas das estrelas cadentes e o modo como elas ocasionalmente ajudavam os humanos. Contudo, ele sempre pensara que elas fossem apenas aquilo, lendas.
Mordred ficou tenso. Um sentimento novo começou a tomar conta dele. Tinha algo precioso nos braços, e, por instinto, sabia que precisava protegê-la, escondê-la, como fazia consigo. Se descobrissem, ela estaria em constante perigo. Involuntariamente ele a apertou mais contra si. Ele estava errado sobre ela ser um anjo, mas ele entendia que era quase tão divina quanto.
Ele desceu o olhar para ela mais uma vez. Ela ainda encarava o firmamento acima, e conservava aquele sorriso mínimo nos lábios. Parecia perdida em pensamentos e mais lúcida também.
–Qual é seu nome? — Mordred perguntou de repente.
Ela se mexeu em seus braços, desconfortável. Franzindo o cenho, ela disse após alguns segundos de hesitação:
–Eu não tenho um. Apenas as estrelas principais de cada constelação levam um nome especial. Da constelação de Cisne, que é a de onde eu venho, apenas Deneb e Albireo, as mais brilhantes, levam nomes. O resto de nós apenas é taxado com um nome científico estranho. — ela respondeu, uma nota de irritação presente em sua voz. Estava claro que ela não aprovava aquela nomenclatura preconceituosa.
Um segundo depois, seu rosto voltou a se iluminar e ela sorriu novamente:
–Você poderia me dar um nome. — ela sugeriu.
–Eu?
Ela deu de ombros, como se a ideia fosse simples:
–É claro. Humanos são mais ligados a convencionalidades como nomes do que nós. — ela argumentou.
Convencido, ele pensou por alguns segundos. Nada que se encaixasse lhe vinha à mente. Mordred já quase desistia quando um nome perfeito lhe surgiu:
–Que tal Geillis?
–Geillis? — ela repetiu interrogativamente, como se testando o nome em sua língua.
Sentindo suas bochechas esquentarem, Mordred rapidamente explicou:
–No idioma do meu povo significa "cisne brilhante". — ele murmurou.
Ante à explicação, ela lhe lançou um sorriso:
–É perfeito. — ela sussurrou.
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