O Mistério Índigo

1 O Enigma dos Pássaros Azuis


Eu era apenas uma criança quando essa corrente de acontecimentos começou. Lembro-me claramente de como os jornais noticiavam aquele incidente como um alerta do apocalipse ou mensagens de deus. Claro que nem todos acreditavam nisso, afinal era claro que aquilo estava fora do controle de qualquer um.

Começou tudo — me lembro agora com alguma pouca dificuldade — numa tarde de quarta-feira. O sol castigava e lembro-me de ter faltado a escola naquele dia.

Curiosamente, fui alertado de algo quando o barulho da TV foi interrompido por um som agudo e desconcertante: do lado de fora da janela da sala, bicava freneticamente o vidro com seu bico amarelado um pássaro pequeno, completamente azul, que admito que a presença me deixou irritadiço.

"Nada preocupante", pensei, enquanto me aconchegava novamente no sofá. O programa ao qual eu estava assistindo antes de averiguar o problema da janela já havia acabado, e agora tinha sido substituído pelo jornal local.

Assim que o jornal parecia anunciar suas despedidas, ouço novamente o barulho das bicadas. Com o canto dos olhos, tenho certeza de que era o mesmo pássaro azul que havia avistado mais cedo.

Curioso, então, fui ao encontro da pequena ave, em meu jardim, ao que me deparo com uma surpresa inimaginável, o pássaro não estava mais lá, como se o tempo todo minha mente houvesse pregado peças em mim, teoria que provaria-se provável, caso no chão eu não avistasse uma linda pena azul.

Nesse fim de tarde foram noticiados diversos casos de pássaros azuis avistados pela cidade, pássaros que nos eram completamente exóticos por aqui. A peculiaridade estava na quantidade, entretanto. Eram pouco mais de uma dúzia e voavam ao redor da cidade por toda a tarde, o que indicava um evento bastante singular. Nunca houve nenhuma declaração oficial sobre isso, levando a crer que se tratava de uma coincidência ou, como diziam os religiosos "mensagens divinas".

Se passavam duas ou três semanas desde o acontecimento quando começaram a ser noticiadas as pichações em massa que ocorreram ao redor da cidade. Mensagens indecifráveis, tomadas como uma afronta à polícia e/ou nomes de gangues. Contraditoriamente, era dito que não poderia haver ligação entre elas, uma vez que estivessem localizadas em diferentes pedaços da cidade e tivessem sido avistadas com um intervalo de menos de dois minutos dentre si.

"É inviável que nossa equipe de polícia assuma a relação dentre quinze diferentes pichações, noticiadas pela primeira vez com pouco menos de quinze minutos de diferença entre si e feitas em diferentes pontos da cidade como uma coincidência, mas ao mesmo tempo, difícil de dizer que tivessem sido feitas com tamanha sincronia por uma gangue", essa foi a declaração oficial do corpo de polícia da cidade de Sheffield.

Certa vez tentei conversar com minha mãe, pensando que talvez houvesse alguma relação entre isso e os pássaros azuis. Não me lembro que explicação usei, mas minha mente infantil estava sempre disposta a ver coisas onde não haviam. "Jonathan", minha mãe dizia, "preocupe-se assim com seus estudos e será um homem de sucesso".

Um ano extremamente pacato se passou quando as investigações já terminadas afirmavam que teria sido ação de uma gangue.

À essa altura, portanto, eu e meus amigos de escola já havíamos encaixado algumas peças do que a polícia provavelmente também já havia descoberto sobre o caso. A brincadeira de quebra-cabeças ocorreu como uma coincidência quando tentamos fazer um anagrama com uma das mensagens de pichação.

Acontece que Harry, uma das pessoas mais inventivas e criativas que eu conheci durante todo meu período de vida, procurava por um nome para seu recém-criado amigo imaginário, quando era noticiado sobre a possível relação entre a letra nas pichações. Sua mente rapidamente conseguiu ligar um anagrama dentre as letras de uma das imagens, formando o nome "Mavi".

O tempo se passou e a estranha relação entre Harry e Mavi se tornava mais estranha. Harry descontava em seu amigo imaginário suas tristezas e angústias, e curiosamente conseguia manter com ele uma relação estável de confiança.

Foi curiosamente também, que descobrimos por meio de uma professora que "Mavi" era o equivalente a azul, em turco. Não demorou para que a mente eufórica de Harry bolasse planos e teorias miraculosas quanto à ligação da palavra com as pichações.

Uma semana depois, Harry e eu nos reunimos em minha casa para averiguar os fatos. Não que eu de fato acreditasse nas ideias de um garoto tão estupidamente desconfiado, mas provou-se uma teoria consistente, quando percebemos então que em uma das pichações encontrava-se um anagrama para "blue".

Foi então que Harry pirou, acreditou numa conspiração, em extraterrestres e em tudo mais que lhe pareça impossível. E isso não foi de grande relevância, até um certo dia.

Harry morreu cedo, vítima de um acidente de carro, não passava de seus quinze anos, se bem me lembro. Toda a cidade comoveu-se com o caso, principalmente pelo acidente que tirou sua vida ter ocorrido no mesmo dia de seu aniversário.

À essa altura, não nos falávamos havia anos, embora isso não mudasse a forma triste como eu me sentia naquele momento. Mas foi então que as coisas ficaram engraçadas, foi então que as coisas ficaram ridiculamente assustadoras.

O homem que havia atropelado Harry e tirado sua vida, agora sobre custódia da polícia, era um turco. E há quem ouse pronunciar seu nome em voz alta, naqueles tempos. "Mavi Sukur", me lembro com certo temor.

Ao noticiar a relação entre os fatos, passei por quatro diferentes psicólogos e nenhum deles fatidicamente acreditava no que eu lhes dizia, o que acabava me deixando mais receoso e assustado. Inclusive cheguei a relatar minhas experiências anonimamente pra polícia, tentativa que de nada adiantou.

Aos vinte anos, decidi que seria policial, não sabendo exatamente se isso teria alguma relação com minhas bizarras experiências. Não demorou muito pra que eu me tornasse um conhecido detetive da polícia de Sheffield, resolvendo sempre pequenos e minuciosos casos. Pequenos e minuciosos casos, com exceção, talvez, de um deles.

Eu estava no auge de minha carreira, não passava dos trinta anos quando o tumulto reabria lugar nos noticiários de todo o país: um caso de suicídios em massa, aparentemente ligados um ao outro de alguma forma e já contavam treze vítimas mortas pelas mesmas circunstâncias e muito provavelmente — de acordo com os inquéritos policiais — mortos no mesmo dia.

No começo, é claro, a maior parte das informações era restritamente policial, e foi apenas no primeiro sinal do caso sendo noticiado em que eu fui oficialmente convocado para participar do caso. Curiosamente, meu parceiro de investigação era Daniel, um velho amigo de infância que partilhava do meu interesse pelo caso dos pássaros.