O Mistério Índigo
3 Uma luz no fim do túnel
— 15 Blue Street, Sidney Norte, Austrália. Antiga residência de Catherine C. Smith. — indagou Danny — O que isso nos diz?
— Creio que nos diga que Catherine é uma mulher de muitas nacionalidades.
— Algo mais, algo mais. Pense. Pense.
— Está perdendo um pequeno detalhe, meu caro. Está perdendo um pequeno detalhe. Lembre-se dos velhos tempos.
Tiramos uma folga no sábado da mesma semana, de forma que o mundo parecesse girar mais lentamente para nós naquela ocasião. Vimos qualquer filme bobo e fomos ao parque, e sentados em frente ao rio, conversamos sobre nossas vidas pessoais.
— Dan, gostaria de tentar algo diferente.
— Cuidado com o consumo de letras, Jon, daqui a pouco não terá mais letras reserva no meu nome que possa usar.
— Quando ganhou esse senso de humor? Lembro-me especificamente de você ter sido a criança medrosa e cabeça dura que tinha medo de investigar os anagramas conosco.
— Medo não é uma palavra adequada... — disse ele, dando uma pausa — Pavor, por outro lado, seria completamente aceitável.
Admito que ri daquilo. De como ele havia mudado. Ainda assim, eu me sentia bem em sua presença, sentia que qualquer amizade que já tivemos não fora totalmente perdida pelo tempo.
— Você tinha, se bem me lembro... — eu disse, abrindo um sorriso torto — Uma paixonite secreta, é isso? Sempre quis saber quem era, lembro que Harry poderia jurar que era aquela loirinha baixa da sala ao lado.
— Quando foi que Harry acertou alguma coisa? — ele riu — Aquele cabeça de vento? Não.
— Até parece que a dedução dos anagramas estava errada.
— Ih... — ele me olhou com um olhar de repreensão — pensei que tínhamos combinado de esquecer das bizarrices no dia de hoje.
— Ok, nesse caso, diga-me, Dan... — falsifiquei um ar de preocupação — Depois que eu saí da escola, na terceira série, deu certo entre vocês dois? Você e a loirinha, quero dizer.
— Dan, acho que nunca tive oportunidade melhor pra te dizer que nunca fui muito atraído pelo sexo feminino. O que significa que as deduções de vocês nunca foram exatamente certeiras, sabe?
Jogamos pedras no lago por um bom tempo, e devo admitir que ele era tão ruim nisso que me fazia parecer bom. Compensamos a atividade pacata com um fim de tarde inesquecível. O tempo pareceu passar mais rápido até o dia seguinte.
— O que faremos agora, Jonathan? — Daniel perguntou, suspirando — Outra agenda de fatos?
— Não viria a calhar. Que tal nos desligarmos do caso por enquanto?
— Outra folga? — disse ele, parecendo feliz com a possibilidade.
— Desista. O que eu quero dizer é diferente. Gostaria de confirmar minha teoria antes de voltar a tona. Só isso. Então se puder, vamos nos voltar ao caso da Turquia. — ele pareceu desanimado com essa notícia — Por outro lado, se você me conseguir todos os registros dos suspeitos do crime e o registro de desenvolvimento das investigações, poderia nos arranjar uma ou duas horas de folga, sim.
Como prometido, acabamos de fato tirando duas horas de folga mais tarde. Era engraçado saber exatamente o porquê de ele estar tão carente por folgas desde ontem. Acabaram sendo ótimas duas horas afinal.
Sentei-me em minha escrivaninha e comecei a examinar os arquivos obtidos. Fiz isso por cerca de duas horas, de forma que não me restasse mais qualquer dúvida sobre a veracidade de minha teoria. Já eram cinco da tarde quando chamei Daniel para ouvir meu monólogo.
— Daniel, espero que se recorde bem de seus amigos, pois isso virá a calhar neste momento. Você poderia me confirmar o sobrenome de nosso falecido amigo Harry?
— Se bem me lembro era... — ele interrompeu a fala, com um súbito e completo calafrio.
— Sim, Daniel, é o que eu quero dizer. Dentre as suspeitas de ter cometido o crime de assassinato de Catherine Carter, estava o resultado de um caso com um inglês no tempo em que viveu no país.
— E esse era...
— O pai de Harry, sim. Acontece que nos arquivos turcos não constavam o nome desse filho, mas que, por antigos relatos de Catherine, acabaram por cogitar como suspeita. O caso foi abandonado depois de dois meses justamente por causa da falta de evidências. — dou uma pausa pare me atentar às expressões faciais de Daniel, que parecia acompanhar meu raciocínio — O fator que você perdeu por um bom tempo é que com certeza o culpado não era o turco. Não. O "acidente" com Harry foi ignorado por você, que duvido que tenha crido que fora de fato acidente. Vingança, meu caro. Ele sabia de algo, mais do que a polícia, ao menos, ele sabia. E foi por isso que matou Harry. Agora vamos a pergunta importante, permita-me a honra de ouvi-la vindo de você.
— Que pergunta?
— Exato, essa é a pergunta que eu esperava. Qual pergunta devemos responder agora? Com certeza todos os fatos estão aqui, mas não conseguimos levá-los ao que realmente importa, não é?
— O que me fascina é você ter ignorado outro detalhe. — disse ele, com ar de superioridade — A seita.
— "Aonde a seita entra na história?", talvez essa pergunta ajudasse em algo.
— É aí que você se engana. — ele parou, obviamente me forçando a perguntar aonde sua mente estava.
— De que forma?
— Não existe pergunta. Enquanto você se isolava de mim com seu fator de vantagem à frente, eu me prendi ao fato de Mavi participar de uma seita. Acontece que dentre os arquivos da investigação do caso as pichações, se encontrava algo peculiar. Se bem se lembra, meu pai era policial na época, e não foi difícil me recordar de uma seita na história. Eu era medroso, é claro, e pensei que aquilo poderia ser o fim do mundo. Lembro-me claramente, de meu pai ter citado que aquelas pichações se encaixavam na caligrafia de um homem, membro de uma seita internacional. Não me lembro agora do país. — ele parou, por um ou dois minutos, para que eu acompanhasse tudo — Agora vem o fator interessante, eu pesquisei tudo sobre essa seita nos registros de Sheffield. O caso foi abandonado há tempos, não foi fácil conseguir as informações, mas eu as obtive. Darei-lhe a honra de nomear a seita.
— Não me diga que, mais uma vez...
— Quinzena Azul. Este era o nome da seita.
Fale com o autor