Uma Vívida Noite Na Taverna

dos Versos Invisíveis

O lugar estava cheio, como condicionalmente ele nunca estava, e pela primeira vez em semanas o taverneiro se preocupou com a quantidade de bebidas na casa. Tinha água suja suficiente para um inverno inteiro, mas a cerveja, o vinho, o hidromel, a castilla e o absinto não passariam daquela noite, disso sabia.

Homens continuavam a entrar, a maioria mercenários e cavaleiros andantes buscando da intempérie se abrigar. Nenhum poeta, trovador ou cronista, seria uma noite de homens de mãos rudes e dados a liças; ao menos homens de aço pagavam com prata e não com talentos, apesar de adorar boas canções, nenhuma conta se pagava com estrofes e refrões.

Sua taverna era um recôndito para poucos, bem colorida e com alguns pregos soltos. As paredes eram firmes e com ardentes tochas em cada canto, e no centro de tudo uma lareira queimando. Há anos a taverna era seu lar, deixada por seu pai que sacerdote da Casa Alva veio a se tornar; um bando de loucos, que uma lorota de Estrela Sacrificada insistiam em pregar.

Um homem entrou pela porta, segurando a mão de um estranho menino. Ele vestia um manto escuro, e o garoto esqualído vestia trapos rasgados e andava com os pés descalços; não pingavam água como os demais, a chuva devia ter os achado especiais.

O homem se dirigiu ao balcão, puxando o garoto com mansidão.

— Bom homem, não tenho nenhum tostão — seus olhos eram uma piscina de perdão.— Não peço nada para mim, mas o menino tem fome e sede, por favor não o deixe assim.

Sua voz era como um estalar de espadas de vidro, se é que isso fazia sentido. Logo se viu coagiado a oferecer algo ao menino.

O homem era uma figura esguia, de sorriso fácil e olhos agudos. Tudo que parecia vestir era aquele manto obscuro, que de tão fino sequer poderia protegê-lo do frio. O garoto era uma coisa diminuta, magro e de olhos profundos, parecia não pesar mais que uma pluma. Sua pele era lambida por uma cor estranha, um cinza claro com algumas manchas. Seus cabelos eram brancos como gesso; mas de aparências estranhas aquele lugar estava cheio.

O taverneiro foi-se e veio a tornar, então abriu a boca para falar:

— Torta de arenque para os dois, leite para o menino e vinho para nós dois — disse servindo-os no balcão.

— Obrigado bom homem — agradeceu o incauto. O menino nada disse, logo se sentou e deixou a timidez de lado. Sorveu o leite em um ininterrupto gole, com as mãos sujas comeu a torta e quase que se engole.

— Calma garoto, haverá mais pra vocês, pode repetir até mais de uma vez — riu o taverneiro erguendo o próprio copo.

Os dois brindaram seus copos, ao som dos gritos dos guerreiros não mortos.

— A taverna hoje está agitada — disse o do manto lambendo a boca molhada.

— Houve um embate mais cedo, você ja deve ter ouvido a respeito. Os que sobreviveram estão aqui bebendo ou nos pavilhões quase morrendo.

A bem da verdade o taverneiro pouco se importava com quem vivia ou morria, nos últimos anos homens lutavam por qualquer coisa todos os dias.

— Nos últimos tempos homens tem derramado sangue por qualquer motivo — respondeu o homem com um olhar incisivo.

Enquanto isso o garoto comia com voracidade.

— Sempre será assim meu amigo, homens morriam por menos nos tempos de outrora, agora morrem com orgulho se o galardão for ouro, terras e glória.

Então o taverneiro enxeu mais dois copos de vinho e um terceiro de leite para o menino. Gritou algo para o serviçal — que era seu único filho, um rapaz robusto e jovial —, que de prontidão saiu servindo taças e copos com castilla e sal.

— Chegará o dia que homens buscarão outro tipo de vida.

O taverneiro sorriu, riu e grunhiu.

— Talvez, no dia que aqui nunca se esvaziar um barril — disse carregando para trás o recipiente vazio.

O homem do manto negro comeu sua torta, enquanto mais gente entrava pela porta. O menino já devia estar no quarto pedaço, quando um mercenário borracho começou a discutir com um outro ao seu lado. O homem do manto os fitou com olhar de asco. Murmurou algo que o taverneiro não ouviu, depois olhou pela janela, fitando o tempo ardil.

— Os tempos sempre tendem a mudar — comentou ele.

— Bom meu amigo, isso não é difícil de se notar — retorquiu o taverneiro olhando o clima além da janela.— Olha eu não disse antes, mas todos aqui devem suas contas pagar.

O garoto com pele de cinzas parou na metade de um naco, enquanto o homem do manto fitou-o com um olhar sem encanto. Seus olhos eram de um azul febril, brilhando como estrelas em um céu anil.

— E como que se paga a generosidade de um homem bondoso?

— Sem ouro, prata ou bronze, aqui se paga com contos ou canções que me trazem gozo.

O homem de olhos hostís logo se acalmou, com um gesto de mãos o garoto a comer retornou.

— Contos e canções, tenho suficientes para comprar todas suas refeições, bebidas e até cada dedo de suas mãos — respondeu ele com graça. — O que contar para um homem que se alimenta de palavras? Contos de dádivas antigas ou canções que falam de desgraças?

Conforme o homem continuava a falar, o tempo ao seu redor parecia parar. As tochas ardentes pareciam se elevar, a tempestade parecia vinda de outro lugar e de repente no salão só havia o taverneiro e àquela figura singular. Era poeta, trovador e crônista, homem de graça, homem de liças, em sua voz o fio de uma espada, em seus olhos estrelas em brasas. Não, por favor, sem canções, sem contos, o taverneiro tentou suplicar, mas já estava pego na armadilha, o homem era um leão a caçar.

Adorava histórias desde criança, eram seus sonhos e suas esperanças. Fossem palavras de guerras passadas, criaturas misteriosas ou romances de estrada, em versos, refrões ou até simplesmente contadas, era um homem desejoso por palavras. Mas aquele homem guardava palavras de amor e repugnância. O taverneiro agora entendia, que o que aquele homem diria seria uma história que afetaria sua vida.

Os lábios do homem se movimentavam, com a leveza de folhas que farfalhavam. O taverneiro tentava desesperadamente clamar, para que ele parasse de falar. Sem histórias por favor, não precisa, deixe que tudo se pague. Mas o homem não parava de declamar.

A história que contou era algo sobre uma estrela martirizada, que do ínicio ao fim morreria para dar um dia a mais, para aqueles que a nunca buscavam a paz; lembrou então da insanidade de seu pai, que ludibriado por palavras similares fez votos que o levaram para nunca mais. Aquela história havia penetrado-o, e quando as palavras terminaram, no décimo pedaço o garoto estava.

— Pai, acabou a bebida — disse uma voz ao seu lado.

Então a vida voltou viver na taverna, ou o taverneiro que voltou à ela; ele nunca saberia dizer. Já era tarde da noite e a chuva se extinguira, deixando para trás apenas o cheiro de terra batida.

— Pai, acabou a bebida — seu filho voltou a repetir. — Não resta mais nada, até a castilla que fermentamos semana passada.

Na taverna os guerreiros bradavam, batiam os copos, taças e canecas, ao ponto que se irrítavam. Era tamanha a quantidade de clientes, que mais pareciam uma trupe de indigentes.

— Pai o que fazemos?

Em dias normais, com clientes normais, mandaria que todos se danassem, sumissem de sua frente e não mais voltassem, mas à homens de aço não se tira o espaço.

O taverneiro olhava para o homem, que o olhava de volta, divertido com o perigo dentro de sua porta.

— Há homens aqui que não se saciam com palavras de vida e gozo — disse com ternura. — Seu preço está pago, mas ainda vou lhe deixar um pequeno agrado — ele se levantou do lugar com seu manto a flamular. — Chegará o dia que o galardão que buscarão não será ouro, terras e glória, mas aquilo que há muito tempo jogaram foram. Porém, nesta noite, todos irão se regozijar com o que pedem. Que hoje seja um dia de festa, pois a vida que possuem é tudo que lhes resta.

O menino desceu de seu banco, meio desengonçado e manco, e antes de partir comeu mais um pedaço.

— Obrigado — agradeceu ele com um sorriso saciado.

Os dois saíram pela porta em direção a noite enluarada, deixando a taverna para o taverneiro deslumbrado. Homens como aqueles, no estado que estavam, “não temos mais bebida”, não eram palavras do tipo que gostavam.

— Pai? — o garoto voltou a indagar.

— Traga as bebidas filho, vamos festejar.

O jovem o fitou curioso, como se admirasse um surdo que não entendia o que ele estava a falar.

— Pai… não resta mais o que tomar.

— Não ouviu filho? A noite hoje é para festejar, e há palavras que fazem as coisas mudar.

Naquela noite, os barris se encheram e não mais se esvaziaram. Houve cerveja, vinho, hidromel, absinto e até castilla; a bebida de figo e cevada que somente eles faziam.

Pela primeira vez naquela taverna, palavras eram mais que versos não vistos. Eram a dádiva de um homem humilde, que carregava consigo as cinzas de um bom menino.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!