O Meu Melhor Amigo
9 Epílogo
Notas iniciais

— Ele não deveria estar aqui. Nem é amigo do meu irmão — Aioria falou, emburrado, no momento em que voltei da cozinha trazendo dois copos de bebidas (um drink sem álcool para mim, claro).
— Qual é o problema? — Entreguei-lhe um copo, virando o rosto na direção em que ele reparava, e observei a maneira nada casta com que Saga olhava para Aioros, enquanto eles tagarelavam animadamente. — O seu irmão parece estar gostando da conversa.
— Aioros está bêbado! — bufou, puxando-me pela cintura para chegar mais perto dele. Joguei meus braços em volta do seu pescoço. — Somente por isso está dando trela para esse sujeito.
Reparando bem, Aioros não parecia estar assim tão bêbado. Um pouco mais sorridente e mais leve do que eu costumava vê-lo, mas nada exagerado. Estava apenas muito alegre com a festa surpresa que havíamos preparado para o seu aniversário.
Na verdade, a ideia partiu de Shura, que era o seu melhor amigo. Ele comentou que Aioros parecia muito triste e solitário. De modo que Shura, Aioria e eu planejamos e organizamos essa festa.
A princípio, pensamos em fazê-la numa boate badalada ou coisa assim — palpite de Milo. Depois, Camus opinou que a surpresa ficaria mais interessante se a festa fosse em casa mesmo, além de muito mais íntima. Uma confraternização entre os amigos e alguns de seus colegas de trabalho. Como já estava em cima da hora, optamos por essa ideia. Nem é preciso descrever o quanto Aioros vibrou quando entrou em casa e todos nós gritamos “surpresa!”.
— Deixe o seu irmão aproveitar um pouquinho. — Fiz um carinho em seu cabelo. — Você mesmo reclamou que ele andava meio borocoxô.
— Eu não quero que o meu irmão fique nessa intimidade toda com Saga. — Ele fez um muxoxo e bebericou o seu drinque.
— Aioria, eles só estão conversando... — Revirei os olhos, reprimindo um sorriso. Aioria era tão ciumento! — Qual o problema de uma amizade entre eles?
— Para começar, Saga é doido! Eu já o peguei várias vezes falando sozinho em seu escritório e dando umas risadas estranhas. Além do mais, ele não parece estar almejando somente uma amizade — pronunciou, encarando os dois.
Balancei a cabeça, achando um exagero de sua parte. Embora eu concordasse com Aioria de que Saga era meio estranho mesmo. Até já cogitei que ele tivesse sérios problemas de bipolaridade. Contudo, não era para tanto.
— Por que eu o convidei mesmo? — questionou insatisfeito, após refletir alguns minutos.
— Porque seria muita falta de educação da sua parte não convidá-lo, uma vez que ele é seu chefe e te ouviu convidando Milo. Sem mencionar que ele jogou algumas indiretas, resmungando o tempo todo do quanto estava se sentindo sozinho depois que Kanon viajou.
— Ah, tá. Agora eu me lembro. — Fez um beicinho dramático e tomou mais um gole da bebida.
— Então deixe de ciúmes bobo e desamarra essa cara. Aioros sabe se defender.
— Estou me preocupando a toa, não é mesmo? — presumiu com pouco-caso. — O meu irmão nunca iria se interessar por Saga.
Olhei novamente para os dois. Eles riam como adolescentes felizes e Saga, ora ou outra, dava um jeito de tocar em Aioros, que parecia estar gostando.
— Isso mesmo. Não há com o que se preocupar. — Dei um beijo de leve em seu pescoço. Ele estava cheirando tão bem.
— Você fica me provocando e depois reclama quando eu te agarro na frente das pessoas. — Aioria apertou ainda mais o abraço, pressionando o seu corpo contra o meu.
Dei uma risadinha e olhei de relance ao redor da sala, que havia se transformado numa pista de dança improvisada. A maioria dos convidados estavam dançando com um sorriso no rosto e uma bebida não mão, outros apenas conversavam e alguns poucos casais se agarravam. Enfim, ninguém estava prestando atenção em nós.
— Tá bem quente aqui, não está? — Tentei distrair a atenção de Aioria, que não parava de ficar espiando o irmão e Saga.
— Realmente — ele concordou. — Vamos lá para fora, deve estar mais fresco.
Aioria me conduziu até uma parte um pouco isolada de um pequeno pátio que havia nos fundos da casa, e nos deparamos com Milo e Camus. O francês estava encostado na parede com a perna enganchado no quadril de Milo, dando beijos para lá de quentes. Quando ele percebeu nossa presença, tentou se recompor discretamente.
— Ah... Salut les amis! Viemos tomar um pouco de ar. Está muito quente lá dentro, non? — Camus, tão vermelho quanto o cabelo dele, arriscou inutilmente disfarçar.
— Nós também viemos tomar um pouco de ar — arrazoei, olhando para Aioria que concordou com a cabeça.
— Não dá para vocês irem tomar ar em outro lugar, não?! Estamos tentando namorar aqui — Milo declarou impaciente, com as mãos cravadas na cintura de Camus.
— S'il vous plaît, Milo! — Camus o censurou, nitidamente constrangido.
— Ah... Não queremos atrapalhar. Pode continuar tomando o ar de vocês — Aioria disse, segurando-se para não gargalhar.
Acenei um tchau para eles, mas não estavam prestando atenção. Camus tentava repreender Milo, enquanto este o pressionava na parede e mordiscava o seu pescoço, ignorando o protesto do outro.
Produzi uma risadinha abafada. Coitado de Camus, eu o entendia perfeitamente. Sei como é ter um namorado afobado e que não segura a língua. E pior, sei como é estar perdidamente apaixonado por alguém assim.
Voltamos para a sala e nos deparamos com Shion e Dohko.
— Aí estão vocês — Shion nos abordou. — Queremos nos despedir e agradecer pelo convite. É que precisamos ir embora.
— Por quê?! A festa mal começou... — questionei.
A festa havia começado às 19:00 horas aproximadamente, que foi o horário que Aioros chegou em casa, e ainda não passava das 20:30.
— Tenho que viajar amanhã cedo — foi Dohko quem respondeu animado. — Recebi uma ligação de Shiryu. Seu filho nasceu e quero fazer uma visita surpresa para eles.
— Ah, que notícia maravilhosa! — alegrei-me com sinceridade. Eu gostava muito de Shiryu. — Diga a ele e a Shunrei que mandei lembranças.
Dohko assentiu.
— Também temos que pegar o Kiki na casa do seu coleguinha de escola. Ele foi para jogar videogame e já está bastante tarde para uma criança. — Conferiu as horas no relógio. — A propósito, senhor Aioria, ele não para de falar do videogame que você o prometeu.
— Nossa! Já havia me esquecido disso. Amanhã mesmo, compro o presente dele. Não quero que o Kiki fique zangado comigo.
— Fazer promessas para Kiki é uma dívida terrível, pois ele jamais esquece — Dohko comentou e todos rimos.
— Isso é verdade — proclamei por conhecimento de causa.
— Aioria, adorei conhecer o seu irmão, ele é muito simpático. — Shion assinalou educadamente. — Eu o convidei para um almoço de família lá em casa, temos que combinar qualquer dia desses.
— Claro! Vamos combinar — Aioria respondeu do mesmo modo polido.
— E cuide muito bem desse rapazinho aqui — Shion continuou, deixando-me todo sem graça. — Ou vai se ver comigo!
— Pode deixar, tio Shion, cuidarei muito bem dele — brincou Aioria, sorrindo e apertando o abraço em mim.
— Tio Shion?! Veja, Dohko, arrumei mais um marmanjo como sobrinho. — Voltou sua atenção para Aioria, com um meio sorriso. — Isso significa que posso puxar a sua orelha de vez em quando.
Aioria olhou para cima, franzindo a sobrancelha e fingindo pensar por alguns segundos.
— Acho melhor ficarmos apenas com Shion. Nada de tio.
— Excelente escolha. — Shion aprovou bem-humorado e se inclinou para frente, em minha direção, beijando a minha testa. — Vejo você no nosso jantar de domingo, querido. Vamos comemorar o nascimento de Ryuho, mesmo ele estando na China. Leve o seu namorado.
Concordei, esbanjando felicidade. Shion sabia o quanto isso significava para mim. Eles se despediram e foram embora.
— Prometo que vou cuidar direitinho de você — Aioria sussurrou em meu ouvido, deslizando seus dedos bem cuidados pelo meu cabelo.
— Já está cuidando — falei baixinho com um sorriso um tanto abobado.
Começou a tocar uma balada lenta e principiamos a nos movimentar de acordo o ritmo da música. Descansei a cabeça em seu ombro e ele enterrou o rosto em meu pescoço, depositando leves beijos nele.
Suspirei de modo apaixonado.
Sabe quando você está tão feliz que chega a temer que alguma coisa aconteça e estregue tudo? Pois era exatamente assim que eu estava me sentindo.
Principalmente, porque ainda permanecia aquela sensação de que era apenas um sonho, de que a qualquer momento eu iria acordar e perceber que estava no meu quarto, deitado na cama, sozinho, lendo os meus livros e desejando o meu melhor amigo.
E mesmo com toda essa insegurança que ainda me afligia, resolvi arriscar todas as minhas fichas nesse namoro. Parei de pensar se isso iria dar certo ou não, eu só queria aproveitar cada minuto ao seu lado.
Fazia pouco mais de duas semanas que Aioria e eu estávamos namorando. Para muitos, poderia parecer pouco tempo. Entretanto, para mim, que sonhei a vida toda com isso, foram incríveis 20 dias.
Como eu havia desistido da viagem ao Tibete, fiquei meio sem ter o que fazer nessas minhas férias, uma vez que Aioria não poderia se ausentar do trabalho e eu não queria ficar longe dele nem mais um segundo.
Dessa forma, com o intuito de curtirmos um pouquinho, fomos para a Ilha de Milos no final de semana. Uma ilha vulcânica situada no arquipélago das Cíclades, no Mar Egeu. Ela é mundialmente conhecida porque lá foi encontrada uma estátua de Afrodite, a “Vênus de Milo”, que atualmente está exposta no Museu do Louvre em Paris.
Existem muitas ilhas perfeitas na Grécia, as famosas tal qual Santorini e Mykonos e tantas outras. No entanto, Milos é especial! Porque é onde ficam as mais belas praias paradisíacas e você tem uma paz que reina a cada vento que bate, a cada brisa, a cada pássaro, a cada mergulho que te deixa renovado.
Fomos de avião e nos hospedamos num hotel de ótima localização, bela vista e deliciosa piscina (que aproveitamos somente à noite). O hotel ficava no vilarejo de Adamas, o porto principal da ilha. Permanecemos na ilha por apenas dois dias.
No primeiro dia, fizemos um passeio de catamarã (preferimos este por ser mais privado do que um passeio de barco comum). Partimos pelo meio da manhã e começamos margeando a costa interna leste, passando pelas catacumbas. Logo em seguida, vieram as vilas de pescadores. Klima, a maior delas, parecia ainda mais linda com o sol que batia nas casinhas e deixava as portas e janelas com um colorido mais vivo. Quando se chegava nesta ponta da ilha, era fácil reconhecer os Arkoudes, esculturas de pedras que se pareciam com ursos. Um pouquinho mais de tempo velejando e chegamos à nossa primeira parada: a baía de Kalogries. Uma beleza de lugar, completamente deserto e uma água totalmente convidativa.
Tem coisa mais deliciosa do que nadar num lindo poço de cachoeira ou num mar cristalino ao lado do amor da nossa vida?
Não tenho palavras para descrever o prazer de nadar ali. A água refrescante, o sol batendo no corpo, Aioria me abraçando pelas costas, acariciando e me fazendo arrepiar com seus beijos…
Nadamos lá por algum tempo, namoramos, tomamos um solzinho para esquentar, comemos umas bruschettas gregas e zarparmos, seguindo caminho até chegamos ao nosso principal destino, um dos principais cartões-postais de Milos: Kleftiko.
Kleftiko significa “esconderijo de ladrões”, porque conta uma lenda que era bem ali que os piratas se escondiam, tendo em vista as inúmeras cavernas na região. Mais uma vez, mergulhamos naquela água incrível que parecia uma piscina de tão linda! As paredes de rocha branca eram espetaculares e faziam um contraste lindíssimo com a vegetação e a água azul-turquesa. Continuamos lá, curtindo a luz do final da tarde na água até a hora de voltarmos para o porto.
No dia seguinte, alugamos um carro para explorar bem o restante da ilha. Começamos por Sarakiniko, uma praia com uma beleza peculiar e imperdível! Depois, seguimos para a praia Agios Konstantinos, que foi uma das que mais gostamos. Simplesmente deserta e maravilhosa! Decidimos ficar namorando por ali, até a hora do pôr do sol. Entretanto, tudo tem um fim e precisávamos voltar para Atenas.
— No que você está pensando? — a voz de Aioria invadiu minhas abstrações e finalmente notei que a música lenta havia acabado e sido substituída por uma de ritmo mais agitado.
— Estava me lembrando do nosso passeio em Milos — contei.
— Foi maravilhoso! — Ele sorriu largo e roçou os seus lábios nos meus. — Vem comigo, quero te mostrar uma coisa.
Aioria segurou em minhas mãos e subimos as escadas rumo ao seu quarto. Logo que entramos, ele fechou a porta e gentilmente me pressionou contra a parede, beijando-me com seus lábios macios.
— Estava doido para ficar a sós com você — confessou.
— Eu também — admiti, sorrindo. — Então não havia nada aqui para me mostrar, não é?
— Tem sim. Eu estava esperando o final da festa e o momento em que ficássemos sozinhos. Tenho um presente para você. — Ele foi até o criado mudo, abriu a gaveta e pegou um envelope entregando-o em minhas mãos. — Comprei hoje pela manhã.
Abri o envelope e vi duas passagens aéreas.
— Oh, meu Deus! — Soltei um gritinho de prazer infantil ao conferir o destino e me lancei em seus braços, derrubando-o na cama. Ele girou o corpo, soltando um gargalhada de menino feliz. E de alguma forma acabei debaixo dele. — Isso é incrível! — falei empolgado.
— Eu sei que você sempre sonhou em conhecer Veneza. — Ele parecia deslumbrado com o meu contentamento.
De fato, sempre desejei ir à Veneza e passear de barco pela cidade do amor, mas nunca quis fazer essa viagem sozinho.
— Tem muito tempo que comentei isso com você... Ah, nem acredito que se lembrou — discorri, encantado pelo presente.
Vagarosamente, ele percorreu minha mandíbula com os lábios até alcançar o meu ouvido e sussurrar:
— Quero fazer os seus sonhos virarem realidade.
— Você é o meu sonho, Aioria! — falei, olhando diretamente em seus lindos olhos verdes.
— E você é o meu... — Ele esfregou nossos narizes, apoiando-se sobre os cotovelos.
Imediatamente me lembrei de que ele não estava de férias.
— E a Designer Saint?
— Convenci Saga a me liberar por uma semana, ele descontará depois nas minhas férias, e Milo segurará as pontas para mim — pronunciou orgulhoso.
— Ah... Estou tão contente! — Peguei a espalhar beijos pelo seu rosto.
— Eu sei. Eu também estou. — Ele me segurou pelo queijo e nossos olhos se encontraram outra vez. — Sou louco por você, Mu.
Aioria me beijou com força. Um beijo apaixonado, avassalador. As minhas mãos se enroscaram em seus cabelos, enquanto a minha boca devorava a dele.
— Eu te desejei por tanto tempo, Aioria. — articulei, quase sem folego, de encontro a sua boca. Minha voz saiu mais parecendo um gemido.
Eu estava muito apaixonado!
Meu corpo queimava de desejo. Comecei a me contorcer em baixo dele, deixando-o saber que eu podia sentir o seu corpo endurecer. Eu amava o jeito que ele reagia aos meus toques e como suas mãos passavam por todas as partes do meu corpo. Agora, eu não tinha mais aquele nervosismo e as ressalvas da primeira vez. Aquele medo de que Aioria fosse achar estranho, de que não fosse gostar. Eu já tinha experimentando o quanto ele havia gostado.
De repente, com os olhos fixos nos meus, ele se levantou, tirou a camisa, desabotoou a calça e a deixou cair no chão. Em seguida, com a respiração ofegante, ele ergueu o meu corpo, agarrou a minha camiseta, puxando-a sobre a minha cabeça e a jogando para o lado.
— Ah, Mu... Você é tão lindo! Tão doce! — murmurou com a voz rouca e os olhos enevoados. Seu corpo voltou a pressionar o meu contra o colchão. — Eu quero você, meu amor... Eu preciso de você! — A sua mão desceu até a minha calça jeans, abrindo o botão com habilidade, puxando o zíper para baixo e deslizando a mão para dentro.
A minha resposta foi um gemido e, simultaneamente, fechei os olhos, saboreando a plenitude, a sensação extraordinária de sua posse.
Quando recobrei minha sanidade, abri os olhos e contemplei o seu rosto que trazia uma expressão suave e leve. Ele deu um beijo delicado nos meus lábios e saiu de cima de mim, acomodando-se ao meu lado na cama, puxando o meu corpo para junto do dele.
Deitei a cabeça em seu peito, recuperado o fôlego. Senti um afago suave nos meus cabelos suados, e instantes depois, sua mão deslizando ao longo de minhas costas, acariciando-me enquanto sua respiração se acalmava.
— Tenho tanto medo de perder você... — revelei, pouco antes de ouvir o seu celular tocar. Pensar nisso me deixava sobressaltado.
— Você nunca vai me perder, Mu. Há muito tempo que pertencemos um ao outro. Somos perfeitos juntos e nunca vou deixar isso mudar. Sabe por quê? — Virei o meu rosto em direção ao seu. Com um riso sereno, ele colou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha de modo carinhoso. — Porque eu te amo. — Seus olhos brilharam, refletindo uma emoção sincera.
— Eu também te amo — Inclinei-me e o beijei com ternura. — Te amo muito.
Ele aprofundou o beijo e me abraçou de modo possessivo, ignorando o celular que voltou a tocar insistentemente.
— Pode ser importante — consegui dizer entre os beijos.
— Ah, não... Está tão gostoso ficar assim com você... — Aioria gemeu. Aí, meio emburrado, pegou o celular, que já tinha parado de tocar, e olhou no visor. — É Aioros. Droga! Não deve ser nada de importante, apenas o meu irmão exigindo atenção na sua festa de aniversário. Típico dele!
— Acho melhor voltarmos para a festa, então — pronuncie, embora eu quisesse mesmo era ficar ali deitado com ele. Aioria tinha razão, estava tão gostoso ficar daquele jeito.
— Só depois de tomarmos um banho... — Ele me lançou um sorriso sexy e um olhar malicioso. — ...Juntos.
Retribui o gesto, ainda que timidamente e, minutos depois, estávamos repetindo a dose debaixo do chuveiro.
Logo que saímos do banheiro, vestimos as mesmas roupas e passei o secador pelo meu cabelo a fim de tirar o excesso de água, na tentativa, quase inútil, eu sabia, em esconder que havia tomado um banho.
Por achar que não era nada relevante, Aioria não retornou a ligação para o irmão, e ficou pacientemente me esperando secar o cabelo. Eu tinha consciência de que isso não duraria muito. Shion já me alertara de que, com no máximo três meses de namoro, ele desistiria de me esperar. Agilizei o processo e aproveitei para passar o secador rapidamente no cabelo dele também, mesmo perante seus protestos. Ainda bem que ele havia cortado e estava bem curtinho.
Descemos as escadas e, quando já estávamos na sala, avistei Aioros conversando com uma mulher elegante, alta, de cabelos castanhos acobreados num tamanho médio e com leves ondulações nas pontas. Ela usava um vestido com a modelagem perfeitamente ajustada ao seu corpo esguio, e joias caras.
No exato instante em que nos aproximamos, ela se virou em nossa direção, de maneira que pude ver o seu rosto bonito e que aparentava ter uns quarentas e poucos anos, embora eu tivesse certeza de que ela tinha mais. Ainda que eu nunca tivesse a visto em fotos antes, aqueles olhos verdes e expressivos que me analisaram discretamente de cima a baixo, não negavam de quem se tratava.
— Mãe! — Aioria, mostrou-se tão surpreso quanto eu. — O que está fazendo aqui?!
— Achou que eu perderia a confraternização, mesmo que singela, de aniversário do meu primogênito? — Ela tinha uma voz suave e marcante. Puxou Aioria para um abraço, dando-lhe um beijo rápido na bochecha. — Faz tanto tempo que não o vejo. Estava com saudades, meu filho. Onde você estava? Já faz horas que cheguei.
— Pensei que não viesse... — Ele desconversou trocando um olhar cúmplice com Aioros. — Você não gosta desse tipo de festinha.
Não sei se era impressão minha, mas notei um certo desconforto em Aioria, que só não era maior que o meu. Comecei a me sentir um peixe fora d’água e uma vontade de sair correndo para longe. Talvez fosse somente insegurança.
— Por isso você só me avisou em cima da hora? Ou melhor, deixou um aviso com a minha secretária?
— Foi... — ele confessou, verdadeiramente sem graça, passando a mão pelos cabelos e respirou fundo. — Desculpe-me.
— Aioria, você não tem jeito! — o seu irmão o repreendeu. Todavia, não parecia chateado.
— Tudo bem, querido. O importante é que consegui vim — ela falou sorrindo e seus olhos se voltaram curiosamente para mim outra vez.
Até aquele momento, eu não havia dito, nem feito nada, pois estava aéreo, sem saber exatamente de que maneira deveria reagir. A verdade é que eu mal conseguia manter a respiração, concentrado na tarefa de enrolar os meus cabelos com os dedos.
Percebendo o olhar inquisitivo de sua mãe sobre mim, Aioria saiu do estupor e se lembrou de nos apresentar.
— Mãe, este é Mu — ele disse, apontando para mim e depois apontou para a mulher a nossa frente. — Mu, esta é Helena, minha mãe.
— É um prazer conhecê-la. — Ofereci a mão para ela, um pouco tímido, até meio encabulado.
— É muito bom conhecer um dos amigos de Aioria. — Ela estendeu a sua mão delicadamente, dando-me um sorriso que não consegui distinguir se era sincero ou falso.
— Mu não é apenas meu amigo, Mãe. — Aioria, mostrando-se confiante, enlaçou os braços ao redor da minha cintura, puxando-me e fazendo com que eu chegasse mais perto. — Ele é meu namorado.
Meu coração falhou uma batida e achei que eu fosse desmaiar ali mesmo. Ainda bem que Aioria me segurava em seu abraço possessivo.
Helena manteve sua pose altiva inalterada, ainda que seus olhos verdes expressivos denunciassem o seu desgosto. Então, de um jeito nada discreto, esses mesmos olhos se pegaram a analisar os braços de Aioria ao redor da minha cintura e foi subindo até chegar ao meu rosto.
Paralisado. Eu permaneci absolutamente paralisado, quando nossos olhos se encontraram. Tenho certeza de que eu estava mais vermelho do que um pimentão maduro.
Inspirei profundamente e expirei devagar, tentando manter a serenidade. Oh Deus! Por que ele faz isso comigo?!
— Mãe, adorei o presente. Sério, eu estava mesmo precisando de um relógio novo — Aioros cortou aquele silêncio torturante e eu o agradeci mentalmente por isso.
— Que bom, querido. — Ela deu um sorriso forçado e um beijo na bochecha dele. — Preciso ir agora. — Helena tornou a sua atenção para Aioria, ignorando minha presença, e disse secamente: — Conversamos depois.
Ele balançou a cabeça em confirmação e Aioros a acompanhou até a saída.
— O que foi isso?! — Sibilei, massageando as minhas têmporas assim que ela se foi, permitindo-me voltar a respirar normalmente e me afastando dos braços de Aioria.
— Desculpe-me ter feito você passar por essa situação. É que conheço bem a dona Helena, e não sei outra forma de conversar certos assuntos com ela — falou com sinceridade. Ele inspirou fundo. — Não deixe a minha mãe te intimidar. Não se preocupe, logo ela se acostuma.
Eu duvidava disso. De qualquer modo, confesso ter sentindo um certo consolo por Aioria não ter pensando em esconder o nosso relacionamento. Por outro lado, tive receio dele não estar disposto a lidar com as consequências de suas escolhas, quando percebesse que as coisas não seriam tão fáceis, e que, talvez, sua mãe não se acostumasse. Ainda mais depois do que li em seus olhos.
Ela não iria aceitar tão facilmente.
— S...Sei que nem toda família é compreensiva igual a minha... e... e sei que tudo é muito novo para você... Entendo e respeito isso totalmente. Não quero apressar nada... — Ele ficou em silêncio, me encarando por um tempo sem dizer uma palavra. Sentindo-me muito inseguro, prossegui — Quem sabe, devêssemos ir mais devagar... se for o caso... — balbuciei, ainda que não fosse o meu desejo. No entanto, eu compreendia que era uma mudança muito grande em sua vida e que isso não era nada fácil.
— Você pode ir o mais devagar que quiser — disse ele, com uma expressão séria. — Eu pretendo me jogar de cabeça, com tudo. Ou melhor, já me joguei. — Dito isto, segurou o meu rosto com firmeza e o levantou para que olhasse dentro dos meus olhos. — Olha, meu amor... Sei que nós vamos enfrentar muitos problemas, tenho consciência disso. E estou preparado para todos eles, desde que você esteja ao meu lado.
Sorri, sentindo-me aliviado. Suas palavras me revigoraram e me tocaram profundamente. Isso era tudo que eu precisava ouvir dele. Era o suficiente para mim.
Abracei Aioria pela cintura, percorrendo com as mãos seus músculos firmes até o alto das costas e estalei um beijo em sua boca como que dizendo a ele que eu sempre estaria do seu lado. Durou apenas alguns segundos, mas foi a sensação mais natural e maravilhosa do mundo.
— Você é um homem extraordinário, sabia? E é por isso que amo você...
— Achei que fosse pelos meus músculos torneados — fez graça, abrindo um largo sorriso rente aos meus lábios.
— Por isso também... — entrei no jogo, antes dele me beijar com paixão.
Pouco depois, começou a tocar uma música bem animada e nos unimos aos nossos amigos que estavam se agitando na pista de dança improvisada.
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