O Meu Juiz
6 Quando a Tempestade começa
Terminei de tomar meu café da manhã no China e sobrou ainda bastante dinheiro para fazer compras, foi logo o que pensei ao pagar pelo meu lanche. Não pensei mesmo em procurar algum supermercado por onde eu estava.
—Ei! — Chamou-me o homem miúdo.
Eu estava entregando o dinheiro à chinezinha pelo meu lanche e olhei para ele.
— Pois não?
— Meu filho era assim, como você. Peço perdão pelo olhar, mas... — Ele abaixou os olhos — Sua voz e seu jeito me lembraram o meu filho.
Eu fiz uma expressão de não ter entendido a comparação e o senhor sorriu.
— Não deixe ninguém roubar a tua alegria, meu rapaz.
— Obrigado... — Sorri de volta.
— Seu pai é sortudo de ter um filho com um carisma cativante como o seu.
Dessa vez eu não sorri. Ele parecia ter sentido o meu descontentamento e não disse mais nada. Despedi-me dele sem entender ao certo o rumo da história. Talvez ele só quisesse se expressar, talvez...
Segui até a bilheteria e comprei minha passagem, deixando aquele homem miúdo sentado, olhando-me afastar daquele estabelecimento.
Dessa vez tive que esperar alguns minutos o trem chegar. Não estava tão cheio quanto na hora de vir. Contudo, não fui sentado até umas três estações até chegar.
Desembarquei. Dei uma profunda respirada. Peguei o dinheiro do bolso. Não era muito para fazer a compra do mês, mas me aliviaria na hora de me alimentar sem preocupações.
Fiz minha singela compra e voltei para casa. Ao chegar, seu Romero estava cabisbaixo em seu banquinho.
— Está tudo bem? – Perguntei, porque algo dentro de mim perguntou.
Ele me olhou, viu as bolsas em meus braços e perguntou se queria ajuda, mudando de assunto. Disse que não precisava e tornei a perguntar se ele estava bem.
O seu Romero deu o mesmo suspiro pesado que eu dera na estação.
— Acho que me mandarão embora, meu filho.
— Por quê?
— Estou muito velho para cuidar da portaria...
— Não, não está não. O senhor já é conhecido por aqui e respeitado nessa rua.
Ele deu um meio sorriso.
— Bom dia. – Olhei para trás e era Sarah, com uma bíblia na mão – Está tudo bem, seu Romero?
O semblante dele não escondia a tristeza dentro de si. E, para que ele não soltasse seu tom miserável, eu resumi a história e, pela primeira vez, vi a Sarah ficar estarrecida.
— Como assim? – Ela se aproximou mais do porteiro – Isso não vai ficar assim não. Deus está no controle. Aquieta a tua alma, irmão.
Sarah falou com tanta autoridade, que eu me arrepiei.
— Falarei com o pessoal do prédio para falarmos com o síndico, pode deixar que o seu emprego só com a permissão do Pai que eles tirarão.
— Não acha que está criando muita expectativa? – Indaguei contrariando – Não acho que, se tratando de um emprego de alguém, seja de empregar ou desempregar, há necessidade do agir de Deus.
Ela sorriu e passou por mim, seguindo para as escadas. Olhei para o seu Romero e seu semblante mudara.
— Meu jovem, “agindo Deus, quem impedirá”?
E essa pergunta ecoou na portaria do seu Romero sem sequer uma resposta passar em minha mente.
— É muita fé que essa mulher tem, não é? – O porteiro abriu um sorriso com seus poucos dentes.
— Acho que isso já é bobagem. – Respondi e segui meu rumo também.
Algo dentro de mim borbulhava de raiva. Estava começando a perder a paciência de tanto que esses meus vizinhos colocam sua religião em tudo!
Okay... Okay... Não serei ingrato, mas tem horas que o sangue ferve e, neste momento, o meu está assim. Sinceramente, não sei como essa raiva tomou conta de mim, talvez eu só estivesse saturado, pois desde que minha vida se encontrou com a dos meus vizinhos, essas coisas têm acontecido.
Tudo era Deus! Nossa! Chega uma hora que cansa!
Arrumei minhas compras na cozinha e foi uma terapia para que eu me acalmasse. Havia comprado uma bandeja de peito de frango, pois estava na promoção; comprei dois saquinhos de suco em pó, uma caixa de leite, pois a minha acabara. Um pacote de miojo para ser prático, estava na promoção também de “Leve 4 e Pague 3”. Optei em comprar uma lata de achocolatado do que café. E o basicão: arroz, feijão, macarrão. Sal e açúcar eu tinha em casa.
Eu fiquei pasmo quando ainda sobraram uns trocados. Daria para comprar pão na padaria! Entenda a minha alegria: eu fiquei durante três dias com o mesmo saco de pão que eu havia comprado. E agora poderei comprar sem precisar estocar.
O meu celular tocou e corri para atender.
— Oi? – Era o Rodrigo avisando que já estava indo para casa, meus lábios quase soltaram “Graças a Deus”, mas me contive – Que bom! Mas a Duda está se sentindo melhor? – Na outra linha, ele me respondia aliviado que sim – Descobriram o que era? – Ele me contou que Duda tinha tolerância à lactose e só atestou agora de uma forma mais agressiva – Quer que eu passe aí? Precisa de ajuda? — Rodrigo respondeu que se eu quisesse, seria de grande ajuda para animar a pequena.
Confirmei minha presença e desliguei o celular. Aproveitaria para pegar meu carregador.
Tomei um banho e saí. Passei pela portaria e aquele mesmo casal de ontem estava chegando, mas dessa vez a menina estava com uma mochila nas costas e com o uniforme do Estado. Seu Romero estava tomando um copo de café e comentou com a menina por tê-la vista, pela primeira vez, voltando do colégio. Mas a menina deu-lhe uma resposta malcriada, dizendo que ele não tem nada a ver com a vida dela e que se continuasse falando da vida dela, ela o prejudicaria.
— Respeite os mais velhos, garota. – Disse automaticamente depois de ouvir tal atrocidade.
— Cala a boca você também. – Respondeu-me ela, puxando o namorado, que calado entrou e calado ficou, porém tinha um sorriso malicioso no rosto.
Fiquei boquiaberto e lembrei-me de minha entrevista, pois, dependendo da turma pela qual me ofereceriam a vaga, eu poderia enfrentar uma situação dessas. Balancei a cabeça. Talvez estivesse pensando além.
— É... Filho... Não está mole, não. – Seu Romero deu mais uma golada em seu café. Ele estava tão cheio de problemas, que nem terminou sua contestação.
Aproveitei o momento e segui meu caminho para a casa de Rodrigo. Era uns 25 minutos de ônibus e 40 minutos andando. Eu tinha dois reais no bolso. Suspirei.
Estava me aproximando do ponto de ônibus, o mesmo ainda tinha sua bancada para sentar e uma sombra admirável para quem estava debaixo do sol que começava a castigar nossa cabeça.
Vi algo brilhando na bancada no ponto de ônibus quase vazio. Ao chegar, percebi que era uma moeda novinha de um real. Havia uma senhora sentada no cantinho, com a cabeça baixa.
— Senhora? Com licença? – Toquei em seu braço enrugado e ela levantou os olhos para mim – Esse dinheiro é seu? – Mostrei a moeda.
— Deixe-me ver. – A senhora pegou sua bolsinha dentro da sacola de compra e verificou suas moedas – Não é não, meu filho. – Ela sorriu.
E eu retribuí com um sorriso bem largo, pois iria de ônibus. A senhora começou a puxar assunto sobre o clima e depois entrou no caso que sua filha estava passando em um processo, onde ela lutava pela guarda dos filhos. Eu não estava nem um pouco a fim de ouvir e demonstrava meu desinteresse ao olhar demasiadamente para a pista.
Não demorou muito e o transporte coletivo estava vindo e, coincidentemente, era o mesmo que a senhora fez sinal.
Fiquei longe dela para que ela não viesse a contar todas as suas tribulações para mim. Nada contra, mas eu já tinha as minhas.
Desci uma esquina antes da casa de Rodrigo e não é que aquela senhora desceu no mesmo lugar que eu? Apressei os passos, mas acho que ela nem se deu conta.
— Filho!
Estreitei os olhos e vi minha mãe saindo do carro. Ela abriu os braços para me envolver neles. Respirei fundo e fui ao seu encontro. Abracei-a, quando meu pai saiu do carro.
— Se eu soubesse que viria, teria ficado em casa. – Proferiu ele, adivinhem para quem?
— Carlos! – Repreendeu minha mãe.
— Ué? Eu disse algo que o magoou, Ester? – Meu pai olhou para mim – Eu te magoei, Daniel?
Soltei uma risada cética.
— Tudo bem, mãe. Ele só quer jogar em mim a culpa de tudo o que aconteceu, como sempre.
— E a culpa é de quem, então? – Ele bateu a porta de seu carro e foi para frente do mesmo.
— Você gosta disso, né? Sempre acha uma maneira de me apontar! – Aproximei-me dele a cada palavra.
Minha mãe me parou, sendo a barreira entre mim e meu pai.
— Chega! Parem com isso! – Ela me empurrou para trás – Viemos ver a minha neta!
— Se eu soubesse que o Rodrigo tinha chamado vocês, eu mesmo teria recusado vir! Estou farto de suas acusações! Farto!
— Ei, ei! – Rodrigo abriu o portão de sua casa – O que está acontecendo aqui?
— Eu vou embora! – Disse meu pai, voltando para o carro.
— Para de show, por favor, isso já faz um ano! – Abri os braços, indignado.
— Um ano! Mas para você isso não importa, porque nem para comparecer no memorial da sua irmã, você compareceu! Preferiu ficar de festinha com seus amigos!
— Não foi nada disso! Você... – Abaixei minha cabeça – Você... – Passei a mão no rosto – Rodrigo, eu vou embora, não tenho condições de ficar com o nosso pai me apontando. – Olhei-o e seu semblante era de decepcionado.
— Até quando isso, meu Deus? Até quando? – Minha mãe estava prestes a chorar.
— Dá para vocês entrarem e conversarmos lá dentro? – Rodrigo esticou o braço para dentro de sua casa.
— Não tem o que conversar! – Meu pai bateu com a palma da mão no capô do carro – Ele ficará dando desculpinhas, como sempre. Não muda esse jeito desinteressado até em quem deu a vida por ele! Isso porque nem quero falar de emprego, né?
— Você não estava lá. Você não viu o que eu vi. Você não passou o que eu passei! – Apontei para ele e minha mãe novamente se pôs em minha frente, impedindo meu avanço — Você não sabe nada da minha vida!
— Para! Para! – Ela pedia.
— Daniel! – Agora foi Rodrigo que veio atrás de mim – Para com isso! Para!
Não conseguia respirar. Recompus-me. Dei alguns passos para trás até chegar à parede do muro da casa de meu irmão.
Denise apareceu no portão, com a Duda em seu colo.
— Gente, dá para ouvir os gritos lá dentro. – Comentou – O que está acontecendo?
Segurei a mãozinha da Maria Eduarda e ela virou o rostinho para mim, sorrindo.
— Está acontecendo o de sempre quando esse homem olha para mim... Eu vou embora. – Desencostei-me suspirando e comecei a andar.
— Dan! Para, cara! Não se resolve nada assim...
— Deixa ele, Rodrigo, seu irmão é assim mesmo, quando o negócio aperta, ele mete o pé! Dá as costas! E ainda quer justificar depois com historinhas inventadas, desculpas esfarrapadas! Não se torna homem o bastante para enfrentar uma responsabilidade!
— Cala a boca! – Virei-me atordoado – Chega! Chega pai!
— Não me manda calar a boca, seu irresponsável! Eu sou seu pai! Tenha um pingo de respeito que te ensinamos! – Ele deu um passo para frente e tropeçou na calçada. Minha mãe o segurou.
— Filho, para... – Minha mãe já chorava – Carlos, chega com isso, vamos para dentro ver a nossa neta, por favor...
— Volta, tio Dan! – Chamou-me Duda, com as mãozinhas.
Aquele cenário era de um verdadeiro caos em minha vida.
Denise passou a mão no rosto e se virou para entrar. Duda continuou a me chamar. Rodrigo me olhou e seu semblante reprovava toda a minha ação, mas seu olhar me abraçava de longe. Eu já não pensava, estava atribulado.
Meu pai passou a frente de minha mãe.
— Você não muda. – Foi o que soltou antes de entrar para a casa de Rodrigo.
Aquilo doeu.
Soquei o poste a minha frente. Rodrigo veio em minha direção, depois que todos adentraram.
— Vamos entrar e espairecer a mente. Você está desnorteado, Dan.
— Não dá mais... – Abaixei o rosto – Eu e o nosso pai... Não dá. – Olhei para Rodrigo com os olhos inundados.
— Não precisa ser assim, vamos conversar. Expor o que está preso aí dentro. – Ele bateu em meu peito – Se você continuar aprisionando essa dor, ela te consumirá e aí sim você não terá mais forças. Lute enquanto pode.
— Não posso...
Olhei para o céu azul e mordi os lábios para não chorar.
— Vamos entrar, a Denise fez um almoço para nós. Nosso pai se equivocou e você também... Mas ainda há como resolver isso. Para de fugir, cara.
Eu ainda não tinha almoçado, mas recusei com um balançar de cabeça, sussurrando “Não dá...”.
— Dan... Não faz isso com você.
— Eu vou embora... É melhor. – Comecei a andar e, antes de me afastar, comentei: – Sabe o que me dói mais, Rodrigo? – Virei-me rapidamente – É que eu consegui uma entrevista de emprego e não posso nem comemorar com a minha família.
Dessa vez não deu. As lágrimas escorreram e silenciaram-me ao tocar em meus lábios. Rodrigo passou a mão no rosto, algo estava preso em sua garganta, mas se conteve. Continuei a caminhar e, dessa vez, meu irmão não me impediu.
Foi melhor assim.
Eu precisava de um tempo para mim. Os 40 minutos me fizeram bem. Coloquei alguns pensamentos em ordem. Foquei em minha meta agora: a entrevista.
Ao me aproximar do apartamento, seu Romero não estava na portaria, era o namorado daquela menina quem estava recepcionando; contudo, ele estava mexendo no celular e mal se atentava quem entrava e quem saía.
— Ei! – Chamei-o – Cadê o seu Romero?
Ele riu.
— O velho foi embora. Estou no lugar dele. Ele não dava conta.
— E você dá?
— Como é que é, meu irmão? – Ele se levantou e estufou o peito.
— Tá surdo? – Encarei-o – Fica de olho em quem entra e quem sai desse prédio, entendeu? Você está aqui para cuidar da entrada, não para ficar ocupando o emprego de outras pessoas. – Soltei, para colocar aquele rapaz em seu lugar – E comece respeitando quem mora aqui.
Terminei sem permitir que ele tivesse o direito de resposta, pois comecei a subir as escadas.
Ao chegar a minha porta, olhei para meu lado esquerdo: a casa de Sarah.
— “Agindo Deus, quem impedirá?”. – Neguei com a cabeça – Parece que dessa vez impediram.
Entrei em casa e tirei o celular do bolso, tinham três ligações perdidas de Felipe. Liguei a cobrar e esperei que ele retornasse.
Enquanto isso, fui tomar um banho. Mas foi rápido, só para me refrescar depois da caminhada da casa do Rodrigo até aqui.
Fiz algo que pouco faço: encarei-me no espelho do banheiro. Tentei um sorriso... Nada. Estava com raiva! Indignado! Sentindo-me triste por dentro.
— Porque esses encontros com o meu pai ainda me surpreendem?
Saí do banheiro e fui direto para a cozinha preparar algo para mim. Estava com bastante fome, então fiz um miojo de legumes.
Felipe me ligou quando eu estava lavando a louça.
— Fala aí. – Felipe me perguntara se eu ia para a social, pois me buscaria – Cara... Acho que não vou, não. Meu dia hoje não foi um dos melhores. – Ele brincou e falou que a social faria ficar melhor – Não, cara... É sério, dessa vez eu passo, mas se quiser passar aqui e deixar o refri para mim. – Foi minha vez de brincar e ele aceitou.
A noite já caía. Dei uma olhada na minha caixa de mensagens do e-mail e fiquei “namorando” a resposta do colégio. Incrivelmente a internet estava indo, um pouco lenta, mas estava indo.
Aproveitei a passagem da tarde para a noite e separei meus documentos para segunda.
Ouvi pancadas fortes na porta e saí da frente do computador para atender.
— Quem é? – Peguei as chaves na mesa da televisão.
— Felipe, cara.
Abri e o semblante do meu amigo era de assustado.
— Que foi, cara? – Dei passagem para ele entrar.
E foi o que Felipe fez, sentando-se no sofá e colocando a garrafa de refrigerante no chão.
— Seu prédio sofreu uma tentativa de assalto, cara! Está cheio de policial lá embaixo. Seus vizinhos estão todos lá. Fiquei preocupado contigo.
— Poxa, cara... Se você não viesse, eu nem saberia do ocorrido... – Fechei a porta aos gritos de Sarah mandando seus filhos entrarem para casa.
— Estavam falando que o rapaz que estava na portaria que armou tudo para os amigos deles entrarem aqui.
— Mentira?! – Levei as mãos à cabeça, abismado – Meu Deus...!
— Que doido, né? Por isso soquei sua porta igual um doido, cheguei na metade da conversa, não sabia que não tiveram êxito. Pelo menos não aqui nesse andar.
— Estou por fora disso tudo, Felipe. Se eles viessem aqui para este andar, eu seria assaltado com certeza.
— Que livramento, cara... – Ele se levantou – Já vou, só vim mesmo para me certificar que estava tudo tranquilo aqui.
— Valeu, irmão! – Estendi a mão para ele e Felipe retribuiu – Eu vou descer contigo, para saber melhor o que houve.
Tranquei meu apartamento e descemos.
Foi chocante chegar à portaria e ver o rapaz sendo levado pelos policiais. Despedi-me de Felipe e fui em direção à Sarah.
Havia ainda três policiais falando com o responsável do prédio e pedindo as câmeras de segurança, para trabalhar mais afundo o que havia acontecido. Eu vira poucas vezes o síndico do prédio e ele parecia bem preocupado, passando a mão várias e várias vezes no rosto.
— O que houve aqui? – Indaguei pasmo com toda aquela situação.
— Na hora do almoço ligaram para o seu Romero e pediram para ele levar uns documentos para o contador. Ele me contou quando eu estava voltando com as crianças do colégio. Então veio esse menino para ficar no lugar dele, soube que ele é namoradinho de uma moradora daqui. – Sarah foi breve, mas não me contou exatamente o que eu queria saber, pois, metade do que disse, eu já tinha conhecimento.
Uma senhora, daquelas vizinhas que ouve a conversa e se intromete, sabe? Bem, ela se aproximou de nós dois e comentou:
— Esses dois já estavam tramando isso. Eu moro no terceiro andar, o mesmo que a menina que namora esse rapaz. Ela mora junto com a mãe. Essa menina vive fazendo o que não deve, a mãe dela já me contou que foi busca-la dentro da favela, pois havia criado uma confusão lá dentro. Quando a mãe sai para trabalhar, a filha coloca esse menino para dentro de casa. É uma pena, porque a mãe é trabalhadora e a filha não vale nada. – Ela estalou a língua, reprovando aquilo tudo – Ainda bem que uma viatura estava passando por aqui quando os meninos entraram aqui já apontando a arma para o rapaz que ficou no lugar de seu Romero. Maior encenação! Pelo menos foi o que o vizinho, que viu tudo, contou. A menina nem deu as caras por aqui ainda. Eu não sei informar com mais detalhes, pois cheguei aqui quando a polícia estava colocando os dois assaltantes na viatura e o rapaz que ficou na portaria estava estirado no chão com a mão na cabeça. Mas foi chocante.
— E como descobriram que esse rapaz armou tudo? – Perguntei.
— Os assaltantes o entregaram quando os policiais entraram aqui e os renderam, são esses adolescentes que acham que a vida é do jeito deles, aí quiseram dar uma de bandidos e deu no que deu; depois os policiais chamaram mais uma viatura que estava aqui perto e levaram os rapazes. Acredita que as armas estavam sem bala? Eles só queriam assustar os moradores, é mole? A gente não está seguro nem nas nossas próprias casas. O vizinho do segundo andar falou que esse rapaz é parente do síndico, por isso mandaram o seu Romero embora e esse garoto veio logo pra cá. Contou o síndico que o parente dele queria construir uma casa e precisava de trabalho, agora você vê! Eu só quero saber como ficará essa portaria. Não pago pela minha segurança a toa e com o seu Romero não tinha nada disso!
Sarah ouvia tudo atentamente, com os braços cruzados. Pediu licença e voltou para a sua casa e deixou aquela mesma frase que dissera mais cedo, porém falou baixo, parecia que era somente para eu ouvir. “Agindo Deus, quem impedirá?”.
É claro que isso não era um alvará para a volta de seu Romero... Pelo menos, eu achava que não.
De uma coisa eu preciso admitir e foi uma palavra chave que Felipe falou: Recebemos um grande livramento.
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