O Meu Guarda-chuva
14 Algumas distrações e pequenas emoções
Notas iniciais
A manhã nascia de maneira majestosa, o sol iluminando o céu azul-límpido e um bocejo suave invadindo o silêncio tenebroso do deserto. Piscando os olhos repetitivas vezes, Luiza ajeitou sua visão e demorou algum tempo para entender quem era e onde estava. Passou a mão pelos cabelos empoeirados e suspirou, espreguiçando-se, fazendo seus braços e pernas estalarem. Felipe dormia com o machado em mãos, preparado para jogar em quem quer que fosse, e seus cabelos estavam superbagunçados. A tira vermelha do Rambo do cabelo de Ivo estava quase em seu queixo, quando o garoto despertou. Túlio dormia com o rosto enfiado na areia e os dois braços abertos, como o cristo redentor.
– Buenos dias, companheiros. – Luiza disse com um sorriso no rosto. Por mais que a situação em si seja ruim, seu humor havia melhorado pelos sonhos que teve. Abraçando seu pai – Que não via a mais de um ano – E sua mãe.
– Amanheceu de bom humor, Lu? – Túlio perguntou coçando os olhos e percebeu o que disse – Oh, desculpe. Tem problema eu dar algum apelido?
– N-Não! – Diz Luiza se espantando com a familiaridade e proximidade do garoto. Eles se conheciam a algum tempo (Não se sabe que tempo) Mas ainda não estava acostumada com demonstrações de carinho. – Além disso, Sr.Superchefe o que temos no cardápio da manhã? – Diz se sentindo um pouco mais calorosa.
– Alguém falou em comida? – Ivo perguntou despertando totalmente, enquanto prendia a tira em sua cabeça.
– Frutas docinhas. – Túlio diz lentamente coçando a nuca — Ainda bem que os largatos não são mais uma opção, Meus clientes mais fiéis.
– Que clientes? – Felipe usava o machado firmando suas mãos para se levantar.
– Vocês, ué. São os únicos clientes que possuo. Na realidade, é uma honra ter vocês como clientes. – Diz Túlio colocando a mão no peito e fazendo uma reverencia aos três, que riam entre si.
Depois de comerem o ‘café da manhã’, Luiza e os garotos se levantam, desfazem o acampamento e seguem seu caminho abaixo das placas solares. Todos estavam com um pensamento em mente. Ivo queria tomar um banho gelado e vestir uma veste nova, Túlio estava maluco para provar das delicias de sua ilha, Felipe queria ver como seu pai estava e como estavam todas as pessoas da ilha e Luiza queria voltar para Recife. Para sua casa.
O sol estava escaldante, se Luiza estivesse em seu mundo, diria que era meio-dia. As placas solares pareciam não ter fim, mas a paciência do grupo tinha fim. E estava bem perto. Ninguém sabia para onde estava indo, ou o que iam encontrar, se os fantasmas iriam aparecer ou se nunca iriam sair dali. Cada um queria voltar para casa e cada um ia lutar por isso.
– Que calor infernal. – Felipe passou a mão na testa cheia de suor.
– Concordo. Daria tudo para colocar uma pedra de gelo na minha cabeça. – Ivo deu uns pulinhos enquanto pegava um pouco de água e bebia. – O que faremos agora? Seguiremos até os confins do mundo?
– Precisamos ver quem colocou essas placas. – Diz Felipe (Como um líder nato).
– Estou com medo de que seja os tais fantasmas. – Túlio sussurrou. – Será que ele vão nos matar? E aquela múmia que atacou Luiza? O que irá vir mais?
– Aquela múmia era muito esquisita... – Luiza colocou a mão no queixo – Ele não parecia falar latim... Era outra coisa... Alguma... Língua diferente.
– O que ele dizia Luiza? – Ivo perguntou curioso colocando a mão no ombro dela.
Luiza demorou um pouco para lembrar a palavra correta.
– Aug! – Disse estrelando os dedos – Aug... E apontava para o pote de água em minha cintura.
– A múmia estava atrás de... Água? Não faz sentido algum. – Reflete Felipe, com uma das mãos em seu queixo (Imitando Luiza), e com a outra segurando firmemente o machado.
Luiza fechou os olhos, imaginando aquela cena horrenda novamente. Fogo, múmia, água... Havia algo que estava escondido, algo que ela necessitava saber, algo que havia mudado o rumo do pensamento induzido pelas crenças, algo irresistivelmente milagroso. Uma solução, talvez. Mas de certa forma, as peças do quebra-cabeça não se encaixavam, deixando todos confusos e insaciáveis.
Ivo bufou, maneando a cabeça em direção ao horizonte.
– Se quer descobrir tudo isso, temos que caminhar. Não é? Vambora que temos muito caminho pela frente. – Disse ele com o dedo indicador apontado para frente.
Todos assentiram, caminhando depressa.
A noite chegou de maneira rápida, em um piscar de olhos. Talvez em menos que um piscar de olhos. Em um pensamento, em um movimento, em um respirar, no mover da areia provocado pelo forte vento ou até mesmo do ruflar das asas de um beija-flor. A luz serena e elegante da lua, iluminava o rosto cansado de Luiza. Ela sentia falta de casa, de sua mãe ausente, de seu pai viajante, de sua escola medíocre, de seus colegas de classe (Que a dita cuja não deu nem uma palavra). Ela sentiu falta de si. Da menina animada e alegre, extrovertida e excêntrica, da criatividade que rolava solta em seus pensamentos, das pinturas que ela fazia, das poesias que lia e entre outras raridades daquela época feliz. Luiza se lembrava de seu aniversário, em que ganhou chinelos de seu avô falecido, lindos e irreais. Ele disse ‘’Cada caminho em que andares, eu estarei com você. Até mesmo em um caminho completamente difícil. Não importa o tempo... Porque o tempo não importa, é algo ‘inho’ comparado ao que irás viver. ’’
Fechando os olhos e inspirando o ar profundamente, ela sentiu as lágrimas molharem seu rosto. Era inevitável. Percebeu alguém se aproximando, mas não enxugou as lágrimas. Sentiu uma dor forte em seu peito e chorou, chorou como nunca havia chorado antes. Abraçou aquele ser que estava em sua frente, molhou suas vestes, e falou palavras desconexas.
– Tudo bem, Luiza, Tudo bem. Shhh, já passou. – Uma voz calma e reconfortante falou.
Luiza enxugou as lágrimas e visualizou Ivo. Ele não parecia aquele garotinho (Ei! Ele é só um ano mais novo que Luiza) irritante e brincalhão. Ele estava sentindo o sofrimento de sua amiga e a ajudou.
– Sinto falta de minha família... Ou do que restou dela. Sinto falta do circo. Mais minha vida, ou meu circo, está em seu ponto péssimo no espetáculo. Queria minha terra, meu lugar. Quero ir pra casa Ivo! – E desabou em lágrimas novamente – E-Eu... Eu sou tão bipolar. – Ri, um riso triste – Uma hora estou feliz... Outra estou chorando... Este mundo está me deixando maluca.
Ivo riu: — O mundo fantasma é assim mesmo. Deixa todos completamente loucos. Agora pare de chorar! Parece uma... Uma... Uma garota mimada! Humpft! Imagina eu, longe de meu pai e minha família? Roubei um dirigível para salvar vocês! Eu poderia estar deitado comendo mangas a esta hora. Mas, sou muito corajoso, aventureiro, bonito... Forte, saudável, bravo...
– Ei, ei! Seu convencido. – Luiza rola os olhos – Se bem que você é mesmo bonitinho – Sussurra.
– O que? – Ivo abre um sorriso malicioso – Você me acha bonitinho?
– B-Bem... – Luiza cora – Eu vou ir falar com os meninos. Precisamos seguir em frente. Seguir para o nada.
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