O Meu Eu Amaldiçoado
1 Prefácio
- Condenado! – anunciou o juiz.
Jeff foi arrastado para sua sela. Seu lar pelos próximos 30 anos... no máximo.
- Bem vindo, canalha. – gozou o agente penitenciário, empurrando-o.
“Só dois dias de prisão. Acho uma brecha e zás, o criminoso mais perigoso do estado, preso por assassinato, fugiu da cadeia.”
A sirene tocou. Era hora do almoço.
- Não sei por que tive que trazer você aqui.
- Estou morrendo de fome.
- Problema seu.
- Você é pago para destratar os prisioneiros?
- Não. Sou pago para não deixar você fugir.
- Que bom. Mas, sinto em te dizer: não vai ganhar nem um mês de salário.
A cantina era gigante. Gente de cabeça raspada não faltava ali. Muito menos com roupa laranja. Mas tinha uma mesa que se diferenciava das outras: a que só tinha gente velha.
“Prisão perpétua. Bons aliados.”
Ele arrastou a cadeira e sentou. Os companheiros olharam para ele com cara de oba-novato-pancada-às-três. Mas ele não se intimidou.
- Quem quer fugir?
- Desista, filho. É impossível. – falou o mais forte e enverrugado.
- Quem quer apostar comigo que ele está errado? – ninguém levantou a mão – Tudo bem. Talvez eu não consiga – “mentira” – mas, o que vocês têm a perder? Estão em prisão perpétua. Um ano amais não faz mais diferença.
- Ta. Qual é o plano?
- Horário aqui, na mão. – Um índio coroa rabiscou no guardanapo – Blá, blá, blá... Ah! Isto aqui é interessante. – apontou para o banho de sol.
- É muito previsível. – disse um franzino, que nem adiantaria fugir. Com certeza morreria no terceiro ano seguinte.
- Exatamente.
Dois dias depois, como o combinado, eles foram tomar um banho de sol.
- Ouvi dizer que hoje, agora, está acontecendo uma nomeação de um agente para delegado, por que o antigo morreu. Não é uma ótima oportunidade para fugir, não acha? – perguntou Jeff para um novato.
- Você é louco? Eu nunca vou conseguir!
- Eu distraio os caras e você foge.
- E o que você ganha com isso?
- Eu roubo uma arma, faço um guarda refém e consigo fugir. Mas você tem que distrair os caras lá no portão. Fechado?
- Fechado. Agora?
- Agora.
Assim como havia no plano, ele caiu no chão e se contorceu de dor, e os guardas vieram rir da cara dele. Mas, ao contrário do que seu novo “amigo” pensava, ele o dedurou.
- Eu estou fingindo. Olhem para aquele cara lá, de piercing no lábio superior... ele ta querendo fugir, agora. Mas fiquem de olho, mesmo parecendo que estão rindo de mim. Depois, podem me agradecer.
Enquanto ele falava isso, o seu parceiro tentava fugir, e os guardas pararam de rir quando perceberam. Ele estava falando a verdade. Eles correram e todos tentaram criar briga, policiais e presos. Estava uma bagunça só.
- Há! Tchau, tchau prisão!
A primeira parte havia dado certo. Jeff foi ajudar seus amigos a cumprir a segunda.
Quando chegou a diretoria da cadeia, eles estavam tomando café e assistindo ao clássico Fla-flu. Ficaram exaltados e apontaram as armas para os prisioneiros. Mas eles levantaram as mãos em sinal de rendição e foram irônicos.
- Vamos te processar por apontar armas para nós, hein? – riu-se Jeff.
- O que vocês querem? Vou chamar os guardas! – ameaçou o delegado.
- Eles não irão vir, vossa senhoria! Viemos lhe falar sobre a tragédia que se encontra a prisão, se o senhor nos permitir, é claro. – caçoou o líder do bando.
- Fale! – disse um homem bigodudo que deveria ser puxa-saco do delegado.
- Um homem tentou fugir e levou os outros a rebelião. – falaram finalmente, em coro.
- E por que não estão aproveitando a oportunidade para fugir? – perguntou o delegado.
- Não adiantaria. Como iríamos passar pela cerca elétrica? Ou ao menos pelo resto dos guardas? Achamos melhor nos entregarmos, afinal isso diminui a nossa pena, estou certo? – mentiu Jeff.
- Sim. Obrigado. Agora, vamos controlar a rebelião. – Se gabou o delegado.
Eles já estavam saindo da sala quando perceberam a idiotice que fizeram. Deixaram a sala de controle com os criminosos mais perigosos da história sozinhos.
Mas o plano fluía bem pro lado deles. Apenas os mais novos dos criminosos de prisão perpétua aceitaram fugir. Apenas cinco tiveram essa sorte.
- Não falei que ia dar certo? – se gabou Jeff.
Eles desativaram todas as armadilhas-para-prisioneiros-fujões. Desarmaram as tropas e saíram vencedores e armados da sala. Mas nada acontece como a gente deseja.
- Você pensou que ia me enganar? – perguntou o prisioneiro que fora traído por Jeff, que agora parecia muito mais perigoso com sangue escorrendo da boca, nariz quebrado, um furo de bala no peito e com uma arma na mão.
- Abaixe essa arma. Fuja conosco. Era um plano. Sinto muito. – falou Jeff, sentindo pena.
- Eu posso fugir sozinho. – falou, sorriu e atirou, bem no meio da coxa de Jeff.
Ele concluiu sua vingança e morreu. Mas os companheiros não armaram tudo aquilo para chorar por um defunto. Quanto mais a deixar o vice-líder da missão morrer.
Os dois mais fortes colocaram Jeff nos ombros e acompanharam os outros. Ele havia desmaiado com o impacto do tiro.
Ele não sabia se estava sonhando, muito menos se estava vivo. Mas uma coisa ele sabia: a Morte estava ao seu lado. Ela usava uma capa preta rasgada sobre um macacão colado da mesma cor. Ela estava com capuz, então ele não viu seu sua boca quando ela sussurrou.
- Venha. Chegou sua hora.
- Como você sabe? Você não tem nem relógio!
- Só digo que se você vir agora, comigo, sua pena será menor.
- Vou conseguir.
- Humanos. Sempre querendo atrasar a morte.
Mas ele tinha uma força de vontade enorme, e conseguiu abrir os olhos.
Estavam numa casa abandonada. Espera. Não era uma casa, era um curral. Olhou para sua perna: haviam conseguido retirar a bala. Como, ele não sabia.
- Gente, ele acordou.
- Eu vi a Morte.
- Bom, geralmente as pessoas que quase morrem dizem que viram a vida, mas se você quer desse jeito...
- Como ela é? – perguntou o mais velho da turma. Jeff achava que essa curiosidade era normal para uma pessoa que tem aquela idade.
- Não pude ver, só sei que é gentil. Me deixou viver!
- Por pouco tempo se sua perna continuar assim! Eu tirei a bala, mas se você não tratar isso, vai morrer de infecção! – Ele fez uma pausa, quando viu Jeff juntar as sobrancelhas, indicando desconfiança. — Que é? Eu ia pra escola quando tinha 11 anos! – Falou o mais forte. Era tão forte que parecia que morava numa academia. Era estranho que alguém daquela aparência era inteligente.
- Vamos procurar minha mãe. Ela não vai nos dedurar e pode dar um jeito nisso. – Disse Jeff, agora entendendo o significado da última frase do encontro com a Morte: “Humanos. Sempre querendo atrasar a morte.”
A mãe dele era uma pessoa pouco popular. Vivia isolada, sem contato com ninguém depois de seu marido ter morrido. Mas não era por ser antipática. Era por ser considerada uma macumbeira, o que tinha um pouco de verdade pelo que Jeff tinha visto. Ela não morava muito longe dalí.
Depois de rasgar sua meia e amarrá-la em volta da coxa de Jeff, eles pegaram as armar e saíram em direção à casa da mãe dele. Passaram o dia todo apoiando Jeff, que não conseguia nem se levantar sem ajuda.
Agora, ele via a Morte ao seu lado constantemente. Parecia montar guarda, o que não deixou Jeff muito feliz. Ele achava que ela parecia um urubu, esperando a carcaça de um animal ferido. Esse pensamento também não o agradou.
Às vezes, seus amigos perguntavam se estava falando sozinho ou se estava delirando, e por isso, apertavam o passo. Mas ele sabia que estava bem, pelo menos conscientemente. Sabia que não delirava ou falava sozinho. Estava tentando convencer a Morte a deixá-lo em paz, mas ela não queria. Não podia.
Era noite quando Jeff começou a ficar febril. Mesmo não vendo o rosto da Morte, Jeff sabia que ela estava sorrindo. Logo teria mais uma alma para sua coleção.
- Venha, Jeff. Será melhor e menos doloroso se você me acompanhar agora.
- Não confio em você.
- Porque não confiaria?
- Sério? Você é a Morte!
- O.K. Você é que sabe.
- Se você é a Morte, porque é imortal?
- O quê?
- Você ouviu.
- Isso eu não sei.
- Muito louco, não?
- É. – Falou com um risinho no final. Quem diria, hein?
- Posso fazer outra pergunta?
- Não precisa perguntar nada sobre a morte, logo irá passar por isso.
- Não é isso. Qual é a frase que você mais ouve?
- Ah, essa é fácil. “Não. Eu sou novo demais para morrer...” – A Morte mudou completamente a voz quando disse isso. E essa parecia ser sua voz verdadeira.
Jeff não gostou como a Morte falou isso. Falou como se tivesse caindo de um penhasco. E o pior é que parecia mesmo que se tratava dessa situação.
Mas ele nem ligou. A voz da Morte o encantara. Era fina, mas não aguda. Era estranho pensar nisso, mas ele achava que a voz chegava a ser doce. Chegava a ser não... era a mais doce.
Mas ela percebeu seu erro e pigarreou. Ela era a Morte, não podia ser doce. Então ficou calada, esperando que Jeff falasse alguma coisa. Mas ele não falou. Ficou apenas olhando para embaixo do capuz, onde o rosto dela deveria estar.
- Por quê?
- Por que o quê?
- Porque você faz isso?
- Isso o quê?
- Fingir ser algo que você não é.
- Talvez seja porque eu sou obrigada.
- Ninguém pode mudar o que você é. Muito menos quando você é a Morte! Você tem poder fazer tudo o que quiser, e sem ir presa!
- Sabe, alguns imortais não me deixam fazer o que quero, e eu não tenho poder contra eles.
- E o que você quer fazer, por exemplo?
- Queria ter uma vida limitada, queria poder dar valor ao tempo. Queria ser humana.
- Vai por mim. Você não vai querer ser humana.
- E porque não?
- Porque ao ter pessoas ao seu lado, elas se aproximam, amam e depois você os leva.
- Pelo menos você tem pessoas ao seu lado, mesmo que seja por um tempo.
Nesse momento, um celular tocou. A Morte tirou do bolso da roupa. Parecia um celular, mas era um tipo de bola de cristal.
- Oh! Tenho que resolver esse problema!
- O que foi?
- Estão tentando reanimar a Dona Canô¹! Tenho que ir. Tchau!
Ela falou isso, mas hesitou. Ficou olhando Jeff por um momento, e no segundo seguinte, só havia uma fumaça preta para contar história.
Nesse momento, o mais forte chegou com mais camisas molhadas para colocar em Jeff, que logo adormeceu.
Saíram cedo no dia seguinte. Jeff achava que já estava perto, portanto, tinham que ser mais cautelosos. Seria o primeiro lugar que a polícia procuraria, era óbvio. Mas a polícia não acreditava que alguém pudesse ser tão burro a esse ponto, ainda mais Jeff. Por isso, como o plano de fuga da prisão, esse era perfeito.
Estavam a dez passos da casa da mãe de Jeff quando a Morte voltou. Ele tinha sonhado a noite inteira com ela. Estava curioso. Preocupado. Com saudades de conversar com alguém que não o chamava de maluco.
A casa de sua mãe era simples, mas estranha. Pra começar, ficava em cima de uma árvore. Segundo, em volta dela tinha um monte de objetos e marcas estranhas feitas com facas. Terceiro, tinha uma dona estranha!
A mãe de Jeff era baixa, tinha cabelos mais curtos de um lado e maiores no outro, pele manchada pela idade e queimaduras e usava um vestido laranja solto que não parecia ser lavado há anos. Mas, acima de tudo, lembrava Jeff. Talvez pela inteligência ou pela loucura. Tanto faz.
- Filho, você me prometeu que voltaria daqui há noventa e sete anos. Algum motivo para me perturbar?
- Também te amo, mamãe. Mas a perna sangrando aqui ama ainda mais.
- Filhos. Sempre tão sinceros!
Seus comparsas carregaram ele ao subirem as escadas, mas nenhum estava com vontade de entrar na casa daquela senhora. Até se surpreenderam ao entrar numa casa como qualquer outra, tirando o quartinho dos fundos. E, por sorte, ela pediu que o deixassem exatamente lá.
Tinha vasos com pós e líquidos coloridos do chão até o teto. As paredes eram manchadas e enrugadas, e o chão era irregular. Qualquer um que adentrasse aquele recinto acreditaria que aquela senhora era uma bruxa. E estaria correto.
A bruxa pediu que deixassem Jeff e fossem embora. Depois de suspirarem e darem um adeus corrido, saíram correndo daquela casa bizarra. Nem imaginavam o que ia acontecer em seguida.
- Você sabe que está morrendo, meu filho?
- Não sabia até receber umas visitinhas de uma tal Morte.
- Você já a viu?
- Claro.
- É. Tem razão. Ela tinha que visita-lo de qualquer jeito.
- Por quê?
- Porque já era para você estar morto.
Nessa hora, a Morte chegou.
- Sua mãe é muito inteligente.
- Porque você ainda não me matou?
- A Morte está aqui filho?
Nunca saberemos se Jeff ouviu sua mãe nesse momento.
- Porque não achei que você merecia.
- Quebrando regras por mim, Mortinha?
- Isso não importa. Hora de irmos.
- Posso te pedir uma coisa?
- Um último pedido? Pensei que você era mais original!
- Seu rosto. Quero vê-lo.
- Se eu mostrar, você vem comigo?
- Vou.
A Morte enfim tirou o capuz e rosto fora o mais lindo que Jeff já viu. Não dava para compará-la com algo bonito, pois aquele rosto era invencível. Era perfeito. Se soubesse que veria aquilo quando morresse, teria se matado antes. E mais vezes.
E, ele fez o que qualquer homem teria feito no lugar dele: a beijou. Ela tinha lábios frios, mas se esquentaram com aquele beijo. Ela passou seus braços em volta do pescoço dele, que colocou suas mãos na cintura dela. Aquele beijo os levou nas trevas.
Ele percebeu que havia ganhado em quarto: tinha uma mulher perfeita por quem ele era apaixonado, o amor era correspondido, eles poderiam se amar pela eternidade e ele entrou para história, sendo o homem que gamou a Morte.
A mãe, que estava tentando reviver o filho em seus braços, arrancou o colar em seu pescoço e deixou o pó cair na boca do cadáver. O filho não acordava, parecia que gostava e queria ficar morto.
Ainda envolvidos no beijo, sentiram um gosto estranho. Os lábios da Morte queimaram de ardência e ela se afastou de Jeff, que continuava a sentir o gosto, que para ele era bom. De repente, percebeu que se encontrava de volta no quarto, no colo de sua mãe. Um pequeno pote de pó pela metade estava ao seu lado e a mãe chorava de alívio.
- O que você fez!?
- Você está vivo!
- Eu não quero viver.
E com essas palavras, pegou o pote, fechou-o e saiu de casa como um raio. Precisava pensar no acabava de acontecer com ele. E que lugar melhor para pensar do que um bar?
Depois de tomar todas, Jeff não estava falando, pensando ou vendo coisa com coisa. Foi nessa hora, quando Jeff estava saindo do bar que chegou uma mulher, uma mulher bonita, branca do cabelo encaracolado, que confundiu a mente dele.
- Ei, você aí! Não quer ir para um lugar para conversarmos melhor?
Jeff, vendo a Morte em vez da mulher, aceitou e a seguiu.
E essa noite ficou marcada por séculos... e por gerações.
No dia seguinte, Jeff percebeu seu erro. Então resolveu fazer o que devia ter feito na noite anterior, antes de irem para o motel: se matar. Mas como?
Pensou qual seria a forma mais digna (e menos dolorosa) de morrer. Percebeu que todas iriam doer, mas ele não era covarde. Então, resolveu morrer pelo jeito que deveria ter morrido: se trancou no banheiro, quebrou o box e, pegando o maior estilhaço que viu, enfiou-o na ferida, bem onde a bala havia perfurado.
Não podia gritar, pois assustaria sua companheira, que já batia desesperadamente na porta do banheiro. Então bateu a cabeça na parede e desmaiou.
Acordou pelo beijo de sua amada, que o perdoou, mas não perdoou a pobre moça que havia dormido com Jeff... e que acabou tendo gêmeos...
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