Diz-se que foi na noite do grande baile de máscaras da cidade. Mas não o foi. Que poderiam eles saber? Meros mortais contadores de historias, que pegam num factor e fantasiam à sua volta, tornando as histórias sombrias e medonhas. Mas neste caso talvez a tenham suavizado.

O ano era 1452, a cidade era Veneza e o arlequim era o filho de um mecenas sádico e temido por todos.

Fala-se de uma vingança terrível contra a família. E aí o povo mente. Fala-se que talvez fosse um artista não aceite pela família. E aí o povo mente mais uma vez.

Como o sei? Porque eu era esse artista. E, na verdade fui aceite pela família. Tinha sido contratado para fazer quatro pinturas da família. Como se pode imaginar era um grande salto na carreira de um jovem pintor da época.

Tive de deixar a minha jovem mulher e a minha filha para partir para Veneza. Foi muito difícil para mim, tinha acabado de formar uma família, mas sabia das dificuldades em que vivíamos e com o pagamento dos quadros teríamos um futuro diferente.

Fiquei num quarto do palácio e só uma semana depois da minha chegada, fui chamado à presença do patrono.

Ele era um dos mais influentes da época, era conhecido por iniciar modas... e também pelos seus gostos peculiares. Quando digo peculiares, refiro-me a sombrios. As suas festas eram muito restritas, era conhecido por manter relações amorosas com prostitutas da zona suja da cidade e, segundo se dizia, o seu filho de dez anos seguia as suas pegadas, não sendo segredo nenhum que havia morto uma menina da sua idade, filha de uma amiga da família.

Estes factores seriam capazes de fazer fugir muitas pessoas à sua volta, mas não o faziam. A verdade é que as pessoas o idolatravam, e eu sabia que trabalhar para ele seria uma oportunidade única.

O jantar estava a ser servido à família quando me receberam. Convidaram-me a sentar com eles, eu apenas acenei positivamente.

À mesa estava sentado ele, na cabeceira, do seu lado direito a sua mulher, que parecia demasiado jovem para ter um filho de dez anos e ao lado esquerdo o menino, de olhos sombrios e sorriso provocador e sensual.

Mais quatro mulheres estavam sentadas à mesa, duas de cada lado, com decotes provocadores e lábios pintados de um escarlate exagerado que completava o cenário mórbido. Seriam elas as lendárias meretrizes com quem o mecenas mantinha relações?

O meu lugar foi na outra ponta da mesa, de frente para o patrono.

A comida nas travessas tinha um aspecto extremamente apetecível, parecia viva, parecia implorar para ser tocada. Culpei a iluminação das velas do candelabro de ferro forjado que se elevava acima da mesa de madeira medieval.

Pigarreei tentando limpar a garganta do desconforto causado pelo silêncio dos presentes.

O menino continuava a olhar para mim, parecia tentar seduzir-me com aquele sorriso inocente e olhos malvados. Por muito que me sentisse culpado, ele estava a conseguir o que queria, o meu desconforto.

A jovem mulher à minha direita pousou a mão no meu joelho, cravando as unhas por cima do tecido gasto das minhas calças. Afastei a perna instantaneamente. Começava a sentir medo daquela família excêntrica.

O meu olhar cruzou-se novamente com o do menino, que soltou um riso baixinho e voltou a atenção para os talheres de prata.

- O senhor é um homem de poucas palavras... – comentou o homem.

Mexi-me na cadeira, mas não era ela que era desconfortável, era toda aquela situação. Toda aquela família hedionda.

- Peço desculpa, não sei o que dizer Vossa Excelência... – Soltei finalmente.

- Então deixe-me ir directamente ao assunto! – Disse ele interrompendo-me. – Fiz-lhe um pedido de quatro quadros, que serão o seguinte: um de família com a minha mulher e o meu filho, um das minhas quatro belíssimas concubinas, um do meu amado filho e descendente e outro de casal, obviamente com a minha esposa.

- Com certeza, Vossa Excelência! – Assenti.

Tentava aparentar calma, mas a minha alma ardia. Quem era realmente aquele homem? Não acreditava que se pudesse chamar aquela figura de homem! Aquela criatura ignorava as regras de Deus! Ignorava a sua bela esposa e trazia meretrizes para dentro da sua casa! Punha-as na presença da sua família. E... aquele filho! Aquilo não era uma criança, era um demónio! Tentando atrair-me, tentando enfeitiçar-me!

- Não me julgue! – Protestou o mecenas com uma calma cativante. – De nada servem as leis de Deus quando se vive no inferno.

- Desculpe, acredite que não o fiz de propósito...

Como poderia ele ouvir os meus pensamentos, temia-o. Queria sair dali, mas ao mesmo perseguia-me uma promessa de vida melhor para a minha família.

- Não deve temer-me jovem... Acredito que poderemos ser grandes amigos. – Tragou um golo de vinho e continuou. – Espero que possa começar a trabalhar amanhã.

- Com certeza! – Prontifiquei-me.

O jantar acabou rapidamente após a nossa breve troca de palavras.

Retirei-me novamente para os meus aposentos, um quarto pequeno onde tinha o meu cavalete, tintas e algumas telas. Tinha uma cama pequena e confortável, sentia que seria capaz de me habituar a viver com o mecenas, apesar de todo aquele lado sombrio e assustador da família.

Foi com estes pensamentos que adormeci.

Sonhava com a minha amada Anne. Com o seu belo corpo nu, desprotegido, expondo as suas curvas subtis. Ela beijava-me e eu respondia aos seus toques. Oh! Como ela era perfeita na sua simplicidade. Não era uma mulher fatal, era uma mulher anjo, a minha mulher anjo. Os seus cabelos louros traziam um cheiro de flores selvagens até mim. Mas depois algo mudou. Era a Anne, mas ao mesmo tempo não o era. Aquele não era o seu toque. Este toque era sedento, obsessivo.

Abri os meus olhos rapidamente, incomodado com aquele sonho, que mostrava um lado falso da minha mulher.

Ele estava ao meu colo, o pequeno demónio. Senti-me exposto. Tinha o corpo transpirado e dorido pelo desejo que sentira.

- Essa Anne é uma mulher de sorte! – Disse ele, seguindo-se um riso infantil.

- Que faz aqui? Volte para o seu quarto! – Implorei, mantendo a voz baixa, apesar do choque.

- Porque sussurra? Tenta seduzir-me? – Perguntou, mais uma vez aquele riso infantil contrastava com o seu olhar demoníaco.

Não lhe consegui responder. Aquilo não podia ser uma criança, nenhuma criança se comportaria assim, de forma tão impura.

- Tem razão, eu não sou uma criança...

Ainda no meu colo, beijou os meus lábios e depois o meu pescoço. Ele sabia o que fazia, nenhuma criança faria aquilo.

Depois senti uma dor cortante, ele tinha-me mordido, e agora o meu pescoço sangrava. Os meus pulmões esforçavam-se para receber ar enquanto o pequeno demónio sugava o líquido quente que brotava pelas minhas feridas. Tentava livrar-me das suas garras, mas o meu corpo estava paralisado, apenas conseguia tremer levemente os meus braços.

Sentia a visão começar a ficar turva, estava a morrer lenta e dolorosamente.

- Eu amo-o! Acredite que o amo! Amo aqueles que têm a sua sensibilidade, a sua capacidade de criar!

Então o rapaz mordeu o seu próprio pulso, fazendo dois pequenos buracos com os dentes. Desses dois pequenos furos escorreu aquele doce líquido vermelho que parecia brilhar onde tudo o resto perdia a cor.

- Vamos, beba... – Pediu, num tom de voz calmo, encostando a ferida à minha boca.

Assim que o seu sangue tocou os meus lábios senti uma sede dentro de mim, irracional e furiosa. Queria mais! Queria sentir aquele calor nas minhas veias! Suguei o pulso do menino. Ele soltou um gemido frágil e eu pensei tê-lo magoado, só ao olhar para a sua cara vi que não sentia dor. A sua face pálida e delicada era dominada por uma expressão de êxtase apenas comparável a um orgasmo.

Então senti o meu corpo fraquejar, os meus olhos fecharem-se.

- Pode dormir, ficará bem... – Disse a criança, afagando o meu cabelo.

Na manhã seguinte acordei com uma leveza que nunca havia sentido antes. As cores pareciam pálidas, assim como a minha pele. Conseguia ouvir todos os mais pequenos ruídos à minha volta.

Fui chamado à presença do mecenas, para tomar pequeno-almoço com a sua família. O patrono encarou-me sem dizer uma palavra. Senti muito medo dele nesse momento. Pensei que me atacasse, até que me matasse, mas apenas olhou para o filho. Ele parecia envergonhado, como um jovem apaixonado. Depois continuou como se nada se passasse.

- Então começará o primeiro quadro depois de almoço. Eu e a minha esposa temos a tarde livre.

- Com certeza, Vossa Excelência! – Afirmei rapidamente.

E assim foram passando os dias, enquanto me familiarizava com o meu estado demoníaco, que apenas se alimentava de sangue e era excessivamente sensível à luz, entregava-me a uma paixão crescente à criança, ao pequeno demónio.

Não falávamos muito, ficávamos apenas juntos, sentados num dos bancos de jardim quando caía a noite. Por vezes beijávamo-nos. Algo leve, quase inocente, que apenas não o era pela nossa própria natureza negra.

Por vezes perguntava-lhe:

- Porque me fizeste isto?

E ele, na sua aparência inocente e apaixonada respondia:

- Porque o amo. Porque o quero comigo, quero que veja como eu, sinta como eu...

Nesses momentos não aguentava iludi-lo. Sentia que mesmo no meio das suas trevas era uma criança.

- Quando acabar o trabalho para que fui contratado partirei. Voltarei para a minha família... Elas precisam de mim...

Ele costumava virar-me a cara, mas mesmo assim via uma lágrima cair dos seus olhos cinzentos.

- Elas não o perceberão... chamá-lo-ão demónio. Não entenderão que é superior, não entenderão que está mais poderoso do que alguma vez foi...

E as nossas conversas ficavam por aí. Comigo perdido nos pensamentos de que a Anne ainda me aceitaria.

Os dias tornaram-se semanas, e as semanas tornaram-se meses.

Os pedidos de obras minhas vinham de todas as partes da cidade e em breve consegui uma boa quantia.

Passaram assim dois anos. E queria voltar para Florença, para a minha família.

Sabia que o pequeno desconfiava, talvez até tivesse a certeza, mas não conseguia dizer-lhe. Não o queria magoar, amava-o demasiado. Sim, tinha acabado por o amar. Talvez o amasse mais do que amava a Anne. Apesar de toda a sua perfeição, a Anne não sentia o mesmo que eu. Já aquele menino entendia-me, a mim e às minhas paixões.

Íamos juntos a exposições de pintura e escultura. O movimento antropocêntrico estava na moda e nós adorávamos estudá-lo, desenvolvemos uma grande paixão pelo Homem, pelo mortal.

Numa noite, a anterior ao Baile de Máscaras que a família iria realizar, foi ele que me confrontou. Tinha o seu fato de arlequim vestido. Parecia adorável, a criatura que para mim se tinha tornado uma paixão. Ele não poderia estar mais perfeito, parecia um bonequinho de porcelana.

- Queres deixar-me! – Disse, quebrando o silêncio de cristal que dominava o quarto apenas iluminado pela lareira.

Eu assustei-me. Ele não fraquejava, mas quando o olhei nos olhos vi as suas lágrimas pesadas rolarem pela sua face, borrando a maquilhagem preta, branca e vermelha.

- Eu disse-te... – Expliquei. – Eu voltaria...

- Tu não tens para quem voltar! – Gritou. Parecia louco, a sua cara parecia distorcida.

- É claro que tenho! Tenho a minha família, que já existia antes de tu transformares a minha vida num inferno!

Ele pareceu enfraquecer. Sentou-se no chão de pernas encolhidas contra o peito.

- Eu amo-te. Pensava que também me amavas, senão não o teria feito...

- Não terias feito o quê? – Perguntei, sentia um pânico irracional crescer dentro de mim. Ele não me respondeu. Apenas escondeu a cara nos braços. – Não terias feito o quê?

Alguns minutos passaram enquanto acarinhava os cabelos castanhos, finos do rapaz. Depois ele pareceu ganhar coragem. Respirou fundo e segurou a minha mão. Levou-me pelo labirinto de arbustos que havia no jardim do palácio. O meu peito começava a ficar apertado. Não sabia o que ele tinha feito e ao mesmo tempo sabia qual a única coisa que ele poderia ter feito. E tive a confirmação dos meus medos no centro do labirinto. Dois cadáveres em avançado estado de putrefacção jaziam um ao lado do outro. Uma mulher e um bebé.

- Não... – Sussurrei no meu profundo desespero.

- Por favor desculpa... – Pediu-me o menino, o demónio. – Eu temia que te tirassem de mim... Mas tu nunca foste meu, pois não?

O meu pequeno amante chorava. Mas não senti pena dele. O seu amor destruiu-me e a todos que eu amava.

- Eu... Matei-as. – A criança gaguejava enquanto as lágrimas escorriam pela sua face. – Elas apareceram um mês depois de tu chegares... E eu não aguentei, não aguentei ter de dividir o teu amor com outra pessoa... Por favor... Desculpa-me.

O menino caminhou até mim, tentando abraçar-me, e aí fiz algo de que me arrependo profundamente. Esbofeteei-o. A minha aliança cortou a sua pele branca, deixando escorrer um leve fio de sangue pelo seu rosto. Com o choque do meu comportamento ele tinha caído na relva, sujando o seu fato com lama.

Ele nunca me pareceu tão criança como naquele momento. Frágil, ferido. E ao mesmo tempo no ponto mais alto da sua beleza.

Levantei-o do chão pela gola do fato. Ele soluçava abundantemente.

- Tu chamas isto amar? Tu não sabes o que é amar! Tu és um monstro!

Ao dizer isto cravei os dentes no seu pequeno pescoço, sentindo o sangue quente dele descer pela minha garganta. O menino agarrou as mangas largas do meu casaco. Não lutava pela sua vida. Abraçava a morte, abraçava-me.

O seu choro foi acalmando até cessar. Respirava levemente sem esforço, sabia que lhe tinha tirado demasiado sangue, ele não viveria.

- Eu amo-te, meu vampiro... – suspirou o menino, antes de morrer.

- Eu amo-te, meu arlequim...

Beijei-o. Deitei o seu corpo pequeno no banco do jardim e desapareci.

Foi assim que me tornei a lenda. Deixei de ser o artista prodígio de Florença e passei a ser o assassino de Veneza.

Notas finais
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