O Metamorfo
1 Prólogo
Notas iniciais
Existem lendas, mais antigas do que os próprios homens, sopradas pelo vento, passadas de geração em geração, de dois clãs que guerreavam e lutavam incansavelmente entre si. Quando eu era pequeno, meu avô costumava me contar sobre essas lendas, as quais naquela época eu não só acreditava como também era fascinado. Os clãs transformavam qualquer paisagem em arena. Seus guerreiros mais fortes se enfrentavam até a morte, e eram assistidos e aclamados pelo próprio Odin. Ao vencedor, glória eterna era concedida, e um pedaço das vastas terras de Valhalla, onde reinaria eternamente. Não se sabe ao certo o exato motivo da rivalidade que originou os primeiros conflitos entre os clãs. Apesar das divergências, ambos possuíam os mesmos costumes, ao menos em batalha. Os guerreiros de ambos os clãs se enfrentavam sem qualquer veste ou armadura em seu torso, com exceção de peles de animais, acreditando que dessa forma absorveriam a força do animal e incorporariam seu espírito em batalha. Os Berserker, como eram conhecidos, portadores de uma força descomunal e uma fúria incontrolável, utilizavam peles de urso. Já os Ulfhednar, natos assassinos estrategistas, ágeis e famintos por sangue, encapavam-se em peles de lobo. Entre séculos de massacres e embates, houve uma luta em especial, onde dois guerreiros excepcionais se enfrentaram durante 3 horas até esgotarem as energias. Odin foi tão entretido que declarou a luta como empate, e propôs uma revanche. Sabendo que suas forças eram equivalentes e que um novo empate era eminente, Odin enfeitiçou os mantos de pele de ambos os guerreiros, e durante a luta, o extraordinário aconteceu. O Berserker atingiu uma fúria nunca vista antes, até que foi envolvido por seu manto e seu espírito foi inundado até ser incorporado pelo espírito do animal que carregava consigo. Entre rugidos e grunhidos estridentes, curvou-se com um soco no estômago, cresceu e transformou-se no próprio urso. O guerreiro Ulfhednar, por sua vez, com sangue nos olhos, foi envolvido pelo manto de lobo, seus olhos mudaram de âmbar para vermelho vivo, suas unhas cresceram até virarem garras, seus caninos afiaram-se e seu nariz e maxilar esticaram-se formando um focinho, até se transformar por completo num lobo gigante. Urso e Lobo ainda possuíam consciência, mas abriram mão de qualquer resquício de humanidade e prosseguiram no combate, agora totalmente dominados por seus instintos selvagens. Foi o combate mais épico que já existiu, segundo meu avô. Novamente os dois lutaram até desmaiar de exaustão. Seus clãs, embasbacados pela cena que haviam presenciado, estabeleceram uma trégua de cem anos para celebrarem o início de uma nova era. Ambos os guerreiros foram aclamados como deuses para seus respectivos clãs, e passaram a ser tratados e venerados como tal. De acordo com a lenda, foi concedido a eles o título de Metamorfos, pela habilidade de incorporar o espírito de um animal e adquirir temporariamente sua forma física e espiritual. Ao longo dos anos eles dominaram essa habilidade totalmente, podendo transformar-se no momento em que desejassem, e não somente no meio de uma batalha. E a partir desta era, onde Berserkers e Ulfhednars viviam em harmonia, os filhos dos guerreiros acabaram nascendo com a mesma habilidade de seus pais, e foi assim com os filhos de seus filhos e por sua vez os filhos deles, originando jovens mistos dos dois clãs. Aqueles que nasciam depois possuíam consigo os espíritos de todos os seus ancestrais, portanto poderiam transformar-se em qualquer animal que seus antecessores também podiam. E essa é origem do nascimento de uma nova raça, que ao passar dos séculos foi praticamente extinta, até se tornarem extremamente raros. E alguns dos poucos descendentes dos primeiros Metamorfos, com sorte, ainda vivam entre nós.
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