O Mestre - EM HIATUS

30 Capítulo Vinte e Nove


Notas iniciais
Oláres, Dessa vez a inspiração não me abandonou e me permitiu finalizar outro capítulo rapidinho YAY! Eu espero que vocês gostem do que preparei e da nova/antiga personagem que vem por aí. Boa leitura.

“O amor e a razão são dois viajantes que nunca vivem juntos na mesma hospedaria: quando um chega, parte o outro.” – Walter Scott.

[Blake]

Wade e Serena estão nervosos. Sei exatamente como eles se sentem, pois também me senti assim antes da minha primeira apresentação, mas eles ensaiaram bastante e eu sei que se sairão bem, então, eu digo isso a eles.

– Há muitos olheiros na plateia essa noite? – Serena questiona. Ela está esfregando as mãos uma na outra de maneira sistemática e preciso segurá-las para que ela pare com aquilo.

— Alguns. – Digo, passando os polegares por suas palmas suadas, tentando acalmá-la. – Mas você não precisa ficar nervosa, ok? Apenas repita o que vem fazendo durante os nossos ensaios e lembre-se de respirar. Você tem muito talento, Serena e se esforçou bastante. Fará um ótimo trabalho essa noite.

Serena sorri para mim e sou pego de surpresa quando ela joga os braços ao redor de meu pescoço e me abraça com força.

— Você é o melhor professor que já tivemos, Blake. Vai ser um saco não tê-lo aqui no próximo semestre.

Desconcertado, afago os cabelos ruivos dela, levemente, e retribuo ao seu sorriso quando ela se afasta e aperta minhas mãos de novo, agradecendo-me pelas palavras de conforto. Observo enquanto ela confere sua arara de figurinos no canto do camarim e, quando volto os meus olhos para o outro lado do cômodo, dou de cara com Wade sorrindo para mim também.

— É melhor você não me abraçar assim ou eu serei obrigado a te dar um soco. – Aviso e ele ri abertamente.

— Acho que um aperto de mãos é suficiente. – Ele estende a mão para mim e eu me aproximo para apertá-la. – Mas a Serena tem razão – Wade diz –, será uma grande perda para a universidade quando você for embora no próximo semestre.

Aquela declaração me surpreende.

— Achei que você me odiava.

— E eu odiava. – Ele confirma. – No início, quando eu não entendia a sua relação com a Alyssa e achava que você queria apenas se aproveitar dela, mas eu entendi o que ela significa para você, Blake. Passei a te respeitar depois disso, como homem e como professor.

— Obrigado. – Respondo por que é tudo que consigo dizer a ele depois dessa revelação.

— Ela ainda te ama. – Wade continua. – Sabe disso, não sabe? Está sendo tão difícil para ela quanto parece ser para você.

Sei que ele está tentando ser amigável, mas não posso me forçar a falar sobre Alyssa agora. Passaram-se pouco mais de três semanas desde que terminamos, mas ainda dói como se tivéssemos acabado de dizer adeus.

— Boa sorte na apresentação, Wade.

— O certo não seria desejar que eu quebrasse a perna¹? – Ele pergunta e eu dou de ombros.

— Nunca fui muito fã dessa frase. No mundo competitivo do teatro, não dá para saber se a pessoa está te desejando boa sorte ou se ela realmente quer que você quebre a perna. – Concluo e me afasto dele.

Passo pelas outras baias e converso com o restante da equipe, oferecendo palavras de incentivo e conselhos quando necessário, também ajudo a checar os cenários para garantir que estará tudo certo durante a apresentação.

Quando chego ao espaço reservado para a equipe de O Leque de Lady Windermere — que se apresentará logo após o meu grupo –, me detenho e volto para o meu lado dos bastidores. Eu provavelmente deveria ir até lá e desejar boa sorte para Alyssa, afinal, essa será sua primeira apresentação como musicista e eu sei o quanto isso significa para ela, mas ainda não me sinto preparado para esse tipo de interação entre nós.

As últimas semanas foram um verdadeiro inferno para mim. Era difícil evita-la nas aulas, pois, querendo ou não, os meus olhos sempre se voltavam para ela em algum momento e eu sempre me sentia grande um idiota depois. Me incomodava que eu estivesse ignorando-a daquela forma depois de tudo o que tínhamos compartilhado, pois tal atitude fazia com que eu me sentisse um crápula para ela, mas eu havia sido sincero quando disse a Alyssa que não me sentia capaz de fazer o meu trabalho e de trata-la como uma simples aluna ou uma boa amiga.

Não havia uma só noite em que eu não pensasse nela, em que não desejasse tê-la em meus braços e eu juro por Deus que tentei de tudo para me livrar de meus medos nos dias em que ficamos separados, mas eu não consegui. Me sentia fraco por isso, mas aquele era um temor maior que eu. Sempre que pensava em atender ao pedido dela, a imagem de Jackie agonizando em meus braços invadia minha mente e eu achava que não suportaria se algo assim acontecesse com Alyssa caso eu me permitisse investir em um relacionamento à distância como ela queria.

Passei a pensar tanto sobre isso que mal conseguia dormir à noite e só não enlouqueci completamente, porque Kirk – como o bom amigo que era – me forçou a recebê-lo em meu apartamento e não me deixou chafurdar em solidão, medo e amargura. No entanto, a cada aula que eu tinha com Alyssa, ficava mais difícil para ele conseguir me animar e, por fim, acho que ele percebeu que eu era um verdadeiro caso perdido, pois desistiu de tentar me arrastar para fora do meu ninho e apenas me comprou uma garrafa de uísque puro malte. Não fazia muito o meu estilo tentar afogar as minhas desilusões em álcool, mas, ainda assim, apreciei sua preocupação e seu gesto.

— Blake. – Jacob Farnell, o diretor do curso de Artes da Universidade, me chama e eu saio do meu mundinho triste e sombrio para lhe dar a devida atenção.

— Jacob. – Viro-me para cumprimenta-lo e nós trocamos um breve aperto de mãos, antes que ele deposite as suas de volta nos bolsos de sua calça social risca de giz. – Tudo bem?

– Sim. Na verdade, eu vim para agradecê-lo pelo ótimo trabalho que fez nesse festival. Recebi muitos elogios a seu respeito, tanto dos estudantes quanto do nosso corpo docente. A professora Twigger, em especial, teceu comentários maravilhosos ao seu respeito.

— Fico lisonjeado. – Assinto e gostaria de sentir um pouco mais de entusiasmo por receber tantos elogios assim, mas o meu humor tem estado uma merda desde que Alyssa e eu terminamos o nosso relacionamento.

— Você é um jovem de grande futuro, Blake e sei que já tivemos essa conversa antes, mas... tem certeza de que não gostaria de ficar com o emprego de professor permanente? – Ele pergunta. – Podemos discutir um pouco mais sobre os seus benefícios, se quiser. A reitoria até ofereceu uma proposta de salário mais vantajosa para você. Eles estão muito interessados em mantê-lo aqui.

— Eu agradeço a consideração de todos, mas eu realmente não posso ficar com a vaga, Jacob. Tenho trabalhos me esperando em Londres. – Respondo e ele parece um pouco decepcionado.

— Eu entendo, mas os alunos amam as suas aulas e você se adaptou tão bem a rotina da universidade... Será difícil encontrar um substituto à altura, então, perdoe-me se estou sendo muito insistente, Blake.

Sorrio.

— Não se preocupe, Jacob. Você encontrará alguém qualificado. – Dou um tapinha amigável em seu ombro. – Lecionar foi uma ótima experiência para mim, mas essa nunca foi a minha vocação, você sabe.

— Você nasceu para os palcos, não é mesmo?

— Acho que pode se dizer que sim.

Jacob assente. Ainda parece um tanto insatisfeito com a minha recusa, mas eu sei que ele compreende. Ele foi um dos meus professores quando frequentei a universidade e foi meu orientador durante o meu trabalho de conclusão do curso. Quando me formei, Jacob se tornou um bom amigo e mantivemos contato durante todo o meu período de estudos de Londres e quando comecei minha carreira por lá. Ele sempre me apoiou e me agraciou com seus conselhos e experiências e, por isso, quando ele me telefonou e me pediu para lecionar como professor substituto, eu não pude lhe dizer não. Também foi por isso que não pude me afastar da universidade antes do fim do semestre, Jacob Farnell é alguém que eu não quero decepcionar.

— Bem, se mudar de ideia quanto a isso, as portas do meu gabinete estarão sempre abertas para você.

— Obrigado. – Trocamos mais um aperto de mãos e, então, ele se despede e vai cumprimentar os alunos que se apresentarão naquela noite.

Estou tão distraído com meus próprios pensamentos que sequer noto que alguém se aproximou de mim até que a pessoa me puxa em sua direção e, sem aviso, deposita um selinho em meus lábios.

— Como está o meu professor favorito?! – A voz cintilante de Shelby ecoa pelo ambiente e eu engulo os protestos e xingamentos que estava prestes a proferir quando percebo que é ela quem está diante de mim.

Shelby tem esse estranho costume de cumprimentar todo mundo em círculo mais íntimo de amizade com um selinho e, talvez, isso seja alguma herança de sua criação italiana, que difere totalmente dos costumes ingleses que são mais reservados, mas, depois de alguns anos convivendo com ela – e recebendo selinhos como este sempre que precisamos nos reunir –, eu já me acostumei com seu jeito mais aberto.

— Ah, meu Deus, Shelby. O que faz aqui? – Pergunto completamente tomado pela confusão. Eu havia enviado um e-mail a ela, avisando que voltaria para Londres em algumas semanas, mas não fazia ideia do por que ela tinha decidido me visitar naquele momento. Achei que ficaria esperando pelo meu retorno em Londres.

— Ora, amor, eu não poderia deixar de apreciar o seu trabalho como esses garotos. Já te vi atuando uma centena de vezes, mas essa será a primeira vez que vou vê-lo coordenando uma apresentação de teatro e acho que, se tudo correr bem, poderei até acrescentar essa experiência ao seu portfólio.

— O que? Coordenador de peça teatral universitária? – Brinco, mas Shelby assente e ela parece estar falando muito sério, mas, para falar a verdade, eu nunca tenho certeza disso porque ela está sempre sorrindo como uma maluca.

— Todas as experiências são importantes, querido. Achei que já tinha ensinado isso a você. – Ela bate uma unha longa e vermelha em meu peito e noto que seus lábios, pintados com um batom da mesma cor, estão um pouco mais cheios que a última vez que a vi e que seu cabelo loiro está alguns tons mais claro. Outro detalhe sobre Shelby, além de sua personalidade vibrante, é que ela está sempre fazendo algum procedimento estético.

— Gostei do novo visual. – Comento e ela sorri.

— Jordan também. – Ela pisca para mim e eu franzo as sobrancelhas.

— Quem é Jordan?

— Meu namorado. – Ela fala como se eu devesse saber, mas Shelby troca de namorado como quem troca de roupas.

— E quanto ao último, o modelo de cuecas? Qual era mesmo o nome dele?

— Rafe. – Shelby faz careta. – Bonitinho, porém grudento demais. Precisei me livrar dele. – Ela responde e eu rio. Essa mulher é impossível. – Sabe, essa universidade até que é legal. – Ela comenta, olhando ao redor. – Não é como Oxford ou Cambridge, mas... – Dá de ombros para evidenciar sua aprovação relutante.

— É uma boa universidade. – Eu defendo, afinal, eu me graduei ali. – E você precisava mesmo ter se deslocado até esse continente só para avaliar o meu desempenho como coordenador?

— Claro que precisava! – Shelby me lança um olhar intenso. – Para isso e, também, para ter certeza de que você não vai mudar de ideia de novo e fugir.

— Ah – eu finalmente compreendo sua visita inesperada –, você veio até aqui para me escoltar de volta à Londres.

— Não me leve a mal, amor, mas você já desistiu da sua carreira uma vez e, como sua agente, é meu dever impedir que você repita essa tolice. Aliás, onde está a sua namorada? – Shelby corre os olhos pelos bastidores do auditório, como se soubesse qual a aparência de Alyssa e pudesse identificá-la ali. – Preciso agradecê-la pessoalmente por colocar um pouco de juízo nessa sua cabeça e convencê-lo a voltar para Londres.

Alguma coisa em minha expressão deve ter denunciado os meus sentimentos, pois o sorriso brincalhão de Shelby se desfaz e ela me encara com os olhos cheios de pena pela primeira vez desde que a conheci.

— Ah, amor, não. Não me diga que vocês dois... – Ela deixa a frase morrer e, simplesmente, me envolve em um abraço apertado. – Sinto muito, Blake. Você parecia tão feliz com ela.

— Bem, agora você me tem de volta, não é?

— E isso é ótimo, querido, mas eu preferia que as circunstâncias fossem mais agradáveis para você. Não achei que a sua volta para casa significasse um término. Achei que ainda estivessem juntos.

Apenas sacudo a cabeça, deixando claro que não estamos.

— Talvez ela mude de ideia. – Shelby me conforta e eu dou de ombros, sem concordar nem discordar, mas duvido que Alyssa vá voltar atrás em sua decisão.

— Venha, vou te arranjar um lugar perto do palco. – Faço sinal para que ela siga na frente e a acompanho até uma das cadeiras vermelhas no auditório.

Penso que talvez seja bom ter Shelby em San Diego enquanto finalizo meu trabalho na universidade. Com toda a sua energia, é bem provável que ela vá me distrair dos meus problemas com Alyssa, pois é muito difícil permanecer desanimado quando se está com ela. Acho, inclusive, que ela, Melody e Kirk podem acabar se tornando bons amigos já que ela é tão desbocada quanto os dois e eu acho que eles combinam bem.

— Dez minutos para o início das apresentações. – Alguém grita nos bastidores e eu me despeço de Shelby e volto para meu lugar para me certificar de que está tudo pronto.

Apesar do nervosismo característico da estreia, tudo parece estar certo. Os figurinos e os cenários estão bons, os garotos lembram suas falas e nosso musicista está preparado. A peça tem tudo para ser um sucesso e eu espero que os olheiros das companhias de teatro se impressionem com o talento deles, pois eu sei que todos ali têm grande potencial.

Desejo sorte a todos os que se apresentarão e parabenizo nossa equipe de figurinistas e ajudantes de palco pelo excelente trabalho, então, sigo para um canto próximo às cortinas, de onde poderei assistir à peça e ajudar a coordenar tudo.

Como eu já esperava, Serena e Wade estão maravilhosos naquela noite. Sinto-me muito orgulhoso por ver como eles se mantêm focados e nunca tropeçam nas falas ou perdem suas marcações no palco. Além disso, eles conseguem passar para o público todo o sentimento de seus personagens e sua atuação é realmente digna de profissionais, o que me deixa com a sensação de dever cumprido.

— Preciso da sua ajuda! – Melody surge do nada ao meu lado e me puxa pelo braço, arrastando-me para fora de meu canto, sob protestos ruidosos da minha parte.

— Você vai arrancar o meu braço, Melody! – Reclamo com ela e me solto de seu aperto, afastando-me um pouco. – Não dá para esperar alguns minutos. A peça ainda não terminou.

— Você viu a Liss? – Ela pergunta e no mesmo instante consegue minha atenção.

— Não a vi hoje. Por quê?

— Porque eu não consigo encontrá-la em lugar algum!

— Talvez ela tenha ficado presa no trabalho. – Olho para o relógio em meu pulso e verifico o horário. O Leque de Lady Windermere começará logo após um intervalo de meia hora que será feito entre as peça. Como a nossa ainda não acabou, Alyssa deve ter algum tempo para chegar e assumir seu posto como pianista. Não é exatamente preocupante que ela não esteja ali naquele exato momento.

— Nós viemos juntas. – Melody explica. – Ela estava aqui e agora parece ter evaporado. A professora Twigger está procurando por ela e eu não faço ideia de onde ela se meteu.

— Já tentou o celular?

— Tentei, mas ela deixou o celular na bolsa.

— Procurou no banheiro?

— Procurei em todos os banheiros próximos ao auditório e na lanchonete. Procurei até mesmo no estacionamento, mas eu não sei onde ela está.

Agora assim vejo um motivo para sua preocupação, pois Alyssa não sumiria desse jeito pouco antes de a sua apresentação começar. Ela estava muito empolgada com esse festival de teatro e, além disso, ela é muito responsável para desaparecer desse jeito e deixar toda a sua equipe na mão.

Olho para o palco, onde Serena e Wade ainda interpretam seus papéis e sei que, mesmo que a peça já esteja próxima do fim, eu ainda tenho um trabalho a fazer e não deveria abandonar o meu posto antes de as cortinas se fecharem, mas minha preocupação com Alyssa começou a falar mais alto que a minha responsabilidade como coordenador.

— Tudo bem, vamos procurá-la. – Concordo e sigo Melody para fora dos limites do palco, deixando instruções com um dos meus alunos para ajudar na peça caso algo fuja do planejado enquanto eu estiver ausente.

É uma merda largar minhas responsabilidades nas mãos de outra pessoa desse jeito, mas o que eu poderia fazer? Alyssa pode estar com problemas e precisando de ajuda, talvez tenha se machucado ou alguma coisa assim. Preciso encontra-la pelo bem do festival ou, pelo menos, é o que eu digo a mim mesmo para me convencer de que não estou mandando os meus próprios limites para o inferno.

Melody e eu a procuramos em todos os camarins, banheiros e espaços comuns dos bastidores e já estamos nos preparando para começar uma varredura pelos jardins que cercam o auditório, quando Alyssa surge em nosso caminho, vinda de algum lugar lá fora.

— Oh meu Deus, Liss! Você quer me matar de preocupação. – Melody corre até ela e abraça, depois, segura as mãos dela nas suas. – Onde você se meteu?! Estou te procurando há séculos.

Os olhos de Alyssa vagam rapidamente de Melody até mim e, mesmo com a pouca luz dos bastidores, percebo que eles estão avermelhados e um tanto inchados. Acho que ela estava chorando e todo o meu corpo literalmente coça para abraça-la e descobrir o que há de errado, mas permaneço onde estou.

— Desculpe, eu fui até os jardins. Precisava de um pouco de ar. – Ela esboça um sorriso para Melody e sua postura rígida me deixa com a impressão de que ela está se esforçando ao máximo para não olhar novamente para mim, como se não suportasse o fato de eu estar parado logo ali e aquilo me incomoda. Sei que nós temos evitado um ao outro da mesma forma que uma praga nos últimos dias, mas eu não imaginei que a minha presença a importunava tanto.

— A professora Twigger está te procurando. Ela quer fazer uma última reunião com todo mundo antes de a sua peça começar.

— Ah, obrigada por avisar. – Alyssa assente. – Eu vou procurá-la, então.

— Você está bem? – Melody segura as mãos dela com um pouco mais de força quando ela tenta se afastar e aquele mesmo sorriso falso que ela exibiu segundos antes volta a surgir em seus lábios. Eu a conheço tão bem que consigo identificar a mentira em seu tom voz no instante em que ela diz:

— Sim. Só estou um pouco nervosa com a apresentação.

— Você vai se sair bem. – Melody a conforta. – A apresentação será um sucesso. Você vai ver.

— Obrigada, Mel. É melhor eu ir falar com a professora Twigger agora.

— Tudo bem. Eu te vejo quando a sua apresentação terminar. Quebre a perna, Liss! – Ela deseja para Alyssa e se afasta, ainda sorrindo.

— Você sabe que eu sei que acabou de mentir para a Melody, não sabe? – Eu pergunto antes que eu possa me impedir de fazê-lo.

Por mais que eu tenha evitado Alyssa nas últimas semanas, estou sempre consciente da presença dela. Ela é a primeira pessoa que eu noto quando entro no auditório todas as segundas e quartas para lecionar e a última que eu vejo antes de me retirar dele. Além disso, é impossível não reparar em seu semblante triste durante as aulas e, às vezes, eu queria poder abraça-la e confortá-la, como quero fazer agora, mas eu sei que estarei arruinado se fizer isso. Não há nenhuma forma no mundo de eu supera-la caso me permita senti-la novamente entre meus braços e já está sendo muito difícil me manter focado no trabalho, mesmo mantendo-a a distancia.

Ouço o barulho dos aplausos vindo do auditório e, assim, sei que a peça finalmente terminou. Espero que tenha corrido tudo bem nos minutos em que me ausentei de meu lugar, mas não preciso esperar muito para descobrir como tudo correu, pois Serena surge ao meu lado quase no mesmo instante e ela está tão eufórica que está praticamente saltitando de alegria.

– Caramba, isso foi tão incrível, Blake! Você viu como as pessoas aplaudiram de pé? Foi tão... – Seus olhos castanhos encontram os de Alyssa, que ainda está parada na minha frente e eu vejo que Serena capta o mesmo que eu. – O que foi que houve? Você está bem? – Ela se aproxima um pouco mais de Alyssa, como se para examiná-la melhor e Alyssa sorri novamente.

Eu odeio esse sorriso falso em seus lábios. Sua boca é bonita demais para sorrir assim.

— Está tudo ótimo. – Mais uma vez ela mente e, dessa vez, ela olha para mim como se me desafiasse a contradizê-la. – Na verdade, estou um pouco atrasada, Serena. Eu tenho uma reunião com a professora Twigger agora e preciso...

— Blake, amor, essa peça foi um verdadeiro sucesso! – Shelby praticamente pula em meu pescoço, enquanto deposita outro selinho em meus lábios e eu preciso me equilibrar para evitar que nós dois despenquemos no chão. Às vezes a intensidade dela me assusta um pouco e essa sua mania de me distribuir beijos também não ajuda muito. – Estava tudo tão perfeito, os figurinos, o cenário, a música... E você estava ótima como Blanche! Aliás, onde está o seu parceiro de cena? Eu preciso parabenizá-lo também. – Ela diz para Serena que volta a ficar eufórica com todos aqueles elogios e nem pergunta o nome de Shelby, antes de arrastá-la para o camarim, onde Wade deve estar.

— Sua amiga é encantadora. – Alyssa comenta e, só então, eu percebo a mágoa estampada em seus olhos, que se tornaram ainda mais tristes após a aparição surpresa de Shelby. Ela, com certeza, está imaginando o pior sobre nós.

— Liss, eu...

— Parabéns pelo sucesso da sua peça, Blake. – Ela me interrompe e se afasta antes que eu tenha a oportunidade de me explicar.

Penso em segui-la em meio à multidão que circula pelos bastidores, pois é óbvio que ela interpretou minha relação com Shelby de maneira errada, mas, então, eu percebo que não preciso explicar nada porque nós não estamos mais juntos. Foi ela quem terminou tudo comigo, por que eu deveria me importar com as suposições que ela faz ou deixa de fazer sobre mim?

A resposta é simples: eu não deveria, mas eu me importo. E, exatamente porque me importo, esqueço minhas próprias regras e vou atrás dela.

Notas finais
NOTAS EXPLICATIVAS: 1) Quebre a perna: é uma expressão usada no teatro para desejar "boa sorte" aos artistas. Não se tem uma certeza sobre a origem da expressão, mas uma das possíveis explicações remete ao ato de o público, ao final do espetáculo, jogar moedas para os atores e, assim, demonstrar o quanto havia gostado da apresentação. Quanto mais os artistas fossem obrigados a se abaixar para apanhar sua recompensa, mais suas pernas sofreriam com o exercício. Ou seja, o sobe-e-desce para recolher o dinheiro espalhado pelo palco poderia quebrar-lhes uma das pernas. *** Bem senhores, agora vocês já sabem quem é a loira misteriosa: nossa querida Shelby. Ou pelo menos ela é querida para mim, para você eu ainda não sei, né? Espero que tenham gostado do capítulo e que estejam ansiosos pelo próximo. Se a inspiração continuar fluindo, nos vemos em breve. Até lá!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.