O Mestre - EM HIATUS
15 Capítulo Quatorze
Notas iniciais
"Grandes descobertas e progressos invariavelmente envolvem a cooperação de várias mentes." – Alexander Graham Bell.
[Alyssa]
Quando Wade finalmente voltou com os copos de Coca-Cola, Blake e eu já havíamos nos resolvido e estávamos encostados junto á bancada de umas das barracas ali, conversando enquanto esperávamos nossos tacos ficarem prontos.
Ele havia me contado um pouco sobre sua história com Kirk e sobre as várias confusões em que havia se metido na universidade por causa do amigo, mas cada vez que Blake falava sobre ele, fosse para elogiar ou para reclamar de sua conduta, eu podia notar como a amizade que os unia era forte.
Era quase como o sentimento que havia entre Melody, Serena e eu, que praticamente crescemos juntas e vimos os melhores e os piores momentos de cada uma de nós e, quando eu falo “piores”, não me refiro apenas a permanecermos unidas nas horas de tristezas e desilusões como aconteceu quando Serena perdeu sua mãe em um acidente de carro, aos sete anos, ou quando eu terminei meu noivado com Dylan.
Também falo de piores momentos engraçados, como quando Melody teve de usar um aparelho ortodôntico horrível ou quando Serena ficou com a barra do vestido presa na calcinha ao sair do banheiro na oitava série ou, ainda, quando minha mãe me levou ao cabeleireiro antes de minha formatura do ensino fundamental e ele me fez parecer um poodle nas fotos do anuário. Foi horrível, mas agora nós podíamos rir desses momentos.
– Você ficou mesmo parecendo um poodle ou está apenas exagerando para acrescentar um pouco mais de drama à história? – Blake pergunta exibindo um sorriso divertido que eu prefiro muito mais que a expressão rabugenta que ele tinha minutos antes.
– Não é exagero, é sério. – sorrio também – Todas as minhas fotos de anuário estão na casa dos meus pais, mas tenho certeza que Melody ou serena devem ter alguma por aqui e da próxima vez que você for me visitar eu vou mostrá-las a você. Eu fiquei horrível, Blake. Melody me chamou de Pompom por dias.
– Pompom?! – ele solta uma gargalhada e se não fosse tão gostoso vê-lo sorrir eu lhe daria um soco.
– Não é engraçado. Eu passei uma semana usando gorros e bonés. Foi muito triste!
– Desculpe. – Blake respira fundo e tenta parar de rir – Mas é que esse apelido é muito engraçado.
– Você nunca teve um momento assim na adolescência? – indago – Não é possível que você tenha sido esse templo de beleza e sedução durante a vida inteira.
– Eu sou um templo de beleza e sedução, é? – ele me lança um olhar safado e eu agarro o copo vermelho que Wade me entregou, antes de nos deixar para resolver algum problema com os outros organizadores da festa, com um pouco mais de força.
Minha vontade era de enroscar meus dedos no cabelo castanho escuro de Blake e puxá-lo para um beijo, mas com todas essas pessoas ao nosso redor eu preciso me controlar. Isso é uma droga, é verdade, mas a culpa é minha por querer vir a essa festa ao invés de aceitar a proposta de Blake e passar a noite toda, agarradinha a ele, em seu apartamento.
– Você sabe que é. – respondo finalmente – Não fique aí me pedindo uma confirmação só para aumentar o seu ego.
– Com certeza esse não foi o motivo pelo qual eu pedi. – ele dá uma piscadela e eu mordo o lábio. Oh, Jesus, esse homem vai acabar me matando!
– Você não respondeu a minha pergunta. – procuro por uma distração. Seria realmente terrível se a universidade inteira me visse agarrar o nosso professor e se eu não começar a pensar em outras coisas agora é isso que vai acontecer.
Pensando a respeito, Blake franze a testa e une os lábios.
– Eu já caí do palco uma vez durante uma apresentação de teatro na escola. – ele responde por fim – Foi vergonhoso.
– Como, diabos, você caiu? – eu rio.
Distração: Um. Desejos incontroláveis: Zero.
Ou quase isso...
– Eu tinha seis anos e fazia o papel de uma árvore. – Blake dá de ombros – A fantasia não me deixava ver muita coisa e isso incluía os limites do palco. Eu simplesmente despenquei de lá.
– Você se machucou?
– Não. – ele balança a cabeça – Mas eu não consegui me sentar direito por uns três dias.
A gargalhada que escapa por meus lábios é alta e como sou péssima em me controlar, acabo quase chorando de rir e tenho que me abanar para que as lágrimas não escapem dos meus olhos.
– Mas veja como é o mundo. – Blake me encara – Quando sou eu quem ri de você, você não gosta, né?
– É porque pimenta nos olhos dos outros é refresco. Você não sabia? – respondo ainda rindo.
Ele aperta a ponta do meu nariz e tenta fazer cara feia para mim, mas é tão engraçado que minha crise de riso recomeça.
– Uau, vocês estão animados, hein? – Wade se aproxima da barraca de tacos onde estamos e tanto Blake quanto eu nos viramos para olhá-lo – Posso saber qual é o motivo de todo esse riso?
– Ah, não é nada demais. – tento desconversar – Eu só estava rindo das histórias de vida que nosso querido professor tem para contar.
– Hum. Parecem ser histórias muito engraçadas. Também quero ouvi-las qualquer dia. – Wade sorri para Blake e depois se volta para mim – Onde estão a Melody e a Serena? Elas não foram embora sem se despedir, né?
– Não. Elas ainda estão por aqui, mas a Serena queria comprar um cupcake e arrastou a Melody junto. – respondo – Sabe como é, né?
– Sei. – Wade assente – E eu juro que não entendo essa mania que as mulheres têm de andarem em bando, mas pelo menos elas tiveram o bom senso de te deixar aqui para fazer companhia ao Sr. Carson, não é?
– É Blake, Wade. – Blake lança a ele um olhar duro e respira fundo – Quantas vezes vou ter que te dizer isso?
– Foi mal, professor. – Wade coça a cabeça, sem jeito, e abre um sorriso – É a força do hábito, sabe?
Blake estreita os olhos para ele, mas antes que possa dizer qualquer coisa, o vendedor de tacos se aproxima da bancada onde estamos apoiados e deposita nossos pedidos. Murmuramos um “obrigado” conjunto para ele e então nos afastamos da barraca para voltar ao nosso lugar perto do palco.
O DJ anterior já havia se retirado e cedido espaço a outro, que naquele momento, tocava um remix animado da música Anaconda, da Nick Minaj e fazia todo mundo dançar, cantar e rir. Algumas meninas mais empolgadas se arriscavam em coreografias de twerk e embora quase todo mundo ali estivesse se divertindo com a batida, eu conseguia notar pela expressão de desgosto no rosto de Blake que aquele estava bem longe de ser o tipo de música de que ele gostava.
– Hey, Liss. – Wade toca em meu ombro, chamando minha atenção e eu desvio meus olhos do palco para olhar para ele.
– O que?
– Eu e os garotos separamos um momento da festa para algumas pessoas se apresentarem no palco. – ele informa – Você não gostaria de participar?
– Eu? – termino de mastigar um pedaço de meu taco de carne seca e tomo um gole de refrigerante – Eu não sou uma DJ, Wade. Eu toco piano.
– Não é uma apresentação de DJ. – ele ri – É pra cantar e dançar. Coisas assim.
– Eu não sou muito boa nisso.
– Ah, qual é? Eu vi sua apresentação na aula de Musicalidade aquele dia e você canta pra caramba. – Wade se volta para Blake e dá um tapinha em seu ombro – Ela não é boa, Sr. Carson?
Quase me engasgo com o olhar mortal que Blake lança a Wade, mas ao invés de lhe passar outro sermão sobre seu nome, Blake apenas toma um gole de seu refrigerante e assente.
– Viu? – Wade se volta novamente para mim – Você podia cantar aqui hoje, Liss. Aposto que ia arrasar.
– Ah, não sei... – avalio a possibilidade.
Eu gostava de cantar quando estava sozinha, limpando a casa ou durante o banho, mas cantar em público era outra coisa. A única vez que eu havia feito isso tinha sido na aula de Musicalidade e Interpretação, mas eu estava sendo movida mais por meus sentimentos que por minha coragem naquele dia, então eu não tinha como saber se não iria desmaiar ao subir no palco hoje e tentar me apresentar para todas essas pessoas.
– Acho que você deveria ir. – Blake me incentiva e eu olho para ele, surpresa – Você canta muito bem mesmo e, já que está aqui, não custa nada tentar. Vai que você descobre que seu amor pela música vai muito além de um piano.
– Você acha mesmo? – questiono e ele apenas dá de ombros.
– Tudo é possível.
Eu não sei. Eu ainda acho que posso desmaiar em cima do palco ou cantar tão mal que as pessoas vão atirar seus copos de cerveja em mim, mas o comentário de Blake me deixou curiosa.
Quando estava com Dylan eu amava tocar piano, mas cursava Medicina porque ele também cursava e porque aquele curso era como uma zona de conforto. Quando terminamos, eu larguei a Medicina e atravessei o país para cursar Música porque amava isso e porque esse curso me afastava tanto de Dylan quanto eu precisava naquele momento, mas agora eu estava realmente me perguntando se tocar piano era tudo o que eu gostaria de fazer da vida.
Eu sabia que amava aquele instrumento, mas será que não havia algo mais que eu pudesse fazer? Bem, talvez sim, talvez não, mas eu nunca saberia se não tentasse.
– Vou me apresentar. – concordo e Wade ergue os braços, comemorando.
– Eu vou pedir ao Carl para colocar o seu nome na lista de participantes, então.
– Lista de participantes de que? – Serena pergunta surgindo, de repente, atrás de nós com um cupcake coberto de creme nas mãos.
– São só umas apresentações livres que o Wade planejou. – respondo e franzo a testa – Onde estão a Melody e o Kirk?
Serena dá de ombros.
– Eu achei que eles estavam aqui com vocês, porque já faz um tempinho que os dois me abandonaram enquanto eu, arduamente, procurava por um vendedor de cupcakes. – ela fecha a cara para Wade e depois dá um tapa no braço dele – Você podia ter colocado a barraquinha de cupcakes mais perto. Eu tive que ir até o Japão para comprar isso.
– Desculpe. Eu vou tentar colocá-la num lugar melhor da próxima vez, tá legal?
– É bom mesmo. – Serena empina o nariz e Wade a abraça e deposita um beijo em sua bochecha, fazendo-a rir e lhe dar outro tapa.
– Acho que eu vou procurar o Carl agora para acertarmos a lista das apresentações. – ele se afasta um pouco de Serena, mas ela segura sua mão, impedindo-o de ir muito longe.
– Posso ir junto? – pede e Wade assente.
– Claro. – ele sorri e depois se vira para mim – Quando estivermos com tudo organizado eu volto aqui para te dizer qual vai ser a ordem das apresentações, mas acho bom você já ir pensando em uma música, tá?
– Sem problemas. – respondo confiante. Eu escolhi a música no momento em que concordei em me apresentar, então isso não será um problema.
Serena e Wade se despedem de nós e depois que eles somem no meio da multidão, conversando sobre seja lá o que for, Blake se aproxima de mim e faz cócegas na minha cintura.
– Então você vai mesmo cantar, hein.
– Eu vou. – afirmo e dou um tapa na mão dele – Você me incentivou a ir.
– Então eu fico feliz por isso.
– Não fique feliz ainda. – aviso – Se eu pagar mico lá em cima você será a primeira pessoa em quem eu vou bater quando chegar aqui embaixo.
– É justo. – ele concorda com um aceno – Mas você não vai pagar mico, então não estou preocupado.
Lanço a ele um sorriso de agradecimento e volto a me concentrar no DJ que está no palco, deixando o meu corpo se balançar para lá e para cá ao som da batida. Queria poder abraçar Blake e mover meu corpo junto ao dele como fiz na noite em que nos conhecemos, mas esse é um desejo impossível de se realizar aqui. Talvez quando estivermos sozinhos em seu apartamento eu até coloque alguma música para tocar, só para poder dançar com ele, mas esse é um pensamento que deve ficar pra depois.
Quando Wade finalmente volta para me avisar qual vai ser a ordem das apresentações, o DJ que estava no palco já havia sido substituído por uma banda universitária, cujo nome eu desconhecia, mas cujo som havia me agradado.
Wade me informou que eu seria a terceira pessoa a me apresentar dentre as cinco que eles haviam escolhido e que as apresentações começariam assim que o show da banda que se apresentava naquele momento terminasse, o que significava que eu já deveria ir para os bastidores montados atrás do palco, para me preparar.
Sentindo-me um pouco nervosa, me despedi rapidamente de Blake e me dirigi ao palco acompanhado de Wade e de Serena que parecia ter se tornado sua sombra.
Eu ainda não sabia se toda essa proximidade dos dois se devia ao fato de Serena não querer segurar vela para Blake e eu e ao fato de ela não ter mais a companhia de Melody, que ainda estava desaparecida com Kirk em algum lugar daquela praia, ou se isso estava acontecendo porque ela tinha mesmo começado a desenvolver alguma espécie de queda por Wade, mas eu realmente ficava feliz por ela estar seguindo-o daquela forma, pois assim ele me deixava em paz.
A banda (que depois eu descobri se chamar 5Minutes) terminou seu show após tocar mais três músicas, mas não se retirou do palco porque eles é quem cuidariam da parte instrumental de nossas apresentações.
Eles passaram por todos os participantes perguntando que música cantariam e se fariam uma apresentação acústica ou não e, depois que todos nós havíamos passados essa informações a eles, a primeira garota subiu ao palco.
Ela se chamava Diana e era uma bela morena de cabelos curtos, negros e lisos e os assovios que irromperam dos caras lá fora ao vê-la sobre o palco, comprovavam a minha opinião.
Diana fez uma apresentação acústica da música Carlifornia Gurls, da Katy Perry e eu realmente curti sua voz e seu estilo de cantar. Quando ela terminou as pessoas na praia a aplaudiram com entusiasmo e, então, ela cedeu seu lugar para a segunda apresentação da noite que ficou por conta de duas garotas.
Eu não sabia seus nomes, mas ambas eram loiras, altas e magras e cantaram Black Widow da Iggy Azalea com a Rita Ora. A música era bonita, mas a apresentação que as garotas fizeram não e quando elas terminaram receberam aplausos também, mas não tão entusiasmados quanto os de Diana.
Então foi minha vez de subir ao palco e, uma vez que eu estava lá em cima, corri os olhos pela multidão a procura de Blake. Encontrei-o parado bem perto palco, ao lado de Melody e Kirk, que finalmente tinham voltado e estavam abraçados um ao outro, parecendo bastante felizes. Eu pediria a ela os detalhes sobre esse sumiço depois, mas naquele momento me obriguei a me concentrar em minha apresentação.
Eu sabia que tanto Blake quanto meus amigos esperavam que eu cantasse uma música que seguisse o mesmo estilo musical que aquela que eu havia cantado na aula de Musicalidade e Interpretação, mas eu havia preparado uma surpresinha para eles e assim que a introdução de Till The World Ends, da Britney Spears, começou a tocar e vi os olhos de Blake se arregalarem soube que eu tinha atingindo meu objetivo.
Aquela era uma música quente, porém não tão extravagante e como eu sabia boa parte de sua coreografia, decidi fazer uma apresentação completa. Minha intenção com isso era expandir meus horizontes, saber se eu poderia ir além de músicas clássicas ou românticas, mas, claro, me sentir sexy e ter os olhos de Blake grudados em mim vinham como um bônus.
Assim que comecei a cantar os primeiros versos, as pessoas abaixo de mim começaram a se animar e a mexer seus corpos de acordo com a batida e quando fiz os primeiros passos da coreografia, ouvi muitos caras assoviando e gritando coisas como “delícia” ou “gostosa” para mim.
Em outra ocasião aquilo provavelmente me incomodaria, mas eu estava afim de me divertir naquela noite, então, ignorei o que eles diziam e apenas me soltei um pouco mais, dançando e cantando como eu nunca havia feito – pelo menos não em público, é claro – em toda a minha vida.
Quando alcancei o refrão as pessoas já estavam tão animadas que até cantaram junto e pularam, tornando a orla da praia uma verdadeira bagunça e atrás de mim, na entrada do palco, eu ouvi Serena e Wade gritarem, sorrindo de orelha a orelha.
Olhei novamente para as pessoas abaixo de mim, mas por causa da agitação que havia na orla e de minha própria agitação durante a música só consegui ver Blake, Melody e Kirk por alguns segundos.
Eles pareciam satisfeitos e eu também e, quando terminei a música, os aplausos e gritos entusiasmados que recebi quase me fizeram chorar.
Eu tinha conseguido.
Tinha subido no palco e cantado para centenas de pessoas de uma maneira que eu nunca havia feito antes e eu me sentia tão realizada e contente que achava que poderia explodir como os fogos de artifício da virada do ano.
– Você arrasou! – Serena gritou, correndo até mim e se jogando nos meus braços assim que saí do palco – Foi incrível, Liss! Você fez todo mundo lá embaixo pirar!
Respirei fundo, tomando fôlego porque eu o havia perdido durante a apresentação e sorri para ela.
– Obrigada. Eu nem acredito no que eu fiz, mas foi tão... mágico. – suspirei.
– Foi mesmo! – Serena ainda estava dando pulinhos, enquanto segurava as minhas mãos.
– Ah! Eu preciso voltar lá pra baixo. Preciso ver o Blake! – gritei empolgada, mas assim que as palavras saíram de minha boca eu quis engoli-las de volta.
O sorriso no rosto de Serena desapareceu também, mas a expressão confusa no rosto de Wade, que estava parado logo atrás de nós, era bem visível.
– Você precisa ver o Blake? – ele perguntou e dessa vez não o chamou de Sr. Carson, o que seria uma vitória se a situação não estivesse fugindo do controle.
Olhei para Serena, pedindo uma desculpa porque minha cabeça estava completamente vazia, mas Serena apenas me encarou igualmente em pânico, então eu disse a primeira coisa que veio a minha cabeça:
– Ele ficou com o meu celular.
Wade me encarou, parecendo considerar a minha resposta e acho que ele teria acreditado nela se a droga do meu celular não tivesse começado a tocar, dentro da pequena bolsa que eu carregava comigo, um segundo depois.
– Quer dizer que o Blake estava com o seu celular, não é? – Wade cruzou os braços e me olhou de cima a baixo – Tudo bem, mas me diga uma coisa, Liss: há quanto tempo vocês dois estão juntos mesmo, hein?
E o que eu poderia dizer sobre o meu azar? Ele realmente não conhecia limites.
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