O Mestre - EM HIATUS
24 Capítulo Vinte e Três
Notas iniciais
“Um fracassado é um homem que cometeu um erro e não é capaz de transformá-lo em experiência.” — E. Hubrard.
[Blake]
Passar a tarde na casa de Alyssa, conhecendo sua família e ouvindo seus pais contarem histórias sobre sua infância e adolescência foi maravilhoso. Acabei descobrindo muitas coisas sobre ela, como o fato de que seu primeiro beijo foi com um primo, atrás de uma árvore de natal, durante uma festa na casa de seus tios e o fato de que ela quebrou o braço, aos dez anos, enquanto escalava uma Nogueira-pecã na antiga fazenda de seus avós paternos. Também descobri que seu amor pelo piano era uma herança de sua avó materna, que a ensinou a tocar desde que ela tinha quatro anos e que, após morrer, lhe deixou seu piano e as partituras de uma música que Alyssa só poderia abrir em seu aniversário de dezoito anos.
Obviamente, eu pedi que ela tocasse essa composição para nós após o almoço e o resultado foi uma apresentação emocionante, que deixou sua mãe e Serena com lágrimas nos olhos e fez os homens – no caso, eu, seu pai e o pai de Serena – engolirmos em seco, já que éramos másculos demais para chorarmos como garotinhas de sete anos ou, pelo menos, eles eram. Eu admito que uma lágrima quase escapou dos meus olhos também enquanto Alyssa tocava. Ser artista tem dessas coisas, sabe? Nossa alma é mais sentimental.
A questão é que ninguém podia negar que Alyssa era uma pianista incrivelmente talentosa e que sua avó havia feito um bem a humanidade ao ensiná-la a tocar. Se ao final de sua graduação ela não acabasse em alguma orquestra sinfônica ou trabalhando com um desses grandes músicos que viajam por todo o mundo, eu poderia dizer que tinha perdido a minha fé na capacidade humana de reconhecer um grande talento quando o viam.
De volta a casa dos meus pais, nós passamos bastante tempo na área de lazer, conversando com minha mãe e Sunrise, que pareciam ter se identificado muito com Alyssa e com quem ela própria também parecia ter se dado muito bem. Aquele foi um dia bastante agradável para todos nós e eu só podia agradecer por nossas famílias terem compreendido e aceitado tão tranquilamente nossa condição de professor-aluna, mas ainda sentia que faltava algo.
— Vamos sair para jantar. – comunico assim que Alyssa sai do banho, enrolada em um roupão lilás. Seus cabelos loiros ainda estão pingando água, mas eu sei que ela consegue dar um jeito nele em questão de minutos.
— Achei nós íamos jantar com os seus pais.
— Nós jantamos com eles ontem e almoçamos com os seus pais hoje. Está na hora de termos uma refeição só nossa, não acha?
Ela caminha até a cômoda e passa um pouco de hidratante nas mãos, encarando seu próprio reflexo no espelho.
— Nova Iorque é um lugar agitado. É quase impossível jantar em um bom restaurante sem ter uma reserva.
Ergo o bloco de anotações que há ao lado do telefone, na mesinha de cabeceira, até a altura de seus olhos e aguardo enquanto ela o lê.
— Você fez uma reserva no Le Bernardin¹ para essa noite? Há quanto tempo está planejando esse jantar?
— Há quinze minutos, na verdade. – abaixo o bloco de anotações e o deposito de volta em seu lugar ao lado do telefone.
— Como conseguiu uma reserva no Le Bernardin em quinze minutos? A fila de espera deles é de semanas e, isso, se você tiver sorte.
Dou de ombros.
— Conheço o dono. Ele é um cliente antigo dos meus pais. O filho dele e eu somos grandes amigos. – Alyssa me olha de um jeito engraçado – O que foi?
— Nada. – ela ri – Só estou aqui apreciando o fato de que meu namorado é um riquinho cheio de contatos.
— Espera aí. Riquinho cheio de contatos? – eu me coloco de pé – Não sou um riquinho cheio de contatos. Eu só conheço algumas pessoas.
— Tipo o dono de um dos restaurantes mais caros e mais procurados da cidade de Nova Iorque. São só alguns contatos, mas são alguns contatos de peso.
Cruzo os baços diante do peito e a encaro.
— Pode parar. Não quero que me trate como um filhinho de papai que usa seus contatos para se dar bem. Você sabe que eu não sou esse tipo de cara. Não uso outras pessoas para conquistar as coisas que eu quero. Só liguei para o Le Bernardin porque estamos em Nova Iorque e eu queria jantar com você em um lugar legal. Se quiser, posso desmarcar nossa reserva e nós podemos jantar em um daqueles restaurantes de beira de estrada. Você é quem decide.
O sorriso descontraído que se instala no rosto de Alyssa, após minha explicação apressada, me faz respirar aliviado. Com ela, eu não me importaria de me sentar em uma calçada suja do Brooklyn para dividirmos um hambúrguer, mas dispensar uma reserva no Le Bernardin, depois que Pierre Chermont, tão amavelmente, concordou em cancelar a reserva de outro cliente para nos ceder seu lugar seria uma desfeita terrível.
— Me dê vinte minutos. – ela conclui – Será uma honra acompanhá-lo em um jantar no Le Bernardin esta noite, Sr. Carson.
— Vou fingir que foi a minha agradável companhia que a convenceu a ir e, não, a comida preparada pelo adorado Chef Eric Ripert.
— Oh, Eric Ripert. – ela suspira – Ninguém prepara um Robalo com molho vilão como aquele homem.
— Então você já conhece os dotes culinários do Chef Ripert?
— Meus pais me levaram para jantar no Le Bernardin quando recebi minha carta de aprovação em Harvard. – Alyssa explica, enquanto escolhe um vestido no armário onde colocou as roupas que trouxe – Acho que eles tinham muita certeza de que eu seria aceita, pois fizeram a reserva com meses de antecedência. – ela ri – Minha mãe surtaria se soubesse que você conseguiu uma reserva em meros quinze minutos de conversa com o dono. Meu pai, provavelmente, atiraria em você.
Abro um sorriso nervoso.
— Bem, quando contar essa história a eles diga que planejei o jantar com muita, muita antecedência, ok?
— Não costumo mentir para os meus pais, Blake. – ela me lança um olhar matreiro.
— Então, não minta. Apenas omita. Por Deus, Liss, o seu pai já ameaçou me bater com um taco de baseball hoje, não quero que ele ameace atirar em mim também. – sigo para chuveiro e fecho a porta do box, o que não é suficiente para impedir que a risada delicada de Alyssa se espalhe pelo lugar. Ao que parece, ela tem se divertido muito com o nervosismo que as ameaças de seu pai causam em mim.
Nós chegamos ao Le Bernardin no horário marcado e a fila de pessoas do lado de fora, aguardando que alguém cancele seu jantar para que possam entrar, não me surpreende. Filas do lado de fora de restaurantes caros é uma das coisas que você mais encontra em Nova Iorque, mas sinto pena daqueles que escolheram fazer fila ali: ninguém desmarca uma reserva no Le Bernardin a menos que tenha terminado o relacionamento que pretendia transformar em noivado durante o jantar ou a menos que esteja morto e eu ainda tenho dúvidas quanto aos primeiros.
— Sua mesa, Sr. Carson. – a atendente, impecavelmente vestida do Le Bernardin, nos indica uma mesa próxima a parede vidro com uma cascata de água cristalina e eu a agradeço com um leve aceno, enquanto outro atendente puxa uma cadeira para Alyssa se sentar. Ele dá a volta na mesa, disposto a puxar uma cadeira para mim também, mas dispenso a gentileza e faço isso eu mesmo.
— Tratamento cinco estrelas. – Alyssa comenta quando o atendente se afasta e um dos garçons se aproxima com os cardápios e uma jarra d'água com a qual enche as taças de cristal diante de nós.
— É um restaurante cinco estrelas. Ninguém aqui espera um tratamento de qualidade inferior.
— Blake, meu rapaz. – a voz grave e educada de Pierre surge às minhas costas e, um segundo depois, ele está parado ao lado de nossa mesa com os braços abertos e um sorriso amável no rosto. Pierre ganhou mais alguns fios grisalhos desde a última vez que o vi, mas continua o mesmo cinquentão gentil e elegante de antes – Como está o seu pai?
— Ele está ótimo, Pierre. – me coloco de pé e lhe dou um abraço breve – Estou feliz em te ver de novo. Essa é minha namorada, Alyssa. – eu apresento e Pierre a segura pela mão, ajudando-a a se levantar antes de depositar um beijo em seu rosto.
— É um prazer conhecê-la, Alyssa. Blake é um homem de muito bom gosto. Você é uma mulher esplêndida.
As bochechas de Alyssa coram, mas ela sorri em retribuição.
— Agradeço. O senhor também é um homem encantador.
— Me sinto lisonjeado. – Pierre solta sua mão e se volta para mim – Bem, não quero atrapalhar seu jantar. Só passei para cumprimentá-los. Espero que aproveitem o menù que o Chef Ripert preparou para esta noite. Ah, mande um abraço ao seu velho pai por mim, Blake. Diga a ele e sua mãe para aparecem aqui qualquer noite.
— Farei isso. – Pierre deposita um tapinha em minhas costas e se despede de Alyssa com outro beijo no rosto, antes de voltar para sua sala, na área administrativa do restaurante.
— Ele é muito atencioso. – Alyssa volta a se sentar em sua cadeira e eu faço o mesmo.
— Pierre e meu pai foram colegas na universidade. – explico – Quando ele abriu o restaurante, chamou meu pai para gerenciar as finanças e todas essas questões legais. Nossas famílias costumavam passar o verão juntas, no Hawaii, todos os anos, antes de eu decidir estudar em Londres. Matthew e eu praticamente crescemos juntos.
— Matthew?
— O filho do Pierre. Fui o padrinho de casamento dele há alguns anos. Atualmente, ele e a esposa moram no Michigan. Nós nos correspondemos ocasionalmente.
— Legal. Não sabia que já tinha sido padrinho de casamento. Eu fui dama de honra no segundo casamento da minha tia Pearl. A última vez que tive notícias, ela estava em lua de mel com o quarto ou quinto marido, sei lá. Eu parei de contar já faz algum tempo.
Sorrio.
— Eu também teria parado se fosse você.
Escolhemos nosso prato de entrada, o prato principal e a sobremesa, nos deliciando com cada um dos pedidos que o garçom deposita em nossa mesa. Quando se trata de peixes e frutos do mar, duvido que exista alguém mais genial que o Chef Eric Ripert e o vinho sugerido pelo sommelier² do restaurante não deixa dúvidas do motivo pelo qual ele é considerado um dos melhores do mundo.
Alyssa e eu conversamos sobre nossas famílias, sobre nossa vida em Nova Iorque, sobre as coisas que fizemos na infância e na adolescência e sobre os grupos dos quais participamos no colegial. Fora os momentos que tivemos em meu apartamento ou na casa que ela divide com Melody e Serena, em San Diego, aquela é a única vez em que pudemos nos comportar como um casal de namorados em vez de meros conhecidos e eu adorei a sensação. Longe da universidade, sem o perigo de sermos flagrados por algum professor ou estudante, Alyssa e eu podemos realmente sentir o que o futuro nos reserva, pois ela não será minha aluna para sempre e, em breve, não teremos mais que esconder o nosso relacionamento de ninguém. Eu mal posso esperar por esse dia.
— Foi o melhor jantar que eu já tive na vida. – ela deposita a colher de sobremesa de volta no prato de seu petit gateau e sorri para mim – Eu não me importaria de trabalhar aqui de graça se eles apenas me deixassem comer um pouco disso todos os dias.
— Você se vende fácil, hein? – faço um sinal para o garçom poder retirar os pratos da mesa e quando ele se aproxima, aproveito para lhe pedir a conta. Ele assente, indicando que me ouviu e sussurra que trará a conta em um instante.
— Você poderia fazer essa proposta ao Pierre. – Alyssa continua – Duvido que ele tenha algum funcionário que trabalhe apenas pela comida.
— Provavelmente porque o governo consideraria isso uma forma de trabalho escravo e o prenderia. Ainda que a comida seja um objeto de barganha tentador.
— Uma cortesia do Sr. Pierre Chermont. – o garçom se aproxima e em vez de me entregar a conta que eu havia pedido, ele me estende uma bela garrafa de champanhe e um bilhete de Pierre dizendo que o jantar está pago e que a garrafa de champanhe é para que eu entregue a meus pais – O Sr. Chermont lamenta não poder se despedir, pois está ocupado resolvendo assuntos administrativos, mas espera que o senhor e a senhorita tenham tido um excelente jantar.
Alyssa me lança aquele mesmo olhar engraçado de quem está apenas “apreciando o fato de que seu namorado é um riquinho cheio de contatos” e eu não posso deixar de sorrir. Ela nunca vai deixar que eu me esqueça desse dia. Nunca mesmo.
— Diga ao Sr. Chermont que agradeço a gentileza. – seguro a garrafa de champanhe e o garçom acena levemente com a cabeça para mim, antes de se retirar. Volto-me, então, para Alyssa – Nem uma palavra sobre isso, mocinha.
Ela cobre a boca com a mão para evitar uma gargalhada.
— Caramba, você não estava mesmo brincando quando disse que conhecia o dono e que seus pais eram grandes amigos dele. Nunca, em toda a minha vida, alguém me deixou comer de graça e ainda me deu uma garrafa de champanhe. Muito menos o dono de um restaurante chique assim.
Reviro os olhos.
— A garrafa de champanhe é para os meus pais, mas, tudo bem. Eu entendi. Sou um riquinho cheio de contatos, né? Já era a minha dignidade tão arduamente conquistada como professor universitário.
— Ah, também não é assim. O cara provavelmente te vê como um filho. Vamos dizer apenas que ele é um tiozão muito bacana que, por acaso, é dono de um dos restaurantes mais populares de Nova Iorque. Tudo bem?
— Está tudo bem, até você começar a rir de novo. – replico colocando-me de pé – Pronta para voltar para casa, Srta. Cooper?
— Pesando cerca de dois quilos a mais, porém pronta, Sr. Carson. – ela sorri.
Seguro uma de suas mãos e a ajudo a se levantar e a se desvencilhar da cadeira com seu vestido vermelho e longo e saltos extremamente altos. Aquela cor fica muito bem nela, pois ressalta ainda mais o tom claro de sua pele e o verde intenso de seu olhos.
Já estamos do lado de fora do restaurante, aguardando o manobrista trazer nosso carro, quando um homem para ao lado de Alyssa e toca o seu braço.
— Ally? – ele questiona como se não pudesse acreditar em seus próprios olhos e a expressão no rosto de Alyssa passa do susto ao assombro completo, em milésimos de segundos.
— Dylan?!
Eu me viro para olhá-lo.
Se não me engano, Dylan é o nome de seu ex noivo. Nunca conversamos muito sobre ele, pois não era um assunto agradável para nenhum de nós, mas eu sabia o básico. Alyssa e ele namoraram desde o primeiro ano do colegial, cursaram alguns semestres de medicina em Harvard, ficaram noivos e, alguns meses depois, esse noivado acabou porque Alyssa descobriu que ele a traía. Se aquele cara era o mesmo Dylan que havia partido seu coração, eu não tinha certeza, mas a julgar pela maneira como Alyssa o encarava, eu podia apostar que sim.
— Meu Deus, que coincidência maravilhosa. Há quanto tempo voltou para Nova Iorque? – o tal Dylan pergunta com um sorriso agradável.
Ele é loiro, apenas alguns centímetros menor que eu e possui olhos castanhos claros. O terno caro que está usando lhe dá um ar altivo e maduro que eu não esperaria encontrar em um traidor de vinte e poucos anos, mas considerando os homens que estão ao seu redor – provavelmente médicos renomados –, acho que parecer mais velho foi exatamente sua pretensão ao escolher aquele traje.
Ele aguarda a resposta de Alyssa, mas ela apenas o encara como se estivesse em transe. Sua expressão é de puro nervosismo e eu não posso culpá-la por isso, afinal reencontrá-lo ali deve ter sido um choque, mas acredito que não há nenhum motivo para que ela fique nervosa. Se ele a traiu, era ele quem deveria estar nervoso com esse reencontro em vez de exibir esse sorriso feliz, como se tivesse acabado de reencontrar Jesus Cristo.
Descaradamente, me aproximo ainda mais de Alyssa e passo um braço por seus ombros. Isso parece retirá-la de seu estupor e também atrai a atenção de Dylan para mim, retirando de seus lábios aquele sorriso irritante.
— Está com frio? – pergunto e Alyssa volta seus grandes olhos verdes para mim, assentindo levemente. Se ela está mesmo com frio ou apenas nervosa demais para dizer outra coisa, eu não sei, mas, mesmo assim, retiro o meu casaco e o coloco sobre os seus ombros, antes de me voltar para Dylan – Algum problema, cara?
Ele quase se engasga com a minha pergunta.
— Não, não. Problema nenhum. – o sorriso volta aos seus lábios, mas dessa vez é um sorriso de constrangimento – Desculpe, não notei que a Ally estava acompanhada. Sou Dylan Parker. – ele me estende a mão – Alyssa e eu somos grandes amigos.
Olho para Alyssa, não com a intenção de que ela confirme aquilo, mas a declaração de Dylan parece ser suficiente para fazê-la se manifestar.
— Grandes amigos? – ela questiona lançando a ele um olhar que eu só posso descrever como mortal – Ah, sim. Dylan e eu nos conhecemos desde crianças. Certamente fomos amigos um dia. Antes de ele me pedir em noivado e me trair, é claro.
A vergonha se apodera do rosto de Dylan, mas não lhe dou tempo para formular um pedido desculpas.
— Ah, então, esse é o cara. – comento olhando-o de cima a baixo – Futuro médico, não é? Estuda em Harvard. Qual você disse que é o seu nome mesmo?
— Dylan. – ele repete parecendo um pouco orgulhoso agora que listei seus grandes feitos – Meu nome é Dylan Parker.
Estendo a mão.
— Blake Carson.
Ele aperta a minha mão e abre um sorriso convencido. Aposto que acha que pode ganhar a minha amizade e, quem sabe, uma chance de mostrar a Alyssa que ele ainda é o cara certo para ela. Pobre diabo, não sabe com que se meteu.
Após um aperto de mãos digno do macho alfa que ele pensa que é, Dylan solta a minha mão e se afasta um pouco.
— É um prazer conhecê-lo, Blake.
— O prazer é todo seu. – retruco e, mais uma vez, seu sorriso convencido desaparece e ele me mede dos pés a cabeça, antes se voltar para Alyssa.
— Você está linda, Ally. Seu namorado é um cara de sorte.
— E não é que eu sou? – puxo Alyssa para um abraço descontraído e ela parece muito satisfeita por esse abraço, de certa forma, colocar uma barreira entre ela e Dylan, O Traidor. Ele, por outro lado, não parece nada contente com aquilo. Já vi muitos caras utilizarem essa estratégia de “presumir” que o acompanhante da ex namorada é seu namorado só para vê-las corrigirem a informação ou, no mínimo, ficarem nervosas. Se corrigem, é porque o acompanhante não significa nada para elas. Se ficam nervosas, é porque a antiga paixão ainda está escondida em algum lugar ali e, com um pouco de insistência, eles podem tê-las de volta. Sinto muito por Dylan, mas, no que depender de mim, ele já perdeu sua chance.
— Vocês parecem muito bem juntos. Há quanto tempo se conheceram? – aquelas parecem perguntas simples e despropositadas, mas eu sei que não são. Felizmente, Alyssa também parece saber.
— Não que seja da sua conta, mas nos conhecemos há cerca de dois meses. E, sim, estamos ótimos, Dylan. Obrigada pela preocupação.
Sua boca se abre como se ele estivesse pronto para começar a nos interrogar, mas o manobrista estaciona nosso carro na porta e eu me adianto para abrir a porta do carro para Alyssa, antes que ele tenha a chance de dizer mais alguma coisa.
— Bem, a conversa está ótima, mas nós precisamos ir. – fecho a porta do carro assim que Alyssa se acomoda no banco do passageiro – Foi bom falar com você, Dean. David. Derek.
— Dylan. – ele me corrige, mas finjo não me importar.
— É. Acho que é isso aí. – dou a volta no carro e aceno para ele, em despedida, antes de assumir meu lugar atrás do volante e dar a partida para fora dali.
Sempre odiei caras como Dylan Parker, que traem suas namoradas pelo simples fato de achar que elas nunca o largariam e que, depois, quando elas o largam e seguem suas vidas, se arrependem do que fizeram e acham que podem tê-las de volta. Lidei com muitos caras assim nos meus tempos de colegial e durante a minha graduação e, agora, quando olho pelo retrovisor e vejo Dylan seguindo nosso carro com os olhos, nem preciso pensar muito para saber o que se passa na cabeça dele.
Alyssa foi alguém que Dylan perdeu por causa de sua própria ignorância e orgulho e que, agora que viu que ela pode ser muito feliz e bem-sucedida sem ele, a quer de volta. Isso não quer dizer que ele esteja arrependido do que fez. Posso ver que ele não está. Tudo o que ele quer é provar a si mesmo que ainda pode reconquistá-la e o olhar que vejo no rosto dele, naquele momento, diz apenas uma coisa: ele não vai desistir fácil.
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