O Menino do Espelho
1 O Menino do Espelho
Notas iniciais
...O Menino do Espelho...
Eram por volta das 01h27min a.m quando o menino acordou assustado em seu quarto, a luz do abajur em forma de coelho iluminava em tom amarelado as paredes, onde haviam inúmeros brinquedos colocados em prateleiras...
O menino ofegou suavemente com os olhos claros apertados, detestava pesadelos e agora estava com medo de sair de sua cama. Afinal, eles podiam estar lá embaixo só esperando ele por o pé no chão para sugá-lo para um outro mundo alheio a tudo ao que ele conhecia.
Desse modo, ele se encolheu na cama e pode ver a sua frente um grande espelho oval numa penteadeira antiga, que tinha ficado com a casa que eles tinham acabado de se mudar.
O menino começou a observar a penteadeira, a mãe lhe dissera que ela só ficaria ali essa noite e que no dia seguinte a desceriam para a sala, não levaram antes por conta do cansaço da mudança e de fato o único quarto que realmente ficou pronto foi o do menino. Mas era estranho, olhar seu próprio reflexo que agora parecia tranqüilizá-lo, e aos poucos as sombras do quarto que antes pareciam ser tão aterrorizantes agora estavam como sombras num desses teatrinhos que a gente vê nas escolas de peças infantis, teatro de sombras era esse o nome e ele gostava muito daquele tipo de peça.
Sua avó Odete lhe contara que antigamente eram muito comuns esses tipos de peça nas escolas, mas por que estava se lembrando disso?
Sem sentir mais medo o menino com cerca de uns nove anos caminhou até o espelho e se sentou à penteadeira observando seu reflexo, achando um pouco de graça do cabelo curto preto bagunçado e das sardas em seu rosto... Rindo já mais tranqüilo observou a quão bela era a escrivaninha, a mãe tinha passado lustra-móvel nela e agora ela estava toda brilhosa cheirando a lavanda, suas mãos pequenas tocaram a madeira de Dalbergia Nigra (vulgo Jacarandá) cheia de entalhes de pequenos anjos e ramos de flores circundando o espelho e as pequenas gavetas com chaves... Era um objeto muito bonito que renderia um bom dinheiro num antiquário já que era muito antiga desde a época de Luís XIV, e logo seus olhinhos miúdos e amendoados focaram-se ainda mais na superfície refletora, riu-se todo para o espelho e começou a fazer caretas, mas logo parou lembrando-se de algo que a avó lhe dizia:
“Não faça caretas ao espelho menino, ou o anjinho vem e sopra e você fica com a cara torta pra sempre hein...”
Parou imediatamente com medo de ficar com a cara pior do que o corcunda de Notre Dame, personagem do livro que ganhara do Pai, então voltou a olhar o espelho fazendo agora uma expressão meio vaga... Na verdade estava um tanto quanto triste por ter se mudado, agora era nova rua, nova vizinhança, nova escola... E nenhum amigo...
Já fora tão difícil fazer amigos na antiga casa, por que não ficaram por lá, por que o pai escolhera logo o campo?
“Ah... É Por causa da Mamãe... Mamãe está doente...”
Pensava ele consigo mesmo apoiando o queixo em ambas as mãos e deixando os cotovelos na penteadeira, e deixou os olhos caírem sobre um livro que o pai deixara ali para ele... Era de poesias somente feita para crianças, e o pai gostava muito de ler e incentivava-o a ler coisas úteis e boas, ao contrário das outras crianças que viviam socadas em Lan-houses viciadas naqueles jogos bobos de ficar matando inimigo...
Ele pegou o livro nas mãos e o abriu folheando algumas páginas, tinha perdido o sono afinal de contas, então talvez se lesse esqueceria o pesadelo besta e o sono voltasse...
Abriu na página 142 e havia um poema curtinho chamado “O ECO” de Cecília Meireles, e sem perceber ele começou a ler o poema em voz mais alta.
O Eco
O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: \"Onde? Onde?\"
O menino também lhe pede:
\"Eco, vem passear comigo!\"
Mas não sabe se eco é amigo
ou inimigo.
Pois só lhe ouve dizer:
\" Migo!\" Migo!\"
De Cecília Meirelles
Ele sorriu terminando de ler sentindo o sono voltando de modo gostoso, fechou o livro e quando se erguia para voltar para a cama, uma voz estranha e de criança lhe veio aos ouvidos.
-Você não poderia ler mais, por favor?
Os olhos do menino se arregalaram e ele quase caiu sentado no chão ao ver que quem falava com ele era senão seu próprio reflexo, um reflexo um pouco distorcido, mais brilhante e de caráter sombrio, mas ainda era seu próprio reflexo. Assustado pensou em correr para o quarto dos pais ou gritar por ajuda, mas seu corpo frágil e pequeno estava imóvel e saia de seus lábios apenas sons gaguejados sem sentindo algum...
O reflexo o espiava com um rosto angelical, mexendo as mãos e tocando na superfície refletora do espelho.
-Não tem medo de mim não.... Por favor, eu sou bonzinho, passei muitos anos aqui sozinho e ninguém nunca conversou comigo...
Vitor observava o reflexo ainda assustado, será que ainda estava sonhando? Se estava queria mesmo era acordar, odiava pesadelos e aquilo lhe parecia um pesadelo, ainda mais agora que o menino no espelho começava a assumir uma outra face diferente da de Vitor, os cabelos eram vermelhos como fogo compridos até os ombros só que amarrados por uma fita vermelha e os olhos bem verdes, ele também tinha sardas, só que mais presentes pelo rosto e as maças do rosto eram coradinhas na pele branca, as mãos pequeninas ainda tocavam o espelho e ele usava roupas estranhas, das quais Vitor só tinha visto em livros de História na escola... Eram calças curtas de tom vinho escuro, meias brancas, sapatos pretos bem polidos, camisa branca de babadinhos com uma gravata vinho borboleta e um colete azul marinho jogado por cima.
-Quem.... Quem é você?
O reflexo sorriu percebendo que Vitor finalmente estava começando a ficar mais tranqüilo, ele tocava a superfície do espelho, com seu corpinho magro toda a mostra, atrás dele se via um cenário típico medieval, um salão nobre que lembraria o de festas, e algumas pessoas andavam lá longe com perucas brancas na cabeça.
-Eu me chamo Jaques Danton...
-Por... Por que..... Por que você está aí? Você é real? É de verdade?
-Sim e não... Eu não sei explicar, mas se você for meu amigo eu vou ser de verdade verdadeira...
Vitor estava confuso, e finalmente sentiu firmeza no corpo de novo e se ergueu devagar, caminhando até o espelho... Tocou no espelho com a ponta dos dedos... Jaques sorriu achando um pouco de graça.
-Não tenha medo de mim... Não vou te machucar nem tenho força pra isso olha como eu sou mirrado...
E o menino do espelho fez graça tentando mostrar os músculos dos bíceps, e Vitor riu da careta que ele fazia...
-Mas... Isso é um sonho não é? Você não pode estar aí!
-Isso é um espelho mágico... Me prenderam aqui dentro muitos anos atrás, eu e aquelas pessoas lá no fundo, mas elas são adultas e nem ligam pra mim sempre me deixam sozinho, como eu sou a única criança.... Ninguém praticamente me vê...
-Adultos são mesmo muito chatos, exceto a minha vó Odete.
O menino do espelho fez uma expressão triste quase de choro, e Vitor podia jurar ter visto uma lagrima se formar, mas parecia que Jaques não queria que ela caísse...
-Desculpe... É que... Eu sinto saudades dos meus pais... Da minha mãe, dos meus avós...
-O que aconteceu com você Jaques?
-Como eu disse, eu fui preso aqui... Eu tinha ido colher amoras junto com as outras crianças do vilarejo e encontrei uma casa antiga, fiquei curioso e entrei.... Ai vi um grande espelho oval e me aproximei, quando cheguei bem perto... Uma velha estranha me empurrou e eu fiquei aqui dentro.... Preso... Para sempre...
-Eu não posso tirar você daí?
-Acho que não... Você não é bruxo ou mago para isso... A velha que me empurrou era uma feiticeira do Rei Luís...
-Que coisa de doido.... Mas Jaques... Se eu não posso tirar você daí o que eu vou fazer?
-Você pode só conversar comigo, ser meu amigo quando estivermos aqui sozinhos... Ninguém nunca me ouviu ou me viu, em todos esses anos, você foi o primeiro.
Vitor ficou pensativo, mas acabou sorrindo e concordando tocando as mãos pequenas e trêmulas no espelho como se quisesse apertar as mãos de Jaques.
-Está bem então, se amanhã eu acordar e isso não tiver sido um sonho serei seu amigo.
-Mas você tem que guardar segredo e não deixar ninguém tirar o espelho daqui do seu quarto, senão eu nunca mais vou conseguir falar com você.
-Está bem Jaques! Só que... Eu tenho que dormir.... Estou com sono....
-Eu também estou... Qual é o seu nome?
-Vitor, espero que isso não seja um sonho, tá muito legal para ser um sonho...
-Ehehe... Não, não é não. Agora vamos dormir... Até amanha Vitor
-Até Jaques
Vitor correu para sua cama e se jogou nela, deitou – se de lado observando o espelho, agora era novamente seu reflexo lá deitado... Aos poucos o sono foi vindo devagarzinho sobre seu corpo, que amoleceu de cansaço da viagem e da mudança e deixou-se esparramar na cama...
O quarto ainda iluminado pela luz do abajur de coelhinho, dava novas sombras aos brinquedos e no Espelho Jaques sorria com suas franjas vermelhas cobrindo sutilmente seus olhos, e o menino do espelho apenas murmurou baixo com um estranho e sombrio sorriso nos lábios:
-Mas não sabe se eco é amigo
ou inimigo.
Pois só lhe ouve dizer:
\" Migo!\" Migo!\"
E ainda com aquele sorriso... Jaques desaparecia lentamente do espelho esmaecendo-se como névoa que se dissipa sobre um lago...
Continua...
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