Notas iniciais
O quão forte é o abraço de uma mãe? O quão forte são os laços familiares que nos protegem?
Escuridão

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Aquele inverno era o mais frio do que Vitor já presenciara em sua vida, em sua curta vida de seus onze anos... Ele agota estava sentado diante da Lareira e ficava olhando as labaredas dançando, enquanto nas mãos tinha uma xícara de chocolate quente.

Vó Odete tricotava para ele um suéter, enquanto a mãe lia um livro na poltrona branca e o pai verificava na mesa de jantar as contas do mês...

O aparelho de som deixava tocar uma linda musica clássica, uma melodia forte que lembrava Vitor o som de soldados marchando... O pai dissera a ele que o músico que criara aquela melodia se chamava Ludwig van Beethoven, um gênio da música era o que seu pai sempre dizia...

Mas Vitor não tinha cabeça para pensar naquilo agora...

Não depois daquela noite...

Haviam se passado três dias, desde que ele vira o monstro no espelho aonde Jaques sempre vinha... E agora Vitor não conseguia mais chegar perto do próprio quarto... Ou de algum outro espelho...

Se ele fechasse os olhos, ele ainda conseguia ver em sua mente aquela profudeza de azul do olho esquerdo do monstro, do sangue que tingiu a superficie do espelho, do rosto estranho que Jaques fizera ao atacar o monstro.... Não parecia ele, não parecia mesmo....

Os pais estavam um pouco preocupados, mas o médico explicara que tudo era apenas a imaginação de uma criança e que logo o pequeno Vitor perceberia que tudo não passava de um sonho...

Uma ilusão...

Realmente talvez assim fosse e talvez Jaques nunca fora real e tudo não passasse de apenas uma brincadeira boba que Vitor criara, como o amigo imaginário que muitas crianças possuem, mas o pequeno Vitor já não mais conseguia se conter...

Dentro de si havia um desespero o consumindo, uma vontade que ele queria negar, mas não conseguia mais... Ele queria rever Jaques...

-Jaques...

Vitor murmurou baixo olhando para o fogo... A mãe que ouvira a voz do filho o olhou com um semblante preocupado...

-Disse algo querido?

Os olhos do menino fitaram a mãe com uma certa doçura e este lhe respondia que não com a cabeça, erguendo-se e abraçando a mãe com carinho, não soube explicar, mas naquela noite sentiu uma imensa vontade de abraçar a mãe com todo o amor que possuía dentro de si, e ela lhe retribuiu aquele afeto com o mesmo carinho...

Deu boa noite a todos e deixou claro que naquela noite dormiria em seu próprio quarto...

O pai gostou daquela atitude corajosa de seu filho e o parabenizou por enfrentar seu medo, e vó Odete também concordava, mas passaria mais a noite para ver como o netinho estaria dormindo...

A mãe por sua vez, sentiu um tipo de calafrio ao ver seu filho subindo as escadas para o piso superior onde ficava a maioria dos quartos da casa, não sabia por que, mas estava com uma sensação estranha... Seu filho parecia ultimamente tão abatido, tão pálido... O modo como ele também a abraçara, a deixou inquieta, dava para sentir o coraçãozinho dele palpitando... Aquela história de monstro também a intrigara, Vitor nunca antes tinha tido aquele tipo de problema e sempre fora uma criança tão tranquila... Além do mais aquela notícia que lera no jornal sobre o que acontecera no Hospital Marrie Paullete a fez ficar ainda mais preocupada, não conseguia deixar de sentir um medo estranho por dentro, afinal àquilo que acontecera ao pequeno René acontecera na mesma noite e quase no mesmo horário em que Vitor tivera aquele pesadelo terrível...

O menino René, sofrera um atentado de um criminoso doentio, uma criança incapaz em todos os aspectos de se defender, o jornal dizia que alguém invadira o quarto onde o menino em coma estava, e o espancara e como se não bastasse ele ainda fora cortado no ombro esquerdo com algum objeto fino e cortante, a perícia desconfiava de um bisturi, mas não encontraram nada no local, nenhuma impressão digital ou sinal de arrombamento e por isso desconfiavam que se tratava de alguém que trabalhasse no hospital...

Aquilo preocupava a mãe, mas ela não sabia explicar nem para si mesma o porquê, nem porque se lembrara de que era aquele menino que vivia implicando com seu filho na escola há dois anos atrás, e que o “acidente” do jovem René tinha acontecido no quarto dos pais, onde havia um grande espelho que havia sido quebrado...

Quem contara isso fora Ellana que era a empregada no dia e que encontrara o menino, contara isso quando as duas se encontraram uma vez no supermercado...

Mordendo os lábios com aqueles pensamentos ela suspirou baixo, pensativa olhando o filho subir de modo lento cada degrau da escada, parecendo um boi que ia para o matadouro...

E muito ainda não tinha explicação na mente de Vitor.

Dois anos ele se transformara completamente, de um menino tímido a um menino que todos querem ter por perto, de corpo saudável e forte e uma inteligência invejável...

Vitor sabia... Que fora graças a Jaques que ele conseguira tudo aquilo.

Seus amigos, seus melhores momentos, todos só puderam acontecer por que Jaques estava lá, sempre dizendo a Vitor como agir... Como proceder em casa situação difícil...

- Jaques....

O menino de cabelos negros que já estavam quase na altura da orelha fitava a porta do quarto, e respirando fundo ele tocou na maçaneta da mesma, sentindo um vento gélido vir do corredor... A maçaneta girava devagar produzindo um som quase bruxelante aos ouvidos de Vitor, que abrindo revelou seu quarto mergulhado em escuridão profunda... A respiração acelerou... As pernas começaram a tremer de leve e uma de suas mãos começou a tatear na parede ao lado em busca do interruptor....

“Cui..dado....Jaques...é...”

Lembrança ainda ativa da voz daquele monstro em sua cabeça, daqueles lábios pútridos e costurados movendo-se com tamanha dificuldade e depois aquele jato de sangue que pareceu tingir a superfície do espelho, revelando para Vitor um Jaques sombrio... Tingido de vermelho...

-Vi.. tor...

O menino arregalava os olhos, onde estava o maldito interruptor? Aquilo?... Era o monstro chamando ele? Ele ouvira claramente... Sim... Alguém dissera seu nome...

-Achei!

O interruptor finalmente era acionado e quarto finalmente era iluminado... A cama de solteiro com colcha azul de naves espaciais continuava lá, o tapete do “Batman” que ganhara do pai também estava lá assim como todo o resto do quarto... Incluindo a Penteadeira...

-Es.. Está tudo normal...

Seria mesmo coisa de sua imaginação... Sim... Só poderia ser, tinha que ser Jaques não era real! Jaques era um amigo imaginário!

-Ele... Não é real...

Vitor dizia se aproximando do espelho... Olhando fixamente para ele, como se hipnotizado pelo próprio reflexo... Um calafrio corria por todo o corpo, o coração estava acelerado... Mas por quê? Por que de repente começou a se sentir tão acuado? Ínfimo perante o seu próprio reflexo??

-Ja... Jaques...

Vitor então arregalou seus olhos... A imagem no espelho, seu reflexo mudou estranhamente, era ele... Mas... Seu rosto... Estavam pálido, seus olhos era apenas negrume puro e havia sangue em suas mãos...

-Eu..?

Vitor sentiu-se fraco de repente, seus olhos ficaram semi-abertos, ele deu um passo à frente esticando seu braço para o espelho, como também esticava seus dedos tentando tocar a superfície refletora...

-Eu... Sou?...

Era estranho, tudo pareceu girar de repente... Mais um passo e os dedos já podiam sentir a superfície gélida do espelho, mas de repente Vitor sentia-se sendo puxado com uma força poderosa que o envolvia em braços calorosos

-Filho! Filho!!

A mãe o segurava com força tentando fazê-lo voltar a si, Vitor arregalava um pouco os olhos, confuso...

-Ma.. Mamãe? O que... O que houve???

-Quer matar sua mãe de susto menino? Que brincadeira foi essa??? Por que não me respondeu quando eu te chamei!

-Eu... Só... Estava me olhando no espelho mamãe, acho que fiquei distraído...

-Você parecia um zumbi menino! Amanhã mesmo eu vou mandar seu pai levar esse espelho pro antiquário!!!

-NÃO!!!!

O grito do filho surpreendera a mãe, que sentiu as pequenas mãos de Vitor a envolver as suas...

-Não mamãe eu preciso do espelho! Eu tenho que enfrentar o meu medo como o médico disse!

-Vitor! Não me responda! Esse espelho vai embora! Se não for amanhã, será logo!

-Mas... Mamãe...

-Nada de mas! Se o seu pai já não tivesse ido dormir eu já falaria logo com ele!

O menino suspirou de leve... Olhou o espelho, mas só viu o reflexo de si e da mãe, e as outras coisas que haviam no quarto...

-Mamãe... Eu preciso dormir essa noite aqui, vai ficar tudo bem... Você vai ver... Que não tem nada nesse espelho, o médico estava certo... Foi só minha imaginação...

O sexto sentido da mãe parecia gritar em alerta, mas seu filho de onze anos estava falando uma coerência, e a atitude que estava tomando realmente parecia não ter cabimento...

Beijou suavemente o rosto de seu amado primogênito e se ergueu o levando para cama.

-Então durma logo, que já é quase meia noite... Ficarei aqui com você até que durma tranquilamente e depois vou para o meu quarto está bem?

E então entre os afagos e canções de ninar de sua mãe, Vitor logo adormeceu e a doce mãe se erguia o cobrindo melhor... Olhou o espelho com certa intensidade respirando fundo...

Não queria admitir... Mas aquilo que ouvira de Ellana a incomodava...

“Quando eu socorri o menino, eu notei que havia cacos por quase todo o quarto... Era como se o espelho tivesse explodido! A policia e os médicos disseram que o espelho podia ter se quebrado pelo próprio menino, mas eu conhecia o pobre René, era desses meninos valentões, mas jamais faria algo como aquilo!... Aquilo não parecia coisa de gente não... Aquele espelho... Dava pra sentir que algo muito ruim tinha acontecido dentro daquele quarto...”

Ela fechava a porta do quarto, com tais pensamentos em mente, e então caminhou para o seu próprio quarto no corredor do segundo andar... Sentiu um vento gelado e viu que uma janela estava aberta....

-Ai, ai... Minha sogrinha esqueceu dessa janela aqui?

Lentamente ela se aproximou da janela que abria para fora e nas pontas dos pés tentou alcançar o trinco, sentindo certa dificuldade de alcançar o mesmo...

-Quase... Por que eu tenho de ser tão baixinha assim?

-Porque para mim é bem mais fácil pra te empurrar!

-QUE?

Ela arregalara os olhos com aquela voz maquiavélica que vinha aos ouvidos e sentia como se muitas mãos a empurrassem....

-AHNN!!!!

Pendurada no parapeito a jovem mãe, olhava incrédula... Nos vidros da Janela, haviam inúmeras sombras refletidas, distorcidas e com aspectos bizarros. Dentre elas havia uma que parecia um menino sorrindo...

-Você tinha que se meter não é? Não podia continuar uma boa mãe apenas um pouco doente? Mas não, você tinha que melhorar e querer vir pra estragar tudo!

-Quem... Quem é você? Querido! Socorro! Roberto! Querido!!!!

-Ninguém vai te ouvir... Assim como ninguém ouviu Vitor gritar no instante em que ele gritara... Eu posso controlar as ondas da sua voz e fazer com que ela só seja ouvida apenas quando me for conveniente!

Uns tentáculos começavam a sair de dentro do vidro da janela e começavam a soltar os dedos dela do parapeito...

-Não! Seu... Demônio! Pare!

-Não... Você tem que pagar! Era para que você fosse uma boa mulher, sua estúpida por que tinha que dar ouvidos aquela serviçal imbecil??? Era para você ser a minha nova mãe!!!!

- O que??? Para! Socorro! Roberto! Querido me ajudaaa!

-Seu marido?... He!... Ou melhor, dizendo... O meu futuro papai não vai te ouvir....

-Quem é você!

-Eu sou....

A sombra dizia rindo, uma risada estranha e diabólica que pareceu ressoar por todo lugar...

- He!...Eu sou seu filho não me reconhece mamãe???

Eleanor a bela senhora dona daquela casa, então viu que a sombra no reflexo da janela, era alguém muito parecido com seu amado e pequeno filho...

-Vi..Vitor???

Os olhos arregalados encheram-se de lágrimas e as mãos foram soltas do parapeito, o corpo frágil e magro mergulhou na escuridão da noite entre os flocos de neve, um grito de terror pode ser ouvido por toda a casa, Roberto o marido acordava desesperado ao ver que sua esposa não estava ao seu lado na cama, e Vitor acordara arregalando os olhos correndo e abrindo a porta do quarto aos tropeços.

No corredor a janela estava aberta com cortinas brancas ondulando no vento... O pai e a avó já estavam lá... Fitando aquilo que acontecera...

Vitor correu, mas sentiu a avó o segurando...

-Não olhe... Não olhe pra lá!

Vó Odete chorava, O pai parecia não acreditar no que via... No chão, entre a neve havia uma grande mancha de sangue e sua amada esposa, a qual jurou proteger no dia de seu casamento, agora estava lá... Inerte em sua camisola longa branca, tingida em sangue....

-Que...rida?...

Trêmulo o marido balbuciava e Vitor só confirmava o que sua Vó não o queria deixar ver, era sua mãe lá embaixo mesmo que ele não a visse, estava claro... Sua mãe havia caído da janela...

Sem que ninguém percebesse naquele desespero em que estavam... De chamar uma ambulância, de verificar se a pobre mulher sobrevivera da queda do segundo andar da casa... Sem que ninguém percebesse no Vidro da Janela, mais uma vez Jaques estava sorrindo diabolicamente, cercado por suas sombras malignas e perversas...

- Faltou pouco essa noite Vitor... E está ficando cada vez mais perigoso... Não dá mais pra esperar... Logo... Eu deixarei esse maldito mundo de espelhos... Logo, meu amado e querido amigo Vitor....

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Continua...