O Menino do Espelho
4 ...Consequências...
...Conseqüências...
O acidente de René mexera com ele, fora justamente no momento em que ele desejara que René sumisse e ao mesmo tempo em que se sentia culpado, não pode recusar que por dentro, bem no fundo de si mesmo, sentiu um imenso prazer em ter seu “inimigo” sofrendo como estava na cama de hospital... E ele se sentia estranho por isso...O Pai comentara que o pobrezinho, parecia morto — vivo com seu olhar apático e sua expressão tão torta e sem vida... Engolindo em seco, Vitor tentava parar de pensar naquilo, mas não conseguia evitar pensar que René merecia aquilo e acreditava que muitos ali na escola concordavam com ele, alguns entre cochichos riam mencionando o quanto não suportavam René... Enquanto outras crianças lamentavam...“René fizera por merecer...”“René era um menino ruim...”“René... Estava pagando pelos seus pecados...”E Vitor...Tentava acreditar nisso... Tentava acreditar que essas palavras que não paravam de passear por sua mente estava certa, e acima de tudo, evitava olhar para os pais de René que estavam sentados nos primeiros bancos da Igreja, rezando com toda a força que suas almas poderiam ter...Os dias foram passando, e Vitor assim como as outras crianças foi seguindo a rotina da escola, voltando a conversar com Jaques em suas noites, o mais estranho é que depois do que aconteceu com René, quem passou a ser o centro das atenções na escola foi Vitor.... Arrumou novos amigos que sempre que podiam pediam ajuda com as lições de casa, solicitavam sua opinião para a peça da escola que fariam sobre as estações do ano, e até deram a ele o papel de sol, o mais importante da peça.Nesse meio tempo Jaques aconselhava Vitor em como agir, ensinou coisas a ele como etiqueta e op modo certo de se portar perante a pessoas mais velhas, o que lhe rendeu bons pontos com as freiras e madres e mais sobre a história da revolução francesa, além de brincadeiras antigas que Vitor fez com que se popularizassem na escola, coisas como pular cela, chicote queimado, barra manteiga, rouba bandeira, e tantas outras que nem tinham um nome certo e isso fez com que muitas crianças até esquecesessem um pouco do computador e videogames... Todos os dias para muitas haviam se tornados preciosos momentos de Aventuras, de sonhos e monstros imaginários, de armaduras reluzentes e altivas espadas... Nos fins de semana as crianças vinham visitá-lo e andar pela chácara, cativando-as ainda mais quando mostrava os cavalos e como ele montava bem aqueles animais, os pais de Vitor agora em casa riam ouvindo o som de crianças brincando pelos campos nevados e a tarde, era servido um delicioso lanche com chocolate quente e panquecas, e era quando Vó Odete começava a contar lindas e antigas histórias do tempo em que era menina, as crianças logo comentavam entre si, o quanto era gostoso ser amigo de Vitor, e como era lega ir al sua casa, andar a cavalo, conhecer comidas novas, ouvir histórias e muito, muito mais... Tudo isso fez com que o Caipira Brasileiro se transformasse num estimado colega de classe do qual quase todo mundo queria a amizade...E como o tempo sempre está passando logo a primavera chegava e o jovem René havia sido esquecido... Somente os pais iam visitá-lo, perguntando a Deus porque tamanha desgraça tinha que ter acontecido com seu único filho que em momento algum, apesar de todos os tratamentos, exames, remédios e até cirurgias, em nenhum momento ele reagia... Continuava a ser uma massa de carne distorcida, desfigurada e torta que respirava lentamente... A mãe estava apática, o pai mal conseguia trabalhar, e René... Continuava com seu rosto pequeno e desfigurado, todo torno naquela cama fitando o teto com aqueles olhos quase brancos como o de um cego. Em alguns momentos tinha ataques, gritava como um louco, como se sua alma estivesse na presença do próprio diabo, seu corpo tremia, sua boca salivava em uma espuma espessa e seu coração ameaçava parar a qualquer instante, sendo impendido de morrer apenas pelos médicos que chegavam correndo com seus calmantes e remédios, aplicados diretamente na veia... Nessas horas o menino, o que sobrara dele, fechava os olhos muito devagar, até perder o sentindo em lágrimas silênciosas a lhe escorrer pela face... Era demais para a mãe, era demais para o pai....
E Jaques... Bem, Jaques sorria olhando a alma do novo bobo da corte chorando encolhido entre as muitas almas que estavam ali, implorava mil vezes para que Jaques o soltasse, mas o menino que mora no espelho mesmo com seu sorriso angélico tinha uma essência cruel digna de um demônio e passava horas acariciando os cabelos que restara ao novo bobo da corte sempre dizendo:-Não posso... Agora você é parte da família...Acabava sempre rindo muito com a visão do Bobo se escondendo nas sombras fugindo das outras almas, que adoravam surrá-lo e causar dores a ele dignas de um inferno, só para sentirem prazer em vê-lo sofrer, afinal.. Ele era um dos bobos da corte, era para isso que ele servia assim como tantas outras almas que estavam presas ali para sempre... O Bobo todo torto, se arrastava em seu próprio sangue, fugindo como uma presa foge de seu caçador, aquelas mãos logo o alcaçavam e rasgavam sua carne, comiam-lhe pedaços, batiam e se divertiam o tanto que podiam, e depois como se não satisfeitas essas mesmas mãos costuravam sua carnem de modo devagar e cruel, apenas para ouvir o Bobo gritar e gritar ainda mais, fazendo com que seus gritos se ecoassem pelo lugar... E Jaques ria gargalhava com um prazer insano ao ver aquelas “brincadeiras” sendo feitas com a alma de René... Logo Jaques voltava-se para uma sala, repleta de espelhos onde ele podia ver seu adorado Menino, e seu sorriso crescia vendo o quanto, seu menino Vitor estava progredindo... -Você tem muito Potencial Vitor.... Muito potencial.... Continue assim, feliz e brincando... Continue assim.... Como eu nunca pude continuar...Ele dizia isso vendo Vitor com mais dois meninos brincando com um autorama no quarto, enquanto a avó vinha trazendo leite e biscoitos de chocolate...Jaques não podia conter sua felicidade, era simplesmente maravilhoso! Ah como estavam unidos! Sempre cochichando escondidos à noite, rindo um com o outro, fazendo planos, lendo juntos, eram já unha e carne e mais e mais os Pais iam notando em Vitor uma boa mudança, estava mais sociável, se interessava mais pelos estudos, até pedira ao pai para colocá-lo no clube de natação da escola no verão....Vitor mudara... E para melhor... E ninguém sabia que o motivo dessa mudança era por conta de Jaques... Nem mesmo Vitor se dava conta disso... Estava tudo acontecendo tão rápido e tão constante que ele não percebia, mas nunca se esquecia de Jaques, mesmo se quisesse não poderia, sentia-se preso a ele de alguma forma, talvez fosse pena, por Jaques nunca mais poder sair daquele espelho, e como era seu único amigo Vitor faria isso até o fim dos seus dias... Estaria sempre com Jaques... E Jaques estaria sempre com ele...Tudo estava perfeito... E isso... Durou por dois anos... Dois longos anos de conquistas e merecimentos, Vitor se tornara não só um excelente aluno tornara-se um excelente filho e um excelente amigo, para todos os que merecessem sua amizade... Mas em certo dia... A Noite.... Um som abafado prencheu o quarto com o teto repleto de estrelas e planetas... As sombras do quarto pareciam crescer e diminuir e o vento lá fora castigava as árvores, ameaçando chover... Um relâmpago e Vitor abre os olhos assustados, seu quaro está escuro... O que teria acontecido com a luz? Será que acabara a energia? Pensava o menino já ficando assustado...-Jaques? Murmurou Vitor baixinho se encolhendo sentado na cama, puxando a coberta até os lábios e a mordendo receoso... Seus olhos percorreram todo o quarto até que finalmente estes seguiram para o espelho oval da penteadeira, Vitor se ergueu, caminhando bem devagar com a coberta enrolada no corpo, estava tção escuro que algumas vezes ele tropeçava em alguns brinquedos, ele caminhou até a penteadeira, abrindo uma das gavetas, encontrou lá algo que guardara para situações como aquela... Uma laterna...Quando a ligou quase teve um treco, podia jurar que tinha visto uma sombra no espelho, mas agora o que estava ali era o seu reflexo bobo e assustado... Ele respirou lentamente e então olhou-se no espelho, percebeu como havia crescido estava agora com onze anos e as aulas de natação tinham lhe feito bem, seus ombros estavam mais largos e ele devia ser mais alto que a maioria dos de sua classe...-Hey Jaques! Está aí? Vem ver, meus ombros estão mais largos! Ele falava matreiro com um sorriso bobo na face e então como sempre o espelho começava a mudar diante de seus olhos, mostrando aquele cenário de uma corte francesa ao fundo... Vitor ainda sorria, ansioso por ver o rosto de Jaques, mas pela primeira vez Jaques não estava no espelho... E sim... Uma outra pessoa, um monstro!-AHNN!Era uma criatura horrorosa, cheia de cicatrizes em carne viva espalhada pelo corpo, corcunda e torta, possuía características humanóides como braços e pernas, seus pés eram estranhos como se virados pra dentro, alguns dedos pareciam tão tortos como se alguém os quebrasse no sentindo contrário, suas mãos estavam grudadas uma na outra de um jeito bizarro e alguns dedos estavam cortados de onde alguns vermes caiam, a boca era quase desdentada e os poucos dentes que estavam a mostra eram finos e pontiagudos como presas, a criatura tinha um único olho de um azul muito intenso, o outro estava coberto por uma camada de pele moribunda, como se tivesse sido costurado, assim como sua boca que estava costurada de fora a fora. No Alto de sua cabeça um chumaço de cabelo aparentemente louro, mas muito sujo... Vitor estava caído no chão e rastejando foi se encolher contra a madeira dos pés da cama, apavorado com aquilo. Onde estava Jaques? De onde viera aquele monstro terrível!?A criatura por sua vez tentava se mexer, parecia ter muito dificuldade naquilo, a cada vez que um dedo se mexia, um braço tentava se erguer um pouco de sangue esguichava da pele, batendo contra a superficie do vidro do espelho.... O monstro movia a boca, mas nenhum som saia, só alguns chaiados de voz, semelhante quando estamos roucos, a criatura forçou mais e foi naquele momento que Vitor se apavorou ainda mais, quando conseguiu entender uma única frase dos lábios da criatura...-Vi..Vito..so..corro... Cui..Dado...Jaques é...Mas antes que Vitor terminasse de entender o que a criatura estava tentando lhe dizer, ele só viu uma grande quantidade de sangue vermelho vivo jorrando do ombro esquerdo da criatura, que urrou um grito doentio se encolhendo de dor num canto... Os olhos de Vitor estavam arregalados, e ficaram ainda mais assustados ao Ver Jaques com um sabre fino em mãos...-Seu monte de Lixo! Era a primeira vez que Vitor via Jaques falando daquele jeito, nunca antes vira Jaques tão hostil, ele chutava a criatura que parecia tentar se rastejar para as sombras dali... Jaques respirava fundo, virando-se para Vitor, seus olhos e suas feições voltavam a ser as mesmas de sempre...-Vitor... Você está bem? Ele te fez alguma coisa?-.........Vitor não conseguia responder, ainda estava apavorado com o que vira, o pai abria a porta do quarto de repente e a imagem de Jaques desaparecia do espelho...-Vitor! Filho! O que houve???....O Pai olhava seu filho, tão pálido como um fantasma, pegava o menino no colo o tirando do chão...-O que foi meu Filho!? Teve um pesadelo é isso? Caiu da cama???Vitor ao perceber que estava no colo do pai, o agarrou apavorado, estava todo trêmulo, inconscientemente murmurava entre soluços...-Um monstro!!!! Tinha... Um monstro... No espelho... No espelho...A mãe chegava e logo depois à avó, o grito de Vitor tinha ecoado na casa inteira, embora, por algum motivo estranho só fora ouvido poucos minutos depois de Vitor gritar, o tempo exato daquela cena bizarra acontecer diante dos olhos do menino...O pai tentava consolar o filho dizendo que tinha sido só um pesadelo, mas Vitor sabia que não... Sabia que era real... E o pior... Jaques também sabia...Duas horas depois Vitor estava deitado na cama dos pais, no meio entre eles, seus pais já dormiam, mas ele estava assustado... A imagem daquela criatura não saia de sua mente... E sua voz... Sua voz lhe parecia tão familiar...Oculto Jaques observava nervoso, muito irritado, via o “bobo da corte” apanhando feio das outras almas...-Eu devia te matar seu imbecil... Quase me coloca tudo a perder... Logo agora... Que eu estou tão perto...E o Bobo encolhia-se como podia, sofrendo as torturas que as outras almas faziam com ele, seu único olho azul chorava, implorando ao menino de cabelos de fogo.
-Ca...sa.... ma...mãe.... quer...voltar....deixa....casa....-Ora façam esse desgraçado calar a boca!Jaques gritou vendo o Bobo sendo levado pelas almas...A chuva já tinha começado a cair, e o hospital parecia silencioso e calmo, alguns médicos estavam em plantão e quase não tinha tido nenhuma emergência ou pacientes graves... Um bálsamo para um hospital tão grande como aquele... Eram por volta da meia noite e uma enfermeira fazia a ronda noturna... Verificava os quartos e seus pacientes, dava medicações e agora entrava no quarto 175, ela não gostava muito de entrar naquele quarto, sentia seu coração apertado toda vez que olhava aquele garotinho... \"Porque os pais ainda o matêm vivo? Era só assinar os papéis e a alma do pobrezinho estaria livre para ir de encontro aos braços de nosso Senhor...\" Pensava a enfermeira consigo criando coragem e então finalmente abrir aquela porta, mas ao abri-la um grito ecoou pelo corredor do hospital, um grito de terror... A enfermeira não parava de gritar apavorada, bem diante dela, naquele leito o paciente estava todo sujo de sangue, havia inúmeros cortes em seu frágil corpo, que tremia e se contorcia na cama, por algum motivo os fios dos aparelhos tinham se desprendido e ele estava perto de um infarto. Médicos foram acionados, seguranças e enfermeiros... Os médicos corriam em auxilio, a família era avisada, os especialistas não entendiam, e a policia fora acionada...Todos tentavam entender o que havia acontecido ao paciente René Willy Vileneuve...Isolado... Caído de dor em um canto estava René.... As almas finalmente o deixaram quieto... René chorava assustado, no fundo ele ainda era só um menino, sentia dores terríveis pelo corpo todo, e mal respirava... Espiava Jaques, olhando Vitor dormindo na cama dos pais, uma lágrima caia de seu único olho azul, ele queria voltar para casa, ele queria pedir desculpas a Vitor... Ele queria avisá-lo do que ia acontecer... René soltou um ultimo suspiro. um murmúrio baixo antes de fechar seu olho e adormecer... -Vi...tor.....
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