Como eu digo, o único dom que me salva é a distração. Ela preserva minha sanidade. Ajuda-me a aguentar, considerando-se há quanto tempo venho fazendo este trabalho.

Mesmo assim, você pode se perguntar: por que é mesmo que ela precisa de férias? De que ela precisa se distrair?

O que me traz à minha consideração seguinte.

São os humanos que sobram.

Os sobreviventes.

É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em muitas ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça, mas, vez por outra, sou testemunha dos que ficam para trás, desintegrando-se no quebra-cabeça do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles têm corações vazados. Têm pulmões esgotados.

O que, por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite, esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a cor. É a história de três desses sobreviventes perpétuos — especialistas em seres deixados para trás.

É só uma história, na verdade, sobre, entre outas coisas:

*Uma menina

*Algumas palavras

*Um menino com cabelos de vela

*Uns alemães fanáticos

*Um lutador judeu

*E uma porção de roubos.

Vi três vezes a menina que roubava livros.

Notas finais
Nos capítulos, haverão alguns trechos do livro, para acrescentar realismo à história.