O Menino com Cabelos de Vela
5 Um Judeu Mortificado
Notas iniciais
Enquanto as bombas choviam na rua Himmel e o céu se transformava no inferno, um judeu com cabelos de graveto fugia para dentro de um bosque de árvores mortas situado no final da rua Grande Strasse, por onde passava uma comitiva de mortos-vivos com pijamas listrados de azul.
É claro, o judeu alcança o bosque. Mas ele não encontra a pequena menina com uma estranha compulsão por roubos e o Jesse Owens alemão. Não imediatamente. Não é assim que as coisas funcionam.
E agora, vou lhes explicar porque, logo a rua mais pobre da cidade, dentre tantas outras, foi bombardeada. Foi, pura e simplesmente, um erro de cálculo. Após a destruição da rua Himmel e de ver o que um erro insignificantes em números rabiscados às pressas em um papel causou, passei a valorizar o poder da desprezível matemática.
***
Max Vandenburg estava exausto. Sentia-se morto. Nada o motivava a dar o próximo passo em direção a mais sofrimento, senão Liesel Meminger. Tirando a menina, nada mais lhe importava. Rezava à noite para, no próximo dia, não acordar. Mas ele sempre o fazia. E sempre que abria os olhos era como se nada houvesse acontecido. Era como se despertasse no porão do número 33 da Himmel, e ele quase podia sentir o cheiro de tinta que preenchia o ar em volta de seu colchão em baixo da escada. Mas, um segundo depois, todo o seu mundo de felicidade fantasiada evaporava, restando apenas mais dias negros por vir, sem nem vislumbrar a luz cálida da esperança. E era isso que o derrotava.
O único motivo de ele não me procurar, como muitos faziam naqueles tempos, era a pequena sacudidora de palavras .Ela não deve ser mais pequena, pensava, deve ter se tornado uma mulher. Max sempre se lembrava dela quando sua vontade fraquejava. Precisava voltar. Voltar para Liesel, sua única amiga, a roubadora de livros. E assim, o lutador judeu foi sobrevivendo até o dia em que ganhou a liberdade e perdeu a esperança.
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