O Menino com Cabelos de Vela
7 Que tal um beijo,Saumensch?
Notas iniciais
Liesel observava as bombas caírem como flocos de neve. Não, pensava, isso não. Como aquilo poderia estar acontecendo? E as sirenes? Os avisos? Os gritos no rádio? Foi tudo muito tarde.
Ela tentava se convencer de que estava tudo bem. Papai e mamãe estavam deitados em suas camas sonhando sonhos coloridos e alegres. Max não estava desfilando pelas ruas lotadas de sádicos expectadores. Todos estavam seguros sobre a proteção de suas cobertas e da escuridão que os cercava à noite. Mas a menina não era tola. Sabia que, quando retornasse para o que restasse de sua casa, encontraria os pais, ainda adormecidos, mas com a vida evaporando de seus corpos como as gotas de orvalho ao serem tocadas pelo sol da manhã.
[...]
Ela e Rudy passaram a noite no pequeno bosque, esperando. Pelo que, não sabiam. Em certo momento, Rudy percebeu que a menina adormecera com as costas apoiadas contra o tronco de uma árvore. Uma neve fina começava a cair, juntamente com a temperatura. Liesel tinha um sono agitado, e tremia quando os flocos de neve derretiam sobre sua pele. O menino tirou o casaco que usava e deitou-se ao lado dela. Espanou a neve de seu rosto com a ponta dos dedos, sentindo estranhos arrepios que não tinham nada a ver com o frio lhe subirem as costas. Cobriu seus ombros e os de Liesel com o casaco, e ela parou de tremer. Pouco antes de adormecer ele percebeu que a menina se enroscara em seu peito e dormia com a cabeça em seu ombro. Adormeceu com a melhor sensação que já experimentara, inalando o cheiro de páginas velhas do cabelo da roubadora de livros.
Despertaram quando o sol estava alto no céu. Ele estava nervoso, e se quando acordasse a menina brigasse com ele? Seus medos eram infundados. Ela simplesmente olhou para seu rosto e murmurou bom dia, como se nada houvesse acontecido.
Procuraram por comida, sem nada encontrar. Buscaram distrações para tentar esquecer a frustração e a fome. Rudy se lembrou do pão que roubara e foi buscar a caixa de ferramentas. Dividiu o pão em vários pedaços pequenininhos e comeram demoradamente, como se fosse o último pedaço de chocolate e quisessem que demorasse para acabar. Foi o suficiente para fazer seus estômagos pararem de roncar. Liesel lia o livro que furtara de Ilsa Hermann, e Rudy sentou-se ao seu lado. Achava que estava quase perdoado, mas não tinha certeza.
— Sobre o que fala esse livro, Saumensch?
— Sobre um menino muito parecido com você, Saukerl. — respondeu ela sem olhar para ele — Ele também importuna sua vizinha, pedindo por um beijo, como você fazia.
— Perdi as esperanças, Saumensch. Agora não peço por um beijo, mas seria bom se você me perdoasse. O que me diz?
— Eu já te perdoei, Rudy. — ele percebeu que ela falava sério quando a ouviu pronunciar seu nome — Mas tem algo que não sei se conseguirei perdoar.
— Mas o que eu fiz? — perguntou ele confuso
— O que você deixou de fazer, Saukerl idiota.
E então ele percebeu. Ela não falava sobre o episódio na casa do prefeito. Falava sobre a pergunta que ele guardava em suas cordas vocais sempre que a via. E que, aparentemente, a menina pedia que fosse feita. Ele se encheu de uma coragem que não sabia ter perdido e, com a voz baixa, trêmula e cheia de incerteza, sussurrou:
— Que tal um beijo, Saumensch?
Fitou os olhos de Liesel, e foi tudo o que viu quando ela o puxou para si e o beijou. Foi algo completamente novo para os dois, e inexperiente, com dentes batendo, mas no final tudo se acertou. O coração do saukerl batia audivelmente no mesmo ritmo que o da menina. Quando se separaram, ele, sem ter certeza do que devia fazer, a abraçou e cheirou novamente seus cabelos loiros sujos. Ele não acreditava no que acabara de acontecer. Tantos anos esperando por aquilo, e quando o momento tão sonhado por ele em suas noites insones se realizava, não conseguia nem falar em meio ao êxtase.Como era engraçado o destino! Fazer toda aquela confusão para levá-los justamente aonde estavam. Ele agradecia ao prefeito por te-los feito fugir, ou aquele beijo nunca teria acontecido, e nunca teria percebido como amava tão profundamente aquela menina pequena e magrela que estava agora em seus braços.
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