O Melhor Péssimo Dia de Minha Vida
1 O dia segundo Inglaterra
Já estava na cama havia um tempo, mas queria certificar-se de que não ouvia barulho algum vindo de qualquer outro cômodo de sua casa. Nada. De qualquer modo, preferiu ficar mais alguns minutos apenas a curtir o som da chuva que caía la fora, batia na vidraça e, vez ou outra, trazia consigo alguns raios. Era um barulho nostálgico... Fazía-lhe lembrar de coisas boas e ruins, como o dia em que uma tempestade caíra e América fora esconder-se em sua cama em busca de proteção, ou a Guerra de Independência Americana...
Mas também lhe trazia sono...
Um pequeno debate fora criado em seus pensamentos sobre se virar de bruços, afundar a cara no travesseiro e ficar assim até meio-dia ou levantar-se e seguir sua rotina de sempre. Por fim, decidiu-se pela segunda opção.
Não teria uma rotina usual, de qualquer jeito. Era dia 23 de abril, e essa data nunca fora considerada normal por ele.Haveria alguém no mundo que pensasse algo diferente do dia do seu aniversário?
Levantou-se e sentiu o chão frio sob seus pés, ficando durante algum tempo nessa posição para que se acostumasse; só então levantou-se e foi até o banheiro. Seu cabelo naquela hora não estava muito diferente de seu penteado usual, mas não por isso deixou de escová-lo, assim como era sua intenção escovar os dentes se a pasta não tivesse acabado... Mas não importava. Tudo apontava que seu dia seria bom.
Afinal, logo Alfred entraria com algum programa interessante para o dia como sempre fez em seu aniversário. Aliás, já deveria ter entrado em sua casa até antes do inglês acordar, inventando algo de última hora para usar de despertador, como o cheiro de um hambúrguer... Ele fizera isso no aniversário passado. Deveria ter acontecido algum contratempo que acabou por atrasá-lo naquele dia.
Foi para a cozinha em busca de algo para o café. Na verdade, antes esperava que América já estivesse na sala a sua espera, mas lembrou-se de que não ouvira barulho algum desde que acordou; a sala vazia não lhe surpreendeu.
Sua cozinha cheirava a queimado com a experiência gourmet que fizera no dia anterior e isso quase chegou a tirar-lhe o apetite, mas essa mesma experiência deixara-o sem seu jantar e não estava com vontade de prolongar seu jejum. Não arriscaria-se a tocar em seu fogão novamente; simplismente pegou uma caixa de cereais da despensa e leite na geladeira. De vez em quando, olhava para a porta, franzia o cenho e voltava a concentrar-se em sua refeição.
Inglaterra fez questão de lavar sua tigela naquela mesma hora e arrumar tudo do mesmo jeito que havia encontrado antes. Normalmente deixaria isso para depois, mas precisava de algo para passar o tempo... América ainda não havia chego.
Lavou as mãos, fez um chá, foi para a sala, olhou ao redor. Pela primeira vez, sentiu o ambiente tediante. A coisa mais interessante que encontrou foi seu livro, e sua emoção ao pegá-lo para ler depois de sentar-se no sofá não foi lá algo tão grande. E esta permaneceu assim, impassível, até que Arthur ficasse com dor de cabeça o bastante para dar um fim à sua leitura, colocando o livro no criado mudo ao lado do sofá. Conseguiu avançar cinco capítulos só aquela manhã e sua cabeça agora torturava-o pelo esforço. Pelo menos o tempo pareceu ser gentil perante o inglês, avançando até poucos minutos depois de meio-dia.
E nenhum sinal do estadunidense.
Seus olhos se fechavam a cada martelada que sentia em sua cabeça. Por que deixou que chegasse a tal ponto? De qualquer modo, descansar todos os sentidos poderia melhorar seu estado e certamente também uma bebida quente, mas o chá que preparara há algum tempo atrás já acabara e agora havia apenas uma xícara vazia sobre a mesinha; fazer outro estava fora de cogitação. Tudo o que fez foi deitar-se no sofá, fechar os olhos e descansar...
Descansar... Descansar, até apagar.
Quando acordou, a dor que sentia em sua cabeça fora reduzida a pequenos vestígios daquela tortura; na verdade, fora espalhada pelo corpo e demorou um pouco para que sumisse por completo. Sentar-se novamente no sofá foi difícil e a sensação foi horrível: Seu corpo parecia ter envelhecido uns 10 anos... Porém uma vez sentado, sentiu seu corpo novamente maleável e, assim, pôde pegar o controle remoto que estava à sua frente.
Uma breve olhada para o relógio acompanhou o movimento anterior. 14:48. América não estava lá. Por essa e quem sabe por outras razões, perdeu a vontade de ligar a TV, deixando que o desânimo lhe dominasse por completo. Por essa e quem sabe por outras razões, preferiu encostar o cotovelo no braço do sofá e apoiar a cabeça na própria mão, pegando um retrato qualquer que havia no criado-mudo, atrás da xícara de chá. Ação que não deveria ter sido feita.
América ainda pequeno em seu colo, lançando ao inglês um olhar brilhante misto de respeito e alegria. Essa era a cena que queria ver agora, refletida há décadas atrás, em suas mãos. Ele crescera, seus interesses eram outros... Não giravam em volta de Inglaterra, não mais. Estava claro agora e manter esperanças de que o americano aparecesse mostrando que ainda importava-se com seu irmão mais velho seria inútil.
Sentiu seus olhos transbordarem e nada fez para impedir a lágrima que escorria de seu rosto de continuar seu caminho. Estas foram acompanhadas de mais outras, que livremente caíam enquanto o inglês apenas preocupava-se em manter seus lábios trêmulos grudados uns aos outros, coisa que se tornava mais difícil a cada segundo passado sozinho...
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