O Melhor Dia de Todos
6 LISPECTOR, Enzo
Notas iniciais
Quando Sofia queria sair do mundo real e esquecer todos os problemas ela ia para a biblioteca. Ler livros a deixava mais calma. Ao ler um livro, ela entrava em um mundo completamente diferente e assim ela criava coragem para seguir a vida e driblar todos os problemas. Mas hoje, ela resolveu fazer algo diferente. Dois quarteirões antes da biblioteca ficava a casa do Enzo. Ela nunca pensou que um dia fosse pedir conselhos a ele, mas hoje, ela precisava de uma opinião masculina.
A casa do Enzo era enorme. A fachada era toda branca e repleta de janelas. Os três andares davam um ar de soberania, o que de certo modo era verdade. A família de Enzo era realmente muito rica.
Ela apertou a campainha uma única vez e o próprio Enzo havia atendido.
–Quem é? – A voz dele estava rouca, talvez fosse algum problema com a fiação.
–Sou eu. Sofia.
O portão fez um estralo. Ele estava aberto.
–Entra. Estou na sala. Você sabe o caminho.
Ela abriu e fechou o portão. Do portão até a entrada principal era um caminho feito de calcário. O caminho era cercado por um muro branco de mais ou menos meio metro. Do lado esquerdo estava uma parte do jardim. Havia várias flores. Rosas, margaridas, urtigas, crisântemos, todas as flores caras que você pode imaginar estarão na casa do Enzo. Do outro lado estavam dois carros. Uma BMW preta e um Porsche prata. Toda vez que Sofia ia até a casa de Enzo, ela demorava mais de 10 minutos para atravessar esse caminho, pois toda vez ela parava para admirar as flores e até mesmo os carros. Ela resolveu parar de fazer isso e foi em direção à porta principal.
Ao abrir a porta, ela sentiu um pouco de frio por causa do ar condicionado. Seguiu por um corredor de paredes brancas e piso de mármore. Nas paredes, várias fotos de viagens que a família de Enzo havia feito. A que ela mais gostava era uma foto que havia sido tirada na Índia. Enzo ainda era bebê e estava em cima de um elefante. Chorando. A cara que ele fazia era muito engraçada e fazia Sofia rir toda vez que passava por ali.
O corredor se dividia em dois. Se ela seguisse pela esquerda, ela iria sair na sala de jantar. Mas ela foi pela direita, e saiu direto na sala de estar.
A sala era quadrada. No meio havia uma espécie de mesa de centro com um buraco no meio. Na verdade aquilo era uma lareira. Ao redor, três sofás de camurça escura faziam espaço na sala. Em um deles, Enzo estava sentado com um notebook em seu colo e na sua mão esquerda um copo de suco de laranja. Sofia sentou do seu lado.
–O que aconteceu? – Perguntou Enzo.
–Não sou mais “bv”.
Enzo cuspiu o suco que estava na sua boca, sujando toda a tela do notebook.
–Como?! – perguntou ele com uma cara de surpresa.
–Foi isso mesmo que você entendeu. Eu beijei uma pessoa.
–Me diz que foi homem, por favor.
–Claro que foi! Tolo.
Os dois deram risada.
–Quem foi o felizardo? – perguntou Enzo.
–John.
–O cara acabou de entrar na escola e você já o beija. Que feio.
–Alto lar! Foi ele quem me beijou. Ele é a meretriz nessa história toda.
Enzo se levantou e sumiu de vista. Sofia resolveu dar uma olhada no notebook dele ainda molhado de suco de laranja. Ele estava em um site que Sofia desconhecia. Apenas mostrava a foto de várias pessoas fazendo skydiving. Popularmente conhecido como paraquedismo, ou saltar de paraquedas.
Enzo voltou trazendo um pano e outro copo de suco de laranja. Ele deu o copo para Sofia que aceitou sem hesitar. Ela tinha que admitir que estava cansada depois de tudo que ela passou. Enzo limpou o notebook e depois de alguns minutos esfregando o pano na tela, ele colocou o notebook de volta em seu colo.
–O que fez ele te beijar? – perguntou Enzo.
–Como assim?
–Algumas coisas têm motivos. Ele te beijou porque ele quis ou porque aconteceu algo que você ainda não me contou.
Sofia começou a pensar que ela havia feito a coisa certa em ter vindo para a casa de Enzo ao invés da biblioteca. Eles eram amigos desde criança. Praticamente nasceram juntos. Ele a conhecia muito bem.
–Fui assaltada – respondeu Sofia.
–Sorte que eu não estava com suco de laranja na boca.
Sofia deu uma risada tímida.
–Como isso aconteceu? Foi na escola? – perguntou ele.
–Sim. Estava eu e minha mãe. Ele queria o nosso carro e nosso dinheiro. O professor Bruno tentou nos salvar, mas ele levou um chute nas bolas.
Pausa para Enzo fazer uma cara de dor.
–Depois John fez uns golpes de judô no cara e derrubou ele no chão.
Pausa para Enzo fazer uma cara de deboche e dizer:
–Ownt! Meu herói!
Sofia dava risada. Mesmo tendo sido assaltada, ela estava feliz. Enzo era o único que conseguia a deixar feliz em qualquer momento. O fato de ele ser bonito ajudava. Ele pegou o celular e colocou na orelha. Sofia apenas o encarava.
–Alô, Dona Helena? Sim sou eu Enzo. Sofia está na minha casa não se preocupe com ela.
Sofia se sentiu culpada. Ela havia se esquecido de ligar para sua mãe. Provavelmente a tinha deixado preocupada. Ela fora egoísta. Pensou só em si mesma, e agora se sentia culpada.
Sofia não prestou atenção na conversa. Esperou Enzo desligar.
–Sua mãe está bem. Ela estava na delegacia fazendo Boletim de Ocorrência. Ela ligou para seu celular, mas você não atendeu.
–Estava desligada do mundo.
–Pode ficar aqui o tempo que quiser.
–Ele ficou excitado.
Enzo cuspiu mais suco de laranja no seu notebook.
–Você realmente quer destruir meu notebook. Como assim?! Que absurdo.
–Por que os meninos ficam assim – Sofia perguntou com a maior inocência do mundo. Já Enzo respondeu de uma forma muito pervertida.
–Porque algumas garotas são gostosas. Ah sério que você perguntou isso? Faltou nas aulas de sexualidade na sétima série foi?
–Não é isso. Mas por que eu? Eu nem sou bonita.
–Verdade. Você é maravilhosa Sofia. Para de se auto desprezar. Não existe um padrão de beleza. Os meninos hoje em dia podem achar qualquer uma bonita. Basta você aguardar a pessoa certa.
–Mas eu não quero namorar.
–Quando eu fui para buscar suco, você provavelmente teve ter visto meu notebook.
Sofia fez uma cara de que foi pega em flagrante.
–Eu estou pesquisando paraquedismo, porque esse sempre foi meu sonho. Voar. Livre como um pássaro. Estou pesquisando, pois pretendo saltar de paraquedas e ter sabe o quê?
–O que?
–O Melhor Dia de Todos.
Sofia fez uma cara de espanto. Ela ainda não sabia onde Enzo queria chegar, e provavelmente não ia gostar da resposta.
–O que isso tem a ver?
–Já parou para pensar que “O Melhor Dia de Todos” para você, seja quando você arranjar um namorado. Você tem um cara que parece galã de novela das nove ficando excitado com você. Para de ser besta e aproveita essa chance. Namorar não é um bicho de sete cabeças como você pensa. Provavelmente ele seja um bicho de duas cabeças. Mas pode ser a melhor coisa que aconteça na sua vida.
Sofia abraçou Enzo, deu um beijo na sua bochecha e disse:
–Te adoro!
Depois, Sofia saiu correndo e foi em direção a sua casa. Ela já havia tomado sua decisão.
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