O Melhor Das Piores Intenções
8 Capítulo 7 - Casual
Notas iniciais
O despertador tocou, fazendo ressoar pelo quarto uma música eletrônica cantada por um grupo idol popular japonês.
Izaya desligou o despertador e abriu os olhos lentamente, em seguida fechando-os rápido quando a luz os alcançou para incomodá-los. Ele tentou se mover na cama, mas um par de braços fortes e musculosos agarrados aos seus quadris não lhe permitiram realizar qualquer movimento.
Na noite anterior, Izaya e Shizuo tinham adormecido em lados opostos da cama king size. Agora, já de manhã, Shizuo estava agarrado ao outro como se ele fosse um dakimakura*.
Mais um detalhe: o monstro loiro estava roncando. E de boca aberta.
– E não é que você ronca mesmo, Shizu-chan — Izaya murmurou, esfregando os olhos. — Como o esperado de um fumante...
O informante tentou mais uma vez se esticar e escapar do abraço, mas o outro era forte demais.
– Muito... Cedo... — Shizuo murmurou, com a voz rouca e lenta.
– Ah, então você acordou, Shizu-chan.
– Claro, você não para de se mexer-
Izaya o encarou com um olhar frio e irritado.
– É pra você me soltar — disse, sério.
– AH!
Shizuo não tinha sequer notado que estava segurando a pulga daquele jeito — como se fossem namorados ou tivessem realmente alguma coisa ou um nível maior de intimidade. Como se ele gostasse de Izaya. Como se o moreno não fosse a maldição da sua existência...
Ele rapidamente afastou seus braços de Izaya e o mesmo o encarou por alguns segundos, como se o estudasse, sombrancelhas finas franzidas e olhos vermelhos penetrantes como uma faca.
– Enfim — disse o moreno, dando de ombros e levantando-se da cama, para então reparar que tinha apenas a parte de cima de sua roupa. — Ah... Eu vou tomar um banho e me arrumar para ir me encontrar com um cliente, então eu vou sugerir educadamente que Shizu-chan se vista logo e dê o fora daqui.
Shizuo o respondeu com seu típico olhar raivoso.
– Tch... Até parece que eu vou sair daqui sem comer nada — disse, acendendo um cigarro.
– Além de dormir no meu apartamento e se aproveitar de mim também quer se aproveitar da minha comida? Ei, e não fume aqui dentro!
– Quem se aproveitou de você, pulga? Você tinha que ver a cara que estava fazendo enquanto eu chu-
Shizuo interrompeu sua frase quando viu o rosto do outro ficar vermelho, em seguida virando-se e entrando no banheiro. Sorriu pois sabia que tinha vencido — dessa vez. Não apagou o cigarro e permaneceu mais alguns minutos na cama luxuosa de Izaya.
Seu estômago roncou e o ex-barman resolveu que, apesar das reclamações do outro, iria procurar alguma coisa para comer na cozinha dele.
A cozinha de Izaya era muito grande. Devia dar pelo menos o dobro ou triplo do tamanho da cozinha de Shizuo. Era provavelmente bem maior do que o informante precisava, ele pensou, já que morava sozinho. Shizuo logo se lembrou do outro dia em que Izaya tinha cozinhado para ele vestindo só um avental — e imaginou-o daquela maneira novamente cozinhando nessa cozinha, todos os dias.
O loiro abriu o armário-despensa e procurou por uma caixa de leite. Em seguida, encontrou um pacote de biscoitos atrás de um monte de pão integral de todos os tipos.
– Não acredito que ele come pão integral, eca — disse Shizuo, amassando o cigarro e o jogando no lixo, para em seguida abrir o pacote de biscoitos com os dentes.
Não havia nenhum tipo de achocolatado ou bebida doce naquela cozinha, então ele teria que se contentar com café solúvel. Mas faltava uma coisa: açúcar.
Procurando por todas as partes e não achando nada, ele resolveu que perturbaria a pulga que ainda estava tomando banho.
Sem hesitar, o loiro entrou no banheiro e puxou a porta do box do chuveiro.
– Pulga, onde você guard-
– SHIZU-CHAN! — Izaya gritou, surpreso.
– Já te vi sem roupa mil vezes — Shizuo deu de ombros.
– Mesmo assim, você não pode me interromper no banho desse jeito. Monstro estúpido — o moreno revirou os olhos.
– Uma das condições do nosso acordo era de que você não me chamaria mais de monstro, seu... De qualquer maneira, onde você guarda o açúcar?
– Eu não uso açúcar, Shizu-chan — Izaya revirou os olhos novamente — só adoçante.
– Eca — Shizuo murmurou, fazendo uma careta.
– Além de ser mais saudável, adoçante não engorda tanto quanto açúcar — disse o informante, parecendo orgulhoso.
– Por isso você é magro que nem um palito. Você deveria comer mais.
– Tanto faz, Shizu-chan. Agora você poderia me dar licença e me deixar terminar meu banho, sim?
– Tá... Bom...
Shizuo fechou a porta do box e voltou à cozinha, onde resolveu tomar só o leite puro. Não usaria adoçante nem se sua vida dependesse disso. Açúcar era sagrado.
Logo escutou Izaya saindo do banheiro e depois de alguns minutos o informante estava na cozinha, vestido com um jeans de lavagem escura e uma camiseta vermelha.
– Nee, você ainda está aí...
Por mais que tentasse fingir desinteresse, a visão de Shizuo só com sua roupa de baixo na cozinha dele deixava Izaya levemente... Alterado...
– Droga... Vou ter que botar aquela roupa com sangue para sair... Vou assustar todo mundo ainda mais do que o normal, tch — Shizuo resmungou, mastigando um biscoito com raiva.
– Não que eu fosse emprestar minhas roupas pra você de qualquer maneira, mas eu realmente acho que nenhuma serviria — Izaya deu de ombros.
– Porque você é uma vara de tão magro — disse o loiro, de boca cheia.
– Shizu-chan, ande logo, eu tenho que sair e trancar a minha porta... E não pense que eu deixaria a minha chave com você, claro.
– Ah — Shizuo lembrou-se — antes de você sair preciso te mostrar uma coisa.
O ex-barman foi até o banheiro onde suas roupas estavam e trouxe os dois cartões que tinha em seu bolso, que eram, na verdade, o mesmo cartão, apenas cópias. Tinham o mesmo conteúdo — o mesmo nome, o mesmo número. A única diferença era que um estava parcialmente coberto de sangue.
Matsubara Shouichi
Shouichi Pharmaceuticals S.A.
194-890-990
– Um deles estava há alguns metros do cadáver de ontem, o outro foi entregue à Shinra por esse tal de... Matsubara Shouichi. Ele pagou Shinra para que o avisasse caso atendesse alguém que foi atacado ou algo do tipo.
Izaya estava chocado e colocou as mãos nos ombros de Shizuo.
– Por que você não me contou sobre isso antes?! — Perguntou, ainda extremamente surpreso e com um tom irritadiço na voz.
Em seguida, porém, seus lábios se curvaram em um sorriso malicioso.
– Você sabe de mais alguma coisa sobre eles?
– Não, só o que Shinra disse.
– Nós temos muita sorte — disse o informante, guardando os cartões em seus próprios bolsos — isso vai poupar muita pesquisa. Vou levá-los para o Shiki.**
– Quem é Shiki? — Shizuo perguntou, franzindo a sombrancelha e bufando.
– O cliente que eu vou encontrar hoje. Achei que você já o conhecesse, ele é de certa forma famoso. Algumas pessoas o consideram tão perigoso quanto eu e você — Izaya sorriu, em seguida vestindo sua jaqueta típica.
O loiro manteve a expressão fechada, mastigando mais um biscoito com uma aparência irritada.
– Nee nee, o que foi Shizu-chan? Ficou com ciúmes?
– Como se alguém fosse ter ciúmes de uma pulga irritante como você.
– Nee, já te falei para não falar de boca cheia. De qualquer forma, se apresse, porque como eu já disse mil vezes, eu quero sair.
Nisso, Shizuo terminou de comer, trocou-se rapidamente e logo estava pronto. Izaya tinha um pouco, só um pouquinho — ele diria a si mesmo — de pena pelo fato de Shizu-chan ainda ter que usar aquelas roupas, mas o informante não demonstraria aquilo de maneira alguma.
Entraram no elevador juntos e o clima foi meio estranho até chegarem ao térreo.
– Shizu-chan — disse Izaya, prestes à deixar o edifício — encontro você no Russia Sushi às oito da noite. Provavelmente terei informações relevantes ao plano. Não se atrase. Bye bye!~
* * *
Naquele dia, Shizuo combinou de almoçar com Kasuka, já que o mesmo estava voltando à Ikebukuro para uma pausa das gravações.
Resolveram marcar o encontro em um restaurante no qual costumavam ir com seus pais quando eram crianças, ao invés de algum lugar mais chique. Embora Kasuka tivesse dinheiro de sobra, ele preferia coisas mais simples, que lhe trouxessem boas memórias. Não ligava muito para a fama ou o dinheiro, gostava do que fazia, mas o resto para ele era 'tanto faz'.
Os dois não tinham muito sobre o que conversar, por mais que fossem próximos. O silêncio, porém, entre eles não era desconfortável, muito pelo contrário. Às vezes Shizuo precisava de alguém que fosse simplesmente comer com ele em silêncio, sem lhe fazer perguntas sobre o trabalho, brigas, pulgas... Coisas sobre as quais ele preferia não conversar.
– Nii-san, eu vou me casar — Kasuka anunciou, sem muita mudança de expressão em seu rosto apesar do que tinha acabado de dizer ser, de certa forma, emocionante.
– Nossa! — Os olhos de Shizuo se arregalaram, e ele sorriu em seguida. — Com a... A... Como era mesmo...
O loiro ficou com vergonha por ter esquecido o nome da namorada de seu irmão mas o mesmo não parecia nem se importar.
– Ruri Hijiribe.*** — Completou Kasuka, levando mais uma garfada à boca.
– Fico feliz por você, Kasuka — o ex-barman sorriu, genuíno.
Continuaram a comer sem trocar muitas palavras, até que o irmão moreno fez um comentário.
– Você deveria arrumar alguém para você também, Nii-san.
– Você sabe que não é simples assim, Kasuka.
– Eu sei que não é tão simples, mas acho que Nii-san julga a si mesmo demais. Tenho certeza que encontraria alguém de que goste e que goste de você de volta se realmente quisesse.
Shizuo fez uma pausa, meio sem saber o que dizer, enquanto seu irmão continuava a comer como se não tivesse dito nada.
– Na verdade, eu...
– Está saindo com alguém? — Kasuka completou.
– C-Como você sabia?
O outro deu de ombros.
– Na verdade não... Não estou... Saindo... Com ninguém. — O loiro disse, tropeçando nas palavras.
Será que agora ele deveria contar ao seu irmão sobre Izaya? Ele não estava saindo com a pulga, não tinha nada com a pulga além de algumas noites e agora uma proposta, mas...
– Saindo não é a palavra certa... — Continuou. — Dormindo, eu acho.
– Tome cuidado, Nii-san. Não se esqueça de proteção-
– Eu sei — Shizuo abaixou a cabeça, constrangido, quase enfiando-a no prato.
– Posso saber quem é? — Perguntou Kasuka, limpando a boca com um guardanapo.
Shizuo respirou fundo, preparando-se para o choque de seu irmão. Embora Kasuka provavelmente não tenha nunca realmente aparentado estar em choque em sua vida, exceto durante sua atuação em filmes, o loiro tinha certeza que até ele que não demonstrava muitas emoções ficaria no mínimo... Muito surpreso.
– Izaya. Orihara. Izaya. É... Isso mesmo. — O ex-barman murmurou, de cabeça baixa.
Diferente do que tinha imaginado, seu irmão continuou a comer sem demonstrar tanta surpresa.
– Achei que você odiasse esse cara. Aliás, que ele fosse a maldição da sua existência ou alguma coisa desse tipo.
– Continuo odiando — afirmou Shizuo, tentando ser convincente. — Isso não mudou em nada.
– Então, por que vocês... ?
– Honestamente... Eu também não faço a mínima ideia.
Kasuka apenas riu e não fez mais perguntas. Shizuo ficou agradecido por isso. De alguma maneira, ele se sentia confortável com seu irmão mesmo tratando de algo daquele tipo. Sabia que ele não o julgaria ou o forçaria a dar explicações. Tinha sido assim desde que eram crianças e, mesmo depois de tomarem rumos diferentes, de certa forma, no fundo as coisas continuavam as mesmas.
Eles conversaram por mais alguns minutos sobre outros assuntos casuais e, por fim, antes de deixar o restaurante, Kasuka recomendou a Shizuo que tomasse cuidado ao lidar com Izaya, pelo fato de ele ser uma pessoa traiçoeira. Mas tal recomendação não era necessária pois Shizuo já deveria saber disso melhor do que ninguém...
... E, mesmo sabendo disso, ele não sentia necessidade de se proteger da pulga ou ser cauteloso quando próximo à ele.
Um sentimento dentro de si lhe dizia que ele seria capaz de decifrar os enigmas de Izaya. Capaz de vê-lo por trás das máscaras que possuía. E seria por esse motivo que o informante não teria sido capaz de manipulá-lo sequer uma vez, mesmo depois de tantos anos.
Como o próprio Izaya já tinha dito várias vezes: Shizuo não era um de seus humanos.
Imprevisível.
Aquilo geralmente deixava-o com raiva. Shizuo não queria ser considerado um monstro. Não queria ser excluído, como sempre era. Queria ser como todo mundo.
Mas naquele momento, ele percebeu que ser diferente dos humanos que Izaya dizia tanto amar era a melhor coisa que poderia lhe acontecer.
Talvez não fosse tão impossível confiar na pulga, afinal.
Notas finais
*Dakimakura: travesseiro achatado e comprido que geralmente tem a imagem de um personagem de anime (muitas vezes só com roupa íntima). Muita gente gosta de dormir agarrada neles. (Se eu tivesse dinheiro eu comprava um oops)
**Shiki: vocês se lembram do Shiki? Ele apareceu tipo só uns cinco minutos no anime mas aparece beeem mais e tem um papel importantíssimo na light novel. Ele tem cabelo escuro, por volta de quarenta anos, é membro de uma organização de yakuza e está sempre usando um terno branco. É uma pessoa muito influente e Izaya trabalha para ele várias vezes durante a light novel.
***Ruri Hijiribe: Também aparece no anime só por alguns segundos mas aparece mais na light novel. É uma cantora e atriz bem jovem e muito famosa que, se não me engano, está namorando o Kasuka de verdade.
Por hoje é só, pessoal~! Digam-me o que estão achando. Beijinhos!
Fale com o autor