O Melhor Das Piores Intenções

32 Capítulo 30 - O pêndulo gira


Notas iniciais
Não sei bem o que falar aqui, não quero dar spoilers então vou deixar para conversar nas notas finais, hehe. Boa leitura!

"(...) Eles dizem que o amor é para os jogadores, o pêndulo gira. Eu apostei demais no amor e perdi tudo o que tinha." — Richard Thompson

Um cheiro desagradável invadiu o quarto onde Shizuo e Izaya estavam.

– Shizu-chan, o que é este cheiro... — Izaya perguntou, virando-se na cama.

– Cigarro? — Shizuo perguntou, logo expelindo uma nuvem de fumaça.

– Não — o moreno respondeu, irritado. — Eu conheço o cheiro de cigarro muito bem. E é muito desagradável, para a sua informação.

– Então...?

– É outro cheiro.

O loiro levantou o braço e cheirou a própria axila.

– NÃO É ISSO, SHIZU-CHAN... — Izaya rolou na cama e cobriu o rosto com um travesseiro, um pouco envergonhado.

– Então é cheiro de quê?

– Cheiro de... queimado, eu acho. Espera aí, você não tinha um-

Shizuo abriu a boca, em uma expressão de puro terror, e o cigarro caiu.

– O BOLO!

Ele foi correndo até a cozinha, mas já era tarde demais para salvar seu lanche de fim de tarde. O que era para ser um bolo tinha se tornado literalmente um pedaço de carvão. Izaya o seguiu até lá, rindo do desespero do outro até perceber o estado de sua cozinha.

– Agora o meu apartamento inteiro está cheirando coisa queimada e a culpa é toda sua — o moreno bufou.

– Eu não consegui salvá-lo — Shizuo murmurou, como se tratasse de uma pessoa.

– Você tem que limpar essa bagunça, Shizu-chan — o moreno resmungou. — Enquanto você faz isso, eu vou tomar um banho.

Depois de ambos tomarem seus banhos — separados, caso contrário iriam se sujar tudo de novo — e vestirem roupas limpas, Shizuo e Izaya acabaram por jantar juntos. Foi uma decisão silenciosa, sobre a qual nenhum dos dois conversou, mas parecia a coisa mais normal a se fazer.

Os dois estavam sentados à mesa da cozinha, de frente um para o outro. O moreno tinha preparado um dos pratos favoritos de Shizuo, que estava comendo muito satisfeito. Ver Izaya cozinhando o lembrava daquela vez em que ele estava vestindo um avental.

– Eu tenho que voltar para Ikebukuro amanhã — disse o loiro, em um intervalo. — Trabalhar para o Tom-san.

Izaya assentiu com a cabeça, tomando um gole de sua taça de vinho.

– Você sempre bebe vinho? — Shizuo perguntou.

– Acho que sim — Izaya respondeu, dando de ombros. — Quase sempre.

O loiro fez uma careta de nojo.

– Shizu-chan não entenderia, nee. Não gosta de álcool.

– É bem a sua cara gostar de algo como vinho.

– Porque é sofisticado, certo?

– Não, porque é caro.

Izaya riu, bebendo mais um gole imediatamente só para provocá-lo.

Shizuo começou a perceber o quão casual aquele momento parecia. Era, de certa forma, algo familiar — como se fossem um casal realmente casado, jantando comida caseira juntos, conversando sobre coisas casuais durante o jantar. Era um pouco estranho, mas agradável.

Aquele pensamento lhe despertou certa curiosidade a respeito do relacionamento que tinham. Ele queria saber sobre a perspectiva de Izaya. O que aquilo tudo significava para o moreno, afinal? Entretanto, falar com o informante sobre esse assunto era como pisar em ovos.

Depois de alguns instantes de dúvida, medindo as próprias palavras, Shizuo tomou coragem e perguntou:

– Izaya, o que eu sou para você?

O moreno ficou surpreso — seus olhos vermelhos se arregalaram rapidamente. Ele olhou para Shizuo e hesitou, antes de responder com outra pergunta:

– Por que você me perguntou isso?

O loiro suspirou, já se arrependendo do que tinha dito.

– Nós estamos aqui, jantando juntos. Dormimos juntos, pela milésima vez. Recentemente, nós temos estado juntos quase o tempo todo.

– Isso é óbvio — disse Izaya, dando de ombros. — Nós temos um combinado, afinal.

– Izaya — Shizuo pronunciou, sério. — Você sabe muito bem que não é só isso. Na verdade nós passamos mais tempo fazendo outras coisas do que indo atrás da Segunda Saika.

As sombrancelhas do informante se franziram de uma maneira ameaçadora e o sorriso sarcástico desapareceu de seus lábios.

– Onde você quer chegar com isso, Shizu-chan?

Izaya se arrependeu imediatamente da pergunta mal pensada — estava tentando ao máximo se concentrar e manter o controle, mas seus próprios batimentos cardíacos pareciam ser capazes de arrebentar sua caixa toráxica a qualquer momento. Sua garganta secou e ele mordeu o lábio inferior, desejando que pudesse simplesmente vestir seu casaco e fugir daquela cena.

Shizuo se sentia de uma maneira parecida — exceto pelo fato de que não queria fugir da situação, apenas encarar e resolver aquilo de uma vez por todas, deixando claro os próprios sentimentos. Ele respirou fundo e começou uma frase que não pôde ser terminada:

– Eu te-

– Não — Izaya interrompeu, sério. — Não se atreva a dizer essa frase.

O moreno abaixou a taça de vinho com certa agressividade, quase quebrando o cristal caríssimo. Seus olhos se estreitaram, deixando óbvia sua irritação.

– Ah, entendi — Shizuo respondeu, sarcasticamente. — Você quer algo mais complexo, então?

– Shizu-chan, não-

– Eu estou apaixonado por você, Izaya. Já faz tempo.

Houve um momento de silêncio desconfortável; nenhum dos dois disse mais nada, apenas se encararam, procurando palavras para pronunciar, provocações para fazer, qualquer coisa que pudesse disfarçar o quão próximos estavam naquele momento e o quão íntimos tinham se tornado com o passar do tempo.

– Não — Izaya respondeu, firme. — Impossível.

Ele tentou forçar um riso, como se tivesse acabado de ouvir uma piada; entretanto, não conseguiu. Sua voz saiu séria e preocupada, o oposto da emoção que queria apresentar.

Por que eu não consigo rir?

– Você sabe muito bem que não é impossível — disse Shizuo. — Aliás, você sabe muito bem que é verdade. Mas você não quer admitir.

– Admitir o quê? Não há nada que eu tenha que admitir. — O moreno deu de ombros. — Você é o único que está se iludindo, Shizu-chan. Nós estamos juntos para resolver um problema. É verdade que tivemos vários momentos... hm... íntimos, mas isso é um exagero.

– Ah, é mesmo? Então me deixe fazer algumas perguntas pra você, pulga. Quando você propôs que eu trabalhasse com você, foi mesmo só por causa da Segunda Saika? Quando você me beija, tem certeza que é só por que quer sexo? Você tem certeza disso, Izaya?

– PARE DE FAZER SUPOSIÇÕES — Izaya elevou seu tom de voz, demonstrando mais irritação dessa vez. — Isso é ridículo. Você está tentando forçar algo que sabe que não pode acontecer.

– Ridículo é o jeito com que você trata essas coisas. Por que você não pode simplesmente aceitar e dizer a verdade?

– Você quer saber a verdade? — Izaya abriu um sorriso cruel. — Nós somos inimigos, Shizu-chan, inimigos. Aliados por enquanto, porque nos é favorável. Mas você sabe que, em essência, somos inimigos. É assim que tem que ser.

– É assim que você quer que seja.

– Mas isso não é a mesma coisa? — O informante fitou o cenário da cidade, através de uma grande janela que estava próxima. — Francamente, Shizu-chan, você consegue imaginar eu e você, juntos, como um casal feliz?

Shizuo ficou em silêncio. Izaya soltou um riso alto, seco e falso.

– Como eu pensava — continuou. — Você diz que eu tenho que 'admitir os meus sentimentos', mas a verdade é que eu e você nunca daríamos certo. Que tal você admitir isso, Shizu-chan?

– Essa não é a verdade. Nós estávamos dando certo até agora pouco. Eu já disse antes, tudo o que você diz é o que você quer pensar. Mas não precisa ser assim, Izaya.

O moreno soltou um suspiro pesado e levou uma mão à testa como se estivesse cansado.

– Isso tudo soa como uma piada.

– Os meus sentimentos são reais — o loiro afirmou, irritado.

– Não, não são — Izaya discordou, frio e imediato. — Você ama me foder, Shizu-chan. Eu não te culpo por isso — ele abriu um sorriso sarcástico -, mas você está confundindo as coisas e indo longe demais.

Você quer mais de mim do que o quanto eu estou disposto a dar.

Eu estou confundindo? — Shizuo deu um soco na mesa, despedaçando uma parte da mesma. — Você se contradiz o tempo todo. Você diz que me odeia, mas o que você fez quando estávamos na sua casa mostra completamente o contrário. Pelo menos uma vez na sua vida seja sincero, Izaya.

– O que faz você pensar que eu não estou sendo sincero? Será que eu tenho que refrescar a sua memória, Shizu-chan? Até hoje tudo o que eu fiz foi para transformar a sua vida em um inferno.

– Eu sei disso, mas... Eu li o seu antigo diário.

– O que isso tem a ver- ESPERA! VOCÊ O QUÊ?

– Eu li o seu antigo diário — Shizuo repetiu. — Você sempre quis a minha atenção, desde o começo, não foi?

O informante se sentiu extremamente perturbado tentando relembrar que níveis de coisas embaraçosas ele teria escrito sobre Shizuo lá.

– Eu não sei de onde você tirou essa ideia estúpida — disse, tentando manter o tom de voz firme, apesar da ansiedade que sentia. — Sua presença sempre foi inconveniente para mim, mas não havia nada além disso.

– Você está mentindo.

– Se tem uma coisa que é irritante é quando você age como se me conhecesse, Shizu-chan.

– Eu conheço você. Você pode achar que consegue mentir pra mim e me enganar, mas eu vejo por trás de cada uma das suas máscaras, Izaya.

Aquelas palavras atingiram o moreno em cheio. Ele sentiu um nó se formar em seu estômago e desejou poder escapar dali de qualquer maneira. Ao invés disso, apenas se levantou, levando o prato à pia. Era o máximo que poderia fugir daquela conversa. Em seguida, disse:

– Nós temos passado muito tempo juntos ultimamente. É por esse motivo que isso tudo está acontecendo. Nós precisamos de distância.

– Distância? Você só está tentando escapar, não está?

Izaya ficou em silêncio, ignorando a pergunta e tornando sua resposta mais óbvia do que já era.

– Você é um covarde — Shizuo disse, quebrando o outro lado da mesa com um soco.

Os olhos do informante permaneceram frios e imóveis, como se fossem incapazes de ver qualquer demonstração de violência do ex-barman. Como se nada estivesse acontecendo.

– Eu vou ligar para você quando tiver novidades sobre o medicamento — Izaya disse, completamente frio, sem olhar nos olhos de Shizuo.

– Ligar para mim?! Novidades?! — O loiro perguntou retoricamente, em voz alta, mais irritado do que nunca. — Eu não quero nem saber dessa merda. Só venha falar comigo de novo quando estiver pronto para admitir o que sente.

Em seguida, ele andou em direção à porta do apartamento, abrindo-a, saindo e fechando-a atrás de si. A força gerada pela irritação foi tanta que a porta se soltou do batente, atingindo o chão com um baque surdo.

Outro baque surdo eram as batidas do coração de Izaya, aceleradas devido à ansiedade que sentia no momento. Suas mãos tremiam e ele tentava respirar fundo, mas lágrimas ameaçavam escapar dos cantos de seus olhos.

Izaya queria uma desculpa, qualquer uma, para esconder seus sentimentos. Ele os tinha assistido crescer, desde o começo, tentou evitá-los inúmeras vezes, mas foi sempre inútil. A atração que sentia por Shizuo já tinha passado de um nível físico há muito tempo; Izaya sentia-se atraído pela pessoa que Shizuo era, por sua personalidade, suas palavras, suas ações inesperadas que o tornaram diferente de todos os humanos que conhecia.

Shizuo não queria desculpas e não queria esconder, mas pensava não ter outra escolha. Tudo era mais complicado quando se tratava de Izaya Orihara. Ele sabia desde o começo que o momento em que admitisse o seu sentimento poderia ser o momento em que perderia o amado — dessa maneira, Shizuo antes tinha pensado que seria melhor fingir, jogar o jogo que Izaya tinha proposto desde o começo.

O jogo de amor e ódio; o pêndulo torto que agora apontava para um único lado, como uma bússola. O jogo que tinha acabado há muito tempo, naquela noite em que um Izaya bêbado permitiu a si mesmo encontrar conforto nos braços de Shizuo. E quando Shizuo admitiu que largá-lo seria mais difícil do que largar um cigarro. E naquele pesadelo horrível que tinha feito Izaya perceber o quanto se importava com o homem que estava à sua frente.

Pouco a pouco, eles foram se aproximando e deixando suas defesas caírem, abrindo brechas um para o outro, exceções, tornando seu relacionamento único e especial sem que sequer percebessem de imediato. Shizuo podia ser considerado um monstro por muitos, e Izaya um demônio; mas a verdade é que ambos eram humanos, não importa o quão famosos fossem, ou difíceis de derrotar. Shizuo e Izaya eram humanos.

E sobre os seres humanos há uma verdade absoluta: somos todos suscetíveis ao amor.

O amor faz parte da natureza humana, assim como o ódio. São forças de mesma intensidade atuando em sentidos opostos. Nenhum ser humano que atinge a idade adulta morre sem nunca ter amado ou odiado alguém. É o que nos faz humanos.

Mas Izaya Orihara era o homem que queria ser um deus.

O homem que queria ser imortal.

O homem que não queria ser fraco.

O homem que não queria ser humano.

Um complexo de grandeza, superioridade, orgulho. Izaya tinha proposto um jogo a Shizuo, e agora tinha a impressão de que estava perdendo.

Perdendo para si mesmo.

Perdendo para a sua humanidade.

Pouco sabia Izaya Orihara que o jogo do amor não tem vencedores.

Notas finais
Capítulo triste, mas necessário. Mais cedo ou mais tarde Shizuo teria que revelar seus sentimentos, e mais cedo ou mais tarde Izaya teria que lidar de uma vez por todas com a própria covardia. Acabou sendo uma explosão de sentimentos... Isso nos traz à pergunta que usei para finalizar outro capítulo: quando é que Izaya vai se render a Shizuo? Quando é que ele vai admitir para si mesmo que é amor? (Isso me lembra do Onodera de Sekaiichi Hatsukoi: koi janai! Koi janai! KOI JANAI!) Piadas à parte, as coisas estão ficando mais sérias na história. Tanto no sentido positivo (para que sejam resolvidas de uma vez por todas) quanto no negativo (conflitos acontecendo). O capítulo seguinte já está pronto, vou postá-lo quando atingir um número 'legal' de comentários nesse aqui. Aliás, senti falta de alguns comentários no capítulo anterior ; _ ; Eu atualizei rápido, portanto, por favor não deixem de comentar! Por último, isso não tem ABSOLUTAMENTE nada a ver com a OMDPI, mas estou curiosa para saber se alguma(s) de vocês também entraram em fangirl mode com o final de Amor à Vida? #Feliko ♥ Até o próximo! ♥