O Melhor Das Piores Intenções
26 Capítulo 24 - Entregue-se a mim
Notas iniciais
– Shizu-chan, será que eu posso... Passar a noite aí... — A voz fraca de Izaya perguntou, do outro lado da linha.
Shizuo ficou surpreso. Não imaginava que Izaya fosse lhe pedir alguma coisa. Isso parecia ser completamente contrário aos princípios do informante que ele conhecia.
– Pode — ele respondeu, firme. Um sentimento estranho mas contente pareceu chacoalhá-lo por dentro. — Você quer vir agora?
– Pode ser... — Izaya disse. Mesmo sem estarem se vendo cara a cara naquele instante, Shizuo poderia perceber claramente que ele estava envergonhado. Ele sabia disso, e isso apenas o deixava mais envergonhado ainda.
– Certo...
Quinze minutos depois, a campainha do apartamento de Shizuo tocou. Izaya entrou, trazendo uma bolsa pequena. Shizuo resolveu não fazer perguntas — ao menos por enquanto — e o moreno logo pediu se poderia tomar um banho, algo que Shizuo obviamente não lhe negou.
Izaya saiu do banheiro vestindo uma camiseta preta e calça de moletom e encontrou Shizuo sentado na cama assistindo televisão em seu quarto. Parecia ser um talk show ou algo do tipo.
O menor acabou por sentar-se na cama também, sem saber o que fazer. Aquilo tudo era bem constrangedor. Nem ele e nem Shizuo sabiam quais eram as regras de etiqueta quando se tratava da pessoa com quem tinham relações sexuais duas vezes por semana mas ainda odiavam — ou, na verdade, nem tanto assim.
– O que aconteceu com o seu pulso? — Shizuo perguntou, apontando o imobilizador que mantinha a tala presa ao pulso do informante.
– Sabotaram meu carro, Shizu-chan. — Izaya respondeu, com um longo suspiro. — Não consegui frear direito e acabei batendo numa árvore. Por sorte, tinha air bags. Acabei só trincando o pulso.
Shizuo sentiu alguma coisa dentro de si doer ao imaginar o que poderia ter acontecido se não houvesse air bags. Só a ideia do acidente era o bastante para lhe dar um sentimento estranho, algum tipo de preocupação...
– Como você sabe que foi sabotado?
– Namie o levou à oficina e disseram que havia algo de errado com os freios. Eu sempre faço as revisões corretamente e tudo. Alguém sabotou o meu carro. Eu tenho certeza.
– Você já imagina quem foi?
– Essa é a melhor parte — disse o moreno, com ironia. — Há uma lista enorme de suspeitos, porque nessa cidade o que não faltam são pessoas que querem me ver morto. Não que eles não tenham motivos para isso, claro.
Shizuo ficou em silêncio.
– Porém — Izaya continuou -, tem uma coisa que reduz essa lista rapidamente: o fato de o meu apartamento ter sido invadido e virado de ponta-cabeça hoje. Poderia ser só uma coincidência, claro, mas eu tenho quase certeza que o acidente e a invasão estão muito bem ligados. Deve ter sido a mesma pessoa.
Izaya olhou para a janela aberta do apartamento de Shizuo, encarando os grandes prédios iluminados.
– A minha maior hipótese é a de que foi alguém que tem relação com a Segunda Saika. Alguém que sabe que estamos trabalhando no caso. O acidente de carro e a bagunça no meu apartamento... Devem ser algum tipo de aviso. Alguém está dizendo 'veja o que eu consigo fazer. É melhor vocês pararem antes que eu faça algo pior'. E tem mais uma coisa...
– Quando a Segunda Saika atacou o meu irmão — Shizuo completou. — Também foi um aviso. Já que não conseguiria me matar, preferiu ir atrás de Kasuka... E aí você entrou no meio... E agora... — O loiro passou a mão pelos cabelos, estressado. Em seguida, deu um soco na cama. — Ah, que droga...
– Pois é — Izaya disse, notando o raciocínio de Shizuo e se esforçando um pouquinho para não apontá-lo, só pelo orgulho... — Que coisa ridícula. Quem eles pensam que nós somos? Até parece que eu vou desistir fácil assim.
– Mas alguma coisa eles conseguiram, não foi? O perigo de hoje foi real. — Shizuo afirmou, sério. — E você está cansado. Podem não ter causado um ferimento muito sério, mas conseguiram tirar um pouco da sua energia.
– Não fale assim, Shizu-chan — o moreno reclamou, sem fazer biquinho ou qualquer outro sinal de que estava brincando, mesmo porque não estava, dessa vez. — É irritante.
Os dois passaram alguns instantes em silêncio, até que Shizuo perguntou:
– Izaya... — Ele hesitou. — Você está com medo?
– Não.
Mentiroso, Shizuo pensou. Entretanto, a aparência frágil do informante naquele momento não permitiu que verbalizasse aquele pensamento... Ao menos não daquela maneira.
– Hm... E o sonho que você teve, não tinha nada a ver com o que aconteceu hoje?
– Não quero falar sobre isso.
Silêncio.
– Por mais estranho que isso soe — disse Izaya, depois de alguns instantes -, às vezes eu queria que você fosse ainda mais impulsivo.
Uma ruga de confusão se formou na expressão de Shizuo, como se houvesse um sinal de interrogação estampado em seu rosto.
– Ahh, esquece... — O moreno bufou. — De qualquer maneira, sem mais perguntas, sim?
Shizuo assentiu.
– Nee, é bem desanimador quando você não tenta nem discordar de mim. E pare de me olhar desse jeito, Shizu-chan.
– Você quer que eu te olhe como?! — Shizuo perguntou, já impaciente.
– Não sei. Mas não gosto quando você fica quieto como se tivesse pena de mim ou algo desse tipo.
O estômago de Izaya se revirou quando ele se lembrou do quão estranho tinha sido ter pedido para ficar no apartamento de Shizuo. Ele se sentia, de certa forma, derrotado. Humilhado. Fraco. Seu orgulho tinha sido ferido. E isso era uma das coisas que Izaya Orihara mais detestava.
Porém, do que adiantaria extenuar sua mente com aquelas ideias? Do que adiantaria repetir para si mesmo que tinha perdido o jogo dessa vez? Não era como se Shizuo perdesse tempo pensando nessas coisas. Não era como se Shizuo se importasse com aquele tipo de coisa.
Diferentemente de mim.
Ah, às vezes eu me sinto um idiota perto dele.
E aí eu me sinto um idiota por me sentir um idiota.
– Eu não estou com pena de você. Você sabe, eu... Eu me importo com você, é diferente. — Shizuo disse, não conseguindo evitar certo rubor que subiu seu rosto.
Como você consegue falar essas coisas tão abertamente?
– Eu estou bem, Shizu-chan, só estou... Cansado. — Izaya se inclinou, encostando a cabeça no peito de Shizuo, amparando todo o seu peso nele. — Hoje foi um dia horrível.
– Eu sei — Shizuo respondeu, passando a mão de leve no cabelo do informante.
– Shizu-chan, eu... A gente...
– Pare de se preocupar, seu idiota. Só dessa vez...
O loiro não terminou a própria frase.
– 'Só dessa vez' o quê, Shizu-chan?
– Entregue-se a mim.
A frase foi seguida por um silêncio e Izaya sentiu seu rosto ficar quente e vermelho no quarto parcialmente escuro. As imagens na televisão se movimentavam rápido, algum tipo de talk show com famosos, mas Shizuo e Izaya não prestavam atenção em mais nada que não fosse um ao outro naquele momento.
– Er... Diga alguma coisa, pulga. — Shizuo resmungou, coçando a cabeça e virando o rosto, fingindo estar irritado, quando estava apenas constrangido. — Não tem nenhuma objeção? Hah... Nada de sarcasmo?
– Na verdade, não.
Shizuo ficou surpreso.
– Cansado demais para dizer 'não'? — Ele perguntou, por fim.
Izaya não respondeu. Ao invés disso, fez outra pergunta.
– Por que você me quer, Shizu-chan?
– Eu não sei explicar. — O loiro respondeu, sinceramente, evitando olhar na direção do moreno. — Não é algo que dê para explicar. Eu só quero.
Shizuo segurou a nuca de Izaya e o puxou um pouco com cuidado para beijá-lo.
Eu me odeio por isso, Izaya pensou, mas também quero você. Quem dera só quisesse ao invés de precisar.
Eu estava certo, quanto mais próximo de você eu ficasse, piores seriam esses sentimentos.
Mas a dor que eu sinto no meu peito agora tem um certo prazer, algo que eu quero agarrar e não largar mais.
Algo que é mais tentador do que o próprio orgulho. Algo que pode me roubar de mim mesmo e me entregar à você, aos seus carinhos, à sua voz, à sensação de segurança que eu tenho nos seus braços.
– Tudo bem — o moreno falou baixo, quase um sussurro, entrelaçando seus dedos nos de Shizuo e beijando-o.
– Izaya, o que você quis dizer com isso?
– Eu estou fazendo o que você me pediu, idiota.
– ...!
– Nee, Shizu-chan... Cuide bem de mim, tá?
Só esta noite, eu vou permitir a mim mesmo perder o controle uma vez.
Só esta noite, eu vou esquecer os meus princípios.
Só esta noite, eu vou amar você, Shizu-chan.
Só esta noite, eu vou ser seu.
Izaya entrelaçou seus dedos nos de Shizuo e tocou seus lábios nos dele de leve, como um selinho. Em seguida, Shizuo levou a mão ao rosto do moreno, segurando seu queixo e observando seus belos traços, sem desviar os olhos. O olhar fixo deixou o informante constrangido e Shizuo pôde notar um tom de rosa surgir pelas bochechas de Izaya, antes de se inclinar e colar seus lábios nos dele novamente.
A língua de Shizuo provocou os lábios de Izaya e estes se abriram dando-lhe passagem, permitindo que explorasse sua boca e roubasse seu calor. Sons molhados escaparam quando os lábios deles deslizaram um sobre o outro, implorando por um beijo mais intenso.
Shizuo segurou de leve a nuca de Izaya com a outra mão, passando os dedos pelos últimos fios de cabelo que ali estavam, fazendo o moreno ter calafrios. Precisando desesperadamente de algo no que se segurar, Izaya passou os braços por trás do pescoço de Shizuo, fazendo o mesmo com as pernas em volta dos quadris do loiro, sentando-se em seu colo e segurando-o com força.
O beijo foi seguido por muitos outros, até que tiveram que parar um pouco por falta de fôlego em ambos. Shizuo passou a mão por debaixo da camiseta de Izaya, recebendo uma reação imediata do moreno, que estremeceu ao toque. Em seguida, passou a beijar-lhe o pescoço avidamente, deixando marquinhas em alguns lugares, das quais Izaya não reclamou pela primeira vez.
Izaya se levantou um pouco em sua posição e abaixou a calça de moletom cinza de Shizuo, deslizando os dedos sobre a ereção óbvia porém ainda coberta do loiro.
– Izaya, nós temos um problema — Shizuo disse, desviando o olhar, meio envergonhado.
O informante apenas o encarou, como se houvesse uma interrogação em seu rosto.
– Eu não tenho lubrificante aqui.
Izaya pareceu pensativo por um segundo, mas logo em seguida deu de ombros, com certo rubor em seu rosto, que tentou disfarçar.
– Não tem problema... Eu já estou acostumado com Shizu-chan, nee...? Não deve ser mais tão ruim.
Não dá pra acreditar que já fazem mais de seis meses que nós fazemos...
– Se você diz...
– Aliás, tem uma outra coisa que eu poderia fazer.
Izaya segurou a mão de Shizuo, separando os dedos do meio e indicador e levando-os aos lábios, hesitando por um instante, como se pedisse permissão.
Shizuo assentiu, e então Izaya levou os dedos à boca, chupando-os com vontade, deslizando sua língua quente sobre eles e umedecendo-os com saliva. Por um momento, o ex-barman desejou que fosse uma outra parte de seu corpo que estivesse recebendo essa atenção.
Ele abaixou a calça de moletom do moreno que estava em seu colo, em seguida inserindo os dois dedos molhados em sua entrada, devagar. Izaya deu um gemido fraco, de desconforto, e suspirou, conforme Shizuo começou a aprofundar seus dedos dentro dele.
O loiro afastou os dois dedos, na tentativa de enlarguecê-lo. O informante estremeceu, segurando com mais força em seus ombros, soltando um gemido frustrado.
– Ah... Shizu-chan...
Seus lábios se uniram mais uma vez e voltaram a se beijar ardentemente, dessa vez mais rápidos e agressivos, famintos, totalmente desesperados. Shizuo aproveitou a distração do moreno para mover seus dedos dentro dele rapidamente, dando-lhe um pequeno susto e abafando seus gemidos com beijos.
Shizuo retirou seus dedos de dentro de Izaya e levou as duas mãos às suas nádegas, separando-as e alinhando seu pênis na entrada dele. Em seguida, empurrou de leve, forçando seu membro pulsante na passagem estreita, apertada e quente do menor, penetrando-o vagarosamente.
– Mmmm... Nnn...
Izaya gemia baixo, quase arranhando as costas de Shizuo, de tão forte que o segurava.
– Ainda dói, não é? — Shizuo perguntou, segurando as coxas de Izaya e abaixando-o aos poucos,'sentando-o' devagar sobre si.
– É porque... Ah! — O moreno murmurou, interrompendo a própria frase com um gemido. — Shizu-chan é... grande demais, nee... Mas eu... gosto disso... realmente gosto disso...
– Pervertido...
Shizuo sorriu, agarrando os quadris de Izaya e segurando o corpo suado dele praticamente colado ao seu. Logo o forçou para baixo e acabou por sentá-lo por completo, obrigando o informante a tomar todo o seu membro dentro de si.
– AH! — Izaya gemeu, fechando os olhos. — Ahnn... Haah... Tão fundo... Shizu-chan...!
– Eu sei... Ah... — Shizuo murmurou, também mal conseguindo conter sua voz conforme as paredes de Izaya pareciam apertá-lo, tocá-lo em todos os lugares em que ele queria ser tocado. — Droga... Izaya...
As pernas do moreno fecharam-se com força em volta das costas largas do loiro, como se precisassem prendê-lo ali. Seu corpo implorava por mais contato, mais fricção, mais prazer, mais Shizuo.
Mais, mais, mais...
Quando o corpo de Izaya estava unido ao de Shizuo daquela maneira, ele sentia que não precisava se preocupar com o relacionamento deles. Não precisava se preocupar em escolher as palavras certas. Não precisava se preocupar em proteger o próprio orgulho.
Porque quando estavam unidos daquele jeito, nada mais importava. Não importava quem estava dominando. Não havia ganhar ou perder. Tudo se resumia aos toques, às carícias, ao prazer trocado naqueles breves instantes em que lhes era permitido esquecer do resto do mundo.
Nada era mais importante.
– AH... Ali! Shizu-chan... É tão bom... Eu quero mais...
– Eu também...
Shizuo segurou o corpo de Izaya com cuidado e se inclinou, em seguida deitando-o na cama com as pernas para cima, sem se desconectarem. O loiro continuou as estocadas, atingindo Izaya várias vezes no lugar certo, até que o moreno não aguentou mais e acabou por gozar, molhando seu abdome parcialmente descoberto.
Ao chegar ao orgasmo, os músculos de Izaya se fecharam em volta do membro de Shizuo, levando-o ao próprio limite também e fazendo com que seu líquido grosso e quente invadisse o menor.
Um pouco de sêmen escorreu até a coxa de Izaya quando Shizuo se retirou de dentro dele, devagar, deitando-se ao seu lado logo depois.
Shizuo conferiu o relógio ao lado de sua cama. Eram nove horas. Ele se levantou, arrumando suas roupas propriamente. Ficou meio sem saber o que fazer por alguns instantes, mas acabou por inclinar-se e passou a mão na testa suada de Izaya, que anteriormente o assistia com olhos semi-abertos.
– Mhm... Você tá bem? — Shizuo perguntou, baixinho.
Izaya assentiu, dando um suspiro.
– Preguiça — murmurou, abraçando um travesseiro. — E cansaço.
– É — Shizuo respondeu, com um olhar compreensivo. — Eu vou cozinhar alguma coisa pra gente.
– Eu não sabia que você sabia cozinhar — Izaya disse, sem a intenção de ofender, apenas curioso.
– Eu moro sozinho, e comer fora de casa é muito caro. — Shizuo deu de ombros. — É claro que eu aprendi a cozinhar.
– Que gracinha — Izaya murmurou, soltando um riso.
Shizuo sentiu suas bochechas esquentarem e se levantou novamente.
– Ok. Eu vou lá.
– Mhm hm... — o moreno assentiu, bocejando logo em seguida.
Quando Shizuo saiu, Izaya rolou para o outro lado da cama, deitando a cabeça no travesseiro de Shizuo.
– Cheira a cigarro — murmurou, afundando a cara nele. — O cheiro de Shizu-chan... Confortável...
Me deixando passar a noite aqui e até cozinhando para mim...
Shizu-chan é uma pessoa boa demais para alguém como eu, não é?
O mundo começava a parecer cada vez mais distante conforme Izaya se afundava em seus pensamentos.
Eu sei que não mereço nada disso.
Ao mesmo tempo, me sinto grato...
Passada meia hora, o loiro voltou ao quarto.
– Izaya, eu fiz subuta*-
O informante dormia um sono pesado, esparramado na cama dele. Sua respiração era lenta e alta, o pulso fraturado e imobilizado descansava sobre sua barriga, enquanto o outro braço estava simplesmente jogado para o outro lado.
– Tch... E eu tive todo o trabalho de cozinhar... — Shizuo murmurou, com um leve sorriso no rosto que contradizia sua reclamação.
A expressão de Izaya parecia tão serena enquanto dormia, tão calmo, tão distante da vida agitada que ele e Shizuo tinham em Ikebukuro. Nada de sorrisos maliciosos, sombrancelhas franzidas, nada, apenas a leveza do sono...
– Ah, droga. — Shizuo disse, passando uma mão pelos próprios cabelos. — Caramba, Izaya...
Eu acho que eu amo você.
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