O Melhor Das Piores Intenções
19 Capítulo 18 - Manhã Seguinte
Notas iniciais
– Ah... Minha cabeça dói... Izaya se ergueu com cuidado, sentando-se na cama e levando uma mão à testa.
– Bebi demais... Acabei nem falando com Shouichi... Ainda bem, talvez, vai que eu soltava alguma bobagem por estar bêbado... Tomara que Shizu-chan tenha conseguido informações consistentes com aquela vadia... Mikage.
O moreno soltou um suspiro irritado e deitou-se novamente.
– Mas que ocasião horrível para beber. Perder o controle justo quando controle era o que eu mais precisava... Eu fui um idiota. Sabotei o meu próprio jogo. Não vou me perdoar por isso.
Ele levantou o lençol que cobria boa parte de seu corpo e notou que estava vestindo a camisa de Shizuo, sem nada por baixo, embora não se lembrasse de tê-la vestido. Aproveitou a ocasião para verificar que o loiro estava só de cueca.
– Meus quadris não doem — ele pensou em voz alta. — Nós não fizemos sexo, certo?
– Não — Shizuo grunhiu, do outro lado da cama.
– Aa, Shizu-chan está acordado! Bom dia, bela adormecida. Só que sem 'bela'.
– Péssimo dia. Você tem mania de falar sozinho de manhã. Eu quero dormir mais, então cale a boca — o loiro resmungou, cobrindo a cabeça com um travesseiro.
– Mas que mau humor, Shizu-chan~! Já são dez horas, nee. A gente tem que dar o fora daqui ou vão cobrar mais uma diária. E eu particularmente gosto do café da manhã de hotéis, então a gente deveria descer logo.
Shizuo rosnou como resposta e virou-se para o lado oposto, ainda com o travesseiro. Izaya entrou debaixo dos lençóis por completo e engatinhou até ficar em cima de Shizuo. Então, botou a cabeça para fora, lambendo o pescoço do ex-barman que não estava coberto. Shizuo quase deu um pulo de susto.
– O que diabos você está fazendo?!
– Shizu-chan ficou vermelho, que gracinha. Você não tem que trabalhar hoje, Shizu-chan?
– DROGA! Eu esqueci completamente... O loiro saiu da cama e começou a vestir sua calça. — Onde está a minha camisa?!
Izaya começou a desabotoá-la mas Shizuo logo o segurou:
– Deixa pra lá. Não precisa tirar.
– Estranho — o informante murmurou, abotoando de volta. — Nee, você está com olheiras enormes. Que horas você foi dormir?
– Não te interessa.
– ...
Será que ele não se lembra ou está fingindo que não se lembra?, Shizuo pensou. O ex-barman foi ao banheiro e lavou o rosto com água gelada para acordar mais facilmente. Em seguida, vestiu o terno sem a camisa por baixo. Queria ter outras roupas para trocar naquele momento mas tinha esquecido de trazê-las.
– Izaya — ele chamou, sério, do banheiro.
– Sim?
– Eu não sei dizer se você realmente esqueceu de tudo o que aconteceu ontem ou se você está fingindo que esqueceu porque está com vergonha. E isso me deixa muito irritado.
– Por quê? Assim você me assusta, Shizu-chan. Vai me fazer pensar que fiz alguma coisa muito absurda.
Geralmente era fácil para Shizuo saber se Izaya estava mentindo ou não, como preto no branco; porém, naquela manhã, às palavras do informante pareciam cinza e era difícil dizer o que era verdade e mentira, ou o que era sarcasmo e sinceridade.
– Pare de brincar, pulga maldita.
– Não estou brincando. Se você quer saber do que eu me lembro ou do que não me lembro, deveria me perguntar.
– Ótimo. Então, o que você lembra de ontem à noite?
– Eu me lembro que estava saindo com um cara, aí Shizu-chan parou a gente no meio do caminho e deu uma surra nele ou algo do tipo.
– Continue — Shizuo mandou, estreitando seus olhos em desconfiança.
– Você gritou um monte. E eu vomitei. Muito.
– E depois?
Izaya virou o rosto um pouco, e demorou para responder.
– Depois nada. Foi só isso.
Shizuo estava pronto para contestar, dizer que não, que não tinha acabado, que tinha acontecido mais, que Izaya tinha dito aquilo... Queria dizer que tinha visto ele chorar, que, por um momento, tinha enxergado por trás de suas máscaras; porém, acabou por decidir que era melhor não falar mais nada.
Ele tinha setenta por cento de certeza de que Izaya se lembrava do resto mas estava sendo um filho da puta mentiroso como o de sempre, mas resolveu que, no fim das contas, era melhor não forçá-lo a admitir. Se prolongasse aquela história, acabaria apenas deixando o clima entre eles mais estranho do que o que tinha sido ultimamente.
– Certo.
Talvez os desejos feitos no Tanabata se realizassem mesmo. Shizuo tinha pedido para ser capaz de conhecer o verdadeiro Izaya. O que tinha visto na noite passada era a perfeita definição de verdadeiro, descontrolado, humano...
Pela primeira vez, Shizuo tinha visto o informante perder o controle. Por mais que vê-lo bêbado e naquele estado fosse definitivamente algo péssimo, desgastante, aquela foi a primeira vez em que Shizuo teve a oportunidade de vê-lo em sua maneira mais simples, sincera, frágil.
Contudo, se aceitasse que Izaya tinha finalmente sido sincero enquanto estava bêbado, teria que acreditar que aquele 'eu gosto de você' era verdadeiro também. Mas Shizuo não sabia como se sentir a respeito disso; e se Izaya tivesse falado aquilo da boca pra fora? E se tivesse sido apenas um momento de loucura? Será que ele realmente poderia considerar aquelas palavras?
– Shizu-chan, que informações Mikage passou pra você ontem? — A voz de Izaya o tirou de seus devaneios, desviando o assunto. O moreno gostaria de ter falado 'aquela vadia' ao invés do nome da mulher, mas se controlou.
– Você já tinha ouvido que a espada da Segunda Saika não estava possuída, sim? — Shizuo perguntou. — Então. Pode ser que a própria pessoa que é no momento a assassina esteja possuída. Mas Mikage, que entende dessas coisas, — Izaya fez uma careta nessa última frase — acha isso bem improvável. Então é bem capaz que nem existam demônios envolvidos nessa história toda mas alguma outra coisa que fez uma pessoa normal se tornar uma assassina com força e velocidade fora do comum.
– Certo... — Izaya coçou o queixo. — Eu já tenho uma hipótese sobre essa história toda.
– Que hipótese?
– Não quero falar sobre ela enquanto ainda não tiver certeza. — O moreno disse. — Ou seja, quando eu achar que isso é realmente coerente eu te conto.
Shizuo deu de ombros. Izaya sentiu-se mal. O clima entre eles estava estranho demais, desconfortável demais, constangedor demais. E Izaya sabia que a culpa era somente dele próprio.
– Eu já vou indo — ele afirmou, quando terminou de se vestir.
– Não vai aproveitar o café-da-manhã de que tanto falou?
– Está muito tarde. Tenho várias coisas para resolver hoje.
– Eu vou comer a sua parte também, então.
Izaya não percebeu o sorriso que se formou nos seus lábios quando imaginou Shizuo comendo todo os tipos de doces do buffet. Mas o loiro percebeu.
– Deixe um pouquinho de bolo para os outros hóspedes, mm? Ligo para você mais tarde. O informante checou o celular e saiu do quarto rapidamente, evitando olhar para o loiro mais uma vez. Embora fingisse que estava tudo O.K., era óbvio que não era bem assim.
Eu sinto muito, Shizu-chan.
Eu sou um covarde, não sou?
Como a própria expressão em inglês diz — 'falling in love' -, apaixonar-se significa sofrer uma queda.
E Izaya Orihara tem medo de altura.
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