O Melhor Das Piores Intenções
14 Capítulo 13 - Gaiola de ouro
Notas iniciais
Os dias seguintes passaram para Shizuo sem qualquer contato com Izaya. Nos primeiros três dias, o ex-barman não estranhou muito o fato de não receber nenhuma mensagem de texto ou ligação — talvez Izaya não tivesse nenhuma informação nova, e não era como se ele tivesse a obrigação de ligar para Shizuo. Porém, do quarto dia em diante, ele começou a ficar levemente incomodado. Quando completou-se uma semana desde que tinha deixado o apartamento do informante pela última vez, Shizuo estava puto.
Ele sabia que não tinha o direito de ficar chateado se também não tinha ligado para Izaya nenhuma vez, então foi o que resolveu fazer, no quinto dia. Estava tudo planejado, no caso de a pulga estranhar o motivo de sua ligação repentina, ele diria algo do tipo 'estou achando que você está tentando fazer as coisas sozinho, diferente do nosso combinado'. Na verdade, Shizuo tentava convencer a si mesmo de que esse era o real motivo por trás do sentimento incômodo. Não estava preocupado com Izaya, não. Não estava levemente alarmado a respeito da possibilidade de ele sair com outro cara — especialmente aquele Shiki -, não.
Não é como se aquele 'nada de sexo até Shizu-chan aprender a se comportar' tivesse o deixado com a pulga atrás da orelha a respeito do comportamento do informante. Aliás, 'com a pulga atrás da orelha' era uma expressão que soaria quase engraçada naquela situação, se os músculos da face de Shizuo não estivessem tensos demais para rir. Seria bom estar com a pulga atrás da orelha, talvez. Mas a pulga estava longe. E se estivesse em outro cachorro?
Então ele ficava com raiva de si mesmo por 1) estar aceitando de certa forma os apelidos ridículos que Izaya dava para ele e 2) estar se preocupando com a pulga. A segunda opção dividia-se em a) e b), sendo a): a possibilidade de Izaya ter sido atacado pela Saika (consideravelmente baixa) e b): a possibilidade de Izaya estar saindo com outro homem (mais razoável).
Quando Izaya atendeu sua ligação, Shizuo ficou em primeiro lugar aliviado (ao menos a possibilidade da Saika já podia ser descartada), mas logo seu incômodo voltou.
– Alô — disse o informante, em meio à várias vozes e o som de música ao fundo. Deveria estar em um bar movimentado ou algo do tipo. — Shizu-chan?
– Alô, pulga. Hm, onde você está?
– Em um bar. Mas à trabalho. Por que a pergunta, Shizu-chan?
À trabalho... Menos mal... Mas será que é trabalho mesmo?
– Curiosidade. Por que não me ligou nos últimos dias? Não está resolvendo as coisas sozinho, está?
– Ah? Não — Izaya respondeu, rindo de leve do outro lado da linha. — Não consegui nada novo. As coisas não acontecem rápido assim, Shizu-chan. E eu também tenho o meu trabalho para tocar. — Suspirou. — Nee, minha vida não gira em torno desse plano.
A voz de Izaya de certa maneira não parecia combinar com o som de fundo. A música que tocava era animada, mas a voz do informante parecia amarga, monótona. Shizuo perguntou-se o porquê.
– Eu tenho a impressão de que você está fazendo exatamente o que eu disse para você não fazer, pulga. — O loiro disse. — Ou seja, me usar como uma ferramenta só quando precisa e não me deixar realmente informado sobre as coisas.
– Ahh? O que você quer dizer com isso, Shizu-chan? Eu tenho te informado sobre os acontecimentos relacionados à Segunda Saika muito bem ultimamente. O que mais você quer saber, Shizu-chan? Da minha vida pessoal? Quer se aproximar de mim?
Aquela sequência de perguntas deixou Shizuo atordoado por alguns segundos. Agora quem parecia imprevisível era Izaya. O que é que ele estava pensando? Tinha dado uma 'sumida' de propósito? Estava se fazendo de díficil?
E o mais irritante disso é que a última pergunta realmente parecia ter atingido o ex-barman em cheio: será que ele não estava incomodado com a falta de contato porque queria realmente se aproximar de Izaya? Mas a pulga tinha sempre que impor aquela maldita distância... Uma noite dormiam juntos, depois não se falavam por mais sete. Por que Izaya tinha que fazer as coisas dessa maneira?
Nessa mistura de perguntas, nenhuma acompanhada de resposta, Shizuo só percebeu que tinha ficado muito tempo em silêncio quando voltou a ouvir a voz de Izaya do outro lado da linha:
– Não me ligue mais, Shizu-chan. Nós temos um acordo sobre trabalharmos juntos com a finalidade de salvar a cidade. Mas esse é o único acordo que temos.
– Iza-
– Nós não somos tão próximos e nem queremos ser, certo? Ligo para você quando tiver novidades sobre o plano.
– IZAYA-
Tarde demais. O moreno já tinha desligado e restava apenas o som de 'tu tu tu' do telefone.
– Mas que diabos! — Shizuo resmungou, atirando o celular no sofá. — Além de sumir, agora deu de me evitar mesmo? Pulga maldita, filho da puta...
Vendo que Shizuo estava com raiva, o gatinho que também se chamava pulga escondeu-se debaixo do sofá.
– Não! — Shizuo exclamou, vendo o animalzinho com medo. — Eu não estava falando de você... De qualquer forma, — o ex-barman continuou a pensar em voz alta — qual é o problema dele? Está com medo de se aproximar? Ou realmente está com outra pessoa? Maldito, maldito, maldito...
O loiro sentou-se no sofá e levou as mãos ao rosto, soltando um suspiro pesado.
– Desde que nos conhecemos, ele nunca me evitou. Era eu quem evitava ele porque sabia que ele era encrenca. Mas ele sempre vinha atrás de mim me encher a paciência até que eu destruísse alguma coisa. Por que agora que nós chegamos só um pouco mais perto ele já está fugindo? Maldição...
O gatinho que tinha se escondido debaixo do sofá saiu de lá e deu um pulo, subindo no colo de Shizuo.
– Eu odeio ele — Shizuo murmurou, acariciando a cabeça da... Segunda Pulga. Segunda Saika, Segunda Pulga... — Mas eu me odeio mais por me importar tanto assim enquanto ele provavelmente não está nem aí. Eu devia dar de ombros e deixar ele de lado do jeito que ele faz. Ele merece. Mas ao invés disso, eu não consigo parar de me preocupar com o fato de que a voz dele parecia triste, ou de que ele esteja saindo com um chefe da yakuza que tem idade para ser o pai dele. Ou sei lá. Mas que merda...
Por que, Izaya, por quê?
Eu quero conhecer você, acreditar em você.
Mas agora ficou bem claro como eu fui ingênuo quando achei que por um segundo você poderia ser confiável.
* * *
Enquanto isso, em Shinjuku, um informante voltava para seu apartamento luxuoso depois de entregar as últimas informações do dia.
Izaya estava exausto, tanto psicologicamente quanto fisicamente. Depois de um dia inteiro de falsidade, tanto a própria quanto a de seus clientes, tudo o que queria era tomar um banho quente, comer e descansar. Tudo isso sem sorrisos falsos, sem tentar convencer ninguém, sem mentir. Passar essa noite sozinho seria uma bênção.
Porém, por mais que quisesse, Izaya não era capaz de descansar por completo. Haviam ideias na sua mente que ele não conseguia afastar. Mais especificamente, uma pessoa.
A pessoa que ele tinha acabado de afastar de si, ou ao menos era o que pensava, com um telefonema, era impossível de afastar dos seus pensamentos.
– Mesmo depois daquilo, não consigo me desligar dele. Patético. — Murmurou para si mesmo, abrindo a geladeira e procurando algo congelado e fácil de fazer.
Enganar as outras pessoas é muito mais fácil do que enganar a si mesmo. Mentir para alguém que não faz ideia da verdade é muito simples: você é capaz de inserir sua ideia na outra pessoa de maneira que ela pense que essa é a própria ideia dela e, assim, não duvide ou pense em outras possibilidades. Isso é o que chamamos de manipulação.
Um dos hobbies, assim digamos, de Izaya.
Entretanto, manipular a si mesmo é difícil ou até mesmo impossível — nunca se obtém um resultado perfeito. Isso acontece porque você conhece a verdade. Toda pessoa que mente tem que saber a verdade. Então, ao tentar mentir para si mesmo, você consegue camuflar essa verdade ou escondê-la em alguma parte de sua mente. Contudo, a verdade continua lá. E, de vez em quando, ela voltará para assombrá-lo, especialmente se você acabar confrontando-a em situações que lhe fazem lembrar dela. Situações que lhe fazem lembrar o porquê de você tentar escondê-la.
Estava ficando cada vez mais difícil para Izaya esconder seus verdadeiros sentimentos em relação a Shizuo. Esconder dele mesmo e talvez até — e essa era a possibilidade que mais lhe assustava — do próprio Shizuo.
Não ajudava o fato de estarem mais próximos ultimamente, dormindo juntos com mais frequência e usando suas bocas mais para beijos do que para insultos ácidos. Não estava ajudando nada. Mas não tinha sido o próprio Izaya que tinha deicidido fazer uma parceria com Shizuo? Que tipo de pessoa ele era afinal, um masoquista maluco?
Eu sabia que isso iria acontecer. Mesmo assim, não consegui ignorar a vontade de ficar perto dele.
Izaya não admitiria nem se sua vida dependesse disso, mas um dos verdadeiros motivos por trás de sua 'proposta', além da ideia de derrotar a Segunda Saika, era sim se aproximar de Shizuo. O informante jurava não ter qualquer intenção romântica e tentava dizer a si mesmo que isso se dava apenas pelo fato de Shizuo ser uma pessoa interessante, alguém que ele queria manipular — mas a verdade não era essa. E, no fundo, ele sabia disso. Sabia tão bem que chegava a lhe dar dor de estômago.
Estar perto de Shizuo era como dar um tapa na própria cara. Significava fazer-se vulnerável, não no sentido físico, como todos pensariam, mas vulnerável aos próprios sentimentos. Vulnerável à verdade que ele não queria admitir.
Estar perto de Shizuo era como libertar-se aos poucos, grade por grade, da prisão que ele mesmo tinha construído. Porém, como um pássaro que passou a vida toda dentro de uma gaiola, ao ter a chance de ser finalmente livre, Izaya tinha medo de sair.
A ideia de liberdade que ele tinha sempre cultivado consistia em não estar preso à ninguém, nunca dever satisfações e poder fazer o que quisesse, sem se preocupar. Mas essa era uma ideia falsa. A real liberdade consistia em entregar-se sem medo. Uma ironia que tinha um gosto muito amargo.
Confiar.
Perder o controle.
'Perder o controle' era uma frase que lhe dava calafrios.
Se não tivesse passado esse tempo perto de Shizuo, Izaya não estaria pensando nessa possibilidade. Se não tivesse passado esse tempo perto de Shizuo, a verdade sobre seus sentimentos continuaria escondida sob camadas e camadas de falsidade e medo. Exatamente como deveria estar — ou ao menos era isso o que ele pensava.
Então, a melhor coisa a fazer seria se afastar. Antes que ele acabasse por perder o controle de si mesmo. Antes que a verdade viesse completamente à tona.
Entretanto, já era tarde demais para fingir que não havia nada acontecendo dentro de si. E a tendência dali pra frente era de que isso só piorasse.
Notas finais
Me senti meio mal pela queda no número de comentários dos últimos capítulos. Justo agora, que estava postando mais frequentemente... Talvez seja porque os últimos capítulos não tiveram muitos ~acontecimentos~ e mais pensamentos, mas confesso que desanimei um pouquinho... Mas nem posso reclamar de verdade porque minha escrita não é lá grande coisa... Ah ; _ ;
É isso. Espero que tenham gostado, comentem por favor (*olhinhos do gato de botas*) e tenham um bom final de semana. Beijos da Rafsu. ♥
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