O Melhor Das Piores Intenções

28 Capítulo 26 - Tudo o que você não sabe


Notas iniciais
Olá minna-san! Espero que gostem do capítulo de hoje. Para mim, ele foi bem prazeroso de escrever. Amo Izaya e suas irmãs. Boa leitura! ♥

– Shizu-chan, pare aqui.

O carro parou em frente à uma casa branca com arquitetura tipicamente japonesa, minimalista mas refinada, rodeada por um belo jardim com várias árvores pequenas e ornamentais. Izaya ligou para suas irmãs, pedindo que abrissem o portão.

– É melhor deixar o carro na garagem fechada — disse ele. — Assim não vai ficar tão óbvio que estamos aqui.

Quando estacionaram o veículo dentro da garagem, as gêmeas Mairu e Kururi já estavam os esperando na porta.

– Nii-san! — Mairu o cumprimentou, entusiasmada, um humor bem diferente do que apresentava antes. — Faz tempo que você não vem aqui, nee?

– Meses — Kururi murmurou.

– Então vocês sentiram minha falta?

– Não — as irmãs disseram, em uníssono. No fundo, no fundo, Izaya sabia que não era verdade, ao menos não totalmente. Suas irmãs eram parecidas com ele, afinal.

– Ok...

– Shizuo-san! — A irmã mais extrovertida foi cumprimentá-lo. — Como está o seu irmão? Poderia ter trazido ele, mm? Nós temos bastante coisa para ser autografada, ehe... Brincadeirinha.

– Shizuo-san — Kururi acenou sutilmente com a cabeça. — Bem-vindo.

– Está é a primeira vez que Shizuo-san vem aqui, não é? Ao menos eu não me lembro de mais nenhuma outra vez, se bem que eu e Kururi éramos crianças quando... mhm... é... Enfim, bem-vindo à residência Orihara, Shizuo-san.

– Er, obrigado...

Izaya parecia um tanto incomodado.

– Vamos entrar logo...

A casa dos Orihara era nitidamente muito espaçosa. Tinha ambas arquitetura e decoração bem tradicionais, com vários materiais em bambu e madeiras decorativas, além de diversos vasos e decorações de porcelana que deveriam valer o apartamento de Shizuo.

– Fique à vontade, eu acho. Ou sinta se em casa, sei lá — Izaya disse, deixando uma grande bolsa num canto da sala.

– Você ficou de mau humor de repente — Shizuo notou.

– Esse lugar me deixa irritado — o moreno suspirou. — Sente-se, se quiser.

Shizuo retirou uma carpa de cristal de uma mesa e a observou de perto, em seguida quase deixando-a cair e recolocando-a rapidamente na mesa, uma gota de suor escorrendo de sua testa. Izaya riu.

– Pode mexer — disse, em meio ao riso. — Não me importo se quebrar, também.

– Mas essas coisas valem uma fort-

– É, eu acho. Valem muito em ienes, mas na verdade não valem nada. Entende o que eu quero dizer?

– Acho que sim — Shizuo respondeu. Então, apontou para uma coleção de livros numa estante. — Em que idioma estão aqueles livros?

– Francês — Izaya disse, dando de ombros. — Cinco deles são em francês e um é em russo.

– E você entende ISSO? — O loiro perguntou, espantado.

– Entendo — o moreno respondeu, como se fosse a coisa mais fácil do mundo. — Não é tão complicado quanto parece, na verdade. Ler é bem fácil, falar é a parte difícil.

Shizuo ficou apenas encarando-o.

– Shizu-chan, dá pra parar de me olhar como se eu fosse algum tipo de alienígena? Obrigado.

– Não acho que isso seja uma coisa ruim — disse Shizuo. — Isso é bem... legal, na verdade.

– Não é como se eu tivesse aprendido essas coisas porque eu quis, de qualquer maneira. Meus pais me obrigaram a aprender alguns idiomas.

– Seus pais ainda moram aqui?

– Pode-se dizer que não. Eles raramente vêm pra cá, de acordo com o que minhas irmãs dizem. Quando eu ainda morava aqui, já não passavam muito tempo em casa, agora ainda menos. Estão sempre viajando.

Era estranho, Izaya começou a pensar, a maneira com que tinha começado a explicar sua família para Shizuo. Tão naturalmente, ele quase não percebia que poderia estar falando demais ou que aquilo fosse intimidade demais para o seu gosto — mesmo porque ele nunca contava aquelas coisas para ninguém.

Espera aí, ele não tinha dito para si mesmo antes que não queria responder perguntas? O que estava fazendo agora?

Por que eu estou contando justamente para o Shizu-chan?

– Vocês tem um piano — Shizuo notou, do outro lado da sala.

– É.

– Quem toca?

Izaya hesitou para responder. Ele desviou o olhar, suspirou, abriu a boca para falar, fechou, abriu novamente e finalmente disse:

– Eu toco. E a minha mãe.

– SÉRIO?

O rosto do moreno ficou vermelho e ele pareceu estar meio desconfortável e envergonhado.

Nee, Shizu-chan, você não precisa parecer tão incrédulo assim... — Disse. Em seguida, tentou disfarçar: — Quer dizer, é óbvio que uma pessoa sofisticada como eu tem talento para a música clássica.

Shizuo revirou os olhos e deu um sorriso provocativo.

– Você ficou nervoso.

– Ter conversas casuais com Shizu-chan... É desagradável — Izaya murmurou, fazendo biquinho quase que involuntariamente.

– Você tem vergonha de me deixar saber mais sobre você?

– Não tenho vergonha de nada — ele mentiu. — Só acho desnecessário. Por que você quer saber sobre mim?

– Porque eu gosto de você.

Izaya engoliu em seco. Ele esperava qualquer resposta menos aquela. O chão pareceu girar sob seus pés por um segundo.

– Shizu-chan — bufou, levando uma mão ao rosto, com uma expressão de cansaço.

– Você ficou nervoso de novo. — Shizuo sorriu o sorriso malicioso que era típico do outro. — E olha que eu já deixei isso óbvio antes, tch.

– Você nunca falou desse jeito. — O moreno soltou um suspiro de falsa irritação.

– Você queria que eu falasse?

– É claro que não — mentiu. — Eu vou tomar um banho. Você pode ficar no meu quarto, se quiser. É mais confortável do que a sala.

– Está fugindo da conversa de novo.

Izaya ignorou e subiu as escadas. Shizuo levantou-se rapidamente do sofá onde estava sentado para segui-lo.

O quarto de Izaya era simples e organizado. Não tinha muitas coisas, provavelmente porque ele teria levado várias consigo quando se mudou. Tinha apenas uma cama ocidental, com várias caixas embaixo, uma estante de livros e uma escrivaninha.

– Pode ficar aí, mas não mexa nas minhas coisas — Izaya disse, antes de fechar a porta do banheiro.

– Tá.

Shizuo se deitou na cama de Izaya e suspirou. Os lençóis tinham cheiro de amaciante, provando que continuavam sendo trocados e lavados mesmo que Izaya não dormisse mais ali. No teto haviam alguns adesivos brancos e Shizuo apagou as luzes para comprovar que eram daqueles que brilhavam no escuro.

– Então era isso que ele via quando ia dormir...

Ele acendeu as luzes novamente e saiu da cama. As caixas embaixo da mesma o deixaram curioso, ainda mais depois de o moreno dizer que não era pra mexer nas suas coisas.

– De que 'coisas' ele estava falando?

Shizuo olhou em volta para garantir que não havia ninguém perto. O som do chuveiro ligado era nítido vindo do banheiro. O loiro retirou furtivamente uma caixa de baixo da cama e abriu-a devagar. Ele se sentia um pouco culpado, mas a curiosidade era mais forte.

Dentro da caixa havia um walkman, alguns livros escolares e um pequeno caderno de capa lisa e preta. Shizuo pegou o caderno e passou a folheá-lo. Parecia conter anotações pessoais.

– Ops...

Quarta-feira, 12 de setembro de 2002*

Visitei o quartel da yakuza pela segunda vez hoje. Estão me oferecendo dinheiro em troca de informações sobre um professor do colégio. Parece que ele tem dívidas com drogas. Falando em colégio, faz uma semana que não vou à aula.

É estranho pensar que estou me envolvendo com o crime tão cedo. É quase, quase assustador. Mas eu não me importo com valores morais. Só tenho um pouco, bem pouco, de medo de me dar mal no final.

– Então isso é um tipo de diário? Será que era nisso que ele não queria que eu mexesse?

Shizuo continuou a ler.

Shiki-san disse que gente como ele e como eu nunca acaba mal no fim das contas. De acordo com ele, somos espertos demais para cair em qualquer armadilha. É meio estranho o jeito que ele fala — como se fôssemos o mesmo tipo, mas ao mesmo tempo é uma sensação confortável. Apesar de ele ser um pouco otimista demais.

– Não acredito que eles se conhecem a todo esse tempo. Quantos anos ele tinha nessa época? Dezesseis? Dezessete? E esse filho da mãe já devia ter mais de trinta.

Shizuo fez um esforço para não dar um soco na parede e resolveu mudar de página, abrindo caderno aleatoriamente mais uma vez.

Segunda-feira, 2 de janeiro de 2003

Conheci hoje um humano diferente de todos que conheço.

Ou melhor, um monstro.

Shinra me apresentou a Shizuo Heiwajima.

Ver o próprio nome naquela escrita pequena e fina deixou o ex-barman surpreso. Ele passou a prestar muita atenção no texto que vinha depois:

Eu já tinha ouvido mencionarem aquele nome várias vezes, mas estar cara a cara com ele foi muito melhor. Ele é bonito, alto, forte, olhos dourados, cabelo loiro. Tem uma cara meio de delinquente. Gosto da aparência dele.

Shizuo leu aquelas frases rápido e sentiu sua pele esquentar. Acabou por reler várias e várias vezes, sentindo seu coração palpitar a cada palavra capturada por seus olhos rápidos.

– Eu não acredito... Que ele pensava assim... Naquela época...!!!

Mas isso tudo não vale nada porque ele já me detesta. Achei que pudéssemos nos tornar aliados, sabe como é, a força dele e a minha inteligência. Seríamos uma dupla perfeita. Porém, aparentemente, ele não gostou de mim já na primeira vez que me viu.

É uma pena.

Não, não é uma pena. É irritante, na verdade. Muito irritante. Me deija enjoado.

Ele vai se arrepender disso. Se ele acha que só por dizer que "não gosta de mim" vai se livrar de mim tão fácil, está muito enganado. Não vou deixá-lo em paz. Não vou deixá-lo esquecer de mim por um instante.

Idiota idiota idiota idiota idiota idiota

– Idiota é você — Shizuo murmurou, virando a página para continuar a leitura.

Ah, seria tão bom se ele se juntasse a mim. Poderia manipulá-lo. Usá-lo ao meu favor. Mas ele não parece fácil de manipular como todo mundo. Ele é diferente de todo mundo. E é por isso que ele é um monstro.

Mas ele deveria ser o MEU monstro.

Eu odeio Shizuo Heiwajima.

Mais páginas eram viradas conforme Shizuo procurava o próprio nome em mais registros. Depois das últimas coisas que tinha lido, ele não conseguia parar de pensar que queria saber mais, precisava saber mais.

Quantas coisas Izaya estaria escondendo desde os tempos da Academia Raijin?

Quinta-feira, 21 de janeiro de 2003

Shizu-chan é tão desagradável.

Não consigo ficar perto dele. Nós realmente não nos damos nem um pouco bem. Parece quase natural.

Me irrita só o fato de ele respirar. E ele me dá uma sensação estranha. Parece falta de ar. Meu estômago arde.

Ao mesmo tempo, não consigo ficar longe dele e a aula é um tédio quando ele falta.

Por que eu sentiria falta de alguém que eu odeio? Que nojo.

Eu vou matá-lo um dia, com certeza.

E me livrar dessa sensação nojenta.

Shizuo suspirou pesadamente.

Eu me pergunto o que teria acontecido se nós tivéssemos sido amigos.

O ex-barman ouviu o som do chuveiro sendo desligado e seu corpo congelou. Ele fechou o caderno rapidamente, logo devolvendo-o à caixa e colocando-a de volta sob a cama. Em seguida, deitou-se novamente e fechou os olhos como se antes estivesse tirando um cochilo.

Izaya entrou no quarto, vestindo uma blusa de moletom e uma bermuda preta. O vapor quente do banheiro e cheiro de shampoo de frutas invadiu o quarto e Shizuo se levantou, coçando os olhos para ser mais convincente.

– Você dormiu? — O moreno perguntou, arqueando uma sombrancelha.

– Mhm hm.

No fundo, Shizuo se sentia um tanto culpado por mentir. Justamente ele, que detestava mentiras, estava mentindo. Mas era só um diário, certo? Não era um crime, certo? Apesar disso, era óbvio que Izaya iria surtar se soubesse que Shizuo tinha lido todas aquelas coisas sobre si mesmo, por mais bobo que parecesse.

O ex-barman também tinha a noção de que era errado invadir a privacidade alheia, mas que tipo de pessoa se seguraria na oportunidade de ler o antigo diário de Izaya Orihara?

Sinto muito, Izaya.

Mentira. Sinto não.

– Mairu, as empregadas vieram hoje? — Izaya perguntou para a irmã, descendo as escadas.

– Não — a adolescente respondeu.

– Nii-san cozinha — disse Kururi, como se fosse uma ordem.

– Tá — Izaya bufou. — Eu cozinho.

Shizuo e as adolescentes sentaram-se à mesa enquanto Izaya foi à cozinha.

– Shizuo-san — murmurou Mairu, logo que seu irmão deixou a sala de jantar. — Tem algo que eu queria te dizer.

O loiro assentiu.

– Sabe — ela continuou-, Nii-san às vezes pode parecer uma das piores pessoas do mundo, mas ele não é tão ruim assim.

– Eu sei — afirmou Shizuo, com um suspiro.

Mairu pareceu surpresa.

– Quando eu e Kururi éramos crianças e Nii-san morava aqui ainda, ele nos ajudava a fazer o dever de casa de vez em quando. Nossos pais nunca estavam em casa, então ele tinha que fazer o papel deles, também. Foi assim que ele aprendeu a cozinhar.

– Solitário — murmurou Kururi.

– É — Mairu assentiu. — Eu e Kururi sempre tivemos uma à outra, mas Nii-san... bem... ele nunca teve ninguém.

Shizuo ficou em silêncio, apenas absorvendo aquelas informações e relacionando-as ao homem que, há um certo tempo atrás, tinha pensado ser seu pior inimigo.

– Claro que boa parte disso é culpa dele — a adolescente continuou. — Ele não confia ninguém e prefere sempre manter uma distância de qualquer um que conhece. Tem também aquele complexo ridículo de se achar o rei do mundo... Mas Nii-san não parece feliz do jeito que está.

– Verdade — Kururi completou.

– Eu concordo. — Disse Shizuo.

– Mas não conte nada disso para ele, tá? Vai que ele resolve vender a gente para a yakuza ou algo do tipo~

Falando no diabo...

– Mairu, Kururi, botem os pratos na mesa. — Izaya gritou, da cozinha.

Shizuo resolveu ir até lá.

– Er... Precisa de ajuda?

– Não — Izaya respondeu. — Já está pronto.

O moreno tentou levantar uma panela pesada com certa dificuldade e Shizuo segurou-a bem a tempo de evitar que caísse.

– Deixa que eu levo isso aqui.

– Eu não preciso da sua ajuda — Izaya virou o rosto, envergonhado, esforçando-se para manter o equilíbrio.

– Está pesada e o líquido dentro está fervendo — Shizuo cerrou os dentes. — Você vai se queimar.

– Eu me viro, Shizu-chan.

– Eu só quero te ajudar — o loiro grunhiu.

– Eu estou ótimo — o informante sorriu ironicamente.

– Me dá a droga da panela antes que eu torça o seu pescoço.

Da sala de jantar, Mairu e Kururi só assistiam a 'discussão' dos dois.

– Eles parecem aquelas pessoas casadas há muito tempo — observou Mairu.

– Romântico — a irmã mais quietinha acabou concordando.

– Ei, a gente tá com fome!

Shizuo trouxe a panela de missô — sim, Izaya acabou cedendo depois de mais algumas ameaças — e todos se serviram.

– Está bom — disse o loiro, depois de experimentar. — Nossa, está muito bom.

– É claro que está — Izaya sorriu. — Fui eu que preparei.

– Delicioso — Kururi afirmou.

– Ei, não fiquem falando tanto que ele já é metido o bastante — Mairu resmungou.

Terminado o jantar, Izaya tirou seu celular do bolso e começou a mexer nele, verificando suas mensagens mais recentes e o fórum dos Dollars.

– Tá na hora das crianças irem para a cama — disse ele, desligando a tela do celular depois de um certo tempo.

– Nós temos dezesseis anos, Nii-san! E não são nem onze horas.

– Mas vocês tem aula amanhã. Vão logo.

– Será que Iza-nii quer um tempo sozinho com Shizuo-san~? — Mairu sussurrou para Kururi.

Boy's love– a outra murmurou, confiante.

– Ei, não é nada disso!

As gêmeas protestaram mais um pouquinho só para não perder o costume, mas acabaram se despedindo e subindo as escadas para seus quartos.

Notas finais
* Nas datas do diário, estou considerando a data de nascimento de Izaya como a apresentada no anime (1986). Essa data difere na light novel. Considerem que ele fez aquelas anotações quando tinha 16~17 anos. Explorar o passado de Izaya e ficar imaginando como ele pensava, agia e o que ele estava fazendo quando era adolescente é uma das minhas coisas favoritas. Também amo as irmãs dele, adoro escrever sobre elas. Shizuo está finalmente tendo uma chance de conhecer Iza-chan melhor~ Espero que tenham gostado do capítulo! Deixem comentários com suas opiniões, por favor. E até o próximo ♥