O Melhor Das Piores Intenções
20 Capítulo 19 - A cidade é um campo de batalha
Notas iniciais
As ruas de Ikebukuro estavam perturbadoramente vazias naquela noite. Uma pessoa qualquer que não fosse moradora de Ikebukuro jamais diria que estavam vazias — na verdade havia várias pessoas passando por ali. Porém, para o padrão de movimento do distrito comercial, elas estavam vazias.
E na opinião de Izaya Orihara, que considerava ter um PhD em comportamento humano e conhecia aquelas calçadas melhor do que as linhas nas palmas de suas mãos pálidas, as ruas estavam vazias demais — para o seu gosto.
Entretanto, ele já sabia o porquê disso: Tóquio inteira e provavelmente metade do Japão estava ciente da Segunda Saika — apesar de ainda a chamarem de 'assassino da katana', por não terem tanto conhecimento sobre a situação quanto o informante. Por esse motivo, certa parte da população parou de sair de casa à noite.
Sempre havia aqueles que não se importavam ou eram ocupados demais com negócios ou outras coisas do tipo para tomar aquela medida de segurança. Mesmo assim, aquela situação estava prejudicando a economia e a vida na cidade em geral. A Segunda Saika tinha que ser eliminada. Rápido. Izaya queria que fosse fácil como falar.
Já nem era mais adequado chamá-la de Segunda Saika, agora que ele sabia que a espada não era possuída por um demônio e, portanto, não era Saika. Mas o nome já tinha pegado para ele e Shizuo e então não fazia sentido trocar por alguma outra coisa.
Ele queria mesmo era descobrir exatamente o que aquilo era — o que estava acontecendo, por que estava acontecendo, com quem estava acontecendo e, por último mas não menos importante, quem havia causado aquela bagunça. Qual dos amados seres humanos de Izaya Orihara teria a culpa?
Interessante.
Uma brisa passou e balançou levemente as mechas escuras do informante, juntamente com a pelúcia branca de sua jaqueta. Ele fechou os olhos e respirou fundo.
Ainda de olhos fechados, Izaya ouviu um grito. Por um instante, achou que fosse coisa da sua cabeça, mas o som se repetiu.
– É O ATOR YUUHEI HANEJIMA! — Uma voz aguda de adolescente anunciou.
– MAS O QUE É AQUILO?! — Outra gritou.
O moreno voltou a abrir os olhos e olhou na direção do som. Havia um aglomerado de garotas em uma formação que lembrava um círculo. Várias seguravam pôsteres, cartazes, máquinas fotográficas ou os próprios celulares no modo câmera. Kasuka deveria estar bem no meio do círculo, rodeado também por seus guarda-costas, mas com as garotas na frente não dava para vê-lo.
De repente, houve vários gritos agudos. Esses gritos, porém, não eram de admiração, fascinação ou simplesmente os típicos gritos de fangirls. Eram gritos de terror.
Várias garotas saíram correndo e o aglomerado se desfez rapidamente, como um formigueiro se desmanchando. Foi então que Izaya foi capaz de entender o motivo por trás do desespero.
– ASSASSINO DA KATANA! — Uma garota passou correndo do seu lado, com lágrimas nos olhos.
A Segunda Saika tinha acabado de perfurar um dos guarda-costas de Kasuka Heiwajima com sua espada afiada. O homem alto e negro caiu e passou a se contorcer no chão.
Nisso, os outros guarda-costas que estavam em volta do ator gritaram e saíram correndo, deixando-o sozinho naquela cena perigosa.
Ah, a covardia da espécie humana.
Apesar do que tinha acabado de acontecer, Kasuka mantinha sua expressão (ou a ausência de uma), apenas parecendo levemente confuso em uma de suas sombrancelhas.
Pareciam minutos, mas apenas alguns segundos tinham se passado. A Segunda Saika tinha desaparecido da cena como sempre fazia — tão rápida quanto um flash. Mas ainda deveria estar por ali. Izaya tinha quase certeza.
Era de certa forma irônico pensar que essa era uma chance imperdível para as fangirls: pela primeira vez em muito tempo, Kasuka estava sem guarda-costas. Entretanto, ninguém teria coragem de ir até ele agora, sabendo que o assassino da katana estava bem perto.
Por que ele não correu ainda? Izaya pensou. Ele é idiota? É de família?
– Merda, se ele continuar ali... A Segunda Saika ainda está por perto. Ela está em algum lugar. Ela pode atacá-lo em questão de segundos. Deve estar à espreita, só esperando. Por que ele não corre?
Shizu-chan ficaria arrasado se alguma coisa acontecesse. Arrasado é pouco. Não duvido que ele tentaria se matar ou algo do tipo.
Por que eu estou pensando nele justo agora?
Droga. Eu não posso deixar isso acontecer. Droga!
Izaya cerrou os dentes, com raiva de si próprio. Em seguida, saiu de trás do muro por trás do qual se escondia e foi até o ator. Os olhos de Kasuka pareceram se arregalar só um pouquinho.
– Você é Izaya Orihara? — Ele perguntou, sem qualquer alteração na voz.
– Exatamente — Izaya respondeu, com um sorriso falso.
Um leve sorriso — leve mesmo, quase imperceptível — formou-se no rosto do irmão mais novo de Shizuo.
Por que ele está sorrindo?
– É uma pena que você já me conheça mesmo sem nunca termos nos apresentado. De qualquer maneira, é um prazer conhecer você, Hanejima Yuuhei-san*. Ou eu deveria dizer, Heiwajima Kasuka-san?
– O prazer é todo meu, Izaya-san.
No instante em que Kasuka terminou sua frase, houve um som alto e uma lata de lixo feita de aço foi arrebentada. Não foi preciso mais nada para que Izaya tivesse certeza de que era a Segunda Saika.
Como eu imaginava.
Era difícil enxergar nitidamente a assassina conforme a mesma moveu-se sobre si em sua velocidade sobre humana, mas Izaya rapidamente tirou seu canivete do bolso e abriu-o em um movimento só.
– Você quer brincar? Eu quero brincar — disse ele, com um sorriso.
Ela é ágil demais. Mas eu também tenho minhas habilidades. Preciso me concentrar, e só.
– Na verdade, já faz um tempo que eu queria brincar com você mas nunca tinha tido a chance, nee?
Izaya ouviu o som de sirenes de polícia mas ignorou. A polícia não seria capaz de fazer nada a respeito de uma assassina de nível sobrenatural e eles provavelmente já sabiam disso e queriam apenas mostrar serviço ao povo. Diferentemente de Izaya, que agia sempre pelos próprios princípios.
A Segunda Saika movia-se repetidamente de um lado para o outro. A lâmina de sua katana parecia brilhar como uma jóia no ar. Izaya manteve seu olhar fixo, estreitando os olhos um pouco, e conseguiu finalmente identificar o corpo da criatura.
Então é realmente uma mulher. Cabelo preto. Rosto fino.
O moreno avançou na assassina e foi então que algo surpreendente aconteceu: ela o ignorou completamente. Ao invés de se defender ou contra-atacá-lo imediatamente, a Segunda Saika passou direto ao lado de Izaya, indo na direção de Kasuka.
Eu odeio ser ignorado.
Antes que ela pudesse atacar o ator, Izaya virou-se e tentou enfiar seu canivete nas costas dela. No entanto, ele não teve sucesso, acertando apenas o cabelo e cortando algumas mechas pretas que pareceram flutuar como fuligem.
– Tão rápida — Izaya murmurou, rapidamente retirando de seu bolso outros dois canivetes idênticos. — Mas tudo bem. Não seria divertido se fosse fácil de acabar com você, nee?
Mesmo que tivesse falhado, seu último ato somado à provocação que tinha feito foi o suficiente para que conseguisse conquistar a atenção da Segunda Saika dessa vez. A criatura avançou em sua direção, com a katana preparada para um golpe fatal.
Izaya podia não ser tão forte, mas sua agilidade compensava completamente. Em uma fração de segundo, o informante desviou o ataque, de modo que a assassina acabou por acertar o muro que havia atrás, quebrando a lâmina de sua katana e também ferindo a si mesma.
– Eu esperava mais da criatura que assombra a cidade. Estou decepcionado com você.
A Segunda Saika levantou-se rapidamente e tentou atacar Izaya mais uma vez, dessa vez mais fraca. O moreno desviou o ataque novamente e lançou seus canivetes na direção dela.
A assassina conseguiu desviar das lâminas e acabou por pular sobre o muro atrás de si, escapando como sempre fazia, rápida e sem deixar rastros. Isto é, além do cabelo que Izaya tinha cortado.
O informante suspirou e recolheu as mechas do chão, observando-as com cuidado, em seguida soltando-as novamente, incomodado.
Cabelo normal. É uma pessoa normal.
Um ser humano normal em uma condição estranha.
Izaya estava satisfeito com sua performance na pequena 'luta' que tiveram. Ele não esperava ser capaz de ferir a Segunda Saika seriamente, muito menos matá-la — afinal, se realmente pensasse que era fácil daquele jeito, não precisaria da ajuda de Shizuo.
Ele estava apenas feliz, de certa forma, por ter tido sua chance de enfrentar, cara a cara, o monstro que queria tanto destruir. Falso monstro, na verdade, pois se tratava de um ser humano que, de alguma maneira, tinha conseguido força e agilidade sobre humanas, além de algum tipo de instinto assassino que perturbava o informante.
Falar em monstros o fazia pensar em Shizu-chan e Izaya se irritou ao perceber que as coisas mais banais direcionavam seus pensamentos àquela mesma pessoa.
– Eu me pergunto se a Segunda Saika mata por querer ou se está sendo controlada. Ou talvez o completo oposto: está fora de controle e não tem consciência de seus atos. O que será, nee...
Ao se virar, Izaya viu que Kasuka ainda estava ali e fechou seu semblante.
– Você deveria ter fugido — disse o moreno. — Na verdade, não consigo entender o motivo de ainda estar aqui.
– Eu não queria sair daqui e acabar encontrando fãs ou pessoas que pudessem querer me entrevistar ou tirar fotos ou coisa do tipo — Kasuka respondeu, dando de ombros. — Queria aproveitar meus minutos de liberdade.
Izaya soltou um riso.
– Então você tem mais medo das suas fãs do que da assassina da katana?
– Você pode dizer isso.
– Interessante.
Kasuka tirou seu celular do bolso e discou um número rapidamente, provavelmente chamando seu motorista, outros guarda-costas ou algo do tipo. Enquanto o número discava, o ator disse:
– Você não é tão ruim quanto parece, Izaya-san.
– Eu não me importo com a opinião que você tem de mim. — Izaya respondeu, com um sorriso sarcástico.
– Eu sei. Só estou dizendo. Não vou agradecê-lo por ter me salvado porque sei que isso não significa nada para você e estou certo de que seus motivos não foram genuínos, mas foi bom conhecer você, Izaya-san.
– Igualmente.
O informante se virou e pôs se a caminhar no sentido oposto de Kasuka Heiwajima, deixando a cena da pequena luta que tinha acabado de vivenciar. Luta esta que seria vivenciada novamente bem mais tarde, mas com muito mais intensidade.
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