O Melhor Amigo
8 Capítulo 8 - A Aluna Nova
Notas iniciais
Capítulo 8 — A Aluna Nova
Ontem à noite, eu estava ouvindo uma música na rádio, uma das poucas coisas que tiram meu tédio em casa. Ao mesmo tempo em que a letra da música era linda, ela era triste e me feria muito. Falava de como a família é um bem precioso e que como não damos valor a ela. Meu pai era meu bem mais precioso e eu dei muito valor a ele, sempre me esforcei para ser um bom filho apesar de ele ter muitos problemas psicológicos por ter sido abandonado por minha mãe. Mesmo que tentasse demonstrar força na minha frente, eu sempre o ouvia chorar a noite, e quando bebia me mostrava quão frágil estava. Sempre acabo pensando nele quando me deparo com a palavra “família”.
Já estou quase no final do primeiro trimestre de aulas e essa escola nunca esteve tão ruim. No ano passado, a única coisa que me alegrava aqui nessa cidade era ir para a escola; ter por perto Wesley e Lorena era um máximo, mas hoje em dia isso é apenas torturante. Wesley não está na mesma turma que eu, e mesmo que estivesse já não nos falamos mais — ele tem novos amigos, então agora não quer mais assunto comigo. Já Lorena... Mal a vejo de tanto que ela mata aula. Pelo que eu soube, já passou por três namorados desde então. Nunca mais falou comigo e nem sequer me cumprimenta quando me vê. Não tenho amigos em sala, falo com um ou outro, mas no geral fico isolado. Enfim, continuo sozinho.
Assim que chego à escola, já de cara descubro que a professora de ciências vai faltar. Para mim, isso é uma notícia trágica; sem aula, fico sem absolutamente nada para fazer, apenas sentado no pátio esperando à hora passar.
Sento-me em um dos bancos do pátio e fico fazendo a única coisa que me resta: olhar a diversão alheia. Em meio a minhas observações fito as grandes figuras da minha sala. O Luiz, um gordinho de cabeça grande que fala muito, tem um palavreado chulo e desembucha palavrões a toda hora. Ao lado dele, rindo alto, está o “Cisterna” — sabe, até hoje não sei porque o apelido dele é esse. Os dois são o terror da sala, vivem falando muita besteira e zoando os outros alunos. Eu mesmo sou alvo fácil deles.
Mais a frente e como sempre rodeado de meninas, está o Leo, sonho de consumo de todas as meninas da minha sala e até de umas garotas de turmas mais avançadas. Acho que o tipo dele é o que o mais odeio, popular com as meninas, apesar de que nem tem como eu falar dele... Ou que é mal gosto delas. Até eu queria ser que nem ele, alto com a pele escura e olhos cor de mel, bom porte físico e um jeito que agrada a todas, mas... Ele é um príncipe, algo que eu nunca irei ser.
Ainda estava analisando os personagens de minha sala quando algo me chama a atenção: uma figura na mesma situação que eu, isolada inerte ao povo a sua volta e sem parecer se encaixar, algo surpreendente para mim, pois sempre achei que era o único deslocado dessa escola. Se me lembro bem, só tem a minha turma de tempo vago. Será que ela está matando aula?
Continuo a observar a menina isolada sentada em um banco distante; ela é um pouco gordinha tem a pele bem branca. Suas bochechas são rosadas e o cabelo preto está amarrado com um laço.
Antes que eu começasse a formar minhas teorias, o sinal do segundo tempo toca, indicando a próxima aula. Assim escutam o sinal, todos vão se dirigindo para a sala, inclusive a menina gordinha.
Logo que chego à sala, me sento no meu costumeiro lugar no canto da sala, onde dificilmente me perturbavam. Para a minha surpresa a menina gordinha se senta ao meu lado. Repentinamente me deu um estalo e o óbvio apareceu em minha mente: ela é uma aluna nova, por isso que eu não a conheço. Tadinha, deve estar bem deslocada com tudo.
Lembro-me do meu primeiro dia, eu estava muito perdido, e se não fosse Wesley, eu teria entrado em pânico. Acho que foi graças a ele que o meu primeiro dia foi tão agradável, tenho um pouco de saudade da amizade dele.
Acho que farei o mesmo por ela, o primeiro dia pode ser terrível se a pessoa não tem no que se apoiar. Não sou muito bom para lidar com garotas, mas tentarei fazer o meu melhor para deixá-la ao menos confortável no dia de hoje.
Assim que o professor entra já esbanjando seu bom humor, algo raro em um professor, os alunos param com a bagunça para prestar a atenção na aula. A menina nova tira de sua mochila um caderno rosa com uns gatinhos em sua capa e seu estojo, nem sequer cruza os olhares comigo, não sei como fazer para falar com ela. Um dos meus maiores problemas é minha imensa timidez.
Após dois tempos inteiros de aula, finalmente o sinal do intervalo toca. Não consegui falar uma palavra com a aluna nova, a única vez que ouvi a voz dela foi quando o professor fez a chamada e perguntou o nome dela porque ainda não estava na chamada dele. “Suzana”. Achei que não combinava com ela, parece nome de mulher velha, eu ao menos não conheço nenhuma Suzana nova.
Já no pátio contemplando a bagunça que as turmas fazem no intervalo, fico a procura da menina nova. Ainda acho que ela deve estar se sentindo solitária, por isso quero muito ajudá-la.
– Fala, Bel. Tudo joia, meu maninho? – perguntou uma voz alta e irritantemente alegre. Tratava-se de Leo, que por algum motivo falava comigo como se fôssemos grandes amigos, mas quase sempre eu só servia para ajudá-lo com algum dever.
– Oi, Leo – respondo seco. Realmente não estou muito a fim de ajudá-lo agora, quero encontrar a Suzana.
– Hey... Pode me dar uma mão no dever de história? – perguntou com um tom de voz alegre. Que felicidade irritante, só de olhar para a cara dele eu fico irritado, é só mais um bonitinho idiota. — Tô boiando muito, cara.
Agora que paro para pensar melhor, ele pode ser a solução. A única grande habilidade dele é se comunicar bem com as pessoas, principalmente com meninas.
– Tá, eu te ajudo. Mas com uma condição – digo firme e direto.
– Essa é nova! – Ele parecia surpreso.
– Te ajudo se me disser... – Esbarro em minha timidez, ficando com a voz trêmula.
Leo na mesma hora arregala os olhos, esperando eu terminar a frase. Fica um ar estranho, um pouco de desconforto. Porém, por fim as palavras são ouvidas:
– Me diga como falar com uma menina? – falei tão baixo que quase pareceu um sussurro. Nossa, que vergonha!
Leo deixa sair leves gargalhadas, fazendo com que eu me sentisse muito idiota. Aquilo foi totalmente desnecessário, eu não sabia onde eu estava com a cabeça quando pedi isso a ele.
– Cara, é simples... Diga oi. Te espero na sala para me explicar – disse ainda gargalhando.
Assim, sai andando, me deixando parado com cara de bobo.
Um tempo depois de Leo ter ido para suas internações recreativas, volto eu a procurar a menina nova. Em meio a minhas andadas, acabo batendo de frente com Mellíssa, que já consigo reconhecer pelo jeito de gente que já morreu. Ela fica parada em minha frente com os olhos arregalados, e todos do pátio ficam olhando para nós dois, nossa, que vergonha! Antes de tudo piorar, eu saio da frente dela e continuo andando.
Mais a frente finalmente eu a vejo. Está sozinha como eu pensei, sentada em um banco olhando para os outros alunos. Essa é a hora de ser corajoso, para ajudá-la preciso falar com ela. Agora que paro pra pensar, quero muito que ela fale comigo. Sento-me no mesmo banco que ela e fico olhando para frente pensando no que fazer, no momento as palavras de Leo vem a minha cabeça, é só dizer um simples oi, tenho que ser corajoso.
– O-oi – disse bem baixinho.
Será que ela ouviu? Continua olhando para frente como se nada tivesse acontecido, será que ouviu e está me ignorando? Tento mais uma vez agora com muito mais vontade e medo:
— Oi.
– Oi... Você falou comigo? – ela responde bem baixinho. Tinha uma voz meio rouca e tímida, quase não deu para ouvir.
– Sim, eu falei com você... Meu nome é Abel – ainda alto e em bom tom. Meu Deus porque eu disse meu nome assim? Pareço retardado. — Tudo bem?
– Ah, sim. — Ela ainda parecia meio tímida. — Você estava sentado do meu lado na aula, né?
– Sim eu estava!
– Meu nome é Suzana, eu comecei aqui hoje — agora, o tom saiu menos tímido.
Não acredito deu certo, eu estou de fato falando com ela! Tô me sentindo um máximo, pela primeira vez estou conversando com uma menina na escola nesse ano.
O sinal do intervalo toca interrompendo o nosso pequeno momento de interação, como sou azarado... Mais tenho que manter isso, diferente da Lorena ela não tem conhecidos aqui e nem é mais velha, nem é tão bonita, acho que ela não poderia me ferir. Estou decidido: farei dela minha pessoa especial.
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