O Medo Persiste Naqueles Que Necessitam
7 Uma gota da morte
Notas iniciais
John empurrou meu braço, acordando-me. Disse que eles estavam vindo. Olhei ao meu redor e ainda estava na sala de entrada. Por quanto tempo adormeci? Lembrei-me do que vi naquele porão. Crianças. São apenas crianças! Como eles são capazes de fazer algo assim? É monstruoso. Cruel. Covarde.
– Emma! Já estamos indo. O experimento é um sucesso! Obrigado rapazes. Iremos revolucionar a ciência e o comportamento humano! Deus está orgulhoso de nós e de nossas missões.
James era mais louco do que eu pensava. Até onde vai isso tudo? Existe um fim para essa tortura?
– Tchau Eric, Lucio... John. Ah, John. Você não pôde usufruir do nosso divino experimento, mas tudo tem seu tempo, certo? Claro que já te consideramos como um membro da família. Bom, meus caros, tenho que ir.
Entrei no carro que logo partiu. Olhei para trás e a cada distância podia ver aquela mansão cada vez menor. Começou a chover; a estrada estava esburacada. O carro derrapava forte em cada vez que parava em um farol. A chuva estava aumentando, assim como o meu ódio por aquele cara.
James olhou para mim como se estivesse analisando minha fisionomia ou o que restou dela.
– O que achou dos meus amigos?
– Ah, eles s-são simpáticos. – Falei tão forçadamente que minha voz saiu diferente.
– Claro que você não gostou deles! Você deve estar com nojo de nós! Acha que o que fazemos é monstruoso e cruel! Que somos psicopatas escrotos e uns tremendos filhos da puta! Eu sei que você acha isso, ok? Diga a verdade!
James estava fora de si. Nunca havia visto ele assim... Tão louco. Não sabia o que dizer. Por um lado queria jogar tudo que estava entalado em minha garganta, mas por outro, não podia fazer isso. Ele me mataria. Antes de eu responder ou não sei o que... Ele voltou a falar.
– Olha, eu não quero que você pense essas coisas de mim. Eu quero que você entenda. Tudo isso tem um propósito. Eu não sou o vilão. Muito menos o mocinho. Mas tenho uma missão. Tenho um objetivo. E você também terá. Você será uma de nós. Nós seremos uma família, certo? Irá compreender melhor tudo isso... Irá compreender o porquê de eu ter lhe escolhido entre tantas garotas que há por aí.
Eu não sabia como reagir. O que ele quis dizer com isso? Eu fui escolhida de quê? Pra quê? Como saber se o que ele diz é verdade? Como saber quando ele está lúcido ou não? Eu sei que ele é um maníaco sociopata, mas há momentos em que ele é consciente das coisas, certo? Estou confusa e com medo.
Quando eu ia dizer alguma coisa... A chuva aumentou. Era impossível competir com o barulho das gotas batendo no carro ou nas árvores que o cercava. O carro derrapou mais uma vez, já devíamos estar acostumados. Ignorei. Outra vez e o carro girou um pouco. Ok, agora é possível constatar que se tratava de uma tempestade. O carro continuou seguindo caminho. James estava indiferente com a situação. Como se ele não se importasse de saber que a cada segundo que passa pode haver algum acidente na estrada.
O carro derrapou mais uma vez. Girou e girou. Percebi que o motorista já não tinha mais controle do veículo. Comecei a cair para o lado e senti os ombros de James se chocarem contra os meus. O carro estava caindo. Quando olhei para a janela, pude ver um penhasco. De uma altura assustadora. James tentava inutilmente ir para o outro lado e equilibrar o carro. Mas era tarde de mais.
Começamos a cair. Uma parte do teto amassou quase chegando em nossas cabeças. A cada vez que girava, uma parte de meu corpo batia em alguma parte do carro. Inexplicavelmente olhei para James. Senti o quanto ele estava preocupado e quase vi um olhar de desculpas. De certa forma ele estava arrependido. O carro rolou mais umas duas vezes e..Fim do penhasco. Foi um choque e um barulho tão grande que demorei um pouco para continuar consciente. Ao meu lado estava James... Morto? Não sei. Mas ele não se mexia. Batia com todas as forças que eu não tinha para sair daquele carro. Parecia que o carro ainda estava girando. A água descia forte e estava inundando tudo. Uma enchente. Precisava sair dali. Era meu fim. Minha cabeça rodava como a roda da Morte que chega para todos. É. Um dia sempre ela chega. Pode ser hoje, pode ser amanhã. Mas ela chega. Estava me afogando. Era difícil respirar. Difícil sobreviver. Minhas pálpebras começaram a ficar pesadas...
Acordei. Ao meu lado estava... John? Por que ele está aqui? Por que ele está segurando a minha mão!? Ele estava preocupado. Onde estou?
– Que lugar é esse?! – Disse, arrancando uns fios presos ao meu nariz. Levantei-me depressa e tombei de volta para a cama.
– Cuidado. Você sofreu um acidente. Essa é a minha casa...
– E-e o J-james? – Minha voz saiu tão fraca que era impossível escutá-la. Mas por que raios eu perguntei isso?
– Ele está se recuperando no quarto ao lado. – Ele não morreu.. Não sei identificar se estava aliviada ou com medo. Aliviada?! Não é possível!
Eu queria perguntar mais coisas. Queria entender mais. Queria... John injetou alguma coisa no meu braço e eu comecei a ficar mais fraca e menos consciente...E desmaiei novamente.
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