Notas iniciais
segue mais um capítulo e_e

Acordei. Minha irmã estava preparando o que se pode chamar de “café da manhã”. Desde a morte de nossos pais, nós não nos falávamos muito, nem tocava no assunto. Era melhor assim. Não lembrar ou conversar impedia de não sofrer, era o que achava.

Seu cabelo era tão claro e brilhante que nem parecia que eramos irmãs. Usava sempre as mesmas roupas caídas ao corpo. Isso era algo comum em nós, usar as mesmas roupas. Nossos pais não gostavam muito, diziam que só usávamos “uniforme”.

Odiava quando ela usava minhas roupas e ela odiava quando eu usava as dela. Mesmo tendo nossas diferenças eu a amava muito, ela era minha única e minha melhor amiga. Destaque esse “era”. Pois agora ela estava morta e seu corpo se encontrava bem em minha frente. Ficar relembrando o passado e os momentos em que passamos juntas, não ajuda muito. Nada ajuda. Eu não me ajudava.

Depois de várias reflexões melodramáticas e os “porquês” de estar aqui, ele finalmente chegou.

Estava contente. Talvez tenha estuprado algum passarinho no caminho. Usava um paletó aparentemente caro. Sapatos finos e brilhantes. Seus pés eram muito grandes. Sempre usando roupas caras e elegantes. Disse que sentiu minha falta. Perguntou se senti a dele. Louco desgraçado. Como um ser humano pode ser capaz de tamanha crueldade e atrocidade desse jeito? Como aquele marginal conseguia dormir tranquilo à noite? Ele dormia? Realmente é um humano? Claro que é. Pois humanos fazem isso. Pessoas são isso. Não me surpreendo por nunca ter tido uma vida social boa. Não lido bem com pessoas. E a única que me entendia era minha irmã. Merda. De novo penso nela. Foco. Foco. Entre vários outros pensamentos e questionamentos dessa brutalidade em que me era permitido. Ele já estava começando mais uma vez seu jogo perturbador com a minha pessoa.

Pôs-me em uma cadeira velha de ferro enferrujado, com certa severidade. Disse que iriamos conversar. Tirou a corda que cortara minha boca por dias.

– Gostaria de conhecê-la melhor – Foi a primeira coisa que ele disse.

Não sabia o que dizer. Queria tanto torturá-lo e fazê-lo sofrer tudo que me fez sofrer. O ódio era muito presente em meu peito. Um desejo insaciável de vingança. Resolvi tentar entrar em seu jogo.

– Meu nome é Emma. Tenho formação em medic... – Ele me interrompeu.

– Oh não, minha querida. Eu sei seu nome. Sei em que é formada. Sei que estudou a vida inteira em um colégio católico próximo de sua casa. Sei que seus pais morreram. Sei que se culpa pela morte deles e sei que aquela moça caída morta no chão era sua irmã e única família. Mas digo, quero CONHECÊ-LA melhor. Quero conhecer a perversidade que há dentro de você. Quero ver o quão forte é. Fisicamente você aguente bem o tranco. Mas e essa sua cabeça? Será que é tão forte quanto pensa que é? O que te assombra? Tens medo de morrer? Tens medo de mim? Ou tudo isso te excita? Já pensou em mim, num outro contexto? Es capaz de sobreviver e aguentar tudo isso? Já amou? O amor já foi maior que sua dor?

Como ele sabia dessas coisas? O que ele queria de mim? Quem é esse homem? Desde quando ele possui essas informações? Tudo isso já estava preparado? Eu sou um experimento? Ou sou algo que deu errado? Faz eu ser alguém especial? Faz de mim importante? O que esse verme tanto quer de mim?

– Surpresa com o que sei a seu respeito? Não fique, meu anjo.

– Ao invés de eu lhe contar mais coisas sobre mim, algo que você, pelo jeito, possui várias informações. Você poderia falar sobre você! Quem é o homem perturbado e louco que deve ter sofrido muito na vida, se frustrado na porra de algum emprego, que não deve ter tido alguma família que aceitasse esse monstro que você é. Quem é o psicopata que sente prazer em torturar e machucar alguém por puro ódio do mundo? Quem é o babaca que justifica toda essa merda que faz comigo, por pura “missão cujo Deus lhe deu”? E quem é o... – Um punho acertou meu rosto com tanta força que pude ouvir um estalo de algum osso sendo rompido. Um gosto de ferro e sal percorreu pelos meus lábios. Sangue. Sangrava muito, tanto que cobria uma parte de meus olhos. A dor percorreu entre minhas veias.

– Nunca mais ouse zombar da minha missão ou de mim. Pensei que poderíamos nos dar bem. Que você iria aceitar e cair na real. Pensei que poderia conhecê-la melhor. Mas terei que adiar isso por mais um tempo, sua vadiazinha imbecil.

Antes de eu recuperar o pouco que deveria ter restado de minhas forças, ele novamente começou a me machucar. Amarrou meus pulsos com tanta força que senti rasgar novamente meus punhos. Também pôs de volta a corda que estava em minha boca, amarrou muito forte que poderia ver meu rosto roxo se tivesse algum espelho por perto.

Os cortes eram sempre na mesma direção. De cima pra baixo. Da direita para esquerda. Após curtos e longos cortes com diferentes tipos de lâminas e afins. Ele parou e me carregou para uma espécie de cela. Grades e tudo mais. O chão era muito frio. Fiquei lá por pelo menos uma semana. Estava literalmente na solitária. Ironia não?!