O Matador de Açoites
1 Prefácio
Notas iniciais
Eu não nasci em cidade alguma, fui deixada por minha mãe no orfanato e adotada por um casal terrível maravilhoso e cresci em uma cidade onde todos abrem sorrisos e fecham os olhos.
Minha história realmente começa em um dia qualquer de um ano qualquer no meu aniversário de 15 anos. Eu e meu irmão fomos ao parque perto de casa e ele me deu um pequeno colar, com um pingente de coração, não era chique ou extremamente caro, era apenas um colar de 15 reais, porém para os olhos de quem não tem nada, parecia um diamante bruto.
— Daniel, não precisava
— Mas é claro que precisa, é seu aniversário
— Eu sei que é meu aniversário, mas não é motivo para comprar coisas caras, você precisa do dinheiro para a faculdade — ele olhou nos fundos dos meus olhos
— Mia, aceite a droga do presente. Afinal, quando o ano acabar eu vou para bem longe daqui
— Eu vou sentir saudades
— Eu também, Mia. Quando for uma fotógrafa famosa, espero que viaje o mundo inteiro e esse colar, e, quando voltar venha me visitar na minha cobertura — eu rio
— Cobertura? Sabe quanto isso custa?
— Sabe quanto eles pagam para atletas profissionais? — nego com a cabeça — eu também não, mas tenho certeza de que é muita grana.
Eu rio novamente, apenas ele sabe me fazer rir. Meu irmão era a melhor pessoa do mundo e aquela era a melhor noite do mundo até que, de súbito, ouvimos um grito vindo da única casa da vizinhança: a nossa casa.
— Vamos! — Daniel agarrou meu braço e corremos para a casa que chamávamos de lar
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"Após 11 minutos que entramos na casa, Daniel morreu. Em 21, minha mãe desmaiou no chão, sangrando muito. Depois de 22 minutos que entramos na casa,ele meu pai se virou para mim e rasgou a minha blusa, depois removeu o cinto e me bateu, e ele continuava batendo e batendo e batendo. Me desculpppee, eu não consigo mais, eu simplesmente não posso."
Esse foi o meu depoimento para a polícia e para o juiz. Fraca e abatida, o advogado falou que era melhor assim, quanto mais frágil, mais anos meu pai pegaria na cadeia. Ele, em fato me bateu e fez todas as atrocidades, mas eu já estava acostumada. Meu pai já foi um bom homem. Ele era policial, mas foi demitido porque perdeu a esposa- mãe de Daniel — e começou a beber. Depois conheceu Maria, a engravidou e se casou com ela mas, com 6 meses de gravidez, ela perdeu o bebê. No entanto, eles nunca se separaram. Eles estavam passando por dificuldades financeiras, pela bebida ser cara e consumida pelos dois. Eles me adotaram porque meus pais deram a eles 3000 reais e mais pequenas quantias de 150 reais por mês por um ano. No momento que pisei na casa, eles já deixaram bem claro que eu era apenas a mina deles e quando o ouro acabasse, eu seria uma escrava nos anos 1500. Aconteceu.
Assim que o dinheiro acabou, eu virei a empregada deles. Se eu não fazia algo ou fazia mal, meu querido pai me açoitava e me batia como se eu fosse um boi no matadouro, uma vez minhas costas chegaram a ficar em carne viva e, para me ver sofrer ainda mais ele jogou sal nas minhas feridas. As marcas ficaram até hoje.
As coisas esquentaram quando ele começou a usar drogas junto a bebida e, ao invés de apenas me bater, ele começou a bater nos outros também, virou rotina. Principalmente em mim e em Daniel. Algumas vezes em nossa "mãe" quando ela não comprava a bebida ou quando não dava o dinheiro do trabalho dela para ele jogar com os "amigos"
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Foi o funeral de Daniel, foi estranho. Eu não consigo tirar a imagem da minha cabeça : Daniel entrando na casa e confrontando o nosso pai pela primeira vez. Minha mãe no chão, ensanguentada. Meu pai pegando Daniel pelos cabelos e o arrastando até a pia da cozinha. Ele segura Daniel com uma mão e a outra fecha o ralo e enche a pia. A pia está cheia. A cabeça de Daniel está em baixo d'água. Ele fica lá, forçado a respirar água. Daniel cai. Daniel está morto. Voz gritando por socorro. Uma discagem. Minha mãe ligando para a emergência. Gritos. Choro. Fico parada. Estive parada o tempo todo. Sinto que meu corpo pode se mexer, se eu mandar. Mas eu não quero. Estou bem sem me mexer. Ele ainda não reparou em mim. Até, que por fim reparou. Ele me agarra. Rasga com a mão a minha blusa. Tira o cinto. Som metálico. Cinto. Chicote. Açoite. Estalo. Dor. Ambulância longe. Lugar distante. Repete.
O funeral de Daniel não foi estranho pelo fato de toda cidade ter ido, e falado que foi uma tragédia. Eles sabiam, viam as marcas, conheciam minha mãe e meu pai. O estranho foi que, por mais que eu quisesse, eu não conseguia chorar. Daniel tinha cumprido o destino dele e, por isso, deu mais tempo para o meu. Por mais que eu tivesse um afeto por ele, a morte dele me deu vida. é claro que vou sentir saudades, mas a morte é apenas um ciclo, ele morre, vira pó. O pó acumula na estante e a estante fica cada vez mais empoeirada até virar nova vida, então Daniel não morreu, apenas virou vários Daniels. Poético não? A natureza é maravilhosa, somos nós que atrapalhamos ela.
Fui para casa e dei pilulas de sono para minha mãe, deixando- a na cama e fechando a porta. Desci e coloquei a melhor musica para aquele momento
Feelling Good de Nina Simone
https://www.youtube.com/watch?v=D5Y11hwjMNs
Então eu dancei que nem uma louca, arrancando a roupa e gritando mais alto que a própria Nina, afinal, IT'S A NEW DAWN, IT'S A NEW DAY AND I AM FEELING GOOD.
Essa é a primeira parte da minha história: Como eu nasci
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