O Martelo De Ares.
10 X — Trevor
PENSEI QUE TERIA UM SONHO REVELADO, MAS NÃO TIVE.
Na verdade, parecia que eu não tinha sonhado com nada. Se eu sonhei, eu não me lembrava, e era muito bom assim, principalmente para alguém como eu. Eu preferia que meus sonhos fossem sempre assim: só o escuro, nada mais. Muito melhor do que ter pesadelos com monstros, mortes e revelações que não fazia nada bem para a minha saúde. Era difícil ser um semideus.
Quando eu abri os olhos e olhei para o lado, Peter não estava mais lá. Eu me encontrava em alguma sala de algum andar do Empire State Building, disso eu sabia. Como? Era só olhar pela janela que ficava ao meu lado esquerdo. O Empire State Building era um dos, se não o maior, maiores prédios de Nova York e da altura em que eu parecia estar realmente parecia que só podia estar no Empire State Building.
Eu me encontrava em paz deitado no chão daquela sala que deveria estar repleta de mesa, cadeira e divisórias. A sala deveria ser bonita e deveria ser um escritório, não sei. Mas, agora, o ambiente estava totalmente destruído. Algumas mesas estavam quebradas, as cadeiras estavam fora de local e algumas também se encontravam quebradas, e parecia que não tinha mais divisórias nas mesas. Olhei para meu braço direito e vi o quanto sangue saia dele, mas aquilo não era nada e nem abalava a minha paz de mim. Meu braço estava engraçado, eu acreditava que meus dedos deveriam estar para o outro lado, não para aquele. Ri com aquilo.
Mas fechei os olhos para poder relaxar mais. Eu sabia o que eu estava enfrentando: era a morte. Mas a morte parecia tão tranquila para mim e eu não precisava mais resistir em me manter vivo, era apenas deixar que a morte viesse para mim. Até tive um vislumbre das Três Parcas prontas para cortar o fio que representava a minha vida e desejei que elas cortassem logo de uma vez. O que elas estavam esperando? A morte não significava um momento de paz pelos tormentos que se tinha passado pela Terra? Sim ou não, eu só queria descansar.
Queria estar tranquilo e sem me preocupar mais com Tommy, Bryan, Charlie e minha mãe. Eu sabia que meus irmãos conseguiriam seguir em frente e sabiam que era só uma questão de tempo para eu morrer. E eu sabia que minha mãe ficaria triste, mas ela poderia ter outros filhos com Mason, o meu padrasto. Minha mãe seria feliz com outro filho também, apesar da minha perda; ela superaria.
Mas após segundos de reflexões, eu senti alguém segurar meu braço, me cutucar e gritar meu nome, mas eu não dei muita atenção para aquilo. Eu ainda queria meu momento de paz e minha morte tranquila. Mas os puxões, sacudidas e gritaria pelo meu nome era grande demais para eu poder ignorar.
Abri os olhos e fitei a figura embaçada que um dia deveria ser Layla com aqueles cabelos castanhos. Alguma coisa tinha me levantado e olhei para o outro lado e fitei a figura embaçada de Ian com aqueles olhos azuis e absurdos para ser um filho de Ares. Alguém segurou meu pulso, mas eu não consegui ver. Deveria ser Peter e sua cabeleira loura, mas eu também não me importei. Fechei os olhos novamente.
A partir daquele momento, minha respiração tinha começado a enfraquecer e meu coração parecia que começara a bater menos, mais fracamente; eu o mal sentia bater, na verdade. Minha morte estava chegando, finalmente. Mas o ruim era que ela era lenta, eu queria que fosse rápida como deveria ser para um semideus, não? Mas, como eu era azarento, nem morte rápida eu conseguia ter.
Senti um líquido entrando pela minha boca e descendo pela minha garganta, e senti meu corpo completamente quente no segundo seguinte. Alguma coisa se amarrou em meu antebraço direito após eu sentir uma dor absurda e sentir meu braço girar, assim como minha perna esquerda, e duas coisas duras se ajuntaram até a altura de meu joelho. Minhas costas e meu peito começaram a formigar, mas eu não entendia bem o porquê e, pensando bem, eu também não queria saber. Para saber, eu teria que abrir os olhos; e eu estava muito bem de olhos fechado esperando a morte.
Mas a morte me traiu, ela não veio. Muito pelo contrário, ela parecia estar fugindo a cada segundo de mim. Segundos depois de eu ter notado a ausência da morte, eu senti algo gelado encostar-se as minhas costa se depois uma descarga elétrica forte em meu peito me fez ter noção de tudo.
Impaciente pela morte ter me deixado, abri os olhos e fitei meus amigos. Eles estavam inclinados me olhando. Layla com seus cabelos castanhos e olhos cinzentos, Ian com seus músculos e olhos azuis e Peter com a cabeleira loura curta e de olhos azuis. Todos eles me olhavam com curiosidade e espanto. Tentei raciocinar por um momento o porquê que eles tinham aquela reação e me lembrei no segundo depois. Lembrei de que tinha atravessado a janela do Empire State Building montado em um pégaso preto e Peter em um pégaso azul. Tínhamos lutado contra uma águia gigante por conta do Martelo de Ares... martelo!
— Temos que ir ao Olimpo logo! — disse eu tentando me levantar, mas não consegui.
Fitei minha perna esquerda e ela estava com dois pedaços de madeira envoltos em uma atadura que servia como tala. Meu braço direito não se mexia e eu sentia dor nele, e ele tinha uma atadura enfaixada nele também com duas talas. Eu sentia dor nas costas e quando toquei em meu peito, lá também tinha ataduras.
— Mas o quê...
— A sua queda foi feia, Trevor — disse Peter. — Eu consegui controlar o vento e fazer uma aterrissagem melhor, mas eu não consegui fazer o mesmo com você. Desculpe.
Assenti para ele.
Não era culpa dele, é lógico e eu também não o culparia. Deveria ter sido muito rápido para ele raciocinar e eu também não sabia se conseguiria raciocinar tão rápido se eu estivesse no lugar dele.
— Tudo bem — disse eu. — Ainda estou vivo. Mas temos que devolver esse Martelo de uma vez.
Eles assentiram para mim e me colocaram de pé. Eu não conseguia por peso em minha perna esquerda. Doía a cada pisava ou tentativa que eu dava. Meu braço direito parecia que era peça morta; ele não se mexia e quando eu tentava mexê-lo com a outra mão, doía na mesma intensidade que a perna. Eu não conseguia respirar direito também, meu peito doía igualmente às costas. Minha respiração era pesada e eu não sabia quanto tempo conseguiria continuar acordado; eu precisava de verdadeiros cuidados.
Mas Ian conseguiu-me pôr de pé e passou meu braço esquerdo em volta do pescoço de Peter e Layla me sustentando ao lado direito. Mancando e sendo sustentado pelos meus amigos e Ian à frente com a mochila que continha o Martelo de Ares nas costas, fomos em direção ao elevador.
Percy tinha me dito uma vez que o elevador tinha um carinha que direcionava as pessoas ao sexcentésimo andar misterioso que levava ao Olimpo. E ele estava lá, uma figura alta, de pele morena e sua forma de falar dizia que o inglês não era a sua primeira língua. Mas, de qualquer forma, Layla não deu a mínima ao cara intimidador que vestia blazer preto e óculos escuros, e disse que era para o Olimpo que nós queríamos ir..O cara olhou desconfiado para a gente, mas bastou Layla, Peter e Ian olharem para ele com raiva que ele apertou um botão que nos levaria ao nosso destino.
Assim que ele apertou o bendito botão, o elevador começou a subir, a subir e subir e não parou. O elevador subia numa velocidade inacreditável, todos nós nos espantamos, exceto, é claro, o carinha que tinha apertado aquele botão. Mas o elevador começou a ganhar mais velocidade e parecia que iríamos colar no piso dele, mas quando ele parou, eu desejei que ele não tivesse uma parada bruta. A parada tinha sido tão forte que nos fez quicar e a dor em meu braço e em minha perna foi tão grande que me fez ver estrelas. Literalmente.
Agradecemos a carona e, assim que saímos do elevador, o elevador desceu. Viramos para encarar e meu queixo caiu.
O Monte Olimpo era impressionante. Tochas e fogueiras faziam os palácios na encosta da montanha luzir em vinte diferentes cores, do vermelho-sangue ao anil. Aparentemente ninguém dormia no Olimpo. As ruas sinuosas estavam cheias de semideuses, espíritos da natureza e deuses de menor importância, em carruagens ou liteiras transportadas por ciclopes, até tentei procurar meu irmão Tyson, mas deixei de cogitar a ideia, pois Tyson vivia no Mundo Marinho com nosso pai. Jasmins e rosas, e outras flores ainda mais doces cujo nome eu não sabia emanavam um cheiro incrível de plantas por ali.
Dominando o pico da montanha erguia-se o maior palácio de todos, o reluzente e branco tribunal dos deuses.
Era totalmente impressionante ver aquele palácio, as ruas, os semideuses e deuses menores... era inacreditável! Meu queixo ainda estava despencado.
— Precisamos ir logo — ouvi Layla dizer.
Meu queixo voltou para o lugar.
— Faltam alguns minutos para o horário do solstício de verão acabar — continuou ela. — Não temos muito tempo.
— Claro... — disse Peter.
— Vamos — disse Ian.
Ian e Peter colocaram meus braços atrás de suas nucas e, com Layla um passo à frente, nós seguimos para o Olimpo.
As ruas pareciam um comércio. Algumas barraquinhas vendiam (eu acho, não tenho tanta certeza) algumas plantas, frutas e alguns artefatos de bronze, prata e ouro. Alguns comerciantes discutiam com os outros — mas não uma discussão feia —, ou até mesmo com semideuses ou um deus menor.
Alguns comerciantes vinham oferecer algum tipo de fruta ou outro alimento para nós. Eu tentei falar alguma coisa, mas Layla cortou o meu barato dizendo que não estávamos interessados — Layla sendo Layla, óbvio. Uma barraquinha tinha flores e mais flores. Flores amarelas, lilás, rosas, laranjas e muitas outras. Todas com um cheiro inacreditavelmente doce e que lhe fazia querer sempre cheirá-las. Ian e Peter quase pararam nessa barraca, mas lógico que Layla os puxou para irmos andando.
Quando chegamos às portas de prata, todos nós nos olhamos. Eu ainda sentia minha dor na perna e no braço, mas não consegui conter a ansiedade e o nervosismo perto deles, e nem eles perto de mim. Ian estava com o martelo do pai e seria honrado por Ares por ter trazido o seu martelo de volta; Layla veria sua mãe pela primeira vez, eu acho, e eu acredito que Atena iria se orgulhar da filha, pois nem Ian, Peter e eu conseguiríamos fazer toda aquela jornada sem a inteligência e esperteza da filha da deusa da sabedoria; Peter veria o seu pai e tinha certeza que Zeus, o cabeça do Olimpo, se orgulharia do filho porque, bem, Peter era o único que conseguia fazer um carro funcionar e conseguia se direcionar com os ventos. Peter, assim como os outros dois, tinha se saído muito bem naquela missão.
Eu? Bem, eu só sabia curar os outros quando eles precisaram. Afinal, que utilidade eu tinha a não ser aquela? A profecia mesmo dizia que eu tinha sido selecionado por causa do meu poder de cura. Não recusando isso, mas era o fato. Era tão bom em cura que consegui curá-los, O.K., mas eu era tão bom assim a ponto de não conseguir me curar agora? Sim, eu era um fracasso. As únicas coisas que eu sabia fazer era curar os outros e a mim, e cuidar dos meus irmãos menores. Mais nada. Poseidon não se orgulharia de mim. Disso eu tinha certeza. Mas eu também não fazia questão.
Se Poseidon realmente se importasse comigo, ele teria aparecido para mim no chalé dele no mesmo dia que tinha aparecido para Bryan, Tommy e Charlie. Aquela lembrança me deu um ódio por Poseidon que eu não sabia exatamente se era realmente possível sentir tanto ódio de um deus como ele. Mas, como eu disse, ele não se importava comigo e eu não me importava com ele. Minhas ações eram para os meus irmãos, não por ele. Eu queria voltar vivo para meus irmãos e minha mãe, mais ninguém. Nada de deus!
Ian me soltou e fiquei segurando em Peter, onde ele conseguiu me sustentar facilmente. Ian e Layla puseram suas mãos às portas da sala do trono e olharam para trás — olhando para mim e Peter.
— Vamos — disseram eles juntos e abriram as portas da sala do trono.
Uma enorme discussão estava rolando ali dentro. Ares, Poseidon, Atena, Zeus, Hades (sim, ele estava lá) e Dionisio estavam de pé discutindo. Todos estavam quase em cima de Ares e ele era o que mais xingava e prometia matar todos os monstros e semideuses que entrassem em seu caminho se não devolvessem o Martelo dele. Mas quando eles ouviram o som das portas se fechando atrás de mim e meus amigos, eles pararam de discutir. Eles nos olharam e todos se sentaram em seus respectivos tronos.
Bem, a sala do trono era imensa por dentro. Havia vinte e três tronos ali formando a letra ômega — (Ω) —, em torno de uma fogueira na mesma posição que os chalés do Acampamento Meio-Sangue. O teto cintilava com constelações.
Todos os assentos estavam ocupados. Cada deus e deusa tinham cerca de cinco metros e todos eles olhavam para nós. Não era uma coisa tão bacana de se ver assim, pois ter vinte e três pares de olhos superpoderosos voltados para você fazia parecer derrotar monstros moleza.
O primeiro deus que eu olhei de canto de olho foi para Poseidon. Ele era totalmente o oposto do que eu pensava que fosse. Eu o imaginava com expressão severa, pele branca como a dos meus irmãos e a minha e não tivesse barba. Mas como eu disso, o oposto.
Poseidon vestia-se de short de praia, camisa havaiana e sandálias. Tinha o rosto queimado de sol e curtido pelo tempo, com uma barba escura e olhos de um verde profundo. Eu não sabia exatamente o que ele esperava em me ver, mas seu rosto parecia estar franzido a me ver; como se ele estivesse sentindo dor. Mas eu não dei importância para isso.
Virei-me para encara o Senhor dos Céus, Zeus. Zeus usava um terno escuro risca de giz, com barba benfeita e os olhos cintilando de energia. Mas seus olhos não estavam em mim, nem em Ian e nem em Layla. Seus olhos estavam intensamente em Peter.
Ao lado do Senhor dos Céus, sentava uma linda mulher com cabelos prateados, presos numa trança que caía sobre m ombro e vestido furta-cor como as penas de um pavão. A Senhora Hera.
À direita de Zeus, Poseidon. Ao lado dele, Hades estava sentado em seu trono negro com seu cavanhaque escuro e terno cinza escuro que, se eu olhasse bem, parecia que rostos tristes e em agonia eram transmitidos nele. Ao lado de Hades, um homenzarrão com um aparelho ortopédico em uma das pernas, a cabeça deformada e a barba castanha desgrenhada, com fogo tremeluzindo em meio à barba. O Senhor das Forjas, Hefesto. Ao lado dele, Hermes estava usando um terno de executivo, verificando mensagens em seu telefone celular? Que seja. Apolo vinha a seu lado, sentado no trono de ouro, com óculos de sol. Estava com fones de ouvido de um iPod, parecia que ele estava se envolvendo ao som da música que ele ouvia, pois começou a mexer os ombros e quando nos olhou, levantou o polegar para nós. Dionisio parecia estar entediado, enroscando a haste de uma vidreira entre os dedos. Ares vinha logo em seguida e sua expressão não era a das boas. Ele estava sentado em seu trono de mercúrio, com óculos escuros — mas onde deveriam estar seus olhos eram miniaturas de fogueiras — e mexia a perna num movimento frenético e estressante. Eu não sabia se deuses sentiam estresse, mas não me atrevi a perguntar. E os outros deuses masculinos estavam depois de Ares.
Do lado feminino da sala de tronos, uma deusa de cabelos escuros e túnica verde sentava-se ao lado de Hera em um trono tecido de galhos de macieira. Demeter, deusa da colheita. Ao seu lado, uma bela mulher de olhos cinza, em um elegante vestido vermelho. Só podia ser a mãe de Layla, Atena. Ao lado dela sentava uma bela mulher que... bem, eu não conseguia dizer exatamente como ela era. Seu rosto saía da aparência bonita, para a linda, da linda para o maravilhoso; o rosto mais belo que eu já vi. Seu cabelo mudava de acordo com a mudança de seu rosto; os cabelos mais belos que eu já vi. Só podia ser a deusa do amor, Afrodite. Ao lado dela sentava-se uma deusa de cabelos avermelhados e um olhar que dizia: Não mexa comigo, caso contrário eu te caço. Só podia ser Ártemis, a gêmea de Apolo (não conte a ela que eu a chamei de gêmea). Perséfone estava ao seu lado, juntamente com Íris e as outras deusas femininas.
Os deuses continuaram a nos encarar. Ares abriu a boca para falar, mas Zeus o interrompeu dizendo:
— Semideuses — sua voz era grave e poderosa.
Ele disse aquilo, mas seus olhos ainda estavam em Peter. Olhei de relance para Atena e ela olhava com curiosidade e com orgulho para a Layla. Passei meus olhos por Ares e seu rosto com cicatrizes de guerra estavam direcionados para Ian e ele exibia um sorriso de aprovação ao filho. Passei meus olhos rapidamente por meu pai e ele continuava a me olhar com testa franzida e com dor nos olhos, mas deixei passar. Voltei a olhar para Zeus.
— Trouxemos o Martelo de Ares conosco, senhor — disse Ian.
Ele tirou a mochila das costas e puxou o martelo para fora.
Ele estendeu aquela coisa preta que tinha mais ou menos a altura da minha perna com quatro lados onde podia martelar. A parte superior daquele troço tinha uma ponta superafiada, tinha quatro caras de javalis — com chifre, narinas, olhos e boca a mostra — em cada parte em que se martelava com o Martelo. Consegui ver o semblante de Ian mudar na mesma hora. De calmo para raivoso, esse era o efeito do Martelo de Ares. Eu o tinha pegado e sabia que Ian só podia pensar em uma coisa naquele momento: luta.
Ares se levantou de seu trono mercúrio e estendeu a mão para o Martelo.
— Me entregue, criança — disse ele.
Ian lançou o Martelo para o pai. No instante em que ele lançou, o Martelo começou a crescer, crescer e crescer, até ficar com mais ou menos seis metros. Ares levantou aquele Martelo para o céu e suspirou. Ele começou a bater o Martelo na outra mão.
— Agora sim — disse ele analisando a sua haste. — Luta, caos e guerra. Tudo em minha mão — ele se sentou.
— Muito bem, Ares — disse Zeus —, agora que está com sua arma, pode parar de decretar guerra?
Ares bufou.
— Posso — disse Ares ainda analisando sua haste poderosa.
Hades pigarreou.
— Com licença, irmão — disse Hades. — Mas tenho que informar. Temos quatro semideuses poderosos aqui e tenho certeza que um deles roubou o Martelo de Ares. E como sei que todos são farinha do mesmo saco, é justo dizer que devemos puni-los...
— Hades — interrompeu Ares com raiva. — Eu estou com o meu Martelo agora. Meu filho me honrou bravamente, lutou bravamente e matou monstros bravamente. Estou orgulhoso de meu filho. Não vamos fazer picadinho dele.
Ao meu lado, Ian abaixou a cabeça e corou. Era bem estranho ouvir o deus da guerra elogiar e defender alguém — eu sabia que só aconteceria isso para os seus filhos, e se acontecesse. Bem, receber um elogio do pai que mal o vira na vida deveria ser totalmente reconfortante. Não culpava Ian por corar daquela forma.
— Tampouco de meu filho — interveio Zeus. — Ele se saiu muito bem.
Foi a vez de Peter abaixar a cabeça e corar. Eu também não o culpava por se sentir daquela maneira.
— Nem muito menos a minha filha — disse Atena com os olhos cinza olhando Layla. — Estou orgulhosa das escolhas e sabedoria que ela teve. Não farei dela cinzas.
Layla também abaixou a cabeça e enrubesceu.
— Não acho justo fulminarmos semideuses que prestaram um bom serviço para nós — interveio Poseidon ainda sentado em seu trono. Ele olhou para Hades. — São semideuses valiosos.
Dionisio se pôs de pé e apontou para nós quatro.
— Esses pirralhos são inúteis! — disse ele. — Sempre tentam se provar de heróis naquele acampamento. Não fazem nada a não ser dizer que são dignos de bravura...
— O senhor é quem não faz nada por lá! — disse eu com raiva.
Todos os deuses olharam para mim.
Eu estava cansado do sr. D ficar dizendo que todos do Acampamento Meio-Sangue são sem valor, sem bravura e que não somos dignos de existência. Eu estava cansado disso. Se ele não gostava tanto de nós, porque não pediu a Zeus que lhe banisse para outro lugar? Tinha que ser logo no Acampamento Meio-Sangue?
— Como se atreve...
— O senhor se esquece de que seus filhos estão lá? — intervim novamente. — Se esquece de que quando diz que todos de lá são inúteis está incluindo seus filhos? — perguntei. — Os filhos semideuses que você tem? — o encarei nos olhos.
— Olhe como fala com um deus, meio-sangue — Dionisio apontou o dedo para mim e me encarou completamente furioso.
O restante dos deuses não interferiu, nem mesmo meu pai, mas eu esperava isso dele. Alguém tinha que dizer o que realmente sentia para Dionisio, aquele ser preguiçoso e que só sabia errar o nome dos campistas, e dar ordens, e nunca fazer nada. Eu estava cansado disso!
— Sei que esses semideuses recuperaram o Martelo bravamente — disse Atena —, mas tenho que admitir que aqueles dois ali sejam um perigo — ela apontou para mim e para Peter.
— Mãe! — disse Layla.
— É a mais pura verdade, criança — disse Atena serenamente. — Forças malignas estão se erguendo e é questão de tempo para que o filho do meu tio Poseidon e do meu pai Zeus sejam tentados por essas forças.
— Eu aprovo — disse Dionisio. — Desintegremos os dois.
— Eu não vejo problema em matá-los — disse Ares. — Meu filho e a filha de Atena estão fora desse risco. Então não vejo problema em matar os outros dois.
— Pai, o senhor não pode deixar isso acontecer — disse Peter.
Zeus, desconfortável, trocou de posição me seu trono e estudou Peter com os olhos semicerrados.
— Trevor e eu temos tempo, segundo Atena, até essa força aparecer, não é? — perguntou ele, mas não esperou resposta nenhum e prosseguiu: — Trevor foi tão bravo como eu nessa missão. Pergunte aos outros aqui. Ele nos ajudou bastante, nos curou quando precisávamos, arriscou sua vida pela nossa. Ele não merece morrer, eu mereço. Não servi para quase nada nessa missão...
— Não diga bobagem — intervim. — Peter foi tão corajoso quanto eu, senhor — disse a Zeus. — Peter conseguia nos guiar pelos céus como ninguém e foi tão bravo quanto nós três — indiquei Ian, Layla e a mim com a mão esquerda.
Ares bufou.
— Meu filho sempre se sairá melhor do que vocês — disse ele.
— Igualmente a minha filha — disse Atena. — Ela tem a vitória nas mãos. Seria melhor que os três juntos.
— É — concordou Ares. — Espere aí! O que quer dizer com isso...
Ele se levantou, mas o raio de Zeus apareceu em sua mão, uma haste de eletricidade que encheu todo o salão com cheiro de ozônio. O que fez Ares se sentar em seu trono bufando.
— Não seria justo matar Peter e Trevor, senhor — disse Layla olhando para Zeus. Olhei para Atena e ela estudava a filha com curiosidade, como se a estivesse tentando. — Dois heróis que impediram do senhor Ares de causar uma terrível guerra entre os senhores mesmo e com o mundo. Nem todo herói é capaz de fazer isso.
Zeus a estudava como Atena.
— Seria ruim manchar a reputação dos deuses se a notícia que dois semideuses foram mortos pelos deuses após terem prestado serviço para eles.
Zeus passou seus olhos de Layla para Atena. Atena sorria olhando para filha, completamente orgulhosa por conta da inteligência e sabedoria que Layla demonstrava ter.
— Temos tempo até essas forças ocultas realmente aparecerem — disse Zeus e ele fitou o fundo da sala dos tronos. — Até lá, os quatro estarão vivos.
Meu queixo quase caiu. Percy uma vez me disse que Zeus não era fã dos semideuses, mas era um cara um tanto justo. Acho que era por isso que ele tinha poupado a minha vida também, além da de seu filho. Até nisso Poseidon não tinha se presenciado, salvar a minha vida; eu realmente não valia para ele. Aquela era a prova.
— Todos de acordo? — disse Zeus.
Muitas mãos se levantaram. Algumas se detiveram, Ares, Atena, Dionisio e Hades.
— Temos a maioria — disse Zeus. — Estão livres para irem embora, semideuses.
Nós quatro assentimos para o Senhor dos Céus e saímos da sala do trono sem olhar para trás. A felicidade de meus amigos por estarem felizes por terem deixados seus pais orgulhosos era notável. Lógico que eu estava feliz por todos eles. Peter, Layla e Ian tinham saído de lá com elogios e defesas dos pais.
Eu, como era de se esperar, não recebi nada e também não esperava receber (acredite em mim, eu nem queria pisar no Monte Olimpo). Mas eu saí de lá com mais amargura que eu poderia ter do meu pai, porque nem para me defender ele tinha aberto a boca; eu consegui odiar ainda mais Poseidon.
Fale com o autor