O Manto Escarlate - Uma Fic de Candela Obscura
3 O fio sobre nossas cabeças
O circo já trabalhava antes de abrir as portas.
Ouviam-se os martelos ainda do lado de fora. Sob as lonas, homens ajustavam estruturas, arrastavam caixas e gritavam instruções que se confundiam com o ensaio dos músicos. Cordas atravessavam o chão. Uma mulher costurava um pedaço de tecido apoiado nos joelhos. O cheiro de madeira úmida se misturava à doçura das barracas de comida.
Àquela hora, ainda era possível distinguir o trabalho da encenação. À noite, com as arquibancadas ocupadas, qualquer movimento suspeito poderia se perder entre aplausos.
A proximidade continuava a incomodar Seraphine. A conversa com Marcos permitira que permanecesse no grupo; não apagara o estalo da arma descarregada, nem a certeza com que Audrey a acusara.
Ele seguia com a bengala, observando o movimento. Seraphine olhou brevemente para o cabo. Audrey percebeu.
Nenhum dos dois disse nada.
— Vamos começar pelos artistas — sugeriu Annabeth. — Alguém precisa saber o que vai acontecer aqui esta noite.
Seraphine assentiu.
Era uma direção razoável. Havia poucas coisas em que conseguiam concordar sem dificuldade.
***
Sam e Mabbel estavam entre os preparativos da atração principal.
Seraphine observou os irmãos antes de se aproximar. Havia intimidade na maneira como dividiam o espaço: um gesto de Mabbel bastava para que Sam entendesse o que precisava alcançar; uma palavra dele fazia com que ela corrigisse algo sem sequer se voltar.
A moça percebeu os visitantes, mas o irmão que falou.
— Vieram para o espetáculo?
— Estamos conhecendo o circo — respondeu Annabeth.
— Então precisam voltar à noite.
Sam se aproximou, limpando as mãos na roupa.
— Digo isso para todo mundo. E quase todo mundo volta.
Mabbel sorriu.
Seraphine guardou a imagem.
Mais tarde, se lembraria daquele rosto com uma nitidez desagradável. Naquele momento, porém, havia apenas uma artista viva, ocupada com o próprio trabalho.
Audrey fez perguntas sobre a apresentação. Marcos acompanhou a conversa, enquanto Annabeth procurava saber mais sobre os irmãos.
Seraphine prestou atenção às mãos de Mabbel.
Talvez estivesse procurando tinta onde não havia nenhuma.
Depois dos corpos da ponte, começara a observar os dedos dos vivos como se todos pudessem conservar uma resposta.
Mabbel tocou o braço de Sam e abriu um sorriso. Recolheu um objeto fora do lugar. Afastou uma mecha do rosto.
Nada justificava suspeita.
A médica continuou olhando.
— Você parece estar nos examinando — comentou Sam.
Seraphine ergueu os olhos.
— É um hábito profissional.
— Médica?
— Legista.
O sorriso da moça perdeu alguma coisa. Sam olhou para a irmã.
Seraphine percebeu a mudança e suavizou o tom.
— Hoje estou apenas fazendo perguntas.
Mabbel tornou a sorrir, com um pouco mais de cuidado.
— Então espero que encontre respostas melhores à noite — disse o rapaz.
***
Foi Audrey quem encontrou o velho.
Os outros o viram entrando na tenda e conversando com um homem idoso, cego. Alguém próximo comentou que o velho previa o futuro.
A informação os fez virar inteiramente o rosto. Quiseram se aproximar.
Previsões podiam nascer de observação, de perguntas bem conduzidas, de uma encenação sustentada por pessoas dispostas a acreditar. Mas havia outras possibilidades, e Seraphine tinha dificuldade para ignorá-las.
Observaram a maneira como o homem orientava a cabeça para a voz de Audrey. O tempo das respostas. A quietude das mãos.
A cegueira não o tornava desatento. Em alguns momentos, parecia aguardar perguntas que ainda não haviam sido formuladas.
Quando Audrey voltou, sua expressão estava fechada.
— Precisamos consultar os registros do Círculo.
Annabeth olhou para o velho.
— Por quê?
— Acho que ele tem ligação com a Candela.
Seraphine se aproximou.
— Acha ou reconheceu alguma coisa?
Audrey encontrou seu olhar.
— O suficiente para conferir.
Ela poderia insistir mas preferiu observar o homem mais uma vez.
A apresentação seria à noite. Precisavam descobrir quem ele era antes que o público tornasse qualquer procura mais difícil.
***
Nos registros, o velho já estava morto. Audrey releu a informação, depois procurou a data. Havia tempo demais entre aquela morte e a conversa daquela tarde. Annabeth conferiu outro documento. Marcos buscou uma segunda referência.
— É ele — disse Annabeth.
Seraphine manteve os olhos na página. O homem pertencera à Candela. Deveria estar morto havia muito tempo.
Um registro podia estar errado. Uma morte podia ter sido encenada. Ela própria havia tentado fazer isso com Audrey. Mas a possibilidade de outra explicação despertou uma atenção que precisou conter.
Queria examinar aquele homem. Ouvi-lo. Descobrir o que existia entre o corpo vivo e a morte registrada.
— Voltamos ao circo — disse.
— Esta noite — respondeu Audrey.
Seraphine levantou o rosto.
— E precisamos encontrá-lo antes que faça alguma coisa.
Marcos olhou para a janela.
O dia avançava.
Annabeth fechou o volume.
— Então vamos preparados.
***
Quando retornaram, Seraphine pediu que fossem na frente. Audrey se voltou.
— Vamos nos separar agora?
— Não convém que continuem me vendo com vocês.
Ele demorou um instante para responder. Ela reconheceu o que havia naquela hesitação.
O cais. John. A suspeita que Audrey ainda parecia disposto a conservar.
— Christopher sabe da minha ligação com a Candela — continuou. — Se alguém estiver observando, prefiro não facilitar.
Annabeth olhou para a entrada, já ocupada por famílias e grupos de espectadores.
— Encontramos você lá dentro.
Audrey a acompanhou. Marcos permaneceu por alguns instantes.
— Você vai entrar mesmo?
— Vou.
Ele pareceu querer perguntar outra coisa. Seraphine ajustou a bolsa.
— Marcos. Eu não vou desaparecer.
Ele assentiu e seguiu os outros. Ela esperou antes de entrar. O circo já começava a esconder seus caminhos sob a multidão.
***
Seraphine não foi diretamente à tenda principal. Procurou o velho antes.
Voltou ao lugar onde Audrey o encontrara, observou as passagens entre as lonas e percorreu os espaços que o público deixava vazios por não haver ali nada anunciado.
Não o viu.
Um funcionário pediu que se afastasse de uma área reservada. Ela se desculpou e mudou de direção, guardando o rosto dele.
De outra tenda vinha uma conversa interrompida quando passou. Parou por um instante.
A música cresceu atrás dela. O espetáculo estava começando.
Deveria voltar.
Olhou mais uma vez para o caminho adiante.
— Seraphine.
Marcos vinha em sua direção. A preocupação no rosto dele a irritou antes que pudesse reconhecer o cuidado.
— Eu disse que ia entrar.
— Ninguém tinha visto você.
— Estava procurando o velho.
— Encontrou?
Ela negou.
Outro aplauso atravessou a lona. Marcos indicou a tenda principal.
— Vamos. Os outros estão lá.
Seraphine olhou para a passagem que ainda não examinara. Depois o acompanhou.
***
Audrey e Annabeth já não assistiam ao espetáculo. Seraphine percebeu antes de alcançá-los.
Annabeth estava pálida. Audrey olhava do picadeiro para um ponto entre o público, com uma concentração próxima do desespero.
— O que aconteceu? — perguntou Marcos.
— Meu irmão está aqui — respondeu Annabeth.
Seraphine procurou o menino. Encontrou-o junto à governanta. À primeira vista, nada explicava o medo da irmã.
Audrey se aproximou para falar baixo.
— Mabbel está tocando nas pessoas.
Seraphine olhou para o picadeiro.
— E?
— Depois do toque, aparece um fio vermelho sobre a cabeça delas.
Ela voltou imediatamente os olhos para ele.
— Um fio de magika?
Audrey assentiu.
Por um instante, Seraphine quis apenas olhar. Identificar o fenômeno, acompanhar sua direção, compreender o que ligava e a quê. Então Annabeth falou:
— Ele estava correndo. Tropeçou, e Mabbel o segurou.
A médica olhou novamente para o menino. A governanta ajeitava sua roupa com a atenção comum de quem acabara de evitar um pequeno acidente.
Para ela, nada além disso acontecera.
— Ele não estava entre as pessoas que ela procurava — disse Audrey. — Foi um acidente.
Annabeth apertou as mãos.
— Mas agora tem um fio.
A investigação mudou de peso. Até ali, procuravam compreender um perigo. Agora conheciam alguém que estava dentro dele.
***
Seraphine se abaixou diante da criança e falou com ela enquanto observava seu rosto e sua respiração. Não encontrou um sinal que pudesse apresentar à governanta. Também não tinha tempo para explicar magika entre a música e os aplausos. Levantou-se.
— Sou médica. Preciso levá-lo para uma avaliação.
A mulher olhou para o menino.
— Ele só tropeçou.
— Há sinais de uma virose que pode ser mais arriscada para ele. Prefiro que seja examinado no hospital.
O diagnóstico era falso, a urgência, não. Seraphine manteve a voz calma.
— Estamos agindo cedo. Annabeth irá conosco.
A governanta voltou-se para a jovem.
— Eu acompanho — confirmou Annabeth. — Pode ficar tranquila.
A mulher hesitou. Seraphine permitiu que a presença da irmã e a palavra hospital oferecessem uma saída aceitável. Por fim, ela concordou.
Ao se voltar, a médica encontrou Audrey observando-a. Dessa vez, ele não questionou a mentira.
Não foram para um hospital. Seguiram para a casa de Marcos. A crise começou depois.
O menino deixou de parecer apenas assustado e passou a sofrer de uma maneira que fez Annabeth esquecer as perguntas. Seraphine se aproximou.
— Preciso de espaço.
A irmã permaneceu perto. A médica lhe deu uma tarefa simples, alguma coisa a que pudesse se agarrar enquanto ela cuidava da criança.
Quando a sedação trouxe repouso, Seraphine continuou observando. O peito subia e descia. A expressão havia relaxado. Parecia apenas um menino adormecido depois de um dia longo. A aparência era quase uma crueldade.
Nada estava resolvido. Atrás dela, a conversa recomeçou. O fio podia ser seguido. O menino podia levá-los à origem.
Seraphine manteve a mão junto dele. Uma criança como bússola.
A ideia possuía uma coerência que detestou reconhecer. Usá-la talvez permitisse salvá-lo. Também significava conduzi-lo na direção daquilo que o havia ferido.
Cruelmente fabuloso.
Ergueu os olhos para Marcos. Por que ele fora atrás dela?
Tinha prometido que entraria. Estava procurando o velho. Talvez, se continuasse, pudesse encontrá-lo antes do espetáculo. Talvez o menino não tivesse sido tocado.
Talvez…
Seraphine conhecia o perigo de construir certezas com aquilo que não acontecera. Ainda assim, queria cobrar de alguém o tempo perdido.
— Você devia ter confiado na minha palavra — disse.
Marcos a encarou.
— Achei que pudesse estar em perigo.
Ela abriu a boca, mas não respondeu. Não possuía uma resposta justa. Voltou-se para a criança.
— Eu cuido dele. Mas estar inconsciente não significa estar fora de perigo.
Audrey começou a explicar como poderiam seguir o fio. Seraphine fechou os olhos por um instante. A voz dele parecia encontrá-la em todos os lugares onde precisava de silêncio.
***
Voltaram ao circo.
Durante o caminho, Seraphine vigiou o menino e tentou suportar a conversa. Audrey perguntava, explicava, insistia. Algumas observações eram úteis, o que tornava as outras ainda mais difíceis de tolerar.
Em certo momento, olhou para sua garganta. Quando isso terminar, quero ter o prazer de cortar essas cordas vocais. O pensamento surgiu sem delicadeza.
Ela não o disse. Corrigiu a posição da criança e voltou a prestar atenção à respiração. Havia coisas mais urgentes do que ensinar Audrey Walker a calar a boca.
Ele encontrou Mabbel. Quando retornou com o caderno do velho, Seraphine sentiu a atenção se renovar.
Papel.
Anotações.
Alguma coisa que podiam examinar sem depender apenas de um fenômeno que ela própria não conseguia ver.
— Ela entregou a você? — perguntou.
— Entregou.
— E o velho?
Audrey não lhe ofereceu a resposta que esperava. Seraphine olhou para o caderno. Quis abri-lo imediatamente. Depois olhou para Annabeth e para o menino.
— Precisamos de um lugar seguro para ele.
Marcos assentiu.
— Conheço alguém.
***
Gales os recebeu por causa de Marcos.
Seraphine percebeu isso na maneira como abriu a porta, no espaço que concedeu à urgência antes de exigir explicações.
A médica demorou a aceitar o afastamento da criança. Conferiu seu estado, deixou orientações e procurou no rosto do anfitrião algum sinal de que compreendia a importância delas.
— Não o deixe sozinho — pediu.
Gales olhou para o menino.
— Eu fico com ele.
Marcos tocou o ombro do amigo.
— Obrigado.
Gales respondeu com um gesto breve. Seraphine quis acreditar que finalmente haviam encontrado ajuda sem acrescentar outro risco. Pouco depois, tudo se desfez.
Alguém apareceu. Vieram os tiros. As explicações se perderam sob a necessidade de localizar os outros, procurar abrigo e entender de onde vinha o perigo.
Seraphine se lembraria do volante sob as mãos. Do homem diante do carro. Do impacto. Um corpo atingido. O som.
A obrigação de continuar antes que pudesse compreender inteiramente o que havia feito. Então viu Gales ferido. Marcos já estava junto dele.
— Gales? Olha para mim.
A voz mudou quando não recebeu a resposta que esperava.
— Gales!
Seraphine se aproximou e se ajoelhou.
— Marcos, preciso que se afaste um pouco.
Ele não pareceu ouvi-la. Segurava o amigo e falava cada vez mais depressa, como se pudesse mantê-lo ali pela força do nome.
— Você vai ficar bem. Está ouvindo? Não faz isso. Não faz isso comigo.
— Marcos.
Nada.
Seraphine tentou alcançar o espaço de que precisava. Ele se moveu, perdido entre ajudá-la e proteger Gales de qualquer pessoa que o tocasse. Audrey se aproximou.
— Deixa ela trabalhar.
— Ele está morrendo!
O grito atravessou Seraphine. Ela ergueu o rosto.
— Então me deixa cuidar dele!
Marcos parou por uma fração de segundo. Depois voltou a olhar para o amigo.
— Eu trouxe vocês aqui. Eu…
— Marcos! — gritou Audrey. — Olha para mim!
Ele não olhou. Audrey elevou ainda mais a voz.
— Você quer ajudá-lo? Então escuta o que ela está dizendo!
Seraphine aproveitou a interrupção.
— Preciso de você aqui. Agora. Gales precisa chegar ao hospital, e eu não consigo fazer tudo sozinha.
Marcos respirava depressa. O terror havia tomado o lugar da compreensão.
Ela sustentou seu olhar.
— Você pode se culpar depois. Neste momento, vai me ajudar.
A frase o atingiu. Seraphine viu a atenção retornar aos poucos, dolorosa, como se ele precisasse atravessar o próprio medo para reconhecer a sala.
Audrey apontou o que precisava ser feito.
— Vamos tirar ele daqui.
Marcos assentiu. Não estava calmo, apenas em transe, capaz de obedecer, nada mais.
Por enquanto, bastava.
***
No hospital, entregaram Gales aos cuidados de quem podia atendê-lo. Marcos permaneceu perto até ser impedido de continuar.
Seraphine conhecia aquele instante: quando alguém precisava aceitar que acompanhar não significava ajudar. Ele olhava para a passagem por onde levaram o amigo.
— Eu não devia ter…
— Ainda não — disse ela.
Marcos voltou o rosto. Seraphine estava cansada demais para suavizar a voz.
— Ainda não é hora de decidir o que devia ter feito.
Esperaram.
Quando souberam que Gales permaneceria em observação, nenhum deles confundiu a notícia com uma garantia. Mas ele estava vivo. Seraphine permitiu que essa informação tivesse seu peso.
Marcos passou as mãos pelo rosto e se sentou.
Audrey ficou em silêncio por alguns instantes. A médica agradeceu por isso sem olhar para ele.
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