O Maior Amor
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Por Henutmire
—Isso não é verdade! — Amenhotep discorda.
—Claro que é. — Tany fala. — Eu e minha irmã somos muito mais rápidas que você.
—Pois eu não acredito. — Amenhotep fala. — Vocês são meninas e eu sou o futuro rei do Egito.
—E qual prova você quer para acreditar? — Hadany pergunta.
—Uma corrida. — Amenhotep sugere.
—Como quiser. — Hadany concorda.
—Não vão muito longe, crianças. — Nefertari pede.
Um enorme sorriso toma conta de meus lábios ao ver minhas filhas e meu sobrinho correrem pelas margens do rio Nilo. Às vezes, parece impossível acreditar que o tempo passe tão depressa e que hoje as duas crianças que gerei em meu ventre e que trouxe ao mundo com grande esforço já estejam com sete anos. Hadany e Tany são duas belas meninas e muito espertas para a sua idade. A cada dia me mostram o quão maravilhoso é ser mãe. É um amor inexplicável... Amor pelo qual eu seria capaz de dar a minha própria vida.
Muitas coisas aconteceram no decorrer destes sete anos. Mas, o que não mudou foi a saudade que sinto de Moisés. Não houve e não há um dia em que eu não deseje que ele esteja aqui, perto de mim, vendo suas irmãs crescerem, assim como eu tenho visto. Nunca irei me acostumar com a ausência de meu filho. Quando Moisés partiu, levou consigo uma parte do meu coração. E, a cada nova manhã que surge no horizonte, menos esperanças eu tenho de que terei meu coração completo outra vez. Rogo aos deuses que tragam meu filho de volta, mas eles parecem não me escutar.
Porém, não foi somente nisto que os deuses não me atenderam. Há sete anos, Anat se dedica ao sacerdócio, mas parece ter desistido de ir para Om, tornar-se uma adoradora do deus Seth. Chego a desconfiar que a sobrinha de Paser acostumou-se tanto ao o luxo e conforto do palácio que não queira deixá-los para trás. Ela demonstrou ser uma boa pessoa, prestativa, de bons sentimentos e coração valente, pois enfrentou a dor do luto de forma surpreendente. Nem mesmo eu, que perdi minha mãe quando já era mais velha, fui capaz de enfrentar a dor de sua ausência como Anat fez. Mas, nem todas as suas notáveis qualidades fazem com que eu tenha uma opinião concreta sobre ela. Ainda me sinto ameaçada pela sua presença no palácio, embora ao longo desses anos eu só tenha tido provas de que seu relacionamento com Hur é apenas amizade e carinho, que não me esforço em compreender.
—Gosto da forma como suas filhas desafiam Amenhotep. — Nefertari fala. — Isso faz com que ele dê o seu melhor, o que é uma qualidade importante para um futuro rei.
—É apenas uma disputa entre primos, Nefertari, coisa de criança. — Falo. — Acredito que você não gostaria de ver uma de minhas filhas desafiando Amenhotep de verdade, e nem permitiria.
—É óbvio que não! Meu filho é o herdeiro do trono e Hadany e Tany são apenas filhas da princesa com um... — Nefertari não completa sua frase.
—Com um hebreu? Era isso que ia dizer? — Pergunto, tentando conter minha indignação ao me dar conta de que, depois de tantos anos, minha cunhada ainda tem preconceitos contra Hur únicamente por ele ser hebreu.
—Você sabe que nunca achei correto a sua união com Hur. — Nefertari fala. — Mesmo que seja um nobre, continua sendo hebreu.
—Se Ramsés, que é meu irmão e rei do Egito, permitiu meu casamento com Hur, e minha mãe, que era a rainha, apoiou a minha decisão, você não tem direito algum de achar nada.
—Você misturou o nosso sangue com o de escravos, Henutmire. — Minha cunhada me olha. — Será que não se dá conta disso?
—Nosso sangue? — Falo, rindo. — Perdão, mas não é em minhas veias que corre o mesmo sangue de uma assassina.
—Eu não tenho culpa de ser filha de quem sou. — Ela exclama, demonstrando que minhas palavras a feriram.
—Certamente não, este é um fardo que os deuses te impuseram. — Falo. — Mas, não tente menosprezar minhas filhas por terem sangue hebreu. É o sangue do homem que eu amo!
—O amor cega as pessoas. — Nefertari fala, conseguindo me tirar do sério.
—Diz isso por experiência própria, não é? — Falo, atacando Nefertari. — Ou por acaso se esqueceu de que também já amou um hebreu?
—Moisés era um príncipe.
—Mas, isso não muda o seu sangue, o sangue de escravos que você tanto insiste em humilhar. — Falo com voz alterada. — Como eu fui tola por acreditar que esta criança que você espera te deixaria mais humana.
—Me desculpe, Henutmire. — Nefertari baixa o olhar com tristeza, acariciando seu ventre, já notável pela gravidez. Parece que quando se menciona o bebê que espera, minha cunhada se torna mais sensível, mais compreensiva. — Eu me exaltei, não deveria ter dito o que disse.
—Não deveria, mas disse. — Falo. — E se continuar com essa atitude, nossa convivência será impossível.
—Peço desculpas mais uma vez. Eu não tenho nada contra suas filhas, de verdade. — Nefertari fala. — Maior que as origens hebreias que elas têm é o sangue real que corre em suas veias e o carinho que tenho por elas.
—Espero que esteja sendo sincera, Nefertari. — Falo e seguro uma de suas mãos. — Não por mim, mas para o seu próprio bem.
Por Hur
Sete anos... Sete longos anos em que eu me dedico a fugir de Anat e suas más intenções para comigo. Me afastei dela, como Henutmire pediu. Mas, a verdade é que minha esposa ainda não descobriu quem de fato é a sobrinha de Paser. Não demorou muito para que Anat viesse a revelar o seu verdadeiro interesse em se aproximar de mim. Lua após lua, ela usa de sua beleza e seus encantos de mulher para tentar me conquistar, me seduzir. Inúmeras vezes eu me neguei, e ainda me nego, a ceder as suas investidas, mas a quase sacerdotisa é de uma persistência admirável. É claro que não contei nada disso a Henutmire, não quero trazer mais este problema para ela. E conhecendo minha esposa como conheço, ela encontraria uma maneira bem eficiente de tirar Anat do palácio, isso se não lhe passasse pela cabeça a ideia de submeter Anat a uma bela surra, como fez com Yunet há anos atrás. Apesar de ser doce, boa, de coração e sentimentos nobres, Henutmire é como uma fera para defender as pessoas que ama. Por isso, durante todo este tempo, tento disfarçar ao máximo o quanto me incomoda viver no mesmo lugar que Anat, estando sujeito a me encontrar com ela pelos corredores do palácio ou que me importune na oficina real, e ver quão grande é o seu cinismo em conviver com Henutmire como se nada estivesse acontecendo.
—O senhor precisa fazer alguma coisa. — Uri fala. — Não pode continuar se submetendo a essa situação.
—E o que eu vou fazer, Uri? — Pergunto, sabendo que não há resposta. — Se eu abro minha boca, pode acontecer uma tragédia neste palácio.
—Do que o senhor está falando?
—Henutmire é a princesa do Egito, irmã do soberano, e Anat é apenas a sobrinha do sumo sacerdote, que foi acolhida no palácio por benevolência do rei. — Respondo. — Se Henutmire descobre, será necessário apenas um pedido seu a Ramsés para que Anat seja castigada ou até mesmo morta.
—O senhor está defendendo aquela mulher? — Uri pergunta, com certa indignação.
—É claro que não! Mas, também não estou pensando só em mim. — Falo. — Imagine a decepção de Paser, que já passou por tantas coisas. Ele se orgulha tanto de sua sobrinha.
—O sumo sacerdote trouxe uma víbora para dentro do palácio, essa é verdade. — Uri contesta. — E nem mesmo ele próprio sabe o que está criando.
—Como saberia se a conduta dela é impecável? — Falo e meu filho me olha com incredulidade. — Anat tem o cuidado de não cometer erro algum desde que chegou ao palácio, exceto por esse seu capricho tolo de querer de mim algo que jamais terá.
—Paser deveria ter mandado a sobrinha para Om, quando ela ainda dizia por todos os cantos que ser uma adoradora de Seth era o seu maior desejo. — Uri fala.
—Ele apenas quis zelar pelo bem estar dela, por isso deixou que ficasse no palácio até que estivesse segura de que queria ser mesmo uma sacerdotisa. — Falo. — Quem poderia imaginar que ela mudaria de ideia?
—Mas, Anat não mudou de ideia, pois não abandonou o sacerdócio. — Uri argumenta. — Ela só não é oficialmente uma sacerdotisa porque ainda não foi consagrada.
(...)
—Procurando pela princesa, Hur? — Anat me surpreende com sua presença. — Ela não está no palácio, saiu a passeio com a grande esposa real e as crianças.
—Eu sei muito bem onde minha esposa e minhas filhas estão. — Falo em ríspidas palavras.
—Não precisa ser grosseiro comigo, apenas quis ajudar. — Ela fala, se aproximando de mim. Sinto sua mão acariciar meu rosto e vejo seu sorriso malicioso. — Por que você resiste tanto?
—Porque amo minha esposa e devo fidelidade a ela. — Falo ao tirar sua mão de meu rosto, segurando seu pulso. — Eu já pedi várias vezes e vou pedir novamente: tire de sua cabeça essa ideia estúpida e me deixe em paz.
—Você está me machucando! — Anat fala. Ao soltar seu braço, vejo nele as marcas de meus dedos, mostrando que a estava segurando com força. — Eu nunca vou desistir, Hur. E sabe por que?
—Não sei e nem tenho interesse em saber.
—Porque eu te amo. — Anat continua, sem dar importância ao que eu disse.
—Isso não é amor, Anat. — Falo. — É puro capricho seu.
—Você não...
—Ah! Você está aqui. — Paser surge no corredor, interrompendo o que Anat ia dizer. — Estava te procurando para irmos ao templo.
—Eu estava indo até sua sala, meu tio, mas encontrei o senhor Hur no caminho e estávamos conversando.
—Indo orar aos deuses, Paser? — Pergunto.
—Nunca é demais pedir proteção as nossas divindades, meu amigo. — O sumo sacerdote responde. — Mas, estou indo ao templo levar Anat para realizar alguns pequenos rituais, que como aprendiz ela pode fazer.
—E quando ela será de fato uma sacerdotisa? — Pergunto novamente, fazendo com que Anat me olhe com certa repreensão.
—Em breve. Já comecei os preparativos para sua consagração, será aqui mesmo em Pi-Ramsés. — Paser responde, notavelmente contente. — Creio que depois de sete anos de preparo e aprendizado, minha sobrinha já está pronta para assumir o sacerdócio.
—É uma excelente notícia. — Falo demonstrando satisfação, o que deixa Anat irritada.
—É melhor irmos, tio. — Ela se pronuncia. — Não devemos deixar os deuses esperando.
Por Nefertari
—A senhora se desentendeu com a princesa outra vez, não é? — Karoma pergunta.
—Já está virando um hábito Henutmire e eu discutirmos, e sempre pelo mesmo motivo. — Respondo, observando Henutmire e sua dama brincarem com as crianças de atirar pedras na água.— E a culpa é sempre minha, por falar o que não devo.
—Desculpe a minha ousadia, mas a senhora não gosta de Hur somente por ele ser hebreu?
—Eu não sei! Ele foi criado no palácio, vive como um egípcio, adora aos deuses egípcios. — Falo. — Mas, parece que nunca consigo esquecer que ele é um hebreu.
—Os hebreus são seres humanos como nós, senhora. Também têm sentimentos como qualquer outro. — Karoma fala. — Hur ama a princesa, e é esse amor que deu e tem dado a ela toda a felicidade que sempre almejou. Realizou até o seu grande sonho de gerar uma criança em seu ventre. — Minha dama me olha. — Não acha que deveria ficar satisfeita por ver sua cunhada feliz, depois de tudo que ela passou?
—Você tem razão, Karoma. — Falo com um sorriso. — Hur é a felicidade de Henutmire e eu não devo me prender a preconceitos contra ele.
Meu sorriso logo se desfaz ao sentir uma dor muito forte em meu ventre, fazendo com que eu grite e assuste minha dama de companhia. Ela se apavora ao ver minhas vestes molhadas, pelo líquido que sinto escorrer por minhas pernas.
—Pelos deuses, senhora! — Karoma fala, desnorteada. — O bebê.
—O meu filho vai nascer, Karoma. — Falo, tentando suportar a dor que sinto. — Temos que voltar para o palácio imediatamente.
—Princesa! Leila! — Karoma chama por Henutmire e sua dama, que logo correm para saber o que está acontecendo, assim como as crianças. — A senhora Nefertari entrou em trabalho de parto.
—Não é possível! — Henutmire fala. — A gestação ainda não completou todas as luas.
—Estou com medo, Henutmire. — Falo e em seguida tento abafar um novo grito de dor.
—Calma, Nefertari. — Minha cunhada pede, segurando minha mão. — Vai ficar tudo bem.
—Temos que ir para o palácio agora. — Leila fala.
—Vou pedir a Ikeni que leve a rainha nos braços, ela não conseguirá ir andando até lá. — Minha dama fala.
—Faça isso. — Henutmire diz e Karoma vai atrás de Ikeni, que faz a nossa guarda no Nilo.
—O que tia Nefertari tem, mamãe? — Tany pergunta.
—Não é nada, meu amor. — Henutmire responde.
—Ela vai ficar bem, tia? — Amenhotep pergunta.
—Vai sim, Amenhotep. — Henutmire sorri para ele, tentando lhe transmitir tranquilidade.
—Venha cá, meu filho. — Peço, tentando não demonstrar o meu medo. — Preciso que você fique com sua tia e suas primas, está bem?
—Eu quero ficar com a senhora, mamãe. — Amenhotep fala com seus olhos suplicantes para mim. — Eu posso tomar conta da senhora.
—Eu sei, meu filho. — Falo e sorrio para ele. — Mas, preciso que me obedeça, sim?
—Está bem. — Meu filho concorda, contrariado.
—Vamos pegar seus brinquedos para voltarmos ao palácio. — Leila fala para as três crianças, que a acompanham, se afastando de mim.
—Ele está preocupado comigo. — Falo, me referindo a Amenhotep.
—Ele vai ficar bem, Leila cuidará dele. — Henutmire fala, sem soltar minha mão. — Agora, precisa se preocupar com você e com esta criança.
—Ainda não é hora, Henutmire. — Falo, sentindo ainda mais dor. — Ainda não é hora do meu filho nascer.
—Seja rápido, Ikeni. — Karoma fala ao se aproximar novamente de mim, acompanhada por seu marido.
—Com sua permissão, senhora. — Ikeni fala e em seguida me carrega em seus braços.
—Leve-a com cuidado, Ikeni. Assim que chegarem ao palácio, procure por Paser e mande chamar a parteira. — Henutmire dá suas instruções. — Vá com eles, Karoma.
—E você? — Pergunto para minha cunhada.
—Eu fico para ajudar Leila com as crianças e vamos em seguida. — Ela responde. — Você precisa ir agora.
Por Ikeni
—O mestre foi ao templo e ainda não retornou. — Simut responde a minha pergunta.
—Então, vá você mesmo chamar a parteira e rápido. — Falo.
—Parteira? — Ele me olha sem entender. — Não me diga que o príncipe já vai nascer?
—Sim, Simut. — Respondo. — E se você não se apressar...
—Eu vou agora mesmo. — Simut me interrompe e em seguida sai correndo para chamar a parteira.
—Preciso avisar ao soberano. — Falo para mim mesmo.
(...)
—Já está de volta, Ikeni? — O rei questiona, ao me ver entrar na sala do trono. — Pensei que o passeio demoraria um pouco mais.
—Foi preciso voltar, meu senhor. — Falo. — A grande esposa real sentiu-se mal.
—Onde ela está? — O soberano levanta-se do trono, demonstrando preocupação.
—Em seus aposentos. — Respondo. — A rainha entrou em trabalho de parto, soberano. O seu filho vai nascer.
—Mas, como? Ainda não é hora. — O rei fala, mais para si do que para mim. — Já avisou a Paser?
—O sumo sacerdote não se encontra no palácio. — Falo. — Mas, já pedi a seu assistente que vá buscar a parteira.
—Pelos deuses! Como isso pode estar acontecendo? — O rei pergunta para si mesmo, sem encontrar resposta. — E minha irmã e as crianças?
—Estamos aqui, meu irmão. — A princesa fala ao entrar na sala do trono, trazendo consigo suas filhas e o filho do rei. — Pedi a Ikeni que viesse na frente com Nefertari. — O príncipe sobe os degraus do trono e se senta no colo do pai. — Como ela está? — A princesa pergunta para mim.
—Bem, na medida do possível. — Respondo. — A rainha se queixou de muitas dores no caminho para cá.
—Que os deuses protejam minha cunhada e esta criança. — A princesa fala.
—A mamãe está passando muito mal, papai. — O príncipe fala. — Ikeni teve que trazer ela para o palácio carregada nos braços.
—Eu sei, meu filho. Mas, não precisa se preocupar. — O rei tenta tranquilizar o menino. — Sua mãe vai ficar bem, eu garanto.
—Eu posso vê-la, papai? — O príncipe pede.
—Infelizmente não. — O soberano fala. — Preciso que você fique com sua tia até que eu mande te chamar, está bem?
—Sim, papai. — O menino fala, totalmente contrariado, e desce do colo do pai. Desce também os degraus do trono e volta para perto da princesa.
—Não fique triste, Amenhotep. — A princesa Hadany tenta consolar o primo. — Logo você vai poder ver sua mãe.
Por Henutmire
Amenhotep acabou se distraindo um pouco, brincando com minhas filhas no harém. Meu sobrinho está como todos nós estamos: preocupados com Nefertari. O que mais me apavora é que o parto tenha se adiantado. Temo pela vida de minha cunhada e do bebê. Há muito tempo a parteira está nos aposentos da rainha e ainda não temos notícias e muito menos ouvimos o choro do recém-nascido ecoar pelo palácio.
—Princesa. — Paser fala ao entrar no harém, acompanhado por Anat.— Acabei de chegar ao palácio e soube de minha filha. Como ela está?
—Não sabemos, Paser. — Falo. — Ninguém veio nos dizer nada ainda.
—Eu vou ao santuário pedir aos deuses que protejam minha prima e seu filho. — Anat fala.
—Faça isso, Anat. — Paser concorda.
—Com licença. — Ela faz uma reverência e logo sai do harém.
—Fique tranquilo, Paser. — Peço. — Sua filha e seu neto vão ficar bem.
—Que os deuses te ouçam, minha senhora. — O sumo sacerdote fala. — Vou a sala do trono, certamente o soberano está muito preocupado.
—Espero que consiga acalmá-lo. — Falo.
—Farei o possível, senhora. — Paser fala. — Mas, antes preciso acalmar a mim mesmo.
(...)
—Princesa Henutmire! — Karoma entra no harém chamando por mim, visivelmente nervosa.
—Sim? — Falo.
—Preciso que venha comigo. — Karoma fala. — A rainha está chamando a senhora.
—Posso ir com a senhora, tia? — Amenhotep segura uma de minhas mãos. — Eu quero ver a minha mãe.
—Sua mãe pediu que fique aqui, príncipe. — Karoma fala.
—Fique com Leila até eu voltar, está bem? — Falo, ao me abaixar a altura de meu sobrinho.
—Promete que vai cuidar de minha mãe? — O menino pede, com seus olhos marejados por lágrimas.
—Prometo. — Sinto o abraço de meu sobrinho demonstrar que confia em mim.
Não sei qual é o estado de Nefertari e muito menos como farei para cumprir a promessa que acabo de fazer a Amenhotep. Apenas fico de pé e saio do harém com Karoma, sem ter ideia do que irei encontrar nos aposentos de minha cunhada.
—Ela está perdendo muito sangue, senhora. — Karoma fala, enquanto andamos pelos corredores. — Não sabemos o que fazer.
—Acha que Nefertari pode... — Não tenho coragem de dizer que temo pelo pior.
—Eu espero que não, princesa. — Karoma entende o que eu ia dizer.
Entramos em silêncio nos aposentos da grande esposa real. Não posso evitar sorrir ao ver um bebê nos braços do parteira. A expressão de surpresa de Karoma me faz entender que a criança nasceu enquanto estávamos a caminho. Mas, ao olhar para a cama completamente ensanguentada, vejo Nefertari desfalecida, sem forças e muito pálida.
—Henutmire... — Ela chama por mim, quase num sussuro.
—Estou aqui. — Me aproximo dela e seguro sua mão.
—É uma menina. — Nefertari fala, se referindo ao bebê que acabou de dar a luz. — Ela é tão linda.
—Então, se parece com você. — Falo, fazendo minha cunhada sorrir. Mas, logo ela fica séria novamente.
—Sei que perdi muito sangue, me sinto fraca... — Ela fala, com voz calma. — Sinto a morte se aproximar de mim.
—Não diga isso! Você vai ficar bem. — Afirmo. — Eu dei a luz a duas meninas e sobrevivi, você também vai.
—Eu não sou tão forte quanto você, e só agora percebi isso. — Ela segura minha mão com mais força. — Me prometa que ajudará Ramsés a cuidar de meus filhos, que irá amá-los como se fossem seus também.
—Você mesma irá fazer isso, Nefertari. — Falo. — Não desista, seja forte por sua filha, que vai precisar muito de você.
—Me prometa, por favor. — Ela pede mais uma vez.
—Eu prometo. — Falo e um sorriso ilumina o rosto de minha cunhada.
—Obrigada, Henutmire. — Nefertari fala e aos poucos fecha seus olhos.
(...)
—O soberano parece estar feliz com o nascimento da filha. — Paser fala, observando Ramsés com a filha nos braços.
—Como não se alegrar com a chegada de uma menina tão linda? — Falo sorrindo. — Mas, me alegro ainda mais em saber que Nefertari está bem.
—Ela nos deu um grande susto, mas vai se recuperar. — Paser fala. — Só precisa de descanso e repouso. — Ele olha para a filha, que dorme tranquilamente.
—Tenho que ir até o harém. — Falo. — Amenhotep estava muito preocupado com a mãe.
—Se me permite, gostaria de ir com a senhora. — Paser pede. — Quero ver a reação de meu neto quando souber que tem uma irmãzinha.
—Claro, vamos. — Sorrio.
Ramsés está tão concentrado em dar atenção a filha e zelar pelo sono de Nefertari que não percebe quando o sumo sacerdote e eu saímos dos aposentos da rainha. Não há palavras que possam descrever a minha alegria em saber que Nefertari está bem e que sua filha é menina forte e sadia, apesar de ter nascido antes do tempo.
Paser e eu caminhamos pelos corredores em direção ao harém, conversando sobre a nova princesa que o reino ganhou. Até que um barulho chama nossa atenção. É o colar que o sumo sacerdote usava no pescoço, que foi de encontro ao chão.
—Acho que quebrou. — Paser fala ao pegar o colar do chão.
—Hur pode consertá-lo. — Falo após analisar a jóia com atenção. — Vamos até a oficina.
—Não se incomode com isso, minha senhora. — Paser fala. — É apenas um colar.
—Não é incômodo algum, Paser. — Falo. — Deixamos o colar na oficina e de lá vamos para o harém.
Por Hur
O silêncio me inspira e abre minha mente para novas criações. Por isso, gosto de trabalhar quando estou sozinho na oficina, o que raramente acontece. Sempre estou acompanhado por Uri ou até mesmo por Bezalel, que está aprendendo o ofício do pai e do avô. Não consigo descrever o orgulho que sinto em ver meu neto seguir os meus passos.
—Hur? — Anat me chama e eu me surpreendo com sua presença. Estava tão concentrado no que fazia que não percebi quando ela entrou.
—O que veio fazer aqui, além de atrapalhar o meu trabalho? — Pergunto.
—Preciso de um favor.
—Seja o que for, não. — Falo. — Por favor, vá embora.
—Uma das amarras está solta, por pouco não a perdi na rua. — Anat fala ao me mostrar uma pulseira que trazia em uma das mãos. — Pode consertá-la?
—Não foi feita no palácio. — Concluo ao pegar a jóia.
—Foi um presente do meu pai. — Ela fala e eu quase posso ver sinceridade em seus olhos, mas não sei se acredito ou não. — Por isso, tem um grande valor sentimental para mim.
—Se quiser esperar, conserto agora mesmo. — Falo.
—Claro, eu espero.
Dou as costas a Anat para pegar meus instrumentos de trabalho. Por sorte, o problema da jóia é pequeno e fácil de ser consertado, o que significa que me livrarei rapidamente da presença incômoda de Anat. Se a minha família não estivesse no palácio eu já teria ido embora, só para não continuar vendo seu rosto todos os dias.
—Aqui está. — Ao me virar, me deparo com Anat bem na minha frente.
—Pode colocar, por favor? — Ela estende o braço para que eu coloque a pulseira.
—Pronto. — Falo após colocar a jóia em seu braço.
—Obrigada, Hur. — Anat agradece, olhando estranhamente para meu rosto.
—Não há de que. — Falo.
De súbito, Anat se atira em mim e me beija, sem que eu consiga reagir. Em todos esses anos, ela nunca teve essa atitude, o que me leva a crer que a sua loucura chegou no ápice.
—O que significa isso? — Ouço a voz alterada de Henutmire, assim que consigo afastar Anat de mim.
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