O Mago

1 Margaridas


O aluno lia livros antigos esquecidos na parte reservada da biblioteca. Com o cuidado típico de um estudioso fazia notas. Seu trabalho era incomum, mas sério. À aquela altura ele usava a pesquisa era muito custosa pela falta de fontes e pela dedicação exigida. Esse tipo de ramo não era estudado freqüentemente entre os acadêmicos daquela instituição. Numa cidade tão vibrante como águas profundas, o mercado de serviços e bens mágicos prezava por trabalhos precisos, o que não era um luxo de sua área de pesquisa.

Os céus anunciavam relâmpagos, chuva e mal tempo. Talvez por esse tempo ruim inspirava pessimismo aos olhares do jovem pesquisador que revia suas fontes e seu próprio trabalho. Massageando as têmporas, chegou a uma conclusão obvia, que pairava seus pensamentos, mas que tentava evitar por uma questão de praticidade.

- Eu tenho de ir pesquisar a aplicação desses rituais entre os bárbaros. — Disse para si mesmo.

- Quais rituais? — Perguntou o professor que lhe orientava, acusando a própria presença que passará desapercebido pelo rapaz.

- A quanto tempo o senhor está aqui?

- Acabei de chegar. — Disse sorridente o mago mestre.

- Rituais de origem bárbara. Esse tipo de círculo arcano trabalha com formas muito arcaicas. Não tenho fontes indicando como medir elas.

- Mas é justamente por isso que abandonamos esse tipo de ritual. Você deveria saber isso quando propôs essa pesquisa. Me interessa em muito seus resultados, mas é obvio que uma força mensurável pode ser estudada de forma mais clara. Teria de viajar muito para entender como é esse tipo de coisa?

- Não, muito... Mas alguns dias. A leste de Águas Profundas há algumas tribos que trabalham com esse tipo de ritual.

- Então, como fará? — Perguntou curioso o mestre.

- Eu acho... Que se a escola tiver interesse... — Mas antes que pudesse terminar sua pergunta hesitante, o mestre o cortou de forma franca, porém desanimadora.

- Não. Inviável. Seu estudo não tem um retorno muito prático.

- Então me resta terminar a pesquisa e propor outra do início.

- Certeza? Não há nenhuma outra maneira.

- Sim, tenho certeza. — Presenciando a desanimadora certeza de seu pupilo, o mestre decidiu renovar-lhe as esperanças.

- Veja bem... Eu vou tentar providenciar alguma coisa para você. Mas não espere grandes patrocínios ou grandes incentivos. Amanhã lhe dou uma resposta.

- Grato.

- Termine suas notas, sim?

- Sim.

O mestre então se retirou, tomou alguns livros das prateleiras e sentou-se em outra mesa. Diaco, era um jovem e promissor estudante de magia em Águas Profundas. Filho de um comerciantes comum, não dispunha de um grande nome, de terras, dinheiro ou de qualquer outra forma de status. Um rapaz delgado, não chamava muito a atenção pela aparência, mas era habilidoso com as palavras. Apesar de gozar de uma intuição sagaz, uma oratória elaborada e um entusiasmo para lidar com idéias novas, não era alguém muito carismático. Tinha um ar introspectivo, um olhar penetrante e sustentava um semblante enigmático. Cansado e desapontado com o próprio mestre, Diaco se dirigia a saída da academia secular de Águas Profundas. Trajado numa beca vermelha, de tecidos nobres, que servia de uniforme aos estudantes da instituição, o rapaz andava pelas ruas misturando-se a multidão de camponeses, comerciantes, soldados, religiosos de todas as raças típicas de tão fantástico mundo. Chegou à casa de seus pais cansado. Exausto de tanto pensar, deitou-se e adormeceu.

Viu-se de pé, andando com calma por um bosque de arvores grandes. Usava as roupas simplórias com as quais cresceu. Ouvia um canto lento, simples de uma única voz muito encantadora. Enquanto andava, olhava as palmas da própria mão, sedentas de percepção. Parecia um menino redescobrindo o mundo... Tocava as árvores na curiosidade feliz pela qual os pequenos conduzem-se no mundo dos grandes. A relva não lhe passava do tornozelo. E dizia em voz baixa, como se fosse para si mesmo, curioso para saber quem cantava:

- Quem canta? Quem é você?

Sem resposta, continuava a andar solitário por entre a mata. Quando pode avistar, atrás de uma grossa árvore de tronco roxo e brilhante, uma ruiva, de cabelos cacheados e vestes de seda transparentes. O traço do corpo da moça era bem visível. Sentada sobre seus calcanhares e de costas para o rapaz, ele podia ver as nadegas fartas e elegantemente separadas. Movimentava os braços como se trabalhasse algo que fora da visão do rapaz.

- Que peralta, esse rapaz... Mal esperou eu terminar meu trabalho e já vai procurar por minhas benesses... — Dizia hesitante por entre risos lentos, como se estivesse sob o efeito de ervas letárgicas. Após apreciar por alguns bons segundos a cintura da ruiva via agora que ela usava uma grinalda de margaridas, tão delicada que parecia flutuar sobre seus cabelos flamejantes. Incrédulo pela visão, perguntava-se a quem a ruiva dirigia-se. Não queria dizer nada para não perturbar as sutilezas e os movimentos da mulher. Não queria ser expulso dali aos gritos também. Queria abraçá-la e ficar o mais próximo dela o possível. Também sentia uma amargura, um fel que lhe impregnava toda a alma e que quanto mais observava a beleza da mulher, mais incendiava seu ego com desejos de morte. Dizia a si mesmo em seu íntimo: “não é comigo”, “nunca foi comigo”, “ela me esqueceu”, “nunca veio a mim”, “nunca me trouxe nada”, “nunca me compensou”. De súbito teve vontade de atacá-la, de tomar uma pedra e acertar sua cabeça. Mas lhe parecia muito obvio, que seria uma tolice sem tamanho, pois se ele já mais recebeu qualquer coisa dela, era porque já mais pode tomar para si.

- Rapaz, você é muito ansioso, isso sim. Sim, falo contigo, jovenzinho Diaco.

Surpreso e feliz com a declaração da vibrante moça... Podia sentir agora seu cheiro doce. Agora ela se levantava e ficava de frente para ele. Quando ela virou-se, ele podia ver-lhe completamente os traços de seu corpo. Os seios firmes, a barriga atraente, os quadris generosos, as coxas fortes, a virilha chamativa. Sorria vibrante, olhava tenramente. De súbito, todo aquele fel desfez-se e felicitou-se por não ter agredido a moça, que agora de pé, olhava-o da posição que um adulto olha uma criança, mas sem mudar a expressão. Agora mais incrédulo, sorria e via que todo aquele ardor negro, havia-se ido. Vibrava com o olhar dela. E, como que tomado de um desejo primordial pelo corpo da moça correu para abraçá-la. Enfiou o rosto no fino tecido sedoso que cobria-lhe a barriga e passava o rosto na barriga da moça... Ardente de estar próximo da virilha dela, ouvia os protestos amigáveis da mesma por entre seus risos.

- Não, rapazinho, pare... Eu não... Pare, sim...

Afastou-o com certa delicadeza, e olhou-o novamente.

- Veja... Quero lhe apresentar uma amiguinha. — foi quando ela deu espaço para o corpo dele e pôde ver, sentada sobre os próprios calcanhares, uma outra figura feminina.

- Levante-se princesa. Olhe para ele... — Como se fosse feita de mármore, a segunda moça tinha uma pele com cor de vinho raiado por traços brancos. Os olhos da moça eram completamente lisos, não piscavam, da mesma cor de sua pele, penetrados pelas mesmas raízes brancas. De curvas tão acentuadas quanto a da primeira, vestia como adorno uma corrente fina, dourada, que sendo mais estreita que a cintura da moça, repousava sobre seus quadris nus. Suas costas tinham uma lisura jovial por onde escorria seu cabelo levemente ondulado, que como a noite, era parte escuro e parte brilhante. Seus movimentos, ao contrário da primeira, apresentavam-se rápidos e decididos. Quando pôs-se de pé, com uma altura equivalente a de Diaco, mostrou um par de coxas com traços mais delicados do que a da ruiva, mais tenras e convidativas apesar do aspecto pétreo. Assim que ficou de pé e ainda de costas por um momento, como se houvesse esquecido o convite da ruiva para apresentar-se a Diaco, este pode ver a beleza daquele monumento feminino. Talvez não fosse tão graciosa quanto outras ou quanto a ruiva, mas certamente era um monumento feminino único, impar e sem igual. Fez qualquer coisa com os braços e virou-se nua para o rapaz. O olhar dela parecia tão incrédulo quanto o dele. E seus lábios denunciavam que era tomada de dúvidas. A presença da ruiva já era imperceptível, como se não estivesse mais ali. Mas sua voz ecoou agora em tom de uma confissão sincera:

- Não a solte... E pelo tempo que abraçá-la sua existência vale... Preparei-a para ti. Demorei porque minhas flores demandam tempo, e os homens demandam muito do tempo. Mas nem sempre ajudam-me a preparar das flores...

Tomado pela certeza da declaração, ele olhou a moça de mármore nos olhos. Podia sentir o cheiro de canela que exalava. Seu olhar, chegava a percepção do rapaz como marteladas que de um questionamento: “até quando vai hesitar?”. Levantaram os antebraços para darem-se um ao outro. Aproximaram os dedos e... Um relâmpago caiu por entre os cabelos dela, possuiu-lhe o corpo que acendeu-se em uma chama azulada e arrebentou os dedos do rapaz com energia acompanhado do rufar de um trovão.

Quando abriu os olhos, estava elétrico. Respirava fundo... Olhava para os lados e para o nada. Tentava lembrar. Mas agora restavam apenas fósseis de um sonho agradável em sua memória e o rufar do trovão, que lá fora, castigava os transeuntes junto com a chuva. Pelo que podia descrever, ele diria que uma grinalda de margaridas, com a voz do amor, lhe apresentou uma morena de outro mundo. Levantou-se... Olhou pela janela do pequeno cortiço. Já havia anoitecido. Resolveu voltar a dormir, e na melhor das hipóteses voltaria ao sonho tão desejado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.