O Magnifico Mundo De Thales.

1 Oi, sou um tanto estranho.


Acordo por volta das onze. Eu sei que devia acordar mais cedo, mas nessa semana isso está quase impossível. Escola nova, estres novo. Eu não odeio totalmente a escola, eu odeio as pessoas que estudam nela. E o resto das pessoas que eu conheço e a metade das que eu não conheço. Meus pais dizem que isso é uma fase, que vai passar rápido, mas eu continuo não gostando.

O dia está quente e ensolarado. Ótimo.

PRIMEIRO FATO SOBRE MIM: Sou irônico. Uso a ironia para atacar, me defender, me divertir. Amo ironia.

O instituto não tem exatamente um uniforme, então visto uma camisa branca, jeans velho. Me olho no espelho do banheiro e vejo o mesmo Thales sem graça de sempre. Olhos fundos e castanhos, pele pálida, lábios pequenos, cabelos bagunçados e castanhos. Sou baixo, me vejo como um garoto gordo, mesmo estando alguns quilos abaixo do meu peso ideal.

Meus pais não estão em casa, então eu saio sem comer. Eu sempre faço isso. Ainda é cedo demais, para ir para a escola, a aula só começa as 13:30, mas eu não quero ficar em casa. Então saio, tenho que passar em algum lugar antes de chegar ao terminal central. Não vou ficar esperando meu ônibus durante uma hora e meia.

Entro no ônibus, ele sai em direção ao centro da cidade. Onde eu devo ir? Sorveteria? Ainda é muito cedo para sorvete. Restaurante? Não, de jeito nenhum, não quero ver comida. Livraria? Oh sim, amo livros, cheiro de livros, ver meus livros na estante, olhar a capa. Eu amo muito livros.

Como você já pode ter percebido eu sou um pouco estranho.

Desço no ponto mais próximo à livraria. Fica um pouco longe. Mas eu não me importo em andar um pouco. Nirvana tocando no fone de ouvido e tudo bem podem andar quilômetros sem me importar. Uma garotinha loira sorriu para mim. Devia ter sete, talvez oito anos, pois os dentes permanentes ainda estavam crescendo.

Sorri novamente, por respeito. Não gosto de crianças, elas me assustam. Passam horas correndo como se não houvesse amanhã.

Entrei na livraria com pressa, antes que a garotinha sorrisse mais uma vez. O lugar é fantástico, livros infantis em um lugar, autoajuda em outro e assim vai, até varias divisões, tornando fácil achar qualquer livro.

Não tinha intenção de comprar um livro, pois o único dinheiro que eu tinha era pra comer. Mas um deles me chamou muita atenção. A capa verde e mostrava um garoto de costas, ele segurava um chifre e um raio. Falava sobre mitologia. Amo mitologia.

Paguei o livro, ainda estava cedo, resolvi ir andando até o terminal central. O sol quente queimava minha pele, isso era de fato bom, pois tirava um pouco do ar doentio do meu rosto. Vejo pessoas de todos os tipos. Loiros, morenos, ruivos, brancos, negros, magros, gordos, orientais, e assim vai.

Um homem me entregou um panfleto. Propaganda de um restaurante. Meus dedos compridos e magros amaçaram o papel. A comida estava em toda parte, não tinha como fugir dela.

Cheguei ao terminal, pessoas entravam e saiam o tempo todo. Eu gostava disso, observar pessoas, achar erros nela, achar defeitos mínimos que talvez nem elas tivessem visto.

Um homem velho brigava com alguém no telefone, uma mulher baixa e gorda comia chocolate e brigava com uma garotinha que devia ser sua filha, ou neta.

Tom, um garoto da minha sala também estava no terminal. Ele era magro, alto, sempre usava a mesma jaqueta preta e os mesmos Jeans. Seu cabelo era preto e curto, olhos escuros, não pretos mais escuros. Em duas semanas de aula eu nunca falei com ele, ou melhor, nunca falei com ninguém que não veio falar comigo.

Tom sorriu, não sorri.

Ser simpático com uma garotinha de sete anos é uma coisa, com um garoto de quinze tudo muda. Entrei no ônibus sem olhar pra ele novamente. Sentei no fundo, na janela. O vento bagunçou o meu cabelo. Cada vez a musica estava mais alta, ecoando nos meus ouvidos.

Abri o pequeno livro que eu comprei. Li as primeiras paginas, mas comecei a ficar enjoado, seria engraçado vomitar sem ter nada no estomago. Seria mesmo.

Cheguei à escola. Vi as mesmas pessoas. Primeira aula. Filosofia. Legal, eu estava mesmo com sono. Fui até o refeitório, peguei um suco. Não queria desmaiar de fome. Outra vez. Isso já aconteceu alguns anos atrás quando eu estava indo para a escola. Fiquei no hospital por algum tempo. Meus pais brigaram muito comigo. Foi uma semana horrível.

- Thales? – Minha amiga Amy estava sentada em uma das mesas com algumas outras garotas. Eu conhecia Amy antes de entrar no instituto.

Ela era alta, magra e morena, um pouco oriental.

- Olá, Amy – sorri – Tenho que ir.

Ela acenou e eu sai do refeitório. O tempo estava se fechando, provavelmente choveria no fim da tarde. Por falar em tempo eu estava atrasado. Terminei meu suco e entrei na sala de aula. A professora ainda fazia a chamada. Era uma mulherzinha sem nada em especial, Gigi. Isso mesmo o nome dela era Gigi, isso não é um apelido? Não.

Escolhi um lugar bem no fundo da sala. Fundo o suficiente para dormir sem ser visto. Tom e seus amigos entraram na sala rindo e berrando. Duas garotas e dois garotos. Uma das garotas era muito bonita, a outra era realmente inteligente. Um dos garotos parecia estar chapado a maior parte do tempo, o outro tinha cara de idiota.

Não havia nenhum lugar na sala onde eles pudessem se sentar e todos ficarem juntos, exceto perto de mim.

Todos eles riam muito, ninguém, ninguém mesmo prestava atenção na aula. Quem não estava dormindo estava brincando, jogando papelzinho ou mexendo no celular. Mais uma aula de filosofia normal.

- Então, pra que tantos olhos no seu penal? – Uma das garotas perguntou, a que era muito inteligente, acho que seu nome era Megan.

- Gosto de observar as pessoas.

Ela sorriu. Sorri novamente, mas não foi por respeito, não sei qual foi o motivo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.