Em quinze de outubro de dois mil e dezesseis, John tem o pior dia de sua vida. Sua mãe Clara morre de câncer. Ele que também havia perdido seu pai com apenas sete anos, e tinha Clara como única parente próxima, tem sua vida destruída como um copo de vidro ao cair de um lugar alto. Nos dias que se seguiram, John foi para a casa de seus tios, aonde ficou apenas em seu quarto, não chorando como nos primeiros dias mas apenas em silencio, encostado nas paredes, pensando em como poderia reencontrar sua mãe. Ele então encontrou a resposta. John se levanta e caminha até a cozinha.

A cozinha de sua nova casa era maior do que a da anterior mas não era muito grande, ela tinha um armário que possuía três gavetas, o terceiro guardava as tampas das panelas que naquele momento estavam na pia, a segunda os pratos, e a primeira os talheres que era o que John procurava. Ele abre a gaveta e pega a faca que sua tia usava para cortar a carne. A lamina era grande e estava extremamente afiada ao ponto em que John conseguiu cortar o dedo com apenas um toque.

Ele sorri e fala:

— Logo a encontrarei de novo... mãe.

John então enfia a faca em seu próprio pescoço e o rasga com tanta facilidade quanto uma tesoura corta papel, sangue começa a jorrar por toda cozinha e ele cai no chão sem vida. Pouco tempo depois seus tios chegam e veem com horror o chão manchado de sangue e o corpo de John junto a faca com seu pescoço cortado na horizontal.

2

Diferente do que prega algumas religiões, ele não foi para o céu – ou para o inferno no caso dos suicidas. Alguns iriam falar que ele estava no purgatório esperando ser jugado mas não parecia ser isso. John se encontrava em uma sala que tinha apenas uma cadeira e uma mesa quadrada que era feita de madeira, atrás dessa mesa havia outra cadeira, as paredes eram brancas, o lugar não tinha janelas mas graças a uma lâmpada que havia no centro a visibilidade não se tornava um problema.

— Então... como é se sentir morto? – falou um homem que se sentava atrás da mesa– É legal?

O estranho usava um terno preto com gravata borboleta, ele usava sapatos também pretos, e seus cabelos... bem também eram pretos. Apenas sua gravata e seus olhos– que eram castanhos– não eram pretos. Para uma pessoa normal o homem teria parecido um empresário, mas para John que tinha apenas onze anos, ele parecia um magico.

— O... On... Onde estou? – perguntou o garoto que estava um pouco assustado.

— Boa pergunta! Vamos dizer que você está em lugar nenhum. Pelo menos gosto de chamar assim.

— Lugar nenhum?

—É, lugar nenhum. Não gostou do nome?

—Por que esse nome?

O homem levantou os ombros fazendo um sinal de “Não sei, gosto apenas de chamar assim”. Então sorrindo ele falou:

— Deixe-me adivinhar o que aconteceu com você. Perdeu a mãe, entrou em depressão e cometeu suicídio achando que iria a encontrar de novo. Acertei?

John não conseguiu responder, e o homem notou que ele lutava para não deixar as lagrimas caírem.

— Bem vamos direto ao assunto. Primeiro de tudo, não existe paraíso e nem inferno, é tudo besteira. Você tem apenas duas opções reiniciar sua vida ou ter uma nova.

— Como assim?

— Se você escolher reiniciar sua vida, você voltara para o dia de seu nascimento e irá passar por tudo, até a morte de sua mãe de novo. Se você escolher uma nova vida, bem... você apenas terá uma nova vida. Não tem muito o que explicar, é incrível pensar o quanto vocês complicam isso. Aliás se você escolher a primeira opção nós nunca mais teremos essa conversa, você entrara em loop. Toda vez que morrer, você voltara para o início, e ficara assim para sempre. Você nunca mais vai ter o poder de mudar sua escolha.

O garoto sente um calafrio, uma pessoa da idade dele sendo forçado a fazer tal escolha, o homem achou incrível ele não ter começado a chorar como um bebe ao sair do útero da mãe. O motivo era simples, John já tinha feito sua escolha antes de cometer suicídio.

— Então, qual você escolhe? – Perguntou o homem.

— Eu acho que você já sabe. – Responde o garoto.

— É apenas para ser educado. Mas tem certeza que quer ver sua mãe passar por tudo que ela passou de novo e de novo e de novo?

—Sim. Eu quero me encontrar com ela, mesmo não podendo mudar nada, eu quero minha mãe de volta.

— Muito bonito mas um pouco egoísta. Não acha?

— Eu sei, mas o que eu posso fazer? Eu sou apenas uma criança.

— Tecnicamente uma criança morta. – Fala o homem, se segurando para não soltar uma gargalhada. Ele tinha um senso de humor um pouco estranho.

—Há! Há! Muito engraçado. Por acaso você não tem sentimentos?

— É claro que tenho. Mas sua história é mais engraçada do que trágica.

— O que eu tenho que fazer agora? – pergunta John.

De repente, como magica, um papel aparece na mão direita do homem e em sua mão esquerda aparece uma caneta de tinta vermelha.

— Gostou do truque? É meu preferido. – Falou o homem, enquanto entregava o papel e a caneta para John. – Apenas uma curiosidade sobre a caneta, a tinta na verdade é seu sangue, então pode pensar nisso como vender sua alma ao demônio.

O garoto, não ligando muito para o que o homem falava, assina o contrato e então pergunta:

— Apenas isso? Não aconteceu nada.

— É, demora um pouco para acontecer. Eu sei que você que fazer uma pergunta. Vai pode fazer, você vai perder suas memoria mesmo.

— Quem é você?

O homem, parecendo estar decepcionado com a pergunta responde:

— Alguns dizem que sou Deus, alguns, demônio. Mas gosto de pensar que sou apenas um cara fazendo meu trabalho, eu sei que você não entendeu o que eu acabei de falar então pode apenas me chamar de... Magico. Satisfeito?

Quando John ia responder o “Magico” o contrato começa a fazer efeito, e sua visão fica como a de um homem ao ver uma luz no final de um longo túnel, no início ela começa pequena mas pouco a pouca aumenta à medida que se aproxima da saída. Então sua nova ou velha vida começa. Agora ele é apenas um bebê nas mãos de um médico.

Fim

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