O MUNDO AO CONTRÁRIO
1 O Meu Mundo
O primeiro passo é querer, o segundo é vencer.
Nunca parei para pensar, mas quando damos um passo, estamos na verdade a dar dois: o primeiro passo tem sempre uma consequência: pode ser a que esperamos ou não, mas neste mundo nada acontece sem um motivo ou apenas para acontecer e ficar estagnado no tempo, sem ter mais um segundo que seja de existência.
Escrevo demasiado e acho que sou um pouco estranho a partir do momento em que tenho os meus pensamentos retratados desde o dia em que aprendi a ler. Tornou-se um hábito para mim escrever num caderno antes de dormir, para deitar fora da minha alma todas as más recordações e refinar no papel todas as boas emoções que senti ao longo do dia. Se bem que, aquilo que é apenas um hábito, já me ocupou uma quantidade de cadernos que não consigo contar pelos dedos das mãos. Aos dezassete anos, já encontro algo impossível de fazer na minha vida: perceber quantos cadernos já preenchi de memórias.
Esta tem sido uma das maiores tradições da minha vida, onde normalmente retrato os meus dias, mas ultimamente, algo tem incomodado essa minha corrente literária. Chama-se Anne e tem dezoito anos. Atitude é coisa que não lhe falta. Somos colegas, mas pouco falamos. Temos feitios muito diferentes: eu gosto de estar no meu canto e pensar nas coisas, analiza-las e depois tomar as minhas decisões, já a Anne, gosta de ser o centro do mundo, de exibir o seu pensamento com o maior grito que a sua alma possa dar, tem uma força de liderança enorme mas, uma impulsividade que não é de todo uma qualidade forte para quem tem as características de uma verdadeira líder.
No meio da minha timidez, tenho escrito palavras soltas sobre os lindos olhos verdes da Anne. Tomam conta dos meus pensamentos todas as recordações de simples olhares que tenha feito, ligeiramente, por uma aula fora, enquanto na verdade devia estar atento a todas as matérias que vão sair nos exames deste ano – mas é simplesmente irresistível a qualquer mortal não cair na tentação de apreciar tanta beleza num só corpo. A vontade de a conhecer melhor tem sido uma constante na minha vida e o bloqueio psicológico que a presença da Anne me tem feito sentir é uma excitação enorme, para alguém que nunca antes amou e que não acredita que, sinceramente, possa amar.
Ainda assim, a coragem não me faltou e convidei a Anne para beber algo comigo na noite de sexta-feira. Aliás, na noite do dia de hoje. Nunca me tinha sentido tão entusiasmado por ter a simples oportunidade de estar com uma rapariga numa sexta-feira à noite. A questão principal neste momento é que talvez esta não seja uma rapariga normal, como todas as outras que procuram apenas um rapaz para obter prazer, mas atenção, não as censuro.
A minha relação com as mulheres nunca foi um mar de rosas, pelo contrário. Tenho a certeza que se me apresentar melhor, quem quer que leia os meus pensamentos compreenderá o porquê de todo este drama em volta da presença feminina na minha vida. Numa típica apresentação, talvez seja melhor começar por dizer que o meu nome é Luka Baztrict, tenho dezassete anos, sou alemão e vivo em Portugal, na cidade de Setúbal, com a minha família, há cerca de catorze anos. Diria até que sou mais português do que alemão, mas a nacionalidade que para mim e para a minha família permanece como a mais pura de todas, é a primeira.
Não é difícil para um rapaz como eu, que fisicamente, não querendo ser convencido, é bem constituído (alto, forte, cabelo loiro e olhos verdes), estar com qualquer rapariga que seja no minímo curiosa sobre as questões mais instintivas do sexo e do amor, ou qualquer outra coisa que julguem existir dentro de um simples jogo de sedução, da forma como quiser e bem entender, mediante o desejo e a excitação do momento. Há uns que gostam de deixar as coisas acontecer, que se entregam loucamente e fazem de uma noite de sexo uma vida, eu prefiro apenas jogar com todas as cartas do baralho e, de preferência, com as cartas em cima da mêsa, sem jogo sujo.
De todas as minhas experiências em que sexo foi algo que acabou por acontecer, posso dizer que continuo o mesmo rapaz e que nenhuma rapariga me fez sentir nada mais do que o prazer de foder. Sim, foder. Foder de forma suave, de forma carinhosa. Tocar-lhe e beija-la enquanto ela se despia para mim, enquanto abria o coração e me entregava um pedaço da sua alma. Foder de forma bruta, magoar. Magoar de propósito para sentir um prazer louco e intenso, apenas para meu próprio proveito. Já o fiz vezes suficientes para dizer que pude experimentar todas as maneiras e, de todas as maneiras que o fiz, continuo a sentir-me exatamente o mesmo: aquele que no momento se liberta, mas que quando se vai embora deixa a porta do coração aberta.
Isto tudo para dizer que sexo e amor são coisas completamente diferentes. Sempre fiz sexo com raparigas e, em certos momentos onde decidi quebrar os limites que a minha zona de conforto emocional estabelecia, até com rapazes me enrolei. Porém, nunca fiz amor. Por esta altura acreditaria que sou uma pessoa horrível apenas por usar outras pessoas para o meu próprio prazer mas, sejamos honestos: o sexo é uma coisa à parte do amor. Pode haver sexo sem amor, mas nunca há amor sem sexo. Isto é uma das principais regras da vida que, mais cedo ou mais tarde, por mais contestada que possa ser, revela-se a maior verdade. Por isso, se me perguntarem se acredito no amor, digo que sim. Acredito no amor por completo: sei que ele existe, mas não o encontrei ainda.
Se neste momneto da minha vida me sinto completo como ser humano, satisfeito como homem, porque é que não consigo esquecer a Anne e retira-la dos meus pensamentos? A resposta é simples. Nunca conheci ninguém com tanto atrevimento para ficar a permanecer na minha mente durante tanto tempo, tocando-me em todos os pontos fracos, sem sequer me ter dirigido uma palavra. A verdade é que com a Anne, um olhar é tão forte que consegue derreter-me o suficiente para estar a rastejar aos pés dela e, claramente, a desejá-la mais que uma só noite, para sempre? Não sei. Quero tanto estar com ela e envolver-me num jogo de sedução, de picardias, de provocações, de desafios, num jogo de possibilidades infinitas, tudo para encontrar o verdadeiro amor.
Talvez seja hoje o dia de encontrar essa resposta. Dizem que os dias começam mal o primeiro raio de sol rompe pela nossa janela e nos ilumina a face, mas hoje não consigo acreditar que o meu dia comece de verdade nesse momento. Para mim, o meu dia só vai começar quando encontrar a Anne. Quando a olhar nos olhos, quando disser aquelas palavras que vão desencadear tantas outras. Quero tanto estar com ela que a ansiedade preenche o meu corpo de uma forma que nunca antes senti. De certo modo, parece que algo desconhecido está a nascer dentro de mim: algo diferente mas positivo, que tem o poder de me mudar como ser humano, ou pelo menos, de me fazer sentir diferente, mesmo que, por ligeiros segundos.
Hoje, dada a acompanhante especial, visto uma camisa branca, calças pretas, botas altas azuis escuras e um casaco de fazenda bem quente. Tento estar o mais formal possível para a Anne mas o frio de Setúbal à noite e, na zona dos bares, que é encostada ao rio Sado, não é propriamente o meu maior aliado nesta situação. No entanto, neste momento, a curiosidade é demasiada: pergunto-me auql será o tipo de vestido que a Anne irá levar vestido. Pergunto-me quais serão as roupas que trará vestidas. Quais serão as peçasde roupa que terão a honra de cobrir tão belo corpo? Serão as memas que vou despir quando conseguir encontrar naquele corpo todas a correspondência ao meu desejo de amor?
Tudo depende de mim.
Fale com o autor