Os meus olhos se enchiam de lágrimas, elas não paravam de jorrar. Gritos estridentes estavam presos em minha garganta e o horror de ver tudo aquilo fazia parte do meu ser.

A culpa seria minha? Não podia pensar assim. De certa forma ela mesma procurou esse fim. Não foi minha intenção, eu apenas queria assustá-la, mas o fim foi trágico. E se alguém perceber o que eu fiz? E se alguém quiser me julgar por isso? Eles não sabem o real motivo do meu ato, tenho que tomar alguma providência, se não o meu fim será tão ruim quanto o dela.

Antigamente seus toques eram tão intensos, me sentia o todo poderoso. Quando me dizia doces palavras, as nuvens pareciam tão baixas quanto um pé rasteiro de rosas vermelhas, mas não conseguia enxergar mais isso em seu ser, de alguma maneira não era mais a mulher que eu havia me apaixonado.

Aquele sangue escarlate espalhado por toda sala de estar e aqueles fritos finais que ecoavam pela velha casa. Por sorte estávamos sozinhos em casa e eu poderia me livrar de toda e qualquer prova.

Ninguém desconfiaria de mim. Afinal, um doutor como eu, de nome sobre todos e fama que atravessava os continentes. Com toda a certeza ela habitaria nas páginas de desaparecidos do jornal da cidade e nada, nenhuma culpa cairia sobre mim. Sempre fora assim, desde quando brincava com meus amigos pelas vielas da cidade, quando acontecia algo de errado, meu poder de persuasão entrava em ação.

Mas como? Como esconderia aquele corpo? Se eu saísse com uma sacola em mãos todos iriam perceber. Não é uma tarefa fácil sabiam? Aquilo parecia tão difícil quanto minha primeira operação.

Minhas pernas tremiam. Podia sentir que a qualquer momento elas iriam abandonar meu frágil corpo e sair galopando de tão assustado que eu estava.

De certo modo a loucura já tomara conta de mim. Acho que desde o momento que eu a esfaqueei. Um esquartejamento não era algo tão difícil assim para um cirurgião. Realmente mais difícil era o ocultamento do corpo.

Instantaneamente surgia uma idéia em minha mente. Talvez incinerá-la. O porão escondia segredos e um desses muitos segredos era um grande incinerador. Afinal de contas, para onde mais iria os testos de órgãos e membros dos meus pacientes? Não poderia colocar em uma lixeira qualquer a mercê de cães e gatos. Que tipo de médico seria eu se deixasse isso acontecer?

O mais rápido que pude, arrastei aquele belo corpo escada abaixo e rezava para que nada fosse descoberto. A cada passo soltava uma risada. Eram risadas nervosas, mais do que qualquer outro sentimento. Sentia que aquilo era o certo a se fazer e minha mente maluca concordava com qualquer pensamento passageiro que habitava em mim.

Ratos que moravam naquele lugar faziam sua reunião pessoal, como um culto fúnebre prestado para parentes mortos. Talvez escolhera um mal dia para esquartejar o amor de minha vida.

Ainda sentia seu cheiro encobrindo partes da casa e escutava sua voz alternadamente. A esquizofrenia me afetava novamente [...]

[...] me condenei por uma fração de segundos, mas nada tão longo que eu pudesse me entregar às autoridades.

“Ande logo seu cara molenga. Quer ser pego arrastando um corpo?” minha mente insana rosnava e estava me pressionando a fazer o mal, não iria me entregar mesmo e isso estava decidido, mas mesmo assim toda a situação me deixava muito nervoso.

O ultimo degrau chegou e o alívio me ocupou como se aquilo pesasse toneladas e mais toneladas. Eram apenas mais algumas partes que eu iria queimar. Duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça. Coisa comum para mim, só que dessa vez as partes eram de uma pessoa que outrora estava viva e eu mesmo havia tirado a vida dela com minhas próprias mãos. Eu que havia arrancado o ultimo suspiro de alguém, nunca me imaginei assim, mas não sentia nenhuma culpa sobre meus atos, nenhuma culpa mesmo.

“jogue-a no incinerador seu imbecil. Ou quer ser pego?” Novamente minha mente fazia joguinhos comigo. Possivelmente ela estaria mais perdida que um forasteiro em Londres.

Não pensei duas vezes, a joguei no incinerador, lágrimas saíam pelos meus olhos e toda culpa ia embora juntamente com elas.

O mais rápido que pude, subi as escadas. Sentia-me super indefeso. Talvez amasse de mais a antiga pessoa que ela era para deixá-la escapar assim do nada. Talvez a sua troca de personalidade não me fizera tão bem, mas era isso que me deixava preocupado. O que não me deixava tão bem só poderia me derrubar aos poucos.

Remédios de tarja preta? Não surtiriam efeito algum sobre essa loucura, mas era a única coisa que eu tinha em mãos. Tomá-los foi uma decisão difícil, mas não tão errada quanto tirar a vida de alguém.

“ Limpar, limpar

É o que eu tenho que

Fazer, fazer,

Sem medo eu tenho que

Cuidar, cuidar

De tudo que sujou com a escarlate.

Com o seu sangue de uma linda mulher...

Ouvir, ouvir,

A sua doce voz me perturbar,

Sentir...

Que tudo estava feito enfim...

Com o seu sangue em minhas mãos!”

Esses versos ressoavam em minha mente e eu mais que depressa comecei a fazer o que eles diziam.

Ah, como essa melodia era reconfortante, todos deveriam ouvir no nirvana de suas vidas. Tudo mudaria, saberiam como a culpa poderia se dissipar em tempo e espaço. Tudo que eu queria era me inocentar, mesmo que para isso nunca mais pudesse viver em paz.

Todo sangue já estava limpo e todos os móveis estavam no lugar. Minha governanta havia acabado de chegar em casa quando me assentei em minha grande e confortável poltrona. Talvez sorte, talvez destino. Não haviam provas naquele local e isso é o que importava.

A governanta me ofereceu um chá e eu recusei. Abri o jornal e a matéria principal era: “ Médico cirurgião reconhecido internacionalmente é preso por esquartejar esposa.” Quando dei por mim estava com um uniforme xadrez, segurando um jornal local e assentado em cima de uma cama dura, trancafiado por grades. Tudo aquilo era real. Minha esquizofrenia não me largou por nada. O que realmente nos separou foi meu suicídio[...]

[...] A morte do meu ser.

Notas finais
Deixem-me review.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.