O Líder Da Máfia
5 De um mundo alternativo à uma realidade insignificante
Notas iniciais
Acordei me espreguiçando vagarosamente quando sentei na cama. Por trás da cortina, podia-se ver a claridade do dia e o tic-tac do relógio me deixava mais sonolenta do que já estava. É um completo estorvo ficar resfriada; estou cansada sendo que acabei de acordar. E sim, eu ainda estou resfriada devido ao clima.
Levantei subitamente quando percebi que já passava das sete e fui retirando o pijama ficando apenas de lingerie, e corri em direção ao banheiro. Era o primeiro dia do segundo ano na faculdade e eu tinha que acordar meia hora atrasada. Inferno de despertador que não consegue fazer sua única função.
Quando abri a porta do banheiro, dei de cara com Alecssander com o corpo molhado e apenas uma toalha enrolada na cintura. Ele ficou me encarando com as sobrancelhas arqueadas e eu senti todo o sangue do meu corpo indo para minhas bochechas.
— Bom dia — ele disse fazendo um pequeno nó na toalha em sua cintura.
— O que você está fazendo aqui ?! — perguntei quase me atrapalhando com as palavras.
— Eu moro aqui. — ele disse como se fosse óbvio.
— Temporariamente. — corrigi e ele assentiu. Percebi que o nó da sua toalha estava se desfazendo e quando vi que iria cair, me virei de costas imediatamente.
— S-Se importa ?! Estou atrasada. — gaguejei, parecendo uma ridícula.
Ele soltou uma risada baixa.
— Certo... — disse e eu vi o vulto do seu corpo passar ao meu lado, felizmente com a toalha na cintura. Suspirei aliviada e quando estava prestes a fechar a porta do banheiro Alecssander chamou meu nome. — Darella...?
— O que foi ? — perguntei seca.
— Vendo por este ângulo, até que você não é tão tábua assim. Branco combina com você. — ele disse com um sorriso malicioso e só então eu me lembrei que usava apenas minha lingerie branca de renda. Arregalei os olhos e fechei a porta do banheiro com força, fazendo um barulho super alto ecoar pelo apartamento.
Tranquei a porta e tomei um banho rápido, o qual não foi suficiente para me fazer relaxar, não que isso seja fácil. Enrolei a toalha em volta do corpo e abri uma fresta da porta, me certificando de que o idiota não estava por perto, e corri em direção ao meu quarto. Coloquei uma calça preta, botas de couro, uma blusa de lã cinza e um casaco preto por cima.
O inverno havia chegado à New York e essa já era a época do ano em que as ruas ficavam brancas de neve e as pessoas evitavam sair de casa por conta das temperaturas abaixo de zero. As férias haviam passado num piscar de olhos e felizmente, eu consegui adiantar os conteúdos de física.
Nesses dois meses que se passaram, minha convivência com o babaca não foi tão ruim como eu imaginava; ele raramente ficava no apartamento pois tem muitos assuntos da máfia para resolver, e por causa disso eu consigo estudar sem mais incômodos. Mas as vezes nos esquecemos de que não estamos mais morando sozinhos e devido a isso, várias vezes já esquecemos de trancar a porta do banheiro e tendo esses encontros inconvenientes.
Peguei minha bolsa e meus livros e fui até a sala onde encontrei Alecssander ainda com a tolha na cintura com uma arma na mão e olhando fixamente para algo -ou alguém- do lado de fora do prédio. Bufei.
— Eu disse nada de armas dentro do meu apartamento. — falei e ele fingiu que não ouviu. Revirei os olhos e fui em sua direção, repetindo o que eu havia dito, e então ele pegou a arma e mirou para fora da janela. — Alecssander !
— Fique quieta. — ele disse antes de atirar. Me inclinei para frente e pude ver um homem caído no chão bem no meio da rua.
— Eu não acredito ! Você matou um homem à luz do dia ?! Se os federais vierem bater na porta do apartamento quem vai atender é você !
— Era um mafioso que estava me procurando. Relaxa, ninguém viu que o tiro veio do seu apartamento. — ele disse colocando a arma na cintura fazendo a toalha abaixar um pouco. Desviei o olhar.
— Poderia ter a decência de se vestir ? — fui até a porta do apartamento e a abri, sem antes voltar meu olhar para Alecssander. — Quando eu voltar, espero que essa arma e qualquer outra que você tenha não esteja mais aqui. E se quiser ir embora também, eu não me incomodaria.
Não esperei ele responder e saí correndo. O elevador estava demorando então resolvi descer as escadas, chegando ao térreo suando e cansada. Corri pelas ruas nevadas da Big Apple e acabei escorregando na calçada congelada e caindo de bunda num monte de neve.
— INFERNO ! — esbravejei tendo uma leve sensação de de já vu.
Felizmente, não havia movimento no Starbucks Coffe e eu fui atendida rapidamente. Fiz meu pedido e a atendente simpática não demorou para me entregar o café.
— São dez dólares. — ela disse esticando a mão. Abri minha carteira e percebi que só tinha oito dólares mas mesmo assim entreguei o dinheiro a ela. — Está faltando dois dólares.
— Eu não tenho... — murmurei e ela fechou a cara.
— Desculpe, não vendemos fiado. — ela disse de forma grosseira e deu as costas para mim. Gritei um xingamento envolvendo atendentes simpáticas e me retirei do local.
Ótimo, estava atrasada e sem café, o dia não poderia ficar pior. Fiz sinal para um táxi na beira da rua e ele me ignorou completamente, assim como os outros três que passaram logo depois. Acabei desistindo e voltando a correr; o metrô só chegaria daqui meia hora e eu não gostaria de chegar mais atrasada do que já estava. Eram apenas mais dois quilômetros pela frente e exercícios fazem bem à saúde, e de qualquer forma eu já estava atrasada, com sorte chegaria a tempo da terceira aula. Enquanto corria, percebi um carro branco andando vagarosamente ao meu lado, o que me fez aumentar a velocidade.
— Quer uma carona ? — ouvi gritar e ao direcionar meu olhar para dentro do carro, vi um homem de touca, que reconheci ser Oliver, sentado no banco do motorista. O ignorei e continuei minha corrida, com ele parando ao meu lado mais uma vez. — Vamos, entre logo no carro. A faculdade é longe e já estamos bem atrasados.
Respirei fundo e pensei que não seria má ideia aceitar uma carona já que ele fazia tanta questão. Ao me sentar no banco de passageiro, comecei a puxar o ar com dificuldade devido à minha falta de atividades físicas. Eu não tinha tempo para coisas tão banais como me exercitar.
Oliver ficou em silêncio durante todo o trajeto e quando chegamos, desci do carro rapidamente antes de correr em direção à sala de física.
— Não está se esquecendo de nada ? — Oliver gritou e eu fui obrigada a parar no meio do caminho.
— Hum... Não. — respondi.
— Está se esquecendo de me agradecer. — ele disse cruzando os braços. Eu o ignorei e segui para a sala avançada de física.
— Senhorita Melbourne — o professor disse quando entrei na sala — Você tem um bom histórico com suas notas, mas não posso dizer o mesmo da sua pontualidade. Sente-se.
Murmurei um xingamento quando o velho babaca virou-se de costas para mim e fui me sentar nas últimas cadeiras da sala. Cerca de quinze minutos se passaram quando o diretor da faculdade me chamou pedindo para que eu o acompanhasse.
— Algum problema ? — perguntei quando começamos a andar pelo corredor das salas de física.
— Hum, na verdade sim. Peço desculpa mas você está sendo transferida para uma sala comum de física. — ele disse naturalmente colocando os braços atrás do corpo enquanto andava.
— Sala comum ? Mas na minha bolsa de estudos inclui as salas avançadas. — protestei.
— Nós sabemos, mas houve um problema e foi necessária a sua transferência.
— Algum problema com minhas notas ?
— Não, claro que não, mas-
— Então não tem motivo para me transferir. — parei de andar e ele ficou de frente para mim.
— Senhorita Melbourne, minhas sinceras desculpas mas não complique mais as coisas e venha comigo.
— Eu sou a melhor aluna que vocês tem nessa merda de faculdade. É uma honra me ter como estudante aqui e agora você quer me transferir sem me dizer o motivo ? — fiz a voz e a expressão mais sombria que pude e como quem recua de um predador, o diretor deu dois passos para trás.
— S-Sinto muito. Prometo que resolveremos esse problema o mais rápido possível e-
— Eu acho bom mesmo. — o interrompi.
Ele me conduziu em silêncio até uma porta como todas as outras na faculdade, deu duas batidas e simplesmente me empurrou para dentro da sala, sem antes me entregar o papel da transferência. Diversos olhares curiosos -incluindo o da professora- me encaravam.
— Posso ajudar senhorita ? — ela perguntou.
— Eu fui transferida. — disse seca entregando o papel para ela. Ela passou os olhos pelo papel e arregalou os olhos.
— Sala avançada ?! Mas por que alguém da sala avançada foi transferida para cá ? — ela perguntou para mim e eu dei de ombros.
— Pergunta pro seu chefe. De qualquer forma ele também não quis me dizer o motivo. — falei e ela assentiu.
— Pois bem, pode se apresentar para a turma.
— Fala sério. — comecei — Não sei se você está sabendo, mas isso é uma faculdade e não o ensino fundamental.
— M-Mas a apresentação é apenas para que os outros te conheçam melhor... — a professora gaguejou. Dei uma risada sarcástica.
— Muitos aqui sabem mais sobre mim do que eu mesma, me apresentar seria uma completa perda de tempo. — revirei os olhos.
— E-Então pode se sentar senhorita Melbourne. — ela gaguejou novamente.
O único lugar vago na sala era o último da fileira da janela e durante meu percurso até lá, todos por quem eu passava abaixavam a cabeça, mesmo sem perceber. Era isso que eu queria; medo, respeito e principalmente paz.
Pude ouvir muitos cochichos como : "essa é a famosa Darella Melbourne ?" e "ela não parece tão inteligente como todos dizem" e eu apenas os ignorei. A professora começou a explicar o conteúdo e eu apenas cruzei os braços e joguei a cabeça para trás, bufando. Eu já sabia de tudo aquilo que ela falava e mesmo assim, era obrigada a ficar ali. Peguei um livro aleatório e comecei a ler.
Entre a troca de um professor e outro, uma garota loira que andava com a bunda empinada de uma maneira super irritante veio até minha mesa, junto de mais duas garotas.
— Oi, eu me chamo Amber e essas são Chloe e Sophie. — ela disse jogando o cabelo para o lado, fazendo um perfume extremamente doce e enjoativo exalar em minha direção.
— E daí ? — falei sem retirar os olhos do livro.
— E daí que nós somos as garotas mais bonitas daqui e você não vai retirar todas as atenções de nós só por que é uma geniazinha. — ela jogou o quadril para o lado e colocou a mão na cintura.
— Hum. — eu disse sem um pingo de interesse.
— E nós mandamos nessa sala, então não ouse nos incomodar. — ela continuou. Bufei e fechei o livro, vendo que elas não sairiam dali tão cedo. A essa altura, todos da sala prestavam atenção em nós.
— Se não quer que eu te incomode então não venha defecar com a boca perto de mim. — eu disse a encarando. As amigas dela arregalaram os olhos.
— O QUE FOI QUE DISSE ? — ela gritou.
— Não entendi sua pergunta, você quer saber o significado da palavra defecar ?
Quando ela estava prestes a responder, o professor entrou na sala mandando todos se sentarem. Amber e suas amigas foram se sentar e me olhavam com raiva durante o resto do dia. O professor disse que nos daria um teste para ver como estavam nossos conhecimentos e por enquanto essa foi a melhor notícia que recebi até agora, mas quando ele entregou os testes tive vontade de rir. Era física básica, coisa que eu já sabia muito antes de entrar no ensino médio. Respondi as questões rapidamente e me levantei para entregar.
— Não vou retirar dúvidas durante o teste senhorita. — o professor disse quando estiquei o teste em sua direção.
— Não quero tirar dúvidas, quero entregar o teste. — eu disse revirando os olhos.
— Talvez você devesse pelo menos tentar responder corretamente antes de entregar. — ele disse.
— E talvez você devesse ver o teste antes de dizer qualquer coisa. — joguei o teste em sua mesa e ele arregalou os olhos e levantou o olhar em minha direção quando leu meu nome. — Provavelmente acertei tudo.
Voltei a me sentar e logo as aulas se seguiram, com professores inúteis dizendo o que eu já sabia.
No intervalo, me sentei em baixo da mesma árvore de sempre e voltei a ler meu livro e claro, o irritante Oliver se sentou logo em seguida. Ele ficava tagarelando sem parar, como se esperasse que eu respondesse algo.
— Você ainda me deve um agradecimento. — ele disse de repente.
— Você se ofereceu para dar uma carona, não preciso te agradecer. — respondi ainda com os olhos no livro.
— E graças a mim, você não chegou duas horas atrasada. — ele retrucou e eu bufei.
— Obrigada. — eu disse seca.
— Viu ?! — ele disse me fazendo o encarar. — Não foi tão difícil agradecer. — ele sorriu e eu voltei a ler meu livro.
Depois disso, o dia se seguiu normalmente. Felizmente, Oliver se levantou dizendo que precisava resolver uns assuntos e Rose e Christine vieram falar comigo pouco antes do intervalo acabar e Rose ficou feliz quando eu disse que voltei a tomar os comprimidos corretamente. Na saída, percebi uma moto preta que parecia ser o novo modelo da Hayabusa e ao lado dela estava... Alecssander ?!
— O que você ta fazendo aqui ? — perguntei quando ficamos frente a frente. Os curiosos que passavam por perto nos encaravam.
— Vim te buscar, não é óbvio ?! — ele disse me jogando um capacete.
— Eu vou pegar o metrô. — eu disse começando a andar e ele segurou meu braço.
— O metrô vai demorar para chegar. Te poupei tempo.
— Não é como se eu estivesse com pressa. — eu disse cruzando os braços.
— Devia estar. Você vai ir à uma festa comigo hoje a noite. — ele disse sorrindo.
— Não. — eu disse imediatamente.
— Não foi um pedido. — ele respondeu.
— Eu posso chamar a polícia e dizer que você está morando comigo. — eu sorri vitoriosa.
— E você também seria presa como cúmplice. — meu sorriso desapareceu. — Ora, vamos... Eu te pago cafés por uma semana, o que acha ?
Uma mulher passou ao meu lado com um copo de café e o cheiro maravilhoso inundou minhas narinas e me fez ficar com água na boca. Lembrei do ocorrido de mais cedo no Starbucks e pensei que talvez não fosse uma má ideia ir nessa festa, seria chata e sem graça como todas as outras que -milagrosamente- eu fui.
— Um mês. — murmurei e Alecssander franziu o cenho por trás dos óculos escuros. — Vai me pagar café por um mês. — eu disse em tom mais alto e ele sorriu.
— Fechado. — subi em sua moto, colocando o capacete e coloquei as mãos em cima das minhas pernas. — É mais aconselhável você segurar em mim. Essa moto chega em velocidades que você nem conseguiria imaginar.
— Segundo a física, essa moto só chega a trezentos ou quatrocentos quilômetros por hora. — eu disse automaticamente e pude ouvir uma risada vinda de Alecssander.
— Só você para dizer uma coisa dessas. Mas ainda acho melhor você segurar em mim.
— Eu não vou segurar em você. — eu disse subitamente.
— A decisão é sua. — ele disse ligando a moto que fez um som estrondoso.
— Ah... Só gostaria de dizer que você ficou ridículo com essa peruca loira. — eu disse.
— Vou fingir que isso foi um elogio.
Ele acelerou a moto e quando fui jogada para trás, por pouco quase caindo, entrelacei os braços de imediato em volta de sua cintura e não pude deixar de reparar em seu perfume quando nossos corpos ficaram mais próximos.
Eu nunca havia andado de moto e posso dizer que a sensação é... Incrível. É como se nós pudéssemos voar rapidamente pelas ruas de Nova Iorque. O restante do meu cabelo que ficou fora do capacete balançava rapidamente, o que me fez pensar que certamente ficaria embaraçado com facilidade. Olhei para o lado e vi que as pessoas e tudo a nossa volta ficava para trás como um borrão. Sem perceber, apertei o corpo de Alecssander mais forte à medida que ele acelerava e de repente, já estávamos em frente ao meu prédio cinza sem graça.
O caminho até meu apartamento foi em silêncio e ao chegar lá, o idiota me entregou uma caixa grande dizendo que uma agente havia escolhido um vestido para eu ir na festa. Dei de ombros e fui em direção ao meu quarto para colocar o vestido e confesso que me assustei quando me vi no espelho. O vestido era prateado, como se fossem raspas de prata jogada no vestido, tomara que caia com uma grande fenda que ia de um pouco abaixo da cintura até o chão. Deixei o cabelo solto e coloquei acessórios e sapatos que não chamassem muita atenção, pois o vestido já fazia isso por si só.
— Ei, você já está pronta ? — ouvi Alecssander do outro lado da porta. — Já está na hora, precisamos ir.
Abri uma fresta da porta e coloquei só a cabeça para fora, dando de cara com o idiota que trajava um terno, que parecia custar horrores, se ajustar perfeitamente em seu corpo.
— Eu não vou com esse vestido. — eu disse.
— Por que ? Oras não deve ter ficado tão ruim, vamos, deixe-me ver. — ele disse empurrando a porta mas eu o impedi.
— Não ! — no fim das contas, Alecssander era mais forte do que eu e conseguiu entrar no quarto. Ele me olhou dos pés à cabeça com um olhar surpreso e não disse uma palavra sequer. — Fale alguma coisa. Já está vergonhoso o suficiente vestir isso.
— Você está... — ele começou e então me olhou nos olhos e deu um sorriso que parecia ser sincero — Incrível.
— Tanto faz. Eu preciso pegar uma coisa antes de ir, então pode ir na frente. — eu disse o empurrando para fora do quarto. Isso havia sido apenas uma distração para que ele não visse meu rosto vermelho. Foi então que me lembrei de que não havia tomado o antipsicótico hoje e fui buscá-lo, colocando um comprimido e uma seringa na pequena bolsa que eu carregava.
Descemos o elevador rapidamente e saímos do prédio. Eu esqueci completamente de que era inverno e quando o vento gelado soprou, não pude deixar de me arrepiar da cabeça aos pés. Por sorte, o carro de Alecssander estava por perto, então não precisei voltar para pegar um casaco. Não entendo como pude ser tão burra ao ponto de esquecer que estava nevando e eu não peguei a merda de um casaco.
O idiota dirigiu por uma meia hora até pararmos em frente à uma mansão gigantesca. Já do lado de fora podia-se ouvir a música ambiente vindo de dentro. Alecssander deu a chave para o manobrista e chegou ao meu lado, onde ofereceu o braço para que eu segurasse; fiquei encarando seu braço por alguns segundos até pensar que não seria uma má ideia, já que o blazer do babaca parecia ser quente.
— Alecssander Al' Capone e agente Pines. — o idiota disse ao recepcionista, ele verificou os nomes e nos deixou entrar. Andamos por um pequeno hall de entrada até chegarmos em um grande salão com muita gente bebendo, fumando e alguns apenas sentados.
— Agente Pines ? — murmurei quando entramos.
— Essa festa é proibida para quem não for da máfia. — ele respondeu, me fazendo encarar seus olhos.
— Então por que diabos você me trouxe ? — antes que ele pudesse responder, um homem não muito alto que aparentava ter em torno de cinqüenta anos se aproximou.
— Olha só se não é Alecssander, o garotão da máfia americana. — ele disse retirando um charuto de sua boca.
— Olá Charles. Você não deve conhecer minha acompanhante, a agente Pines. — respondeu Alecssander.
— Mas que bela moça. — o suposto Charles disse sorrindo e encarando meus peitos, e foi visível que Alecssander ficou bem incomodado com isso. — Qual sua função na máfia, gracinha ?
— Eu... Eu sou-
— Ela é a minha Consigliere. — interrompeu o idiota, antes que eu dissesse algo errado.
— Tão jovem e já está nessa posição ?! Você não perde tempo garoto ! — o homem riu e se retirou logo depois.
— O que é Consigliere ? — perguntei ao babaca.
— O braço direito do líder da máfia, tipo um conselheiro. — ele respondeu e eu assenti enquanto andávamos pelo grande salão.
Nos sentamos em uma mesa junto de um homem e uma mulher, e Alecssander me apresentou eles como a líder e seu Consigliere da máfia italiana. No decorrer da festa houve várias apresentações, alguns discursos e enfim uma discussão sobre as rivalidades e tréguas entre determinadas máfias. Alguns até brigaram e sacaram armas, mas no final tudo ocorreu bem, melhor do que eu imaginava na verdade. E então a festa continuou com muita música, charutos e bebidas.
— Alec ?!
Uma mulher mais alta do que eu veio correndo em nossa direção e abraçou Alecssander, que ficou imóvel por alguns segundos até me fazer soltar seu braço e retribuir o abraço da morena.
— Meu Deus ! Já faz tanto tempo ! — ela dizia com um sotaque que era desconhecido para mim.
— Faz mesmo. — ele concordou — Ah, Lucy essa é minha acompanhante, agente Pines. — disse o idiota apontando para mim. A suposta Lucy me olhos dos pés à cabeça até dar um sorriso que pareceu no mínimo falso.
— Olá, querida. — ela falou com o que parecia ser sarcasmo na última palavra.
— Vai ficar por quanto tempo Lucy ? — perguntou o babaca com um sorriso nos lábios.
— Só até o final desta noite, tenho muitos assuntos na máfia russa para resolver. — ela respondeu e eu enfim soube de onde vinha seu sotaque. Ela jogou os cabelos castanhos para o lado e cruzou os braços, fazendo seus peitos ficarem duas vezes maiores do que já eram.
— Entendo... E como vão as coisas na máfia russa ?
— Bem... — ela começou e então olhou para mim — Poderia nos dar licença por um minuto, lindinha ? — ela perguntou como se eu tivesse cinco anos. Encarei Alecssander e ele assentiu como se concordasse de que eu deveria sair.
Comecei a vagar pelo salão, sem muito interesse. A cada minuto que se passava, eu percebia que ali não era meu lugar e que eu deveria ter ficado no apartamento, estudando.
Fui até um jardim coberto aquecido onde não havia muita gente, me sentei em um banco de pedra perto de um ramo de rosas e fiquei por ali.
— Esse lugar está cada vez mais lotado, não é mesmo ?
Olhei para o lado e uma mulher que parecia ter a minha idade se sentou no banco. Ela tinha cabelos platinados perfeitamente lisos e usava um vestido delicado de alças roxo. Eu balancei a cabeça positivamente, sem prestar muita atenção.
— De qual máfia você é ? — ela perguntou. Pensei em responder que não era da máfia, mas com certeza seria uma má ideia e também pensei em ser fria e grossa como sou habitualmente, mas acho que também não seria uma boa ideia ser ignorante com gente da máfia, exceto Alecssander.
— Americana. — respondi.
— Ah, eu sou da francesa. — ela disse e eu sorri sem mostrar os dentes. — Então você trabalha para o senhor Al' Capone ? Eu já trabalhei para ele e posso dizer com certeza de que foi um completo pé no saco. Alecssander é um Zé Mané. — não pude evitar de rir quando ouvi isso.
— Concordo. — respondi.
— Aliás, meu nome é Rosalya.- ela disse oferecendo a mão.
— Darella. — eu disse a cumprimentando.
Eu e Rosalya ficamos ali por um bom tempo conversando sobre assuntos aleatórios. Ela me disse que seu sonho é fazer faculdade de moda, mas não pode devido aos compromissos com a máfia.
— Bom, eu preciso ir, Alecssander deve estar me procurando. — eu disse me levantando — Foi um prazer te conhecer Rosalya.
— O prazer foi meu Darella. — ela sorriu e eu me virei de costas. — Ei Darella, pode me fazer um favor ?
— Claro. — respondi me virando em sua direção.
— Quando ver Alecssander, chute a bunda dele por mim. — ela disse e eu soltei uma risada, concordando com a cabeça.
Pensando bem, não foi tão ruim ter uma conversa comum com Rosalya. Talvez eu devesse abrir mais oportunidades para amizades. Talvez.
Avistei Alecssander ao longe sozinho olhando para todos os lados, certamente me procurando. Foi então que vi um homem perto dele sacando uma arma e apontando na direção do babaca. Arregalei os olhos e corri em sua direção.
— Alecssander, cuidado ! — gritei. Ele olhou confuso para mim e eu o empurrei em direção ao chão e quando olhei para o homem de novo, vi que a arma na verdade era um esqueiro que o sujeito usou para acender o charuto.
Nesse momento, havia muitos olhares sobre nós e eu senti minhas bochechas queimarem como brasa. Alecssander ficou me encarando do chão e depois se levantou e me puxou pelo braço em direção à um cômodo ao lado que parecia ser um escritório, e no trajeto até lá ouvimos muitos sussurros do tipo "então esse é o grande líder da máfia americana?", "parece um simples garoto para mim" e "que vergonha, se eu fosse ele, matava a garota imediatamente".
— Darella, o que diabos foi aquilo ? — ele perguntou trancando as portas do escritório.
— Eu achei que ele iria atirar em você e-
— Era um esqueiro Darella ! — ele gritou.
— Eu sei, mas eu achei que ele fosse te matar !
— Então você se importa comigo ? — ele arqueou uma sobrancelha.
Revirei os olhos.
— Claro que não. Eu agi por instinto, não sou acostumada a ver armas de fogo, como você, então apenas entrei em pânico, e faria o mesmo por qualquer amigo, então não se sinta especial.
— Você tem amigos ? — ele arregalou os olhos como se estivesse surpreso e cruzou os braços.
— Claro que sim !
— Quem ?
— Bom... É... — enrolei. — Oliver, isso, Oliver é meu amigo !
— Quem é Oliver ?
— Não vamos mudar de assunto. — falei. — O que estou tentando fizer é que não ligo pra você, agi apenas por instinto.
— Está me dizendo que você pulou em cima de mim por que achou que um homem iria me matar, e está tentando me convencer de que foi só por instinto ? — ele perguntou e eu assenti. — Sua idiota.
Ele murmurou a última frase e colocou a mão atrás da minha cabeça, me puxando em sua direção e colocando o outro braço em volta da minha cintura, me abraçando. Fiquei estática com os braços do lado do corpo, sem reação, mas no fim, permitir que ele me abraçasse.
Advinha quem está de volta ?
Abri os olhos abruptamente. Não, não, não. Ele não. Agora não.
Sim, eu mesmo. Nossa, você está super gostosa com esse vestido, mas este cara está abusando demais não acha ?!
— Calado ! — eu disse me afastando de Alecssander e colocando as mãos na cabeça.
— Darella está tudo bem ? — o idiota perguntou.
SIM ! ELA ESTÁ ÓTIMA !
— Vamos até o banheiro, talvez uma água no rosto melhore. — disse Alecssander puxando meu braço em direção ao banheiro que infelizmente, era do outro lado do salão.
Você não merecia estar em um lugar desses. Devia estar enterrada sete palmos abaixo da terra, sua ASSASSINA.
Quando chegamos no banheiro, Alecssander verificou se tinha alguém e então fechou a porta. Eu lavei o rosto mesmo sabendo de que não iria melhorar e depois me sentei em cima da pia.
— Tem algo que eu possa fazer para te ajudar ? — o babaca perguntou.
— A seringa na minha bolsa. — murmurei — Pega a seringa na minha bolsa.
Alecssander obedeceu e me entregou a seringa mas quando eu fui aplicar em meu braço, percebi que estava tremendo.
— Eu não vou conseguir sozinha. — eu disse entregando a seringa para Alecssander, que ficou me encarando. — Qual o problema ?
— É que... Eu não me dou bem com agulhas... — ele disse.
— Então o líder da máfia tem medo de agulhas ? — brinquei.
Que babaca.
A cada vez que Thomas falava, eu sentia uma profunda dor na cabeça, que passava rapidamente por cinco segundos até Thomas voltar a falar.
— Aplica logo... Por favor. — falei.
Ele me encarou por alguns segundos até fincar a agulha em meu braço e soltar todo o líquido.
— Acho melhor irmos embora. Você nem é da máfia e está passando mal. — ele disse eu assenti, foi então que o homem de mais cedo entrou no banheiro apontando a arma em minha direção, e dessa vez eu tive certeza de que não era um esqueiro.
— Charles, o que pensa que está fazendo ? — disse Alecssander.
— Se ela não é da máfia, então não deveria estar aqui. E acho que ela já sabe coisas demais, merece morrer. — Charles sorriu. Senti meu coração parar na garganta.
— Não seja idiota de fazer isso Charles. Ela é minha responsabilidade, você não tem nada a ver com isso.
— Então prefere morrer no lugar dela ? — agora a arma estava apontada para o babaca. — Sabe, se você morrer pode até ser mais fácil, eu fico com sua garota e tomo seu lugar de líder na mafia americana. — Alecssander cerrou os dentes e apontou uma arma que estava dentro do seu blazer para Charles.
— Você não vai sobreviver para ver isso acontecer. — o idiota disse.
— Se você atirar em mim, também vai morrer. Mas fique tranquilo, meus agentes vão cuidar super bem da bonitinha aí. — Alecssander olhou para mim, depois para Charles e enfim abaixou a arma.
— Eu proponho um acordo. Você não fala nada sobre ela não ser da máfia e eu te dou uma grande quantidade de lucros da máfia americana. — o homem pensou por um tempo e então abaixou a arma e sorriu.
— Foi bom fazer negócios com você, Al' Capone. — e então o idiota pegou meu braço e me puxou em direção à saída, e quando passamos por Charles, sacou a arma rapidamente e deu um tiro no mafioso que caiu morto no chão. Confesso que nem me assustei, já vi ele matar tanta gente na minha frente nos últimos meses que parece uma coisa comum.
— Acho melhor corrermos. Em breve alguém descobrirá a morte dele e não queremos estar aqui quando isso acontecer.- o idiota disse para mim.
Então nós andamos em passos rápidos para fora do salão, Alecssander pegou a chave do carro com o manobrista e começamos a caminhar pelo estacionamento. Inevitavelmente, comecei a tremer e passar as mãos pelos braços na tentativa de me aquecer. Avistamos o carro e quando fui abrir a porta, o babaca a empurrou com a mão e me prensou no carro, colocando ambas as mãos ao lado da minha cabeça.
— Você está bem ? — ele perguntou.
— Estou. — respondi e acabei espirrando em seguida.
— Está resfriada ? — eu assenti e ele retirou o blazer e colocou sobre meus ombros. — Meu Deus, Darella... É inverno e você não trouxe nenhum casaco ?!
— Eu esqueci... — murmurei.
Ficamos em silêncio até eu resolver me pronunciar.
— O-Obrigada... — murmurei. — Você salvou minha vida.
Alecssander me encarava com uma expressão séria, e de repente percebi que ele intercalava o olhar entre meus olhos e minha boca. Fiquei surpresa quando ele começou a aproximar sua boca da minha e eu fiquei parada. Por que diabos eu fiquei parada ?! Eu queria impedi-lo, bater em sua cara e xingá-lo, mas simplesmente não conseguia por que meu corpo estava congelado, e e não digo isso no sentido literal.
— A-A-Acho melhor irmos. Está muito frio aqui. — gaguejei, e felizmente, o idiota se afastou concordando e deu a volta no carro, entrando na porta do motorista.
O trajeto inteiro até meu apartamento foi em silêncio e enquanto isso, minha cabeça não parava de surgir pensamentos. Por que eu fiquei parada quando Alecssander tentou me beijar ? Ele realmente ia me beijar ou era mais uma de suas brincadeiras ? O que iria acontecer depois que ele me beijasse ?
Quando ele estacionou o carro em frente ao meu prédio, respirei fundo antes de deixar aquele mundo alternativo e voltar à minha realidade insignificante.
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