O Lugar que só nós conhecemos
1 Capítulo único
Houve um tempo em que Byakuya não gostava de falar sobre sonhos.
Todas as noites, sem exceção, desde que se lembrava, sonhava com a mesma coisa: estava de pé em um jardim florido que se estendia até onde não se conseguia enxergar. Pétalas da cor rosa quebravam o verde do local, sendo espalhadas pelo chão ou na copa de grandes cerejeiras e pessegueiros. Uma ponte de madeira interligava o jardim com a entrada de uma casa arcaica, construída do outro lado de um lago resplandecente. Era uma imagem linda, Byakuya poderia descrever seus detalhes com perfeição.
Um sonho recorrente onde nada demais acontecia. Era só ele, em paz, abraçado pela flora e ar fresco, trajado em confortáveis vestes tradicionais. Sempre tinha um haori branco sobre os ombros. Via o cabelo preso de uma forma curiosa quando olhava seu reflexo no lago. Um cachecol cobria o pescoço mesmo quando não estava frio. Uma katana de cabo colorido repousava ao seu lado quando se sentava na grama. Ao caminhar pelo jardim, ela ficava bem presa à cintura. Pouco depois do sol nascer, ou momentos antes dele se pôr, Byakuya permanecia parado, recostado em uma cerejeira e olhando ao redor. Era como se esperasse alguém.
Seu sonho tão comum mudou pela primeira vez quando viu no horizonte uma mulher de cabelos pretos e sorriso tímido surgir junto ao sol da manhã, em meio às flores do jardim.
Hisana foi seu primeiro amor, e por muito tempo pensou que seria o único. Conheceu a mulher no último ano de faculdade, em uma tarde de primavera agradável como a dos seus sonhos. Era admirável que uma moça tão bonita o procurasse para falar que havia inspirado seu quadro mais belo. Nunca conversaram antes, Byakuya sequer reparou nela durante todos esses anos estudando no mesmo campus que ela. Porém, no momento em que conversaram pela primeira vez, tudo pareceu fazer sentido. Parecia que Hisana era quem o Byakuya dos sonhos esteve procurando por todo esse tempo.
Ela o notou antes, mas foi Byakuya quem se apaixonou primeiro.
Hisana era uma pessoa doce que se importava demais com os outros. Uma artista cuja única ambição era compartilhar o que sabia com as crianças, colorindo a vida das pessoas com suas telas. Byakuya se viu envolto por todas aquelas cores… Logo ele, com sua vida monótona e controlada pelos pais, teve o coração tocado por uma pessoa tão radiante. O amor entre eles era consequência do quanto um completava a vida do outro. Era certo. Era tudo o que Byakuya queria, mesmo sem saber. Casaram-se alguns meses depois da formatura, jurando amor e lealdade até o fim dos seus dias.
O sonho recorrente de Byakuya foi muito agradável durante os anos em que viveu junto a Hisana. Eram os dois no jardim florido, passeando entre as árvores, dançando junto ao vento e as pétalas de cerejeira. Vestiam roupas mais leves, coloridas, confortáveis. Sempre era dia. Ela sempre sorria. Ele sempre estava feliz.
Byakuya queria que continuasse assim até o fim dos seus dias, como prometeu.
No primeiro dia da primavera, no ano em que completariam seis anos de casados, Hisana faleceu devido a complicações de um câncer.
Foi súbito, inesperado. Hisana sempre foi uma mulher cheia de vida, tocando seus projetos, cuidado das crianças que ensinava, das telas que pintava e do marido que amava. Sua doença foi silenciosa, sendo descoberta tarde demais. Seu último ano foi difícil, ela estava muito debilitada, mas mesmo assim, se esforçava para sorrir e fazer tudo que a trazia felicidade. Byakuya não podia acreditar. Tudo começou a desmoronar tão de repente que sequer conseguiu processar... Cuidou dela e deu todo o amor que tinha no peito, com mais ardor do que nunca. Mas nada disso impediu o inevitável. Estava segurando sua mão no momento em que Hisana respirou pela última vez. Ela se foi sem arrependimentos. Byakuya queria que tivessem mais tempo. Por que não podia ter um pouco mais de tempo?
Byakuya se fechou para o mundo. Voltou à monotonia e ao monocromático, agora com ainda mais dor. Não tinha mais forças para enfrentar a família e suas regras sem sentido. Voltou a ser submisso às ordens do seu pai e avô, vivendo como eles desejavam. Foi obrigado a estudar direito e, posteriormente, ciências contábeis, só porque eram as carreiras mais comuns daqueles com seu sobrenome. Estava prometido em casamento à filha de sócios do seu pai desde que nasceu, mas graças a Hisana, conseguiu enfrentar os Kuchiki, pelo menos uma vez, priorizando sua felicidade. Agora sem ela, sobrevivia de acordo com os desejos da família, abaixando a cabeça sempre que uma ordem chegava. Os dias sem Hisana doíam como o inferno, mas as noites conseguiam ser ainda piores.
Seu sonho recorrente havia se tornado pesadelo.
Começava igual a todas as outras vezes. O jardim bonito e florido num dia ensolarado, onde Hisana caminhava e dançava sorridente. Porém, um vento forte surgia, varrendo as pétalas de cerejeira do chão. O sol desaparecia sem mesmo o crepúsculo vir. Era noite no jardim, estava frio e as cores desapareceram por completo. O som dos pássaros cantando foi substituído por um silêncio doloroso. Hisana havia desaparecido com o vento. Byakuya tentava gritar seu nome, mas a voz não saía. Uma dor tomava conta de seu peito, sendo insuportável ao ponto de fazê-lo despertar do sono, às vezes no meio da noite. Às vezes gritando. Sempre chorando.
Com o passar do tempo, Byakuya foi se acostumando com sua vida. Trabalhava no escritório de advocacia da família, sem reclamar ou discutir com o pai e o avô. Fazia o que eles mandavam sempre, cumprindo as regras como um bom Kuchiki deveria fazer. Ia a jantares com a mulher que a família decidiu que seria sua noiva. Era frio com ela, tratando-a como uma parceira de negócios, sendo esta sua visão dela. À noite, o homem tomava um remédio forte para dor, depois deitava a cabeça no travesseiro, já sabendo o que aconteceria em seu sonho. Acordava no outro dia, sempre muito cedo, antes do nascer do sol. Trocava a roupa de cama molhada pelas lágrimas, depois se arrumava para o trabalho, começando tudo de novo.
De vez em quando, coisas boas aconteciam com Byakuya. Visitar a irmã mais nova da falecida esposa, por exemplo, era sempre uma boa experiência. Rukia era uma pessoa muito alegre, e apesar de ter uma personalidade bem diferente, ela e a irmã eram muito parecidas, principalmente na aparência. Sempre a tratou como se fossem irmãos, ainda mais depois que sua esposa se foi. Os dois compartilhavam da mesma dor, mas lidavam com isso de maneira diferente. Rukia era uma moça forte e admirável.
Outra coisa boa que tinha eram os amigos. Jushiro, Shunsui e Yoruichi eram colegas da faculdade que praticamente forçaram a amizade com Kuchiki. Os três eram mais velhos e de cursos distintos, que gostavam de farra e contar histórias de bêbado. Mesmo sendo alguém tão sério, Byakuya sempre atraía aquele tipo de pessoa para sua vida. Chegava a ser engraçado o contraste. Era como se buscasse a alegria que lhe faltava naquelas pessoas, mesmo que sem querer. Funcionava. Eles o mantinham de pé.
Era confortável estar ao lado deles, mas não o suficiente para ser quem era antes de perder o seu amor. Seu verdadeiro eu estava escondido atrás de uma máscara de indiferença, incapaz de se libertar dali. A pressão da família. A dor da perda. Os pesadelos. Era um homem triste e solitário dentro de um casulo, deixando os sentimentos ruins tomarem conta.
E Byakuya viveu dessa maneira até encontrar, pelos corredores de uma escola, um rapaz de cabelos vermelhos e sorriso brilhante.
Ukitake Jushiro era professor de literatura e redação. Byakuya admirava a forma apaixonada com que o amigo falava do próprio trabalho, mesmo sendo cansativo conciliar as aulas na faculdade de dia e no cursinho à noite. Sempre se sentiu inquieto quando Ukitake começava a falar. Podia ser inveja, já que detestava a carreira que escolheram para si, mas… no fundo, tinha algum interesse. Passar conhecimento para aqueles que queriam parecia ser a única coisa útil para fazer com tudo o que aprendeu na faculdade. Estava curioso, instigado por essa ideia de lecionar, mas por muito tempo, aquilo foi apenas uma vontade. Precisou que a oportunidade surgisse de repente, no meio de uma conversa trivial sobre a falta de professores de contabilidade no cursinho. Byakuya se ofereceu imediatamente, surpreendendo inclusive a si mesmo.
Era a primeira vez em anos que Kuchiki fazia algo que não fosse “incentivado” pela família. Aventurou-se em dar aulas por um período de duas semanas, apenas como uma experiência. E que experiência! Lecionar era desafiador, e por isso era tão empolgante. Enfrentar uma sala cheia de jovens ariscos e sedentos por conhecimento era muito mais difícil do que audiências longas no fórum. Pediu o emprego permanente no curso, mesmo sabendo que conciliar os dois trabalhos iria desgastá-lo. Preferia chegar tarde da noite exausto todos os dias do que nunca atingir a felicidade profissional.
Conviver com os alunos era a parte mais difícil. Todos eram muito jovens, diferentes e quase sempre desajuizados. Nem todo mundo tinha interesse no curso em si, quase ninguém gostava daquela matéria específica. Alguns deles falavam demais. Outros dormiam o tempo todo. E existiam alunos que sequer apareciam nas aulas. Byakuya, que era um homem frio, cético e disciplinado, tinha sua paciência testada todos os dias por aquele bando de pirralhos. Agia mais rígido do que o comum com eles, passando a ter má fama no curso: seus apelidos variavam entre “shinigami” e “professor Aizawa”, mas ele não tinha ideia do que esse último significava.
Mas nem todos eles eram ruins. Byakuya gostava de quem era interessado em sua matéria, que participava das aulas e o respeitava. Gostava de disciplina, mas mais ainda de dedicação.
Talvez por isso Abarai Renji lhe chamasse tanta atenção.
Era difícil não reparar em um homem como ele. Certamente os cabelos vermelhos e as muitas tatuagens eram chamativos por si só, porém não foi por essa razão que o marcou na memória primeiro. Renji era desses que dormia debruçado na cadeira sempre que tinha oportunidade, mas isso não o impedia de ser um aluno incrivelmente aplicado. Ele vivia fazendo falando e se convidando para responder perguntas que sequer foram feitas. Renji parecia gostar muito do curso, mesmo chegando atrasado quase todas as noites. Byakuya não conseguia evitar reparar no semblante exausto dele sempre sua aula era no primeiro horário. Alguém tão dedicado quanto ele só podia estar chegando de um dia cansativo de trabalho.
Byakuya não se importava quando ele abaixava a cabeça e fechava os olhos.
Certa noite, quando as aulas chegaram ao fim, Byakuya permaneceu em sala, esperando que o rapaz ruivo despertasse de um sono profundo.
— Você perdeu a explicação sobre os Princípios Tributários. — Byakuya manteve os olhos fixos nos papéis que organizava, vendo apenas de soslaio seu aluno erguer a coluna e se espreguiçar.
— Desculpe por dormir na sua aula, professor. — Renji já estava de pé em frente à mesa do mais velho, embolando as palavras com um bocejo. — Vou pegar a matéria com o Ichigo e tentar estudar em casa...
— Você está sempre tão cansado, não é, Renji? — Byakuya olhou-o nos olhos agora. Notou suas feições surpresas, admirando-as um pouco. Talvez ele tenha estranhado seu comentário repentino.
— É que eu trabalho até as seis em um restaurante — respondeu, sorrindo um pouco. — Eu moro longe do trabalho, daí acordo bem cedo pra pegar o metrô.
— Entendo. — Byakuya encerrou o assunto, voltando sua atenção aos papéis.
Renji era exatamente quem parecia ser: um homem dedicado aos estudos, trabalhador e muito exausto. Com certeza deveria estar cheio de sonhos na bagagem, já que realizava tantas coisas ao mesmo tempo. Além disso, o rapaz era de uma educação admirável. Sempre foi tratado com respeito por ele, às vezes de forma desnecessária e exagerada.
— Boa noite, professor. — A despedida fez Kuchiki abandonar seus devaneios. Olhou o rapaz novamente, não se surpreendendo ao encontrá-lo sorrindo.
Quando o ruivo se virou para ir embora, Byakuya agiu sem pensar.
— Renji, espere — chamou talvez um tanto alto. Byakuya guardou suas coisas dentro da pasta, deixando apenas alguns impressos sobre a mesa. Recolheu tudo e foi até Renji, que o esperava na porta. Entregou ao aluno os papéis, depois passou direto por ele. — Venha comigo.
— Sim, senhor! — O ruivo deu uma olhada no que o professor havia entregado. — Isso é...
— O impresso da matéria de hoje. Escrevi algumas observações e explicações para que possa estudar melhor sozinho. Contudo, se alguma dúvida surgir, pode vir falar comigo. Terei prazer em ajudá-lo.
— O senhor não precisava... — Renji se interrompeu quando viu Byakuya parar de caminhar. O olhar cinzento atravessou o ruivo, que de alguma forma estranha, entendeu o que significava. — Obrigado!
Naquela noite, Byakuya levou Renji de carro até sua casa. Como já era tarde, o ruivo perdeu o último trem para Arakawa, bairro onde morava. A escola era em Shibuya, assim como o restaurante em que o ruivo trabalhava, e toda essa distância implicava no pouco tempo que tinha para estudar, trabalhar e se locomover entre esses locais. Byakuya entendia e admirava seu esforço. O ruivo aceitou sua carona de bom grado, dormindo por todo o percurso no banco do passageiro. O professor dirigiu com cautela, tomando cuidado para não perturbar o sono de seu aluno.
— Ah, eu moro ali, naquele prédio. — Renji despertou do sono profundo, indicando ao mais velho onde era sua casa. Sua voz saiu adoravelmente sonolenta. Quando o carro foi estacionado em frente ao apartamento, o ruivo soltou o cinto de segurança. — Obrigado mais uma vez. Não sabe como o senhor me ajudou hoje!
Byakuya apenas o olhou e acenou com a cabeça, sentindo-se um pouco tonto. Renji tinha um sorriso muito brilhante. Deu boa noite quando o aluno saiu do carro, depois partiu para sua própria casa sem olhar para trás. Seu coração estava aquecido.
Depois daquela noite, o sonho recorrente de Byakuya deixou de ser um pesadelo.
O jardim florido era constantemente tomado pela escuridão desde que Hisana se foi. Quando começou a lecionar, a frequência dos sonhos apenas havia diminuído, contudo, ainda eram pesadelos dolorosos. Na noite em que levou Renji para casa, Byakuya teve o sonho novamente. O jardim estava belo, florido e Hisana caminhava entre as árvores. Mas dessa vez, o vento não a levou embora. Ela só o olhou e sorriu, antes de prosseguir seu caminho para além dos campos de cerejeira. A escuridão não veio. A dor também não.
Byakuya passou a ter um aluno favorito. Sabia que era injusto com os outros, mas não podia e nem queria evitar. Renji tinha mais vigor a cada dia, questionando e demonstrando interesse nas matérias. Ele só dormia quando a explicação havia terminado e os exercícios estavam prontos. Kuchiki ficava na sala quando o ruivo dormia além do horário, deixando-o aproveitar o descanso até quinze minutos depois do fim da aula. Quando esse pequeno tempo terminava, Byakuya o acordava, depois oferecia uma carona.
— Renji. — Iniciou uma conversa durante a carona, certa noite. — Hoje ouvi alguns de seus colegas dizerem coisas sobre mim.
— Quem disse o que? — perguntou curioso. Olhava o professor franzir as sobrancelhas enquanto ainda olhava a estrada, tornando seu semblante mais assustador do que o normal.
— Madarame... — Byakuya disse o nome do aluno, sentindo-se inquieto. — O ouvi dizer claramente que minhas aulas eram as únicas tediosas do curso. E o rapaz que anda com ele, Ayasegawa, disse algo sobre eu precisar aprender com o professor Zaraki, que possui métodos diferentes de ensino.
Renji ouviu atentamente, conseguindo imaginar os amigos dizendo tudo aquilo em palavras muito mais simples. Quando o carro parou em frente ao prédio do ruivo, Byakuya suspirou pesadamente.
— Minha aula é realmente a única tediosa do curso? — perguntou, olhando para Renji com a testa franzida. Parecia preocupado. — Seja sincero.
— Bom, na verdade... — Sem jeito, o rapaz levou a mão até a própria nuca, fazendo uma careta em seguida. — Contabilidade é bem chato de vez em quando.
Byakuya arregalou os olhos por uma fração de segundo, e depois olhou novamente para a estrada.
— Entendo — disse, inclinado a encerrar o assunto. Não parecia muito feliz com a resposta de seu melhor aluno. — Não sabia que minha aula era assim tão... chata.
— Eu não estou falando da sua aula, senhor. — Renji riu um pouco, tendo novamente o olhar cinza em si. — A matéria não é muito sedutora, né. Mas seu jeito de ensinar é ótimo e todo mundo entende bem.
— Realmente acha isso?
— Claro! — E mais um sorriso. — O professor Zaraki dá aula de Controle de Qualidade e vive passando filme. Não tem como comparar. Tipo, não existe filme sobre Tributação. Se existisse seria tenebroso de ruim.
Byakuya olhou o ruivo nos olhos pelo que pareciam longas eras, antes de esticar os lábios e sorrir. Deu uma risada breve, tapando a boca com o punho fechado. Quando notou que estava sendo encarado, o professor ficou envergonhado. As maçãs do rosto ficaram vermelhas imediatamente. Suas feições comumente indiferentes não conseguiram sobrepujar a vergonha e nem a leve felicidade.
— Você tem razão — disse, tentando soar como de costume. Seus olhos estavam fechados. Conseguiu ouvir o barulho do cinto de segurança sendo solto. — Renji.
Os dois voltaram a se olhar. O silêncio prevaleceu por algum tempo, assim como uma timidez estranha vinda dos dois lados. Nenhum deles parecia querer ir embora, mas nenhum deles conseguia dizer alguma coisa.
— Obrigado pela carona. — Renji quebrou o silêncio com o agradecimento de sempre, sorrindo brilhante, deixando Byakuya tonto. As bochechas rosadas e os olhos estreitos quase fechados eram adoráveis.
Quando o ruivo fez menção de abrir a porta do carro, o professor segurou levemente seu pulso, impedindo-o de sair.
— Renji — repetiu, o nome saindo de forma gentil, tão diferente do comum. — Obrigado. Faz muito tempo desde a última vez em que consegui rir dessa maneira.Fazia tempo que eu não conseguia rir dessa maneira.
Seu coração palpitou com força, como se só agora tivesse se dado conta daquele fato. Seu sorriso estava perdido em seu passado. A amargura de sua vida o impedia de ver as coisas da maneira que via antes. A felicidade não alcançava totalmente seu coração, por isso, seus sorrisos eram raros. As risadas não existiam. Talvez, a última vez em que riu assim foi quando sua esposa estava ao seu lado.
— O senhor deveria sorrir mais. — Renji levou a mão até um dos ombros do professor, apertando de leve. Os dedos longos pareciam trêmulos, mesmo assim, o aperto era firme e confortável. — Fica mais bonito quando está feliz.
O coração de Byakuya palpitou mais uma vez, de uma forma mais leve do que antes. Continuou em silêncio mesmo quando o aluno saiu do carro sorrindo e lhe desejando boa noite. Estava sozinho no carro preto agora se sentindo estranho. Soltou as mãos do volante e tapou seu rosto, se encolhendo no banco, sentindo a pele queimar.
Havia ficado tão feliz que não tinha ideia de como lidar com aquilo.
Naquela noite, o sonho havia mudado um pouquinho. Depois de Hisana desaparecer entre as árvores, o crepúsculo chegava. O céu alaranjado contrastava com o cor-de-rosa da copa das árvores. Depois disso, Byakuya olhava para o lado, vendo repousar ali uma camélia, tão vermelha e brilhante que o fazia lembrar-se de alguém.
Renji causava sensações e vontades que Byakuya achava que havia abandonado com o passar do tempo, como por exemplo, a admiração por outro alguém. Gostava da personalidade exageradamente animada do rapaz e do jeito engraçado de falar. Era fascinado pelo vigor e vontade de aprender que o Abarai sempre demonstrava, sua perseverança e simplicidade, além dos olhos castanhos cheios de determinação.
Byakuya não era tratado por Renji como um simples professor. Já ouviu da boca do rapaz que era considerado mais do que isso; era uma meta para alcançar, um exemplo a ser seguido, um profissional digno de apreço, mas não era só isso… Para Renji, Byakuya era mais. Um homem gentil e de bom coração, que merecia ser feliz. Renji tentava vez ou outra dizer alguma besteira durante as caronas, só para tentar ouvir o som da sua risada novamente. Quase sempre conseguia.
Mas Byakuya dava aula de contabilidade apenas no primeiro módulo do cursinho. Quando esse período chegou ao fim para a turma de Renji, o professor se sentiu um pouco incomodado. Não acreditava que as coisas mudariam em relação ao que foi construído entre eles; a amizade, admiração e a gentileza. No entanto, o mais velho perderia seu melhor aluno. Sentiria saudades da mão levantada e das perguntas animadas, da comemoração exagerada quando tirava notas altas nas provas, da cabeleira ruiva no fundo da sala quando ele tinha sono.
Depois da última aula do módulo, Renji não havia dormido além do comum. Aguardou pacientemente até que todos os outros alunos fossem embora para tirar uma caixa de dentro da mochila. Andou a passos largos até Byakuya quando se encontrou a sós com ele.
— Professor — chamou acanhado, tendo sua atenção imediatamente. — Eu... comprei isso para o senhor.
Byakuya ficou surpreso. Recolheu o restante de suas coisas com um pouco de pressa, depois recebeu a caixa das mãos de seu melhor aluno. Queria recusar o presente, dizendo que não era necessário que o ruivo se incomodasse com ele, mas… Sua máscara perdia as forças diante de Renji. Só conseguia ser sincero com ele.
— É só uma lembrancinha, sabe. Pra agradecer pela ajuda na sala de aula e fora dela também.
Dentro da caixa simples havia um cachecol esverdeado de ótima qualidade. Os dedos finos do professor tocaram o tecido, sentindo a maciez sob sua pele. Parecia uma peça caseira, como aquelas que Hisana fazia antigamente. Um sorriso verdadeiro surgiu no rosto do Kuchiki, que corou com força quando voltou a olhar o aluno.
— Obrigado, Renji. — Byakuya começou a achar que dizia aquelas palavras com muita frequência. — Eu gostei muito. É tão bonito.
— Que bom! Eu fiquei preocupado que não o agradasse. — Renji sorriu largo, para depois olhar ternamente para o mais velho. Deu mais um passo, diminuindo ainda mais a distância entre eles, sendo ousado e cauteloso. Byakuya estava imóvel, apenas observando as mãos grandes tirarem o cachecol de dentro da caixa e vestindo-o carinhosamente com a peça. — Está frio hoje, né?
O olhar de Byakuya estava preso ao homem em sua frente. Quase conseguia enxergar o calor que emanava do corpo grande, sentindo-o diretamente na pele, espalhando por todo o seu corpo. Parecia uma ironia o presente dele servir para aquecer, uma vez que apenas sua presença era suficiente para acalorar a alma. O vermelho que o representava tão bem, o tom da sua pele, o formato das tatuagens, a intensidade da sua imagem. Era abrasador. Seu corpo forte, seu rosto bonito, a personalidade e sorriso brilhante… tudo era de tirar o fôlego. Gostava de olhar para ele talvez mais do que deveria. Renji era como um sol quente e acolhedor. Byakuya sentia-se como a noite fria de seus sonhos, sendo invadida por raios intensos e ofuscantes.
— Só um pouquinho.
Sem jeito, o professor ofereceu carona novamente para o ruivo, que aceitou sem hesitar. Andaram lado a lado vagarosamente até a saída da escola, sem proferir uma palavra. Byakuya roçou os dedos frios de leve em uma das mãos de Renji, sentindo uma vontade forte de segurá-la. Controlou-se bem, mantendo seus anseios para si mesmo. Não conversaram também durante o percurso de carro até Arakawa. Mesmo em silêncio, o clima era de inquietude.
Quando estacionou em frente ao prédio velho e desbotado, o silêncio foi cortado.
— Vou sentir falta das suas aulas — confessou o ruivo.
— Pensei que Contabilidade fosse chato — Byakuya comentou com bom humor. Olhou-o nos olhos e sorriu. — Vou sentir falta de ensiná-lo.
Uma sensação de ternura e despedida pairou sobre eles, mesmo que não fosse a intenção. Ainda se veriam nos corredores da escola, depois das férias. Byakuya ainda poderia dar carona para Renji, que provavelmente dormiria em uma sala nova até além do tempo. O mais velho entre eles suspirou, tocando o cachecol verde que protegia o pescoço do frio.
— O senhor pode passar qualquer dia no restaurante. — Renji estava sem jeito, mesmo com o convite sendo verdadeiro. Queria continuar vendo o professor, mesmo durante as férias.
— Aguarde-me então. — Byakuya foi imediato. — É uma promessa.
O aluno sorriu, ansioso para a tal visita. Soltou-se do cinto de segurança, pronto para sair do carro, quando, novamente, foi surpreendido pelos dedos frios do Kuchiki. Sua mão foi tocada levemente, e desta vez, o toque foi prolongado. Logo, a mão de Byakuya também estava quente.
— Renji — chamou, criando novamente um contato visual intenso. A mão do mais velho subiu devagar até o pescoço do outro, fazendo um carinho ali. Depois, Byakuya segurou o maxilar tão masculino e se aproximou do rosto que gostava, levando os lábios até a bochecha, deixando um beijo ali. — Obrigado, novamente.
— Na-não há de quê...
Renji finalmente saiu do carro, meio atordoado, desejando boa noite ao professor. Byakuya observou-o até que a silhueta desaparecesse prédio adentro, lembrando-se de respirar só quando deixou de ver a cabeleira ruiva. Estava envergonhado, sentindo um calor alastrar da cabeça aos pés. Não era homem de agir por impulso, mas não conseguiu se segurar. Seu coração batia forte, pedindo para que tomasse alguma atitude. Da última vez em que aquele tipo de coisa aconteceu, foi quando...
— Hisana — monologou, quase como se tentasse falar com a mulher. Byakuya costumava demonstrar seus sentimentos à esposa daquela forma, beijando seu rosto quando ela menos esperava. Era tão bobo e natural quando acontecia naquela época, mas agora, aquele gesto parecia carregado. Byakuya sentia tudo cair sobre ele, não de uma forma ruim. Era assustador de tão agradável.
Naquela noite, o sonho mudou mais uma vez. Era fim de tarde no jardim, e Hisana estava longe, entre as cerejeiras. Ela olhou nos olhos de Byakuya, sorriu e acenou, se despedindo. Quando desapareceu, o homem olhou para o lado, vendo uma cabeleira ruiva. Era Renji, vestido com um quimono preto, sentado sobre a grama ao lado de uma espada. O jovem dormia, a luz fraca do sol poente iluminava seu rosto bonito. Em uma de suas mãos havia uma camélia vermelha.
Seu despertar foi leve, sem dor de cabeça, quase sem se dar conta de que aquilo era só mais um sonho. Parecia tão real quanto das outras vezes. Seus olhos transbordaram como sempre acontecia, mas ao invés de enxugar as lágrimas e começar o dia, Byakuya apenas se encolheu na cama enorme e chorou. Chorou pelo que pareceu uma vida inteira, até sentir sua alma mais leve. Suas lágrimas não eram dolorosas, mesmo que fosse por causa de uma despedida. Estava com saudade.
Sentiu o calor do sol tocar sua pele e só então se deu conta do horário. Levantou o rosto molhado e olhou para janela sem cortinas, sorrindo para a manhã como se fosse algo fora do comum. Não conseguia lembrar qual foi a última vez que acordou tão tarde.
Não dormia bem assim há anos.
Byakuya passou a procurar Renji durante as férias. Passava “casualmente” pelo bairro dele, oferecendo carona para o trabalho ou chamando-o para tomar um café. Apreciava sua companhia ainda mais do que antes, aproveitando cada segundo dela. Era confortável estar com ele, especialmente fora da sala de aula. As idas a cafeterias tornaram-se rotina, como se fosse uma tradição de inverno. Renji quebrava a máscara de Byakuya sem dificuldades, fosse contando uma piadinha no meio da conversa, ou algo curioso que acontecia no seu serviço. Não via necessidade de conter suas expressões, palavras ou vontades. Renji deixava sua vida mais leve, alegre e cheia de brilho. Precisava se acostumar com isso.
Byakuya contou a Renji sobre Hisana, da felicidade do seu casamento e da dor da partida dela. Foi em uma noite em que trouxe o ruivo para casa depois da aula, como de costume. Se entristeceu quando contou da luta da mulher contra o câncer, e sem querer deixou que aquele sentimento tomasse conta. A garganta doeu por segurar as lágrimas. Renji segurou sua mão e entrelaçou os dedos, tentando confortá-lo. Byakuya suspirou antes de deitar a cabeça sobre o ombro dele e chorar, sendo a primeira vez que o fazia na frente de outra pessoa.
Renji agora o conhecia. Sabia quem era o verdadeiro Kuchiki Byakuya, todos os seus lados, as fraquezas e defeitos. Era mútuo, pois o ruivo também compartilhava detalhes de sua vida com o professor, que adorava ouvir as histórias. Renji sonhava em abrir o próprio restaurante, por isso procurou entender melhor sobre negócios. Era um cozinheiro caprichoso e delicado, mesmo sendo alguém tão impetuoso e atrapalhado às vezes. Sua comida era tão boa que fazia Byakuya ir e voltar do paraíso toda a vez. Quando ia almoçar no restaurante em que Renji trabalhava, o professor ficava olhando em direção a cozinha, apenas imaginando o ruivo cozinhando. Se a postura não fosse algo que prezasse tanto, já teria espiado pela janela de comandas há muito tempo. Tinha certeza que ele ficava ainda mais bonito de dólmã…
Renji era um homem cheio de sonhos, que carregava um passado difícil nas costas. Ele não tinha uma família de sangue, mas considerava seus amigos como tal. Nenhuma das suas dores o impedia de ser uma pessoa gentil e obstinada, que distribuía sorrisos brilhantes para quem quisesse ver. Sabia ser um bobo alegre e um cara maduro ao mesmo tempo. Sabia apreciar quando alguém fazia algo por si, sempre retribuindo de uma forma equivalente. Ele não costumava se conter. Era uma pessoa de exageros, sincera e transparente, que não gostava de fazer pouco pelos outros. Tão jovem e tão vivo…
Byakuya ficou fascinado por aqueles detalhes por tanto tempo que, quando se deu conta, já estava perdidamente apaixonado por Abarai Renji.
Seu segundo amor, diferente do primeiro, demorou a ser compreendido. Foi ainda mais inesperado, inusitado, sem pretensão alguma. Não achava que iria se apaixonar de novo, ainda mais por alguém tão oposto à Hisana. Ela era uma mulher meiga que não gostava de extravagâncias. Tinha uma aparência tão frágil e suave que Byakuya por muitas vezes temeu tocá-la. Eram da mesma idade, gostavam de música clássica e ambientes sofisticados. Hisana era tão baixinha que encaixava perfeitamente durante os abraços.
Já Renji era um homem bem mais alto e mais jovem que si. Os cabelos vermelhos eram longos, chegando até metade das costas quando soltos. As tatuagens tribais espalhadas pelo dorso, os músculos definidos e o rosto de traços fortes davam a impressão de que ele era intimidador. Seu estilo era bem variado, mais despojado, meio roqueiro. Os olhos castanhos eram estreitos, e de vez em quando, sentia as pernas tremerem só de ser olhado por eles.
A diferença entre os dois se fez notória certa noite, quando se beijaram pela primeira vez.
Byakuya levou Oshiro Manami para jantar no restaurante onde Renji trabalhava. Estava decidido a concluir sua “relação” com a mulher, que nunca foi nada além de negócios. Com seus trinta e três anos de idade, o Kuchiki pensou que já estava velho demais para manter um noivado arranjado apenas porque sua família achava que deveria. O jantar foi breve e amigável, onde nenhum dos dois temeu as consequências daquela “quebra de contrato”.
— Professor Kuchiki! — Renji exclamou ao ver o mais velho do lado de fora do restaurante.
O homem de terno estava escorado no Lexus preto com um cigarro entre os dedos. Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, sendo a primeira vez em que o jovem o via daquele jeito. Sem pensar, Renji se aproximou. Estava imaginando se ele o esperava. Era madrugada de sábado para domingo, e era sempre naquele horário que largava serviço no fim de semana. Byakuya sabia disso.
Kuchiki pensou em elogiar a comida, enaltecendo mais uma vez o talento culinário do ex-aluno. Também sentiu vontade de contar sobre o jantar com Manami, e de como o noivado deles havia sido definitivamente rompido. Mas ao invés de puxar qualquer assunto, Byakuya permaneceu imóvel, com as costas apoiadas no carro. Tragou o tabaco mais uma vez, direcionando os olhos cinza ao mais jovem.
— Se importa se eu fumar também? — Renji perguntou, tirando um cigarro do bolso. O professor apenas acenou com a cabeça, observando seus movimentos. O corpo alto se aproximou devagar, perigosamente com o cigarro nos lábios. O rosto se inclinou para baixo, chegando bem perto até que a ponta de seu cigarro encostasse ao de Byakuya, aproveitando do fogo para acendê-lo.
Os dois ficaram ali, aproveitando o clima da madrugada quente e da companhia um do outro. Depois de um longo tempo, Renji quebrou o silêncio.
— Quem era a mulher que estava com o senhor hoje?
Byakuya sentiu um arrepio. Quer dizer que Renji estava lhe observando?
— Uma antiga colega — respondeu, soltando a fumaça entre os lábios. Jogou o cigarro no chão e o apagou com o pé, mesmo não sendo algo que faria normalmente. Estava com pressa. — Encerramos um negócio de anos hoje. Não pretendo vê-la outra vez.
— Entendi. — Renji tragou mais um pouco. — É isso que você diz quando termina um relacionamento?
Mais um arrepio. Ele havia dito informalmente.
— Acredite em mim. Aquilo não era um relacionamento.
Byakuya sorriu, achando graça. Renji apagou o cigarro, depois chegou bem perto.
— Estava esperando por mim? — A voz rouca do ruivo tocou diretamente os ouvidos do Kuchiki, fazendo-o tremer da cabeça aos pés. Estavam a poucos centímetros de distância, os olhares fixos um no outro.
— Sim — respondeu com sinceridade. Sem querer, olhou para a boca do mais alto. Naquele momento, pensou que sua pergunta não era direcionada apenas ao fato de estar esperando-o sair do serviço. — Eu... precisava ter certeza.
— Então, você tem certeza agora?
Byakuya levou uma das mãos até o rosto de Renji, como fez no último dia em que deu aula a ele. Acariciou o maxilar com a ponta dos dedos e chegou perto até que a distância entre eles fosse inexistente. O professor trouxe o rosto dele para o seu, tomando os lábios em um beijo tão esperado.
Beijar Renji foi a coisa mais intensa que havia feito na vida até então. A intimidade que cultivou junto a ele até aquele dia permitiu que ambos agissem como bem entendiam, evitando delicadezas e receios. A mão grande do mais alto agarrou a cintura do professor, trazendo-o para mais perto com um puxão. Com as pernas trêmulas, Byakuya se apoiava nos ombros largos, tentando acompanhar o ritmo dele. A boca quente quase o engolia, a língua molhada invadindo sem pedir permissão. Podia sentir o gosto forte do tabaco e menta. As costas eram pressionadas contra a carroceria do carro, o corpo robusto se debruçando contra o seu.
Byakuya quis rir quando a mente lhe pregou uma peça, fazendo-o se lembrar do dia em que ele e Hisana trocaram seu primeiro beijo. Era dia em um parque bonito. Confessou seus sentimentos depois a tomou nos braços com gentileza, selando os lábios de forma doce.
Agora, estava nos braços de outro homem, sendo agarrado intensamente quase no meio da rua. Renji soltava sua boca às vezes para beijar seu rosto, depois o pescoço. Sem forças para reagir a qualquer coisa, Byakuya apenas deixava que ele fizesse o que queria, agarrando a camisa de banda para descontar as sensações. Só não esperava que o ruivo fosse parar abruptamente o que fazia, privando o mais velho de seu calor.
— Me diz... — Renji disse, quase gritando. — Por que isso pareceu tão familiar?
Byakuya riu, para depois descansar a cabeça no peito de Renji. Colocou os braços em sua volta, recebendo o mesmo gesto em retorno. Mesmo que concordasse com o que foi dito, preferiu não falar disso agora. Parecia bobo diante de tudo que estava sentindo.
— Quem se importa com isso? — O professor disse risonho, extasiado, sem poder conter o quanto estava feliz. Quase gemeu quando recebeu um carinho no topo da cabeça. — Renji...
— Sou eu.
— Se eu disser que estou apaixonado por você vou soar redundante?
— Sim, mas quem se importa com isso?
Se olharam brevemente, trocando um beijo um pouco mais lento dessa vez. Não foi naquela noite que confessaram seus verdadeiros sentimentos em palavras. Também não foi naquela noite em que começaram a namorar, ou fizeram sexo pela primeira vez. Naquela noite, Byakuya levou Renji para casa como de costume. Quando chegaram na casa do mais jovem, despediram-se com mais um beijo intenso e molhado. Depois, mesmo que estivesse morrendo de vontade de aceitar o convite que Renji fez de subir e conhecer seu apartamento, Byakuya apenas seguiu caminho para a própria casa.
Naquela noite, o sonho foi o mais belo de todos. Parecia a memória de uma noite feliz, quando o jardim estava enfeitado com lanternas por toda parte. Estavam deitados sobre toalhas brancas, espremidos, abraçados, admirando o começo da noite. As pétalas rosas caíam sobre eles, como se estivessem em festa. Renji dormia profundamente feito criança manhosa, enroscando no corpo desperto de quem sonhava. Byakuya cobriu o ruivo com o cachecol e beijou sua testa, sussurrando que o amava bem ao pé do ouvido.
Kuchiki Byakuya aprendeu a amar Abarai Renji sem esforço. Amava seus defeitos e qualidades, amava o quanto ele se esforçava para deixá-lo feliz. As demonstrações de afeto aconteciam dos dois lados de forma intensa; gostavam de se beijar nos corredores da escola quando não tinha ninguém olhando. Visitavam-se agora, indo além de toques comuns quando estavam completamente sozinhos. Byakuya aprendeu a amar de maneiras diferentes quando estava com o ruivo, alcançando a plena felicidade mais uma vez.
Graças ao seu segundo amor, Byakuya mudou, sendo mais verdadeiro com as pessoas próximas. Enfrentou sua família sem medo, encerrando os assuntos de casamento arranjado e o emprego tedioso no escritório de uma vez por todas. Apresentou Renji aos amigos e à Rukia, sendo claro ao dizer qual era a posição do ruivo em sua vida.
A naturalidade com que amava Renji era assustadoramente familiar, às vezes. Já haviam conversado sobre isso, pois era algo muito recíproco. No entanto, o assunto não ia muito pra frente, visto o quão cético era o homem mais velho. Apesar disso, achava bonitinho quando o jovem dizia que eram almas gêmeas.
Byakuya apenas contou a Renji sobre seus sonhos dois anos depois de começarem a namorar. Nunca falava daquela parte de sua vida, que por muito tempo foi incômoda e dolorosa. Não achava que era relevante mencionar os sonhos até que seu ex-aluno, e agora namorado, começou um assunto, certo dia.
— Você acredita em destino, ou coisas assim? — Renji perguntou. Estavam na casa do mais velho, conversando depois de um jantar espetacular feito pelo ruivo. Aquela pergunta já havia sido feita, de outro jeito. A resposta que o professor queria dar dessa vez era diferente.
— Sim... e não. — Byakuya soou estranho. Pensou um pouco no assunto antes de continuar. — Predestinação nunca foi algo que acreditei. No entanto, algumas coisas me fazem questionar isso.
— Como o quê, por exemplo?
— Você.
Renji engoliu seco. O rosto estava vermelho, principalmente por notar o quão sério o namorado falava.
— Eu sonhei com algo estranho essa noite. — Renji começou a falar, despertando um interesse ainda maior em Byakuya. Endireitou-se no sofá e olhou nos olhos cinza. — Estávamos nós dois, diante desse vasto campo de cerejeira. Não ria do que vou dizer, mas... aquela cena parecia mais uma...
— Uma memória — interrompeu, já impaciente. Byakuya tremia, ficando nervoso com mais aquela coincidência. — Descreva o lugar.
— Era um jardim típico de uma casa grande e velha. Era muito bonito e florido. Tinha cerejeiras por toda parte e uma árvore cheia de flores vermelhas estava atrás de nós dois. Você usava uma dessas atrás da orelha.
Apesar de poucas diferenças, o local descrito por Renji era o mesmo de seu sonho recorrente. Ficou todo arrepiado quando ouviu o namorado dizer aquilo, perdendo a fala por algum tempo. Contou então a ele sobre seus sonhos, como aconteciam desde pequeno e como foi mudando à medida que as coisas foram acontecendo. Descreveu Hisana, os pesadelos e o vermelho que surgiu quando Renji entrou em sua vida. Quando acabou de falar, seu lado cético adormeceu por completo.
— É como se eu estivesse me lembrando de algo que aconteceu eras atrás — começou o Kuchiki, quase não acreditando na besteira que iria dizer. — Recordo de cada sonho como se fosse uma memória distante, real.
Byakuya colocou a mão na cabeça, sentindo tudo girar. Agora que parava para pensar, seus sonhos sempre foram assim. Vívidos, cheio de detalhes e coincidências com a vida real. Era como o destino, mas ao mesmo tempo, como algo que já foi vivido antes. O Byakuya dos sonhos parecia um samurai respeitado, enquanto Renji… Não sabia dizer com certeza. Usavam roupas parecidas, mas ele estava sempre adormecido. Até em suas memórias o ruivo estava cansado. Byakuya sentiu o canto do olho lacrimejar. Estava ficando louco por ter quase certeza de que seus sonhos eram lembranças de uma outra vida. Renji foi para perto e o abraçou forte, como se lesse seus pensamentos.
— Acho que nós dois estamos loucos. — As mãos recém tatuadas se embolaram nos cabelos pretinhos, deixando um carinho ali. — Eu quero ir até lá um dia.
— Lá? Onde?
— No lugar que só nós dois conhecemos.
E no primeiro dia da primavera, quando o aniversário de morte de Hisana chegou, Byakuya viu aquele lugar fora de seus sonhos.
Renji o acompanhou quando visitou o túmulo da mulher. Ao contrário dos anos anteriores, ele não parecia tão deprimido em ir até aquele ali naquele dia. De mãos dadas, passearam pela cidade, e o ruivo disse que queria levá-lo a um encontro especial. Conversaram durante um caminho extenso, falando sobre tudo que não fosse onde estavam indo.
Depois de um tempo, os dois chegaram até um parque repleto de cerejeiras. As flores ainda estavam começando a nascer, mas mesmo assim era possível ver algumas pétalas rosa voando junto ao vento. Adultos e crianças passeavam pelo lugar, dando a impressão de que ali era cheio de vida. Ao longe, podia se ver pessegueiros mais floridos. À medida que andavam, conseguiam ver um lago resplandecente, onde algumas carpas pulavam. Renji só parou quando chegou a uma árvore solitária, onde algumas flores vermelhas desabrochavam timidamente.
— Eu sei que não é como você imaginava… — disse o ruivo, sentindo-se envergonhado. Segurou agora as duas mãos do mais velho, olhando-o nos olhos. — Mas quando eu vi esse lugar, eu não consegui parar de pensar que...
— É aqui.
Byakuya deu mais uma olhada ao redor, sentindo-se esquisito. Reconhecia a velha camellia mesmo que não estivesse florida. O pequeno lago, mesmo sem a ponte. As cerejeiras, que eram em menor quantidade do que se lembrava. Olhou para algumas crianças brincando além do lago, imaginando que deveria ter uma casa ali. O coração batia forte, transmitindo uma emoção forte que transbordava os olhos.
— É aqui — repetiu choroso, olhando Renji agora. — Você consegue sentir também?
— Sim. — O ruivo guiou Byakuya levemente até a camellia, fazendo-o encarar a árvore. — Como é possível?
O sol fraco começava a sumir no horizonte. Byakuya viu os raios atingirem o namorado, que estava de frente para a árvore. Aquela imagem era brilhante demais para os olhos sensíveis do Kuchiki, que jurou estar vendo coisas. Uma camélia caiu da árvore, e Renji a segurou antes que atingisse o chão. Ao olhar as mãos do rapaz, viu que uma linha tão vermelha quanto a flor estava amarrada ao mindinho dele. Seguiu o fio com os olhos, até perceber que a outra ponta estava amarrada no próprio dedo. Piscou uma, duas, três vezes até que aquela linha desaparecesse.
— Eu estou sonhando de novo? — lamentou, olhando fixamente para a própria mão.
Foi então que o vermelho vivo dos cabelos de Renji apareceu novamente em sua visão. O namorado sorria daquela forma brilhante, que aquecia o coração de Byakuya. A cintura foi agarrada e em seguida, sua boca foi tomada por um beijo leve e abrasador. O calor não era um sonho; não era uma lembrança. Renji estava ali, sua presença era real.
— Eu te amo — disse o ruivo assim que soltou os lábios finos. O crepúsculo que os banhava tornou tudo muito familiar. De repente, Renji só queria dizer uma coisa. — Eu serei seu, e apenas seu, até o fim.
As palavras atingiram Byakuya, que despreparado, soltou as lágrimas que estava segurando desde que chegaram ali.
Por que parecia que já ouviu aquilo antes?
— Eu também te amo, Renji. — Abraçaram-se, e o sol desapareceu por completo no horizonte. — Daqui, até depois do fim.
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