O Luar Carmesim
1 Freya
Era noite, no céu a lua cheia refletia o máximo de luz possível. Nas antigas religiões pagãs dizia-se que a noite de lua cheia era mágica, aumentando a força de feitiços realizados nesses dias, especialmente no seu ápice. Até mesmo as religiões mais modernas possuem certo misticismo relacionado a ela e suas fases. Você não vai encontrar isso escrito em livros por aí, e sim escutar de mães cujos filhos não conseguem levantar-se da cama devido a uma força desconhecida, ou amantes que seus amados desapareceram sem nenhuma explicação no meio da noite.
Na periferia de certa cidade no interior da França, havia um parque que se estendia por quilômetros. No fim deste parque tinha campos de fazendas locais, com seus proprietários tentando sobreviver o dia a dia com o que conseguiam cultivar e com os animais que conseguiam manter. Este parque possuía um ou dois caminhos pavimentados em que o movimento, principalmente durante o dia, era maior. Era uma alternativa as estradas movimentadas de carroças e carruagens levando pessoas importantes onde elas deveriam estar e viajantes que não podiam se atrasar para perder a mais nova peça dos teatros de Paris.
Havia uma ou outra trilha menos desconhecida, poucas pessoas as usavam porque se você não conhecesse o caminho acabaria em um local completamente diferente do pretendido. Em uma dessas trilhas, durante essa noite incomum de lua cheia, caminhava uma garota. Ela conseguia sentir a magia emanando das árvores, dos sons noturnos da mata, do brilho da lua cheia que iluminava seu caminho, das flores sem cor que se mostravam apenas aqueles que se aventurassem a encarar o perigo que a noite apresenta.
Ela estava feliz, sorrindo e cantarolando uma canção que sua avó sempre cantava ao contar as histórias de antigamente, quando a vida era mais do que seguir palavras ditas por outras pessoas que fingem querer o seu bem e se escondem atrás de um livro como sua verdade absoluta, dobrando e interpretando suas palavras para conseguirem o desejado.
Apesar do céu claro, com várias estrelas adicionando seu brilho ao da lua, começou a cair uma chuva, primeiro algumas gotas, depois de alguns minutos o suficiente para encharcar a moça e a cesta que ela carregava em seu braço direito. Mas isso não piorou seu humor, como teria feito com a maioria das pessoas, teve o efeito contrário, aumentou seu sorriso e fez seu canto ficar mais alto, atraindo boas energias.
Ela encontrou um pequeno gazebo feito de bambú entrelaçado, com vinhas envolvendo-o, como uma proteção. Depois de adentrá-lo ela colocou a cesta no chão, ajoelhou-se, retirou e organizou os itens de seu interior em um banco pendurado do teto, com vinhas nas correntes: uma simples garrafa de vidro com vinho de amora do ano retrasado na metade; um pão assado por ela algumas horas mais cedo com uma mistura especial de ervas no tempero, receita de sua avó; uma adaga e um espelho de mão com punhos de prata; uma pequena bacia prateada e um vidrinho com uma poção esverdeada.
Cuidadosamente ela colocou a bacia no centro do banco, o barulho da chuva aumentando ao seu redor, depositou um terço do vinho na bacia e algumas gotas da poção, sua superfície refletia a lua. Dizendo palavras em uma língua estranha e que dificilmente seria reconhecida na região, ela arrancou um pedaço de pão e o saboreou. Então pegou a adaga com a mão direita e fez um corte no indicador esquerdo, derramando as gotas frescas de sangue com o vinho, que ela ingeriu.
De repente a chuva parou de cair. Ela pegou o espelho e se olhou, recitando os últimos versos do encantamento, com seus cabelos da cor do fogo esvoaçando ao vento, ela sentiu como se não olhasse para si mesma e sim para uma entidade antiga e quase esquecida pelo mundo. Sentindo uma presença por perto, ela levantou-se, o vestido verde molhado parecia pulsar em seu corpo. Virando-se ela encontrou um homem com um terno de preto tão vivo que parecia que tinha vida própria. O homem tinha os olhos e cabelos negros e os lábios finos eram de um vermelho que se destacava contra sua pele pálida:
— Aqui estou.
— Eu não tinha certeza que iria funcionar, ouvi as histórias, tinha minhas dúvidas, é surreal.
— Não deveria se envolver com o que não acredita, mon chéri. Aqui estou e irei cumprir meu propósito.
— Sim, sempre acreditei, minhas dúvidas eram se, dentre as diferentes versões de como realizar o feitiço, eu escolhi a correta.
— No fim o jeito não importa, sim o propósito. Eu sei o que você deseja e você sabe o que precisa entregar em troca.
Com um aceno de cabeça e com um gole em seco ela deixou o espelho cair no chão, se espatifando e desatou os laços de seu vestido, deixando-o cair a seus pés. O homem a envolveu num abraço apertado, assustador e prazeroso ao mesmo tempo, deitando-a no chão coberto de cacos de vidro, onde fizeram amor com vidro, cortando sua pele alva, e sangue jorrando através das frestas de madeira, atingindo a terra molhada abaixo deles.
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