Daenerys
15 anos

Embora não estivessem se falando direito desde o aniversário de Sansa, ela não conseguia se manter muito longe de Jon. Por isso, quando recebeu a mensagem da mãe dizendo que o garoto estava no hospital, ela abandonou o treino do time de decathlon para vê-lo.

— Você não tinha as atividades do clube? — A senhora Rhaella a encontrou na recepção do hospital. — Não pensei que fosse vir para cá.

— Oi, mãe. Achei que a senhora fosse estar com ele no quarto. — Dany agarrou as alças da mochila sem jeito, perguntando-se se a mãe podia ler seus pensamentos.

— Eu estava, mas Lyanna conseguiu sair do trabalho e vir para cá. Tenho uma reunião em meia hora, então seu pai está vindo me buscar. — A mãe puxou o celular da bolsa, claramente angustiada com o imprevisto de Jon. — Quer que ele te deixe em casa?

— Vou ver o Jon. — Dany meneou a cabeça negativamente, sentando-se ao lado da mãe. — Ele está bem?

— Ninguém está bem num hospital. — A mãe riu. — Ele não tem nada grave, só torceu o braço. Com o estardalhaço que seu irmão fez no telefone, pensei que meu neto estava à beira da morte. — Ela revirou os olhos enquanto guardava o celular. — Mas são só uns arranhões e uma torção. Jon vai sobreviver.

— Rhaegar exagera às vezes.

— É o único filho dele. — A mãe deu de ombros.

— É meu único sobrinho. — Dany suspirou teatralmente, colocando-se de pé. — Vou dar uma olhada nele, depois dou um jeito de voltar para casa.

Ela despediu-se da mãe e escapuliu da recepção o mais rápido que o atendente no balcão permitiu. Nas últimas semanas, a ideia de passar muito tempo com a mãe lhe dava medo. As mães sempre sabem, mas ninguém pode saber.

Quando chegou ao corredor de Jon, Dany encontrou com Lyanna logo à porta do quarto. Pela primeira vez, deu-se conta de que a consciência de mãe também se aplicava à cunhada, e ela sempre fora boa com adivinhas.

— Oh, você também veio? — Lyanna lhe sorriu. Tinha os cabelos desalinhados e uma expressão cansada, mas permanecia bela como sempre. — Seu irmão mandou uma mensagem para você também? — Ela revirou os olhos. — Rhaegar pensa que uma torção é o fim do mundo.

— Ele também agia assim comigo quando eu era mais nova. — Dany sorriu também, invadida pela nostalgia.

— Ainda faz. — A cunhada riu docemente. — Pode ficar de olho no Jon por quinze minutinhos? Saí correndo da escola e ainda não consegui almoçar.

Nem bem ela aceitara o pedido, Lyanna já estava a agradecendo e andando apressada para o elevador. De repente, Daenerys percebeu que teria de ficar a sós com Jon e o segredo do beijo. E embora estivesse ávida para vê-lo, não podia deixar de sentir a costumeira ansiedade. Como as outras garotas conseguem lidar com esse tipo de coisa?

Engolindo em seco, ela adentrou o quarto determinada a controlar as próprias emoções e não permitir que nada de vergonhoso transparecesse aos olhos do sobrinho. Porém, quando o garoto lhe abriu um sorriso a guisa de cumprimento, parte de sua concentração caiu por terra.

Jon estava sentado na primeira cama do quarto, com o braço direito envolvido numa tipoia de pano. Ainda vestia o uniforme do colégio, com as pernas da calça emboladas na altura do joelho. Na parede oposta ao leito, a televisão mostrava algum filme de Harry Potter.

— Não acredito. Toda a família já está sabendo?

— A nossa, sim. — Dany deixou as alças da mochila escorregarem por seus braços e foi sentar-se ao lado da cama dele.

— Fiquei sabendo que meu pai está fazendo uma tempestade num copo d’água.

— É o mal dos Targaryen, eu acho. — Dany riu com um quê de nervosismo.

— Acho que sim. — Jon pigarreou, virando-se para ela. — Você tem fugido de mim.

Daenerys recuou na cadeira, assustada como se tivesse sido pega no flagra. Uma formigação incômoda correu pela pele de seu rosto, desde o lóbulo das orelhas até as bochechas.

— O quê?

Jon sorriu como se ela tivesse caído em sua armadilha. No entanto, um segundo depois, ele já havia voltado para sua expressão branda.

— Eu fiz alguma coisa?

— Você? — Daenerys arregalou os olhos para ele, percebendo, logo em seguida, que estava quase gritando. Encabulada, pôs uma mecha do cabelo prateado atrás da orelha e voltou o olhar para os joelhos ralados de Jon. — Não, você não fez nada.

— Mesmo? — Jon inclinou-se para ela, tentando ver sua ver-lhe o rosto. — Sabe que pode me contar sem problema nenhum, não é?

Dany ergueu os olhos para ele e soube que estava prestes a trair a si mesma.

Vinha o evitando desde o beijo como precaução para o caso de Jon ressentir o beijo. Ignorara mensagens, desviara dele pelos corredores do colégio e fugira dos almoços em família – mesmo sabendo que não poderia continuar assim para sempre. Porém, em um piscar de olhos, Jon estava quebrando suas defesas. Não é justo.

— O beijo — murmurou, desejando fundir-se com a cadeira.

— O quê? — Ele aproximou-se mais.

— O beijo. — A voz de Daenerys falhou uma oitava, mas as palavras saíram com um tiro de sua boca.

Jon endireitou a postura na cama, parecendo desconcertado.

— Você... — Ele desviou os olhos para a televisão. — Não gostou?

— Você gostou?! — Dany o encarou perplexa. — Quero dizer...

— Eu não tenho muita experiência com beijos. — Jon sorriu com um dar de ombros.

— Pensei que... que você... — Ela gesticulou debilmente, mal conseguindo juntar as palavras.

— Que eu tivesse ficado bravo? — Jon riu frouxo, voltando a fitá-la. Havia ternura em seus olhos escuros, e a barba que começava a nascer ao redor da boca o fazia parecer ainda mais maduro. — Não, não. Fiquei confuso e com um pouco de medo, mas não bravo. E não contei para ninguém — acrescentou depressa.

Um suspiro aliviado soprou pelos lábios de Dany. Entretanto, seu coração não pôde descansar.

Antes que seus olhos focalizassem Jon novamente, os lábios dele estavam sobre os seus. Foi um contato breve, porém, caloroso. E assim que se quebrou, ela foi agraciada com um sorriso.

— Agora estamos quites. — Jon tirou a mão de seu ombro e recolheu-se para a cama. — Vai ser o nosso segredo.

— Que segredo?

Lyanna surgiu à porta do quarto, e Dany sobressaltou-se na cadeira. Por um instante, ela temeu que a cunhada tivesse visto a cena. Mas ela estava concentrada demais em seu pedaço de torta holandesa.

— Se eu pudesse contar, não seria um segredo, mãe. — Jon soltou um riso rouco.

Dany começava a achar que segredos eram tão doces e pesados quanto os dragões que voavam dentro de seu estômago na presença de Jon.