O Lobo e a Raposa

1 O Lobo e a Raposa


Notas iniciais
Oi pessoal, já faz um bom tempo que eu não venho aqui e eu estava morrendo de saudade >///
Isso aqui eu fiz para concurso Boy`s Love Histórias de Amor sem Preconceitos!
Mas nem deu né - isso é que dá fazer um dia antes da entrega - então arrumei um pouquinho aqui mudei mais um pouco lá e ficou assim.

A manhã era fria. Não fria como se vários cubos de gelo estivessem por todo lado, mas fria. Como Luca gostava.

Acordou um pouco antes do despertador, com um pequeno raio de sol que passava por uma parte mal coberta da janela. Sorriu. Gostava de acordar daquele jeito, foi ai que aparelhinho começou a tocar sua musica favorita, marcando 07h00min.

Tirou as cobertas pesadas de cima de si e saltou da cama, indo abrir as cortinas de uma só vez, sorriu ao constatar que o céu estava completamente livre de nuvens. Voltou-se ao quarto e pegou sua toalha, foi se despindo até o banheiro.

Ligou o chuveiro, ainda cantando a música e se animando mais ainda. Ao contrário de muitos, senta-se bem em acordar cedo, sabia que tinha mais tempo no dia e com a sua música tocando era melhor ainda.

Secou-se e foi para o quarto, vestir uma roupa confortável. Logo depois saiu do cômodo e foi para a cozinha, abriu as cortina e janelas, fazendo o ambiente ficar mais agradável, amarrou os cabelos ruivos e começou a fazer o café da manhã. Aquela era uma manhã especial, então fazia questão de caprichar. Estava tão animado que nem percebeu que havia deixado suas orelhas e cauda, da mesma cor do cabelo, aparecerem.

O cheiro do café forte invadiu suas narinas quando colocou a água quente no coador, fazendo-o respirar fundo e suspirar de prazer. Adorava aquele cheiro e tinha certeza que o outro iria gostar também.

Enquanto esperava o café, foi fazendo as outras coisas.

Pegou a toalha de mesa azul clara e estendeu-a, logo arrumando a comida sobre ela. Por fim admirou-a e suspirou aliviado, tinha dado trabalho, mas valia a pena. Sorriu mais uma vez e saiu da cozinha, iria ao quarto do outro.

Cruzou os dedos, torcendo para que ele gostasse da surpresa.

Entrou no cômodo silenciosamente e fechou a porta, a pouca luz que vinha das frestas das janelas iluminavam a cama. Riu baixinho ao ver que o outro estava inteiro sob a coberta. Aproximou-se e sentou no colchão.

- Rafa... – Sussurrou. – Rafa, acorda... – Inclinou-se para tirar o cobertor de cima da cabeça do outro e se assustou com o ataque repentino. – Ah!

O moreno puxou-o rapidamente para debaixo do cobertor e o agarrou, impedindo-o de sair dali.

- Hm... – Resmungou.

- Você tem que levantar! — Riu

- Não quero. Prefiro ficar aqui com você. – Apertou-o, afundando o rosto em seu pescoço. Depois de tanto tempo ainda não tinha se acostumado muito com as demonstrações de afeto exageradas do mais velho.

- Não, seu bobo. – Deu um leve tapa em seu ombro, corando um pouco. – Você sabe que hoje é um dia importante.

- Sei é? – Ainda preguiçoso.

- Sabe sim senhor. A entrevista. – O moreno era um novelista famoso e naquele dia daria uma entrevista para uma importante rede de televisão.

- É mesmo... Eu sei...

- Então vamos logo. Eu tenho uma surpresa para você!

- Sério? – Finalmente Rafael levantou e se espreguiçou. – Então vou tomar uma ducha e vou ver sua surpresa. – Beijou a bochecha do menor, que já tinha se sentado na cama. – Ah, suas orelhas. – Acariciou-as e ele corou, finalmente percebendo-as, olhou para a cauda e as recolheu, estava cada vez mais difícil controlar. – Ei, eu gosto delas. – O moreno reclamou.

- É meio preocupante... – Falou baixo, ignorando a fala do outro. – E se elas aparecerem em público?

Os dois eram modifiers, ou seja, humanos que se transformam em animais. Muitos viviam nas cidades, e todos tinham que esconder suas formas. Mas para o pequeno estava ficando difícil controlar a transformação.

- ...Relaxa, eu sei que você consegue controlar. – Deu um sorriso gentil e acariciou seus cabelos. – Se você quer saber, comigo também foi assim.

- S-Sério?! – Luca arregalou os olhos.

- Sim, por que acha que eu vivia de touca? Era difícil disfarçar a cauda, mas depois eu comecei a amarrar a blusa na cintura, lembra? – Riu.

- Nossa...

- Por que está tão surpreso?

- É meio difícil de acreditar que você tenha tido esses problemas...

- Por quê...? Todo tem alguma dificuldade nessa época. – Franziu o cenho.

- Ah, bem... sua espécie é superior... – Falou meio tímido.

Rafael era um lobo negro, uma das espécies mais renomadas, por serem ferozes e ágeis, era raro vê-los perderem um luta. Enquanto o ruivo era apenas uma raposa comum. “Nem ao menos uma raposa branca...” Pensava. Estas eram mais reconhecidas, por serem belas e ao mesmo tempo perigosas. Certo, sabia que sua espécie era inteligente, rápida e por vezes traiçoeira, o que de certa forma não era bom, mas ajudava em alguns casos. Mas ele não era nada disso. O pequeno era lerdo, em todos os sentidos, não tinha nenhuma habilidade, a não ser naquilo que mais amava, ou seja, artes cênicas e cozinhar para o amado, duas coisas nas quais teve que trabalhar duro para conseguir.

- Superior? – Perguntou sério. – Não diga isso, você não é inferior, eu já vi muitas raposas serem melhores que lobos... Principalmente você que é a mais fofa de todas, na verdade de todas as espécies. – Abraçou-o forte, sorrindo.

Luca sentiu o rosto pegar fogo. Ah, se o outro soubesse o efeito que aquelas palavras tinham sobre ele...

- Vou lá tomar minha ducha. – O moreno soltou o menor e entrou no banheiro.

- Tá... Vou te esperar aqui! – Falou um pouco mais alto para o outro ouvir.

- Ok!

Desde quando conseguia se lembrar, gostava do maior, não um gostar de amigo, mas um gostar especial. Sorriu ao lembrar-se de como se conheceram. Rafael era amigo do irmão e os dois estavam no quarto deste, jogando vídeo game, quando o pequeno entrou.

- Irmão... Ajuda? – Estendeu a lição em que tinha que completar as palavras com algumas letras.

- Sai pirralho! Não vê que estou ocupado? – Falou sem desviar os olhos da TV e ajeitando os óculos.

Já iria abrir o berreiro para a mãe fazer o outro ajudá-lo quando Rafael se manifestou.

- Não o trate assim, ele é seu irmão fofinho. Olha só a carinha dele. – Pausou o jogo e pegou-o no colo. O pequeno ficou perplexo, nenhum dos amigos do irmão tinham agido daquele jeito.

- Fala isso por que não vive com essa peste.

- Você também não é nenhum santo, Marcos. Vem. Eu te ajudo. – Sentaram-se na cama do outro e começaram a fazer.

- Afe... Toma cuidado, que depois que ele acostuma, não larga mais. – Falou voltando o jogo e aproveitando que o amigo não estava perto, matou seu personagem, ganhando mais pontos e itens. – Isso!

- Que nada. Ele já é grandinho o suficiente para agir assim, certo? – Afagou seus cabelos e o menor assentiu, sem desgrudar os olhos.

- “Grandinho” você fala. Ele nem consegue esconder direito sua forma ainda...

- Não enche. – Respondeu rindo.

A partir daí, o garotinho deixou de ser tão mimado, não queria decepcionar o outro e sempre quando este ia à sua casa, arranjava milhares de desculpas para ficarem perto. Foi ai que descobriu seu primeiro e único amor.

Os anos se passaram e mesmo Rafael tendo mudado de cidade, eles não perderam contato. Sempre se falando por telefonemas ou e-mails. Até que um dia Marcos ligou para o amigo, pedindo para que deixasse o irmão ficar em seu apartamento, pois este tinha passado em uma faculdade de artes cênicas na mesma cidade. O moreno aceitou feliz, considerava o ruivo um alguém especial e faria de tudo para deixa-lo bem.

Luca chegou acanhado e meio incomodado por estar invadindo o lugar do outro, até quis dividir o aluguel, mas Rafael não permitiu, disse que apenas fazendo as tarefas domesticas estava bom. O tempo foi passando e o menor foi se acostumando, percebeu que poderia ficar sempre ao lado do outro e começou a aproveitar mais. Ficava triste quando este não passava a noite em casa, imaginando-o com mulheres, o que não passava despercebido pelo outro, que achava, e de certa forma estava certo, que o pequeno se sentia sozinho, assim suas saídas foram ficando cada vez mais raras, não ligava muito, até por que elas eram apenas para festas sociais.

O ruivo ouviu a porta do banheiro se abrir e seguiu Rafael com os olhos, ele estava apenas de toalha, mostrando o peitoral definido e as costas largas com algumas cicatrizes, o filho do líder da matilha devia ter muito treinamento, mesmo que o moreno não quisesse. Já tinha deixado bem claro ao pai que não queria aquilo, mas este não desistia. Quando era pequeno sempre via o moreno machucado e com uma expressão triste, naquela época não entendia o que acontecia, mas todas as vezes tentava animá-lo.

Viu que o moreno deixou a peça cair para ele se vestir, sentiu o rosto esquentar com a visão do corpo e virou-o.

- Vamos? – Chamou quando terminou de se vestir.

- V-Vamos. – Luca levantou-se da cama.

Saíram do quarto.

- Espero que goste. – Sorriu fraco.

- Vindo de você, eu gosto de tudo.

Sentiu o coração palpitar e riu.

Chegaram à cozinha, e a visão da mesa fez o moreno soltar uma exclamação.

- Wow! Você fez tudo isso?! – Na mesa estavam vários pratos deliciosos. Como panquecas, torta, torradas com geleia, bolo, suco, além de café, sua bebida favorita.

- S-Sim. – Corou.

- Nossa... – Sentou-se e se serviu do café. – Hm... te amo Lu!

O café da manhã se passou animado, entre conversas sobre a entrevista de emprego do mais velho e a faculdade do ruivo.

Quando acabaram os dois lavaram a louça e cada um foi para seu quarto, se arrumar para o próprio compromisso.

Luca vestiu um jeans azul mais justo e uma blusa branca e soltou os cabelos, deixando-os cair sobre os ombros. Olhou-se no espelho e tentou arrumar a franja da melhor maneira possível, quando estava satisfeito, voltou-se para suas sardas. Não gostava nem um pouco delas, mas fazer o quê? Suspirando, pegou um tênis qualquer e foi esperar o outro na sala.

Arregalou levemente os olhos quando o viu. Os cabelos negros, geralmente bagunçados, estavam penteados para trás, vestia camisa social branca sob um terno preto, calça social preta e um sapato.

- Pareço apresentável? – Perguntou esticando os braços.

- Quê? Ah, s-sim.

- Ótimo. Vamos. – O maior pegou as chaves do carro e saíram.

~*~

- O que vai ser agora? – Fred perguntou bocejando.

- Eh... – O ruivo olhou no papel de aulas. – Interpretação... Você preparou sua apresentação? – Andavam nos corredores da faculdade, indo para a sala.

- Claro que sim! E vai ser a melhor de todos da sala, eles não tem muito futuro sabe. Sem ofensa. – O loiro respondeu cheio de si e Luca riu, já era acostumado com a excessiva modéstia do baixinho.

Sim, baixinho. O amigo conseguia ser menor que ele.

- Tudo bem.

- Hum... – Grunhiu percebendo a diversão do amigo. Foram os primeiros a chegarem à sala e Fred correu na frente para sentar no palco. – E o que você preparou? – Perguntou, virando-se para o maior. Acabou por ter uma crise de risos.

- Q-Que foi? – Luca olhou por sobre o ombro, procurando o motivo da risada, mas não achou nada.

- Ha ha... A sua apresentação vai ser de animais?! Que fofo. – Voltou a rir. – Ai minha barriga!

- Animais...? – O ruivo entendeu e tocou sua cabeça, confirmando o que temia. As orelhas tinham aparecido novamente. Assustado, saiu correndo dali.

- Ei! Espera! Ha ha... Foi mal! Não fica chateado. – Tentou para-lo, mas não conseguiu.

Luca procurava um lugar para se esconder, correndo e trombando com várias pessoas no corredor cheio. Tentava esconder as orelhas, mantendo-as baixas e cobrindo com a mão, mas sabia que não estava dando muito certo, já que muitos lhe olhavam estranho.

Entrou na sala onde ficavam os materiais de limpeza. Deu graças aos céus pela chave estar ali e trancou a porta. Largou os livros no chão e pegou a bolsa, foi tirando as coisas de dentro tentando achar o celular. Estava desesperado, não conseguia retroceder a transformação, estava fora de controle. Tentava para-la, mas de repente uma dor aguda atingiu sua espinha, fazendo o objeto em suas mãos caírem.

- Ah... – Ofegou. – O-O quê...? — Ajoelhou-se e pegou o celular discando rapidamente. – Não. – Rafael não estava atendendo. – A entrevista... – Tentou mais algumas vezes e por fim decidiu deixar uma mensagem, rezando para que o outro ouvisse logo. – Rafa... Me ajuda, eu estou na faculdade... Não consigo parar a transforma-Ah! – Gemeu, a dor estava se espalhando. – Tá doendo... – Luca soltou o aparelho e aos poucos foi perdendo a consciência.

Rafael conversava com a apresentadora do programa, mais especificamente falando sobre sua vida pessoal.

- Um novelista famoso como você deve se esforçar para esconder seus segredos? – A mulher de longos cabelos negros perguntou.

- Bem, eu sempre digo que minha vida é um livro aberto... – Começou. – Não exatamente por que eu quero, mas... – Brincou, fazendo uma cara de conformado e a plateia e apresentadora riram.

- Então folheando mais algumas páginas desse livro, soube que você está morando com um garoto muito fofo. – Ela sorriu interessada e a plateia soltou um “uuuh” quando a foto de Luca apareceu no telão atrás deles.

Aquilo desconcertou um pouco o moreno, mas rapidamente ele recuperou a postura e sorriu.

~*~

- Muito obrigada de novo por participar do programa. – Anne, a apresentadora agradeceu quando as filmagens finalmente acabaram.

- Que nada Anne... – Sorriu para a amiga de longa data. – O prazer foi meu.

- O programa vai ao ar na terça que vem. E boa sorte com aquilo... – A morena piscou para o rapaz, que revirou levemente os olhos.

Saiu do estúdio se despedindo de todos e foi só no carro que viu que tinha uma mensagem. Sorriu ao ver que era do ruivo.

“Rafa... Me ajuda, eu estou na faculdade... Não consigo parar a transforma-Ah!” – Ouviu-o gemer de dor. – “Tá doendo...”

- Droga! – Largou o celular e saiu cantando pneu.

~*~

Luca acordou com um carinho gostoso na cabeça. Sentia que estava deitado em uma cama confortável e se sua mente não estivesse ainda banhada pelo sono, ele perceberia que estivera nela naquela manhã. Foi abrindo os olhos aos poucos e preguiçosamente. Tentou se mover, mas algo o impedia, voltou a ficar parado e fechou os olhos, estava bom ali, com os braços musculosos o rodeando... Braços confortáveis...

Braços?!

Abriu os olhos rapidamente e empurrou para longe o corpo que estava junto ao seu, não tendo muito êxito na tarefa, mas pelo menos a pessoa havia lhe soltado e virado para o outro lado. Só ai percebeu quem era.

- R-Rafa? – Perguntou hesitante, sabendo que o outro estava dormindo. Passou a mão em seus cabelos e sorriu. Olhou seu rosto, uma ideia lhe passou pela cabeça, por um momento achou que era loucura, mas... não podia resistir. Aproximou-se mais um pouco e inclinou-se, alcançando sua bochecha e encostou sua boca nela. Afastou-se um pouco, com medo que ele acordasse. Respirou fundo e voltou ao seu lado, olhou os lábios do moreno.

Difícil resistir.

Encostou levemente os lábios nos dele.

Doce tentação.

A ponta da língua escapara da boca, acariciando por entre a boca do outro. Tinha que parar, mas não conseguia, não sabia como...

- Hm... – Afastou-se rapidamente quando o ouviu se mexer e escondeu o rosto corado no travesseiro.

- Preciso dormir... – Sussurrou envergonhado.

Suave delírio.

~*~

- E ai? O que acha que é? – Rafael perguntou meio preocupado. Havia contado tudo que tinha acontecido para Marcos, o irmão mais velho do pequeno. Ele era médico então poderia ajudá-lo. Esperava ansiosamente a resposta. – Fala!

- Calma. – O outro falou meio bravo. – Eu acho que tenho uma ideia do que pode ser...

- O quê?!

- Prepare um quarto... Eu estou indo ai. – O ruivo e desligou o telefone.

- Droga... – Rafael já conhecia o jeito do outro, mas ainda lhe dava nos nervos!

Colocou o telefone no gancho e foi para a cozinha fazer o café.

~*~

Quando Luca acordou de novo viu estava sozinho. Suspirou e se sentou na cama. Lembrou-se do beijo e sorrindo levou uma mão até a boca.

- Meu primeiro... – Murmurou contendo a alegria. Estava feliz por ter dado seu primeiro beijo àquele que amava. Mesmo as circunstâncias sendo meio... diferentes.

- Bom dia! – Rafael exclamou entrando no quarto e sentou-se na cama.

- B-Bom dia...

- Hoje fui eu quem trouxe o café. – Referiu-se à bandeja.

- O-Obrigado. – Agradeceu corado, pegando uma torrada.

Como Rafael não deixou o menor ir para a faculdade, os dois ficaram o dia no sofá, assistindo televisão e conversando.

- Ah! O seu irmão vai vir... – O moreno avisou, já de tardizinha.

- É mesmo? Quando? – Perguntou distraído.

- Não sei... Ele não... – Não pode continuar, pois o barulho da porta sendo aberta com força os assustou.

- Muito bem irmãozinho, vamos ver o que há de errado com você! – Marcos apareceu com uma mala e ficou em frente ao sofá em que os dois estavam.

- Q-Quê?

- Você sabe. As transformações fora de controle e blá blá blá... Vamos começar. Orelhas! – Ordenou. Luca, ainda meio atordoado o fez, deixando as orelhas aparecerem. – Olhos! – Recolheu as orelhas e fez os seus olhos mudarem. — Agora o focinho! – Foi fazendo o que o irmão mandava até o mesmo ficar satisfeito. – Parece estar tudo correto... Interessante. – Nessa hora o telefone tocou.

- Eu atendo. – Rafael falou se levantando do sofá.

- Então? – O menor perguntou ansioso, vendo o mais velho anotar alguma coisa no bloquinho que carregava.

- Eu acho que sei o que é... Mas preciso...

- Sinto muito, mas não poderei ir. – Os dois ouviram o moreno falar, parecia meio nervoso. – Não! – Grunhiu raivoso. – Não adianta... — Marcos tomou o telefone de sua mão.

- Pode deixar, ele vai sim. – E desligou.

- Por que fez isso?! – Perguntou meio alterado. – Você ao menos sabia com que eu estava falando?

- Não faço a mínima ideia, mas para saber o que o Luca tem eu preciso que você passe alguns dias fora.

- Mas...

- Você não quer o bem estar do meu querido irmãozinho. – O ruivo voltou ao lado do irmão mais novo. – Olha só a carinha dele. – Apertou suas bochechas. – Quer que ele sofra?

O moreno ficou olhando para o rosto do menor, viu que ele foi adquirindo uma cor avermelhada por ser encarado por tanto tempo. Suspirou.

- Tudo bem... Vou arrumar minhas malas. – E foi para o quarto.

- Agora, — Virou-se para o irmão. – nesses dias eu vou ficar no seu quarto e você no dele. Combinado? Okay. – Nem esperou a resposta do irmão e já foi indo para o quarto com sua mala.

O menor levantou do sofá e foi para o quarto do moreno.

- Rafa... – Viu que ele já estava mesmo arrumando a mala. – Quem era no telefone?

- Meu irmão... Falando que o velho está doente... – Respondeu sem parar o que fazia.

- Ah, sinto muito.

- Não sinta. Provavelmente é um plano deles. – Virou-se para o pequeno. – Mas obrigado por se preocupar. – Abraçou-o.

- E... Você já vai? – Correspondendo o abraço.

- Sim. Quanto mais rápido eu resolver essas coisas melhor será... E... Se o seu bem estiver longe de mim, eu correrei na direção contrária à sua. – Falou sorrindo, mas Luca ficou preocupado que ele pudesse mesmo ir.

- N-Não fale assim. – Segurou-o pelos ombros. – Você está errado! É ao seu lado que eu fico bem! Eu não te quero longe...! – Cobriu a boca ao perceber o que havia acabo de dizer.

- Oh... – O moreno ficou ligeiramente surpreso com aquilo, mas sorriu. – Eu fico lisonjeado. Venha, vamos nos despedir lá na sala.

Rafael pegou a mala e os dois caminharam até a sala, Luca foi de rosto baixo. Lá viram que Marcos já tinha se acomodado muito bem, todo esparramado no sofá.

- Levanta daí vagabundo. – O maior falou e puxou-o pelo pé.

- Ai!

- Até mais idiota e cuida do seu irmão... – Deu um abraço rápido nele, mas ainda deu tempo de ameaçar: — Senão...

Depois se virou para o menor. Abraçou-o carinhosamente, acariciando seus cabelos. – E quando eu voltar nós conversamos. – Luca sentiu o coração falhar. O moreno se afastou e selou discretamente o canto dos lábios do pequeno, fazendo parecer que fora na bochecha.

~*~

- Pai, eu sinto muito, mas não posso ficar como líder. – Rafael estava no escritório de seu pai, curvado em frente à sua poltrona.

- Como?! Você é o primogênito! – Parecia um pouco alterado. — Isso não é algo para se... Ai! – Colocou a mão sobre o peito e o moreno revirou os olhos, sabia que seria assim...

- Pai! – Não demorou muito e seu irmão mais novo, Alex, já foi ajudá-lo. O loiro sempre fora obediente ao pai. Até demais, na opinião de Rafael.

- Se não se importarem, foi uma longa viagem, portanto irei aos meus aposentos. – Levantou-se e saiu.

Suspirou quando finalmente pode descansar, tinha sido dois dias viajando e o que mais queria era saber como o ruivinho estava, mas seu celular não tinha sinal ali e era orgulhoso demais com sua família para pedir para usar o telefone de lá. Sem perceber, caiu no sono profundo.

No apartamento estava tudo um caos. Logo no primeiro dia que Rafael saiu, Luca voltou a ter problemas, dando a certeza para o irmão. O pequeno já havia se transformado em raposa e não conseguia voltar ao corpo humano. Sentia todos os seus ossos doerem e a única coisa que conseguia dizer era o nome do amado, queria ele ali, precisava dele.

Marcos bufou irritado ao tentar ligar pela décima vez para o amigo, sentia fortes impulsos de jogar o telefone na parede, mas tentava se controlar pelo irmão, era difícil vê-lo sofrendo daquele jeito e não conseguir fazer nada. Tudo bem que fora culpa sua, admitia que usar seu próprio irmão como cobaia não tinha sido uma boa ideia, mesmo assim...

Voltou-se para ele e pegou-o no colo, acariciou seus pelos sussurrando palavras carinhosas, por fim decidiu dar um tranquilizador leve, o pequeno finalmente se acalmou por algum tempo e os dois conseguiram ter uma noite ao menos um pouco mais tranquila.

No dia seguinte Rafael foi acordado por um criado. Bufou. Logo de manhã iam encher o saco?

Levantou nervoso, se arrumou nervoso, tomou café da manhã nervoso e ficou mais irritado ainda quando o irmão veio falar com ele, avisando que o pai queria conversar novamente.

- Achei que já tinha deixado isso bem claro. – Falou sério.

- Você não percebe quanta desgraça e vergonha está trazendo à nossa família?! Você não pode recusar suas origens! Está fazendo nosso pai sofrer!

- Eu não ligo...

- Mas eu sim!

- Se você se importa tanto por que não fica como chefe?! – Ele não respondeu e abaixou a cabeça, por fim o mais velho levantou-se bruscamente da cadeira. – Vamos resolver isso logo.

Marcos quase se bateu ao lembrar que o irmão do moreno tinha ligado e então poderia ligar para a casa do outro. Deu graças aos céus por não ter mesmo jogado o telefone contra a parede e correu até ele. Luca tinha voltado a sentir as dores e ele estava ficando levemente desesperado.

Uma chamada, duas chamadas, estava ficando impaciente quando alguém atendeu.

- Residência Belshoff. – Uma voz educada anunciou.

- Preciso falar com o Rafael agora! – Falou meio berrando.

- Sinto muito, mas no momento o jovem mestre está em uma reunião importante. – Isso fez com que o outro perdesse a linha.

- Eu não ligo para a importância da porra da reunião! Esse é um caso de vida ou morte!

- Eu já disse pai. Não vou ficar. – O primogênito falou, já não aguentava mais aquele assunto. Quantas vezes teria que repetir aquilo?

O olhar frio e duro do líder e pai estava sobre si quando um criado bateu na porta.

- Desculpe incomodar senhores, mas um senhor exaltado no telefone exige falar com o jovem mestre. Diz ser caso de vida ou morte. — O moreno avançou no telefone, tendo um mau pressentimento. – Com licença. – O criado se retirou.

- Marcos!

- Você precisa voltar agora. – Ouviu a voz alterada do amigo.

- O que aconteceu?

- Luca, ele precisa de você.

- Rafa... – Pode ouvir o gemido do outro, parecia estar pior do que da outra vez e aquilo lhe deu um ódio extremo.

Soltou um rosnado raivoso, baixo e profundo, de gelar o sangue de qualquer um, menos de seu pai, que ouvia a conversa atentamente.

- Você disse que cuidaria dele. – Falou ainda com a voz baixa e perigosa.

- S-Só venha para cá o mais rápido que puder. – E desligou.

- Pai, eu vou e se o senhor tentar me impedir...

– Ele... o seu parceiro não é? Ele precisa de você... – Por enquanto eu desisto...

Alex tentou protestar, mas ele nem deu ouvidos.

- Além disso, seu irmão será um ótimo líder... – O mais novo ficou surpreso e Rafael transformou-se em um grande lobo negro, para chegar o mais rápido possível.

— Pai! – Alex exclamou logo que o outro saiu.

- Silêncio... Se o seu irmão não quer ser o líder... – Falou sério. – Seu desempenho aqui será uma vergonha.

- A-Ah! – As dores pareciam estar piorando.

- Ele já vem... – Marcos falava tentando controlar a mão que tremia, alcançou o irmão e aninhou-o em seus braços.

Começou a murmurar a música que a mãe dos dois cantava quando eram pequenos. Não fazia diferença, mesmo assim ele o fez repetidas vezes.

Estava pensando sobre dar outro tranquilizante para o irmão quando ouviu um rosnado atrás dele.

Virou-se e viu Rafael, ainda em forma de lobo.

- Como...?! Ah, que seja! Aqui. – O ruivo colocou Luca no sofá e o moreno rapidamente foi até ele. Juntou o corpo ao seu e colocou o focinho em sua cabeça, lambendo-a.

Aos poucos ele foi se acalmando até ficar completamente sereno.

Marcos suspirou aliviado e desabou.

- Então? O que há com ele. – O outro perguntou.

- Bom, quando uma raposinha conhece o parceiro... – Começou como se estivesse explicando para uma criancinha. Era o seu jeito de controlar o nervosismo.

- Eu não estou de brincadeira. – Rosnou.

-... Tudo bem... Você já sabe que vocês dois são parceiro certo? – Fez que sim com a cabeça. – E você já sabe que quando se encontra o parceiro, você não pode ficar com qualquer outro... – Um clarão de ódio passou pelos olhos do moreno ao pensar que seu pequeno estava com outro. – Mas eu só disse isso para te deixar com raiva. – Ouviu um bufar do moreno. – Não é muito legal quando você fica longe do seu parceiro e as raposas são mais sensíveis a isso.

- A ponto de ele ficar desse jeito? – Ficou surpreso.

- Quando se está passando pelo período de adaptação do seu corpo, sim. Você sabe... ele ainda está crescendo, essa é a época em que os hormônios “ficam a flor da pele”. Mas a boa noticia é que depois que isso passar ele poderá ficar longe de você por quanto tempo quiser. – Irônico.

- Como se ele quisesse...

- Bom, eu vou dar uma volta, enquanto vocês se acertam. – O ruivo se levantou e saiu.

~*~

Quando Luca acordou percebeu que estava novamente na cama do outro, e já estava com seu corpo humano. Rafael estava deitado de lado, usando uma mão para apoiar o rosto e o encarava sem parar.

- Que bom que acordou.

- O que...? – Corou.

- Seu irmão disse que você estava daquele jeito por ficar muito tempo longe de mim. – Passou um braço por sua cintura. – Você estava mesmo certo... Sua cura está em mim... – Beijou seu pescoço. — E a minha em você... Eu não duvido disso... – Sussurrou.

- R-Rafael...?

- Eu te amo Luca... Você me ama?

- E-Eu... – Respirou fundo. – Eu te amo. – O maior sorriu e beijou-o. – Hn... – Resmungou ao sentir uma corrente gélida de ar passar pelas cobertas e chegar ao seu corpo. – Frio... – Olhou para a janela, que estava aberta, deixando a luz da lua entrar.

- Não se preocupa... – O moreno sussurrou. – Eu te esquento... – Voltou a colar seus lábios nos do outro. Enroscando-se no corpo pálido do pequeno.

E naquela noite a lua e as estrelas foram testemunhas de seu amor.

~*~

No dia seguinte Luca acordou mais feliz que o normal, bem mais feliz... Nem se deixou abater quando viu que o outro não estava deitado ao seu lado, pois sentia o cheiro de café vindo de fora.

Sentou-se e viu a camisa do pijama do outro ao seu lado. Entendeu o que o outro queria e corou. Não vestiria aquilo! Ficou meio inconformado, mas a televisão ligada chamou sua atenção.

Rafael tinha levantado mais cedo para fazer o café para o seu pequeno. Estava radiante quando ouviu a campainha tocar.

Bufou e foi atender. Não podia ser o Marcos, pois este já havia voltado no meio da noite.

- É você... – Ficou irritado ao ver que era o irmão.

- Vim trazer suas coisas, você deixou tudo lá...

- Ah... Obrigado... – Pegou a mala e puxou-a para dentro. – Entre.

- Irmão...

- Se é para me fazer mudar de ideia só está perdendo tempo.

Luca sorriu ao ver que era a entrevista de Rafael, mas já tinha começado há algum tempo... Queria vê-la dês de o começo...

- Então folheando mais algumas páginas desse livro, soube que você está morando com um garoto muito fofo. – Viu uma foto sua aparecer no telão e ficou absurdamente vermelho.

- C-Como...?!

- Bem, este o irmãozinho de um amigo, nós nos conhecemos na infância. – O moreno sorriu.

- E vocês moram juntos por...?

- Na verdade a faculdade dele é próxima ao meu apartamento.

- E você o considera um... intruso? – O coração do ruivinho falhou enquanto esperava a resposta.

-... Acho que provavelmente eu não conseguiria estar onde estou sem ele. Ele é alguém especial para mim. – Sorriu aliviado.

- Ooh, alguém mais está sentindo um clima aqui? – Riram.

- Quem sabe... – O moreno sorriu sedutor.

Luca olhou mais uma vez para a camisa branca ao seu lado.

- Não é isso... Eu só vim lhe agradecer. – O loiro curvou-se.

- Por...?

- Por ter me dado essa chance de provar ao pai quem eu sou.

- Hum... Pode ter certeza que eu não voltarei atrás. – Nesse instante um vulto ruivo se jogou nos braços do moreno.

- Rafa! – O pequeno rodeou seu pescoço e o beijou. Ficaram assim até o ar faltar.

- Como pode ver... – Rafael começou, envolvendo a cintura do menor. – Estou muito feliz aqui. – O ruivo, que só percebeu a presença do outro agora, corou e abaixou a cabeça, meio incomodado por outro estar vendo-o vestido apenas com uma camisa que passava seu joelho.

Alex sorriu.

- Tudo bem então... Já vou indo.

- Você pode descansar aqui se quiser. – O maior ofereceu.

- Não, obrigado, já estou em um hotel.

- Aah, que barulheira toda...? – Marcos saia do quarto irritado, tinha passado a noite fora para os dois ficarem mais confortáveis, o mínimo que eles podiam fazer era dar um pouco de descanso para ele. Iria reclamar mais, mas parou subitamente ao ver o loiro. Seu rosto avermelhou-se e sentiu o coração bater forte. O mesmo acontecia com o outro.

Rafael levantou uma sobrancelha.

- Vou refazer a oferta. Você aceitaria passar a noite aqui? Teria que fica no mesmo quarto que ele...

- Sim! – Os dois responderam mais que rápido.

- Quer dizer... – O ruivo mais velho ajeitou os óculos. – Eu vou arrumar o quarto. – E saiu.

- Bom... Eu vou pegar minhas coisas no hotel. – Saiu também.

Os dois que ficaram na sala começaram a rir.

- Parece que temos um novo casal.

- É, e meu pai, um novo problema, mas venha, eu fiz seu café.

- Obrigado! – Foram para a cozinha e se acomodaram lá.

- Hey. – O moreno chamou enquanto comiam. – Sabia que eu te amo?

- Sim, sabia que eu também te amo? – Sorriram.

Notas finais
Espero que tenham gostado e para que acompanha "With My Brother" a história já vai voltar então aguardem mais um pouquinho ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!