Estava escuro e extremamente chuvoso na pequena DaimarCreel, uma cidadezinha mínima no interior de Halpast, um estado pequeno da Islândia.

A tempestade teve início exatamente as duas e quarenta e cinco e dez segundos e meio da tarde e não havia cessado suas enormes e violentas forças, obrigando todos os cidadãos a saírem dos trabalhos e da única escola, DaimarCreel skóli, uma instituição simples que ensinava todas as crianças desde o jardim de infância até a formatura no terceiro ano do ensino médio, sendo a escola com mais anos de todo Halpast. Muitos visitantes ou interessados na vila se perguntavam como uma escola de 248 metros quadrados e 189 centímetros conseguia suprir toda aquela quantidade de anos, e a resposta é simples e até muito lógica. Em uma cidade de 92 habitante, em que 20 são adolescentes, 15 são crianças, 14 são bebês, 36 são adultos e apenas 7 são idosos, conhecidos como os sábios anciões.

As ruas estavam encharcadas, perto de uma inundação, o que não era exatamente recomendável para uma cidade totalmente sem estrutura que não tinha nenhum hospital, pois confiava que os anciões eram tudo que eles necessitavam, sua força espiritual supostamente curava todo tipo de doença que os espíritos decidissem que não levaria o infectado. O pior nessa palhaçada era que os habitantes da cidadela realmente acreditavam nisso, o que tornava-os dependentes dos mestres velhotes.

O caos reinava sobre as pequenas vielas e estreitos passadiços que eram as ruas da cidade. Passos apressados de botas duras fugindo da tempestade, crianças chorando por seus brinquedos molhados, mães repreendendo seus filhos por quererem brincar nas possas em vez de ir para casa, pessoas entrando em estabelecimentos já a muito lotados para se abrigar, já que moravam bem longe de seus trabalhos. A única padaria de cidade,

a padaria Heyskapur, estava totalmente lotada, com todas as mesas ocupadas por alguns que nem se conheciam, apenas queriam uma local para se sentar, e pelo menos 9 pessoas em pé. A padaria era um local quente e aconchegante de onde vinham os melhores pães de toda DaimarCreel, todos feitos pelo senhor Heyskapur, o melhor cozinheiro de toda a cidade. Por ser o filho mais velho, o senhor Hilrem Heyskapur continuou a tradição cozinheira de sua família e continuou a padaria dos ancestrais, aberta em 1849 por sua tataravó, uma cozinheira de mão cheia que amava fazer pães e doces. O senhor continuou isso assim como todos de sua família um dia haviam feito. Ele reformou a padaria para ficar mais a sua cara, com um estilo antiquado e aconchegante que ele sempre amou, contratou cerca de seis funcionários para ajudá-lo e continuou a padaria, sempre ajudando àqueles mais necessitados e dando suas sobras para aqueles que não tinham o que comer. Um homem realmente admirável.

Janelas eram fortemente fechadas e trancadas para que a chuva não molhasse os cômodos das casas, pássaros piavam raivosos enquanto voavam para longe, cachorros uivavam de dor e sensibilidade diante dos trovões ruidosos e dos bravos e luminosos raios que relampejavam e iluminavam o céu. Frente a essa situação, a maior parte das pessoas ficaria assustada, mas esse não é o caso de dois amigos, que riam em casa diante do alvoroço que ocorria nas tempestuosas ruas. Eram eles Steve e Gale, os dois esquisitos da cidade, o tipo de pessoa que ninguém, absolutamente ninguém gostava. Steve Fratleromns era filho de Elinsme Fratleromns, uma simples balconista da padaria Heyskapur, uma mulher que teve Steve com apenas 15 anos de idade, quando conheceu seu primeiro e único namorado, Ascolv Fratleromns, um homem arrogante e burro que não amava sua esposa e muito menos seu filho de 16 anos e que se livraria dele

facilmente sem nem piscar. Já Gale era bem diferente. Gale Stomylj era um garoto órfão até os onze anos de idade, quando Martel Delshka, uma professora do jardim de infância extremamente pobre, decidiu que ela desejava uma criança para chamar de filho(a), e quando viu Gale, soube que ele era essa criança que seria sua. Ela teve que economizar por meses e comer as sobras da padaria por quase um ano para adotar seu novo filho. A vida na casa de Gale nem sempre era fácil, aliás, nunca era, mas ele tinha o que muitos nunca desfrutaram e que tanto desejavam, amor. O amor que a senhorita Delshka dava a seu filho era, de longe, tão natural quanto a luz do dia ou o frio que lá fazia. Apesar de suas longas listas de diferenças, lá estavam eles, os dois melhores amigos de toda DaimarCreel (assim eleitos pelo jornal da cidade desde seu primeiro ano de amizade, e ninguém havia conseguido superá-los desde então).

Os pais de Steve tinham viajado para visitar a avó dele, que estava com uma doença contagiosa e rara em Grabeltbeen, a cidade mais fria de Halpast, bem ao sul. Como a mãe de Gale estava extremamente ocupada com os compromissos da DaimarCreel skóli, e o filho implorara-lhe por uma semana, ela o deixara ir dormir na casa de seu melhor amigo enquanto os pais dele viajavam.

Gale havia chegado as onze e quarenta e quatro da manhã em ponto, exatamente três horas, um minuto e dez segundos antes do início da chuvarada, fato que fez ele ficar preso na casa do melhor amigo, sem qualquer tipo de meio de comunicação para falar com sua mãe sobre a situação tanto dele quanto dela, e que teria que dormir na casa de Steve.

Algumas coisas nunca mudavam, como o comportamento de senhora Quinglit, que mesmo com a forte tempestade que desabava sobre DaimarCreel, não abriu mão de seu à muito conhecido hábito de fofoqueira. Faça chuva, faça sol, faça neve, faça tempestade de raio, faça terremoto ou faça tsunami, a velhota de 64 anos que completava o sétimo membro do conselho da cidade estava sempre observando as ruas e anotando tudo em seu "bloquinho da fofoca", como todos assim conheciam, um pequeno caderno usado por ela para anotar a vida de todos os vizinhos. Ninguém sabia o que nele estava escrito, e ninguém jamais ousava, ou ousaria pensar em tentar descobrir.

Já Köttur, o gato da família Tlers, se mantinha miando na cabeça de qualquer um que cruzasse o caminho de seu pequeno espaço na mureta entre a padaria Heyskapur e a moradia da (lógico) senhora Quinglit. O gato arisco era exatamente a velha senhora, o mesmo estilo de ser um fofoqueiro arisco as outras formas de vida, gostar de tomar conta da vida dos outros e não ter nenhum tipo de remorso sobre isso ou tentar esconder esse fato dos outros cidadãos da cidade, muito pelo contrário, ambos tinham um enorme orgulho por causa disso, embora cada um expressasse isso do seu próprio jeitinho, e era isso que os tornava eles tão unicamente próximos.

Às seis e meia da tarde tudo estava escuro, e o único ruido era os relâmpagos que cortavam os céus e os tenebrosos trovões que faziam as crianças chorarem silenciosamente em suas camas, que, apesar das cobertas que tinha, deixava até o mais calorento com frio e uma visível carência de alma se apresentava sobre a bela e triste cidade. O único lugar que ainda era provido de qualquer tipo de alegria era (como sempre) a nobre padaria e doceria de DaimarCreel Heyskapur (desde 1940). As risadas eram altas, e cada nova fornada de bolos era um sorriso na cara de todos que lá haviam se abrigado. O gentil mister Cleroys decidira pagar uma fornada de rosquinhas frescas para todos que lá estavam presentes, ato que gerou tanta felicidade que é até difícil de descrever. Essa é a coisa mais especial que Hilrem Heyskapur possuía, o grande dom de animar até aquele que mais triste e desanimado estivesse, e era isso que todos amavam muitíssimo nele.

Era comum ver as lindas crianças fazendo o que qualquer criança de 1984 faria, ou seja, brincando na rua de pipa e bolinha de gude e aproveitando o máximo do resto da infância, mas definitivamente não naquele dia. Elas apenas se olhavam e escreviam mensagens umas para as outras através das janelas embaçadas, com uma inocência tão grande, achando que tudo estava bem.

Enquanto isso, Steve e Gale começavam a preparar o jantar, um simples macarrão que os pais do dono da casa haviam deixado previamente pronto caso os garotos não fossem à padaria comprar algo para comer.

— Os pratos ficam...- Disse Steve.

— ...no primeiro armário a direita, terceira gaveta de baixo para cima. – Completou Gale. — Eu sei, cara, não é a primeira vez que eu venho na sua casa em, sei lá, oitenta mil anos de amizade?

— Haha, muito engraçado. Mas é sério, é bom não derrubar esses pratos, entendeu.

— Ok, ok cara, pode deixar.

— Espero que a sua mãe não esteja muito preocupada com você, afinal, você não voltou para casa hoje e já está muito tarde.

— Nem se dê ao trabalho de se preocupar com isso, cara. Ela provavelmente ainda nem saiu do trabalho. Deve estar corrigindo as milhares de milhões de pilhas de provas, já que todos os outros professores decidiram não aparecer e deixar essa responsabilidade com ela, ou ela simplesmente ficou presa lá por conta da chuva. – Disse Gale, e ao terminar deu um longo e pesaroso suspiro, e depois adicionou. – De qualquer modo, é melhor eu estar aqui doque em "casa", e ela sabe bem disso.

— Já conseguiram consertar aquela rachadura na parede? Ou aquele buraco no teto?

— Não, a mãe ainda não conseguiu o dinheiro para contratar um reformista ou o material para a gente consertar sozinhos. Mas com as contas e tudo mais que a gente precisa, fica meio difícil consertar a nossa morada. E ainda não consegui arrumar um emprego para ajudar na renda da família, então...

— Nossa, cara, que merda. Sinto muito mesmo.

— Mas e você, seus pais ainda...

— Sim, infelizmente. Só podemos, por favor, não tocar nesse assunto?

— Claro! Foi mal, eu juro que não queria...

— Tudo bem, não em problema, é só que... é meio difícil falar sobre isso ainda, só isso.

— Eu entendo. Mas mudando completamente de assunto, você também não tá sentindo esse cheiro de queimado vindo do forno?

Os dois pararam de falar e foi só aí que Steve reparou no forte cheiro de queimado que vinha de dentro do forno que eles acidentalmente haviam esquecido de desligar, muito envolvidos na conversa. Quando abriram o forno, uma fumaça espessa e muito, mais muito fedida saiu de lá e subiu no ar, infestando a cozinha daquela fumaceira cinza escuro que bloqueou suas visões e os fez parar de respirar por alguns segundos antes da fumaça se esvair para fora da casa e permitir aos garotos que rapidamente recuperassem seus sentidos e pensarem no que fazer.

— Apaga isso! – Gritou Steve.

— Tô tentando, mas isso não funciona! – Respondeu Gale.

— É só apertar...

— ... girar e puxar! É claro, eu esqueci de puxar! Pronto!

—Tá tudo preto aí dentro.

— O macarrão já era, e aparentemente o fogão também. Isso está todo queimado, e acho que dessa vez não tem conserto.

— Meus pais vão me matar, literalmente! Eu tô muito ferrado!

— Calma, cara. Seus pais são super tranquilos, ou melhor, a sua mãe é super tranquila, mas ele com total certeza vão entender que foi um acidente, e eles tem total condição financeira de comprar outro, de qualquer jeito.

— Que droga! E ainda ficamos sem jantar!

— Que barulheira é essa, Fratleromns? – Gritou a senhora Quinglit através da janela do segundo andar do seu casebre.

— Não é da sua conta, sua fofoqueira desgraçada! Cuida da sua vida! – Cuspiu Steve, antes de bater a janela na cara dela e fechar a cortina com toda força.

— Ele só quis dizer que ele é... está um pouco estressado e... que agora não quer conversar, só isso. Mil desculpas. – Rapidamente gritou Gale.

— Eu quis dizer exatamente o que eu disse! – Replicou Steve, antes de fechar de vez a janela.

— Cara, você não devia falar assim com ela, ela... – Começou Gale.

— ...é do conselho de velhotes mestres da cidade. – Terminou Steve. – Eu sei, eu sei, tá bom. Mas é que é tão difícil ver essa... essa velha lazarenta ficar por aí perguntando sobre a vida dos outros sem que ninguém faça... porcaria nenhuma!

— Eu entendo, sério, mas, a longa data, eu acho melhor a gente pensar na nossa refeição.

— Pior que você tem razão. Olha, eu tenho uns pães guardados embaixo da minha cama, se você quiser...

— Eu tô com tanta fome que comeria até o que você guarda embaixo da sua cama.

Rindo, os dois subiram a escada para pegar o pão. Steve não tinha só alguns pedaços de baguette dos pais, já que aquilo estava mais para um banquete completo, com quatro pães, três diferentes tipos de queijo, que eles derreteram na frigideira, e um suco natural e fresco de laranja, o sabor favorito tanto de Gale quanto de Steve, embora tivesse sido Gale quem apresentou esse suco para o amigo.

— Foi mal aí por não ter nenhuma bebida mais forte para te oferecer. – Falou Steve alguns minutos depois, quando os dois já estavam na mesa da sala comendo (com as cortinas bem fechadas e as janelas fortemente trancadas para evitar certos "intrusos indesejados" que espreitavam na vizinhança).

— Que nada, cara – Respondeu Gale, antes de perceber que o molho que ele tinha colocado no sanduiche estava escorrendo na calça dele. – Você sabe como eu amo esse suco.

— Verdade, você ama mesmo, tanto que nem se incomodou com esse jantar simplesinho que a gente tá comendo.

— É isso que se come na casa de rico, cara. Eu nunca vou comer esse tipo de coisa lá em casa, então tem que comer na casa dos amigos, né?

Os dois riram muito, mas foram subitamente interrompidos por batidas incessantes na porta da casa, batidas assustadas e desesperadas que fizeram Steve derramar seu suco na blusa branca.

As batidas não cessavam, o que deixou os garotos deveras preocupados. Os dois se encararam e Gale indicou a porta com a cabeça, sinalizando que era Steve quem deveria abrir. Ele foi a passos sinuosos até a porta, destrancou-a preocupadamente e, quando abriu-a, se deparou com a pior cena por ele já presenciada. Ele arregalou os olhos e recuou, o que fez Gale conseguir ver também. Atrás da porta estava parada uma garota claramente assustada, com o medo estampado na cara e nos olhos. Seus longos cabelos vinham até o início do joelho e estavam encharcados de água, lama e o que parecia ser sangue, assim como ela própria estava. Apesar de não dar para ver quem era exatamente, ela parecia ser extremamente bonita, com lindos olhos e lábios perfeitos. Usava uma roupa hospitalar branca com detalhes azuis, que estava imunda e muito ensanguentada, e na perna tinha algo que chamava pouca atenção, mas assustava a qualquer um que olhasse. Um corte profundo que começava um pouco acima do joelho e chegava até cerca de um palmo dos pés, terminando numa lâmina preta e afiada que estava inteira cravada nela. Respirava entrecortado e com clara dificuldade, e olhava para os lados, vigiante. Ao se aproximar mais dela, Steve reparou que ela sussurrava sozinha muito assustada.

— Ã, oi? – Adiantou Steve, quebrando o silêncio, mas ela continuou sussurrando sozinha. – Você precisa de alguma coi...

De repente, ela olhou para ele e simplesmente sussurrou.

Socorro... — e desmaiou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.