O Lobo de Areia
1 O Lobo de Areia
Notas iniciais
Obhitar não é feita para fracos. Não bastasse o sol, a areia e o mormaço, um indivíduo teria de se preocupar também com o sangue que tentaria ser arrancado dele assim que pisasse naquela terra amaldiçoada. E Nion e seu grupo estavam indo diretamente ao epicentro de tudo que havia de ruim naquela terra.
Apesar de conectados pelas raízes fortes que compartilhavam por serem seguidores de Dryade, deusa da natureza, seus corações não estavam em sintonia. Nion era malvisto pelo resto de seus companheiros. E talvez não atoa. Outrora um exímio necromante, o elfo-maldito foi amaldiçoado pela própria deusa da guerra por seus crimes. Contudo, Nion desejava abandonar o passado obscuro e ressignificar sua existência servindo com honra a deusa da natureza. Seu primeiro passo, entretanto, seria tentando provar aos companheiros que era um homem mudado.
A maior parte de seu grupo, apesar de julgar a falta de graça daquele elfo, pensava em perdoá-lo e tratá-lo como igual; todos eles exceto um: Vero Blackhand.
Vindo de uma família tradicional de Elonai, Vero achava absurda a ideia de chamar um elfo-amaldiçoado e exilado de irmão. Contudo, sabia que não poderia ir contra a palavra de Dryade, que havia escolhido cada um daqueles homens para aquela missão. Apesar do orgulho élfico, questionar a autoridade de Dryade era loucura, até mesmo para um Blackhand.
Cinco homens, sendo três elfos e dois humanos, desbravavam o deserto insuportavelmente quente de Obhitar. Seus calçados, ainda que reforçados, quase derretiam conforme entravam em contato com a areia. O suor que caía de seus rostos não refrescava, pois saía quente do corpo e praticamente queimava perpassando a pele. Não tinham o luxo de viajarem cavalgando cavalos ou burros, pois tais animais morreriam em pouco tempo depois de sentir a secura daquele deserto. Tampouco poderiam transformar-se em camelos, pois atrairiam muita atenção indesejada, seja dos próprios mercenários que caçavam ou dos magos exilados que perambulavam Obhitar por aquele momento. E pior, a missão deles iria muito além de uma viajem por aquelas areias.
Dryade havia enviado seus homens por sentir na pele uma crueldade específica que estava ocorrendo. Obhitar, escassa em fauna e flora, ainda tinha animais, e tais animais estavam indo de encontro a uma nova facção oposta ao tradicional clã Blackwell: os Deathwell.
Formados por bárbaros, mercenários e simplesmente doentes que não conseguiram conviver nem mesmo na fraca sociedade proposta pelos Blackwell, o objetivo do clã Deathwell era alimentar Obhitar não só com sangue, mas com agonia e dor. Tudo que era encontrado por eles não era apenas eliminado, comotambém brutalmente torturado até o limite antes de morrer. Inclusive os animais. Sentindo isso, Dryade sabia que esses homens precisavam ir embora, de uma maneira ou de outra.
A viagem dos druidas em busca de justiça em um lugar maldito era de extrema periculosidade. Poucos percorreriam tal caminho de boa vontade. Por tal razão, era extremamente impressionante que houvesse mais alguém viajando junto aos seguidores da deusa da natureza.
Ao lado das pegadas que marcavam a areia de Obhitar, outros passos, menores, por algum motivo que ainda deve intrigar até mesmo os deuses, também seguiam o grupo.
Um lobo de pelo amarelado, quase misturado à areia, visualizou o grupo assim que iniciaram sua viagem e decidiu acompanhá-los, criando companheirismo imediato com Nion.
Ninguém sabia o porquê disso estar acontecendo. Por motivos óbvios, lobos nunca fizeram parte do ecossistema de Obhitar. E, assim como os cavalos e burros, não deveriam estar tranquilos diante do clima. Mas aquele lobo era diferente.
Opostoa cada um dos membros daquela trupe, o animal não demonstrava ser afetado pela secura ou o calor estonteante. Pelo contrário, parecia sempre disposto a correr ou farejar quando necessário. Ele também não aparentava sentir as mesmas necessidades que os outros. Bebia água e comia quando tais privilégios lhes eram ofertados, mas parecia aceitar as ofertas muito mais por um tipo de “educação” do que por uma necessidade verdadeiramente natural.
A maioria dos druidas tinha uma teoria sobre aquele animal, que variava entre um presente da deusa da natureza, uma mutação depois de longos anos escondido debaixo daquela terra ou até mesmo miragem. O único que não parecia nenhum pouco preocupado com a origem daquele lobo era Nion.
O animal o aceitou de imediato. Não olhou para sua maldição, falta de graça e nem mesmo o seu passado. O lobo conheceu Nion e o agraciou com amor e companheirismo sem pestanejar. Criou vínculos que o elfo-amaldiçoado não achou que ainda poderiam ser feitos. E por ganhar tanto amor e tanta confiança após tudo que havia vivido, devolveu o gesto dando um nome ao animal: “Aarhus”. Ou simplesmente “Areia” em élfico.
Aarhus, de muitas maneiras, deixava a viagem mais amena. Ainda assim, até mesmo o seu carisma e resiliência tinham limites. Obhitar, a longo prazo, sempre venceria. E o cansaço estava quase drenando aquele grupo por completo.
— Isso é inútil. — Vero, agachado, contemplando o sol que morria no horizonte, se via na vertigem da desistência completa.
— Dryade não nos enviaria em uma missão inútil. — Ortus, o último membro da trupe a tentar manter o grupo unido, disse, com a garganta seca.
— E, segundo você, Dryade está bem ali naquela coisa, não é? — Vero falou apontando para Aarhus, que bebia a última gota d’água do cantil de Nion. — Não precisa dar água para isso, Nion. Acredito que “Dryade” não precise de água ou comida.
— A “coisa” tem nome, Vero. Se chama Aarhus e, como cria de Dryade, independente da origem, merece nosso respeito. — A fala de Nion fez Vero se levantar.
— Um amaldiçoado ousa me chamar por meu primeiro nome?
— Não estamos em Elonai, Vero. Como seguidores da natureza, não há motivo algum para que eu lhe trate com mais ou menos respeito com que trato nossos companheiros. Da mesma forma, tu não me deste nenhum motivo para citar o nome de sua família. — Em outras circunstâncias, em uma em que talvez o sol não fosse um inimigo tão duro, Vero teria partido para cima de Nion. Mas naquela situação ambos apenas se encararam pensando como queriam que aquela viagem terminasse logo.
— Vocês são insuportáveis. Quase me dão vontade de partilhar essa jornada apenas com meu irmão. Quase.— Danyl, mais irritado do que de costume, disse, bufando.
— Também não é para tanto. — Menos afetado pelo calor que seu gêmeo, Gregory já havia desistido de tentar manter um clima saudável entre o grupo.
— Chega. — Ortus disse com autoridade. — O sol está se pondo no horizonte e logo esse calor dará lugar a um frio de matar. Precisamos aprontar nosso acampamento.
— Não precisa dizer, Ortus. Não é como se tivéssemos começado a viagem agora. O que nós precisamos mesmo é encontrar uma maneira de achar esses desgraçados. Não temos mais condições de vagar por este deserto por muito mais tempo. — Ainda que não quisessem admitir, todos concordavam com um discurso de Vero. Até mesmo Nion.
— Por favor, eu adoraria uma sugestão. — Ortus ironizou, frustrado. — Estou tão cansado quanto qualquer um de vocês. Estou com sede, sentindo meu cérebro derreter, e tenho enjoos terríveis todos os dias em que acordamos e meus olhos parecem estar grudados com cera. Mas temos nossa missão. Dryade vai nos dar um sinal de por onde prosseguir. Precisa dar.
Por mais que todos partilhassem de um senso de dever com a deusa da natureza, isso não tornava a jornada menos complicada. Alguns temiam perecer naqueles ermos para concluírem sua missão.
Ainda assim, obstinados a vencerem ou morrerem tentando, os aventureiros prontamente começaram a montar seu acampamento. De uma maneira tão irônica, o frio noturno do deserto parecia tão mortal quanto o calor do dia.
Os druidas não podiam se arriscararmando barracas, pois a fumaça da fogueira por si só já era perigosa e poderia atrair olhares indesejados; barracas então, mais ainda. Por isso montaram uma fogueira baixa eestenderam seus sacos de dormir, já se preparando para passar por mais aquela noite.
Os sacos de dormir eram de tecidos finos e mal combatiam o arrepiante frio noturno do deserto, que uivava em cada ventania que passava rápido pelos druidas. Nesse sentido, Nion era mais sortudo que o resto de seus companheiros, pois o pelo grosso de Aarhus o esquentava enquanto o animal se aninhava com ele para dormir.
A situação em que o grupo estava era tão absurda que aquele tipo de comportamento não era mais visto sob olhar de desconfiança por mais ninguém. Não estranhavam que o lobo havia parado de agir como lobo e agora mais se assemelhava a um cachorro dócil na maior parte do tempo.
Nion era realmente grato pelo caminho de Aarhus ter se cruzado ao dele. Se esquecia que o animal era quase místico e hora ou outra voltava a se preocupar com o bem estar do mesmo, ignorando o fato de que ele próprio já não estava mais tão saudável. Com tantos sentimentos em seu coração, Nion encarava os pelos brilhosos de Aarhus eobservavasua respiração contínua, enquanto o mesmo o esquentava noite a dentro, o que foi suficiente para o elfo cair no sono, sentindo-se estranhamente amado.
No entanto, em meio ao início de sonhos truculentos, o sono do amaldiçoado foi interrompido por um terrível arrepio em sua espinha, que o mesmo já não sentia a muitos anos.
Nion abriu os olhos e viu, no meio da noite densa do deserto, um par de olhos roxos o encarando e contrastando contra as trevas que o cercavam.
Se movimentando habilmente para sair de seu saco de dormir sem acordar seus companheiros ou Aarhus, Nion caminhou pelo chão árido em direção àqueles olhos, que não paravam de o encarar.
— O que você quer? — Nion sussurrou, sem cerimônias.
— É assim que se dirige a um amigo? — A voz respondeu sem retirar o corpo das sombras ou piscar.
— Sabemos que não é amigo de ninguém.
— Como pode dizer essas coisas? O que eu já lhe fiz de tão ruim assim? — A fala fez Nion pensar por um momento, ainda que fosse breve.
— Alguns diriam que é o responsável por minha maldição.
— Nós dois sabemos que a única pessoa responsável pela tua maldição é aquela deusa arrogante. — Nion contorceu o rosto. Não conseguiria encontrar palavras para retrucar a afirmação, pois concordava com ela.
— Você ainda não respondeu minha pergunta. O que quer? — Tentando retomar as rédeas da conversa, o druida lançou um ultimato.
— Te ajudar. Alguém precisa fazer isso antes que vocês derretam ou uma ganguezinha local alimente vocês para a areia.
— Pare com isso. Não precisa ser inteligente para saber que acordos com você tem consequências. Não estou disposto a pagar esse preço novamente. — Nion então refletiu sobre sua jornada até ali. — Você tem razão. A culpa não é sua. Você me deu um serviço, um serviço podre, que eu resolvi aceitar. Da mesma forma, também sabia dos riscos em relação a Eibar, ainda que não concorde completamente com a decisão dela. Essas foram minhas decisões, mas agora tenho oportunidade de tomar novas. Não posso cometer os mesmos erros. — Obstinado, Nion estava disposto a dar uma volta por cima, ainda que fosse tão difícil.
— Mesmo se isso custar a vida dos seus companheiros? E a do seu animal? — A fala fez o tom da conversa se alterar.
— Escuta aqui, seu desgraçado, se você encostar um só dedo em Aarhus…
— Não é uma ameça, Nion. — Os olhos interromperam o elfo rispidamente. — Em Obhitar, nem mesmo eu preciso fazer ameaças. Estes são os fatos. Vocês vão morrer. Cada um de vocês. Você se engana se acredita que esse animal realmente é místico. Nada é imortal nesse deserto.
— Mas não estamos falando do mais importante ainda… — O amaldiçoado disse, cogitando qual seria o fim daquela conversa. — O que você quer em troca? O que é que eu vou ter que sacrificar em troca da sua ajuda?
— Nada!
A fala fizera todos os pelos de Nion se arrepiarem. Pareceu ecoar sete vezes pela vastidão do deserto antes de se assentar corretamente na cabeça de Nion. De alguma forma, o deus do caos dizer que não quer nada de você parecia ainda mais assustador do que um acordo.
— Nada…? — O druida mal conseguiu deixar as palavras saírem de sua garganta.
— Nada! — Doerdhun respondeu. — Você me foi um servo, ainda que por um breve momento, de alto valor, e eu não gostaria que morresse no deserto por meio de outra deusa que não cuidou bem de você. Eu irei lhe mostrar um ponto em que os homens que estão perseguindo repousam e você poderá ir até eles sem problema algum.
— Tudo bem… e em que parte você explode meu corpo e começa a dançar com meu coração na mão? — A fala fez o deus do caos soltar um riso. Mais por imaginar quão maravilhosa seria essa situação do que pelo teor do comentário.
— Nion… As regras são claras! Você não é meu bruxo e eu não possuo sua alma. Não posso aplicar consequência direta alguma sob você. E eu não estou propondo contrato nenhum. Estou lhe ofertando uma informação por livre e espontânea vontade. Sugiro que você a aceite antes que eu mude de ideia. Já tenho várias ideias novas de coisas divertidas para fazer, principalmente depois do seu último comentário… — Por mais que Doerdhun tentasse ser claro, o elfo-amaldiçoado não conseguia deixar sua desconfiança passar por completo.
— Então você vai me dar uma informação e vai embora…
— Certo.
— Não teremos qualquer ligação?
— Não, senhor.
— A minha alma não será sua?
— Só se você quiser! — Doerdhun sorriu, fazendo seus dentes contrastarem com a noite.
— Se realmente é assim… — Nion, pensando nos seus companheiros, até mesmo naqueles que não tinham respeito por ele, resolveu aceitar a oferta. — Onde eles estão?
— A noroeste, acampados em um vale na areia. São quinze homens e alguns estão de vigia. — A voz do caos, que antes era descontraída, ficou séria ao falar daquelas informações. — Teu animal pode encontrá-los farejando isto.
A mão do caos saiu da escuridão e entregou a Nion um pedaço de tecido rasgado. As vestes coloridas e preservadas de Doerdhun não faziam sentido ao serem comparadascom o deserto ao redor; ainda assim, Nion não pestanejou em pegar aquele pano, que possuía sangue em suas beiradas.
— Bom, então… Obrigado.
— Sou eu quem agradeço. — O caos disse e viu o elfo se afastar, bastante confuso com toda aquela interação. — Amaldiçoado. — Depois de Nion já ter dado alguns passos para longe, Doerdhun chamou por ele com autoridade. — Se ainda tiver interesse, em qualquer momento, eu lhe tornarei meu seguidor. Será mais forte do que nunca.
— Por mais improvável que seja, lhe agradeço pelo que fez agora. Mas falava sério quando dizia que queria mudar. Hoje, a resposta é não. — Tentando ser o mais respeitoso possível, o druida proferiu e se afastou, suando frio.
— Está certo. Hoje, não.
Então os olhos roxos se fecharam e se fundiram com a noite. Nion suspirou aliviado ao perceber que, talvez pela primeira vez na vida, Doerdhun não tinha más intenções. Ou assim parecia.
Voltando ao seu ponto de descanso, Nion pôde perceber que Aarhus havia acordado e estava sentado paralelo ao saco de dormir, o observando, apreensivo.
O elfo então se agachou e fez carinho no animal, que lambeu seu rosto. No mesmo momento, também pôs seus olhos no tecido entregue pelo deus do caos, se perguntando como Doerdhun havia conseguido tal item. Visando terminar com tudo aquilo antes que o sol nascesse, Nion decidiu agir.
— Pessoal, comigo! — Nion gritou e seus companheiros acordaram. Os irmãos humanos se assustaram, pois estavam em sono profundo; diferente dos elfos, que meditavam e já acordaram com certo entendimento do que ocorria.
— Pelos Deuses! — Danyl gritou eufórico, sentindo o coração querendo sair de seu peito. — O que houve? Estamos sendo atacados?!
— Vamos ser se você continuar gritando para esse maldito deserto ouvir! — Vero disse, sentindo irritação nos ouvidos, pelos gritos de seu companheiro. — O que aconteceu, amaldiçoado?
— Aarhus encontrou isso. — Nion disse enquanto mostrava o tecido rasgado para os companheiros. — Fiz uma breve verificação mágica e estou praticamente certo de que pertence aos mercenários que procuramos.
— Aarhus achou? — Tocando aquele pedaço de pano, o elfo sentiu desconfiança extrema, estranhando o tecido, que ao mesmo tempo que parecia único, também era muito familiar. Infelizmente, Vero e todos os seus companheiros druidas estavam com o raciocínio afetado depois de tantos dias no sol.
— Ainda que realmente seja dos Deathwell, é loucura sairmos agora. Não descansamos o suficiente e o sol pode se abrir se demorarmos demais. — Gregory disse pragmaticamente.
— Podemos virar lobos! — Nion disse e angariou a atenção de todos. — É noite agora. Corremos rapidamente pela escuridão noturna, seguindo Aarhus. Não seremos vistos por ninguém e seremos muito mais rápidos.
— Não é uma ideia ruim… — Vero disse, reconhecendo o pensamento de Nion.
— Na verdade, é uma ideia genial. Porque não viajamos a noite o tempo inteiro e dormirmos durante o dia? — Ainda se recuperando do susto de quando foi acordado, Gregory se levantou e deu a mão ao irmão, já se preparando para sair.
— Se pararmos durante o dia por longos períodos de tempo, seremos pegos por uma criatura ou grupo grande, eu garanto. — Ortus, que não havia dito nada até aquele momento, se levantou e pegou o pano da mão de Vero, encarando o companheiro antes de voltar seus olhos para Nion. — Você está certo de que isso nos levará até nossa missão?
— É como você mesmo disse, Ortus. Esse pode ser o sinal de Dryade que tanto queríamos. — A recordação de um discurso anterior foi mais que suficiente para que Ortus concordassem com a ideia. Ele, já respirando aliviado com o pensamento de finalmente sair daquele deserto, cumprimentou Nion. — Não me esquecerei disso, irmão.
— Talvez eu estivesse enganado ao seu respeito. Eu e até mesmo Eibar. Tu honras nosso lar com tua ação. — Pela primeira vez em muito tempo, Vero demonstrava respeito por Nion, que nem sabia como reagir.
— Dê o tecido para o lobo. — Ortus disse, fazendo Nion agir. — É nossa chance, irmãos! Vamos matar esses desgraçados!
Todos deixaram um urro vitorioso escapar pelos confins da noite. Aquelaera a chance deles de terminarem sua missão e finalmente voltarem para casa, longe daquele deserto. Com o tecido na boca, Aarhus observou cada um dos druidas se transformar em lobo, e, com um sentimento de alcateia, uivou e correu deserto adentro, sendo acompanhado de perto.
Uma lua cheia iluminava os céus e observava aqueles lobos marcando suas patas na areia. Cada um deles corria como se aquele fosse o primeiro dia de viagem. Mas, para eles, a sensação era muito melhor que essa, pois não parecia ser o primeiro dia, e sim o último.
Sentindo o conforto do pelo grosso de lobo contra a brisa noturna de Obhitar, a alcateia correu com fúria e finalmente chegou até um ponto de interesse. Numa duna mais afundada na areia, puderam observar uma fogueira e um vigia patrulhando. As vestes dos homens, de raças variadas, condiziam com relatos de armaduras enferrujadas e avermelhadas. Notando isso, os druidas voltaram a forma humanoide e deitaram na areia.
— Quantos são? — Ortus questionou enquanto já começava a planejar o ataque.
— Pelo tamanho da área que protegem, não devem ser menos de dez. — Vero, astuto, calculou um número ao perceber que seria difícil visualizar o grupo por completo de onde estavam.
— Devem ser uns quinze. — Lembrando-se de sua interação com Doerdhun, Nion falou o número que acreditava ser correto.
— Não. Olhem para oeste do acampamento. — Danyl pontuou e fez seus irmãos observarem. Um ser parecia se aproximar.
Trajando robes longas, negras e finas, um meio-dragão se aproximou da duna e se dirigiu até um dos vigias, um anão, que parecia tratar o colega com respeito.
Apesar de apreensivos, nenhum dos druidas havia ficado tão nervoso quanto Nion, que estranhava uma mudança em relação ao relatado por Doerdhun. E Nion veio a tomar um susto ainda maior quando viu que o meio-dragão não estava sozinho.
Sete homens andavam em uma formação, visando proteger quem estava no centro: um neandertal, que, apesar de baixo, era visivelmente forte; com seus músculos transparecendo por debaixo de uma cota de malha. Percebendo como os outros se portavam diante do neandertal, não foi difícil para os druidas notar que aquele era um líder do clã Blackwell.
— Que merda… — Nion desabafou, chocado.
— São muitos. Mesmo para nós. — Ortus confirmou.
— Não falem de tal maneira, nós já chegamos até aqui! Vamos nos transformar em animais, destruir esses desgraçados e acabar com tudo isso de uma vez por todas! — Danyl disse, não querendo dar o braço a torcer e esperar por mais tempo.
— Ainda que todos nós virássemos ursos, não teríamosnenhuma garantia. Eles tem poderio suficiente para nos matar. — Gregory disse, irritando o irmão, já preparado para chamá-lo de fraco.
Então, de repente, o meio-dragão deu um tapa forte no rosto do anão, que foi ao chão, engolindo areia, vendo o neandertal se aproximardele e segurá-lo pela gola, gesticulando agressivamente.
Após humilhar o anão, o neandertal voltou até seu grupo e gritou algo. Logo em seguida os homens dispersaram.
— Isso é ótimo! — Ortus disse, se animando. — Eles estão indo embora. Podemos esperar o neandertal se afastar e então atacamos.
— Não vai funcionar. — Vero falou com tanta seriedade que contrastou com o restante do grupo.
— Como não?
— O foco deve ser o neandertal. Ele é um líder. Mas o deserto é um campo aberto. O vigia deste acampamento poderia ver um ataque de longe. Ainda que esperássemos tempo suficiente para eles se afastarem, amanheceria e perderíamos toda nossa vantagem.
— O que sugere então? — Nion perguntou, desesperado.
— Você manda o lobo sozinho atacar o neandertal, angariando sua atenção para mais longe. Então nós vamos até ele um por cada flanco e os sobrepujamos.
— Você está louco? Eu não vou mandar Aarhus sozinho para esses doentes. Não é possível que você concorde com isso! — Nion disse, olhando para Ortus.
— Eu… — Ortus observou Vero, que parecia tentar transmitir uma mensagem com o olhar. — Eu entendi o plano de Vero. Vai funcionar, Nion, você só precisa… deixar acontecer.
— Não! — Nion disse com veemência, se afirmando diante do grupo, que parecia concordar com aquele plano. — Não vou mandar Aarhus para uma morte certa! Olha, se querem prosseguir com o plano dessa maneira, tudo bem. Mas euvou! Aarhus fica fora dessa!
— Não! Precisa ser o lobo! — Vero disse e segurou o braço de Nion com força, deixando o amaldiçoado confuso.
— Vero! — Ortus, ainda que contidamente, gritou. — Deixe-o em paz! Se ele quer dessa forma, que seja… Ainda vai dar certo. — Nion olhava perplexamente para Ortus, tentando decifrar seus pensamentos que pareciam tão confusos.
O elfo então soltou o braço de Nion, que se afastou e foi para um ponto mais estratégico, já pensando na transformação e em como atacaria os bárbaros.
Engolfado pela luz do luar, Nion tomou um susto ao perceber que Aarhus, abanando o rabo entre suas pernas, havia o acompanhado. O amaldiçoado se ajoelhou e alisou o lobo, dizendo a ele que não poderia segui-lo. Aarhus, a contragosto, pareceu aceitar o comando do druida, que olhou honrosamente os companheiros uma última vez.
— Me protegerão em minha alçada? — Nion questionou, preparando a transformação.
— Não deixaremos com que mal algum recaia sobre ti. — Ortus proclamou e observou os druidas, que pareciam sérios.
— Então nossa jornada termina hoje.
Nion então mudou sua forma e transformou-se novamente em lobo, sentindo a breve liberdade e fúria que o instinto animal causava. Estava disposto a dar a vida por aquela missão se fosse necessário.
Impulsionado pela promessa de um fim para aquela tarefa, Nion correu como se sua vida dependesse disso. Percorrendo as areias que tanto o atormentaram, o elfo viajou como uma flecha que tem um único objetivo: matar.
Apesar de terem montado um esquema inteligente com o objetivo de proteger seu líder, os Deathwell tiveram dificuldade em avistar Nion, que, inspirado em Aarhus, transformou-se em um lobo de pelos amarelos, camuflando-se perfeitamente no deserto e chegando facilmente até seu alvo.
O primeiro a perceber que não era ventania se movimentando pela areia foi um orc, que só tomou dimensão da ameaça quando aquele lobo pulou e, em um movimento preciso, cortou sua garganta com a pata.
Aproveitando do impulso que tomara, Nion seguiu o movimento projetando o corpo de lobo até o neandertal, tentando morder sua nuca. No entanto, aquele homem não se tornara líder dos Deathwell atoa. Com reflexos aguçados, o neandertal se virou sem nem saber o que atacava, socando poderosamente a cabeça do lobo, que foi a chão.
O impacto do soco foi duramente sentido por Nion, que perdeu brevemente os sentidos. O neandertal sorriu e seus companheiros gritaram de felicidade por verem uma nova vítima. Nem ao menos se importaram com a morte do companheiro orc.
Um dos bárbaros chutou com força as costelas do animal, que grunhiu e tentou se reposicionar, mas estava completamente cercado.
Encurralado, resolveu atacar com tudo que tinha. Se aproveitando de um momento de distração daqueles homens que acreditavam que já o tinham derrotado, Nion mordeu a mão de um humano, que instantaneamente perdeu a maior parte dos dedos.
Outro colega tentou defendê-lo, girando um tacape na direção do animal, que desviou, mordeu e sacudiu sua perna, que passou a sangrar.
Enquanto sacudia a perna de seu atacante, Nion passeou rapidamente os olhos pelo deserto, procurando seus aliados, mas a única coisa que conseguiu observar com mais cautela foi o meio-dragão de antes, que apenas observava a luta. Preocupado com a própria integridade física, Nion passou rapidamente por debaixo da perna de um de seus atacantes afim de atacar outro inimigo, acreditando que o meio-dragão seria um alvo fácil.
Porém, antes de chegar até seu objetivo, teve sua corrida interrompida pelo neandertal, que levantou a mão direita e acertou outra vez o crânio do lobo, que foi ao chão.
Em movimentos rápidos e precisos, o bárbaro colocou o joelho no peito do animal e tentou posicionar as mãos em seu pescoço. Contra-atacando, Nion conseguiu morder apenas uma das mãos do neandertal, enquanto o resto do corpo se debatia contra o bárbaro, o arranhando e fazendo-o sangrar.
Nion passou a se preocupar quando viu que, ainda que com o canino bastante preso na mão do neandertal, o mesmo não parecia disposto a parar de enforcá-lo. Se assustou também quando percebeu que nenhum dos inimigosestava preocupado em ajudar. Todos eles tinham confiança total de que o líder mataria o lobo. E eles estavam certos.
Se fosse apenas um animal, Nion teria morrido naquele momento. Mas, para deleite dos Deathwell, transformou-se de volta em elfo, ainda sentindo a mão daquele bárbaro em seu pescoço, mas sem mais forças para morder.
— Druida. — A voz dele era grossa e sua fala objetiva. Assim que fez a observação, o neandertal viu o meio-dragão se aproximar dele com certa precaução.
— Demoraram. Ele certamente não está sozinho. — O meio-dragão disse com um certo tom de sadismo.
— Me soltem, seus doentes! — Nion disse, tentando tomar forças para escapar.
— Eu não vou apenas te matar. Eu vou te torturar, arrancar seus membros e quebrar seus ossos bem devagar. Eu vou me aproveitar de cada grito de dor seu até finalmente te alimentar para essas areias. — Sobrepujando completamente Nion, o neandertal apertou com força o pescoço do elfo e, com a outra mão, sacou uma adaga ritualística curta, a ascendendo devagar. Nion se debatia com tudo que tinha, mas, ainda que com uma só mão, o líder dos Deathwell o dominava completamente. Aquele parecia ser o fim.
Mas, para a surpresa de todos, outro raio amarelo cortou o deserto e, com precisão, acertou e derrubou o neandertal, que deixou a adaga cair próxima a Nion, que viu seu salvador.
Aarhus correu e acertou o neandertal no rosto com sua pata, emendando o ataque com uma mordida, perfurando o crânio do bárbaro.
Nion, recuperando as forças e querendo acabar com aquilo logo, invocou vinhas mágicas do chão e prendeu três inimigos de uma vez, entrelaçando seus corposcom aquelas vinhas espinhosas. Sem perder tempo, o elfo amaldiçoado movimentou as mãos e conjurou uma bola de fogo pequena, concentrada, e a jogou no rosto de um dos últimos atacantes, que foi ao chão.
Para a surpresa do elfo, o ataque de Aarhus não fora suficiente para matar o neandertal, que gritou e, com força, jogou o lobo alguns metros para a direita, revelando um enorme arranhão perto dos seus olhos e uma ferida na cabeça, advinda da mordida do animal.
O neandertal então gritou e encarou Nion, que, visando demonstrar força, fez as vinhas conjuradas se apertarem contra os inimigos presos, fazendo-os gritar, quebrando seus ossos e por fim matando-os. Aquilo não agradou o líder dos Deathwell, que gritou e correu na direção do amaldiçoado, querendo arrancar sua cabeça.
Nion já sabia exatamente o que fazer. Antes mesmo da corrida do bárbaro, o elfo já havia conjurado mais uma vinha que percorria como uma cobra por trás dele e ia vagarosamente de encontro ao neandertal. Porém, havia cometido um erro grave naquela batalha ao subestimar um oponente.
— Amaldiçoado! — O grito do meio-dragão foi suficiente para cessar a ação do druida e até mesmo do neandertal por um breve momento. — Continue a conjuração e eu mato este aqui.
A menção a Aarhus fez Nion congelar. Ele olhou na direção do meio-dragão e notou que Aarhus estava deitado rente ao inimigo, com as patas para cima, provavelmente enfeitiçado por alguma magia de controle, e, muito mais importante do que isso, tendo um dedo da morte apontado na direção de seu peito. Aquele toque necrótico maligno, conjurado no dedo indicador do meio-dragão, provavelmente o feitiço mais mortal de toda Oitarrna, rendia não só o lobo, mas também o coração de Nion, que, por seu passado, conhecia bem demais aquela magia.
— Não! Não faça isso! — Nion gritou, totalmente desarmado em todos os sentidos.
— Estas são suas fraquezas. Se importam demais uns com os outros. — O meio-dragão acreditava estar ameaçando um irmão druida de Nion, mas estava errado. Ameaçava algo que, naquele momento, era muito mais importante para o elfo.
— Pense o que quiser, mas por favor, não machuca ele! — Nion, desesperado, gritou, desfazendo suas vinhas.
— Não vamos só machucar. — O meio-dragão proferiu e deixou escapar uma risada.
Antes que o elfo pudesse pensar em alguma alternativa, foi surpreendido pelo neandertal, que, em um movimento rápido, encurtou sua distância e chegou até o druida, dando um soco preciso na lateral do rosto de Nion, desmaiando-o.
Nos instantes que precederam o apagão, o amaldiçoado não pensava nas coisas mais lógicas, como o sumiço de seus irmãos, o fim da missão ou sua própria integridade física. Sua única preocupação era com o bem estar de Aarhus. Nada era mais importante do que isso.
E, para a surpresa de Nion, o mesmo abriu os olhos, ainda vivo. Não demorou muito para raciocinar que estava no vale dos Deathwell, visualizando um cume de areia mais alto a certa distância. Diversos corpos de homens e algumas mulheres de variadas raças o cercavam, e um cheiro de sangue úmido era perceptível. Assim que levantou, observou que seus companheiros druidas estavam atrás dele.
— Ele acordou. — Danyl disse enquanto encarava o companheiro, que se ajoelhava.
— O que aconteceu? — Tentando se lembrar de tudo que ocorreu, Nion ainda não tinha retomado totalmente os sentidos.
— Caramba. Eles bateram bastante em você. Ainda bem que a gente chegou na hora certa. — Vero disse observando os machucados do amaldiçoado, que eram muitos.
— Nós conseguimos, Nion. Acabou. Todos os Deathwell envolvidos nesses rituais doentios estão mortos. Podemos voltar para casa agora. — Ortus, sentindo orgulho e alívio, desabafou.
— Por que… Por que vocês demoraram tanto? Não era para me ajudarem contra os bárbaros para só então atacarmos o vale? — Nion disse e viu o grupo se entreolhar. O único que esbanjava tranquilidade era Vero.
— Tivemos um pequeno contratempo antes de chegar até aqui, nos escondemos brevemente e então atacamos quando estavam todos juntos e distraídos. Não importa, conseguimos o que queríamos. Acabou. — O elfo disse, mas não agradou Nion.
— Aarhus… Onde ele está? Ele veio ao meu auxílio durante a luta.
— Nion… É melhor nós irmos embora. Vamos tratar dos teus ferimentos e ir para Elonai o mais rápido possível. — Ortus disse se aproximando do amigo.
— Ele não vai para Elonai, Ortus. É um amaldiçoado e exilado. Não tem direito de entrar. — Vero disse e assustou Ortus, que por um breve momento realmente havia se esquecido da maldição.
— Eu quero que Elonai se foda! Onde está Aarhus? — O grito de Nion fez o grupo se assustar e, inconscientemente, concordar com uma decisão.
Os druidas, que estavam parados em frente ao amaldiçoado, de repente se afastaram uns dos outros e deixaram Nion ver. Por de trás deles estava um altar com velas ritualísticas ao seu redor e símbolos demoníacos e desconhecidos desenhados na areia. Sob o altar estava o corpo do lobo.
Nion sentiu uma náusea extrema e quase desmaiou. Aarhus não estava só morto, mas desfigurado. Suas patas estavam retorcidas e os ossos quebrados. Seu escalpo havia sido cortado e os olhos perfurados. Podia ver linhas de cortes perpassando o corpo do animal e sangue para todos os lados.
— Aarhus! NÃO!
O amaldiçoado gritou e então chorou, jogando o corpo contra o chão. Soluçava enquanto sentia vontade de abraçar o velho amigo, ao mesmo tempo que não conseguia olhar para ele. Toda bondade e companheirismo do animal de repente se foram, trazendo de volta o vazio que o amaldiçoado sentia antes de tê-lo conhecido.
— Eu sinto muito, Nion. Eu… nós… — Ortus não sabia o que dizer e Nion não o daria muitas oportunidades de pensar.
— COMO PUDERAM DEIXAR ISSO ACONTECER? ONDE ESTAVAM?
— Acabou, amaldiçoado! Nós vencemos! — Vero gritou e irritou Ortus, que queria o companheiro calado.
— OLHE O QUE FIZERAM COM ELE! OLHE PARA ELE! — O druida soluçava enquanto falava e gesticulava.
— Sacrifícios, Nion! Eu sinto muito que ele tenha morrido, mas Dryade nos enviou um último sacrifício para concluirmos nossa missão! Temos sorte de estarmos vivos!
— COMO OUSA? — Nion gritou e partiu para cima de Vero, dando um soco certeiro em seu nariz e arrancando bastante sangue do mesmo.
O ataque do elfo foi rápido e levou o Blackhand ao chão, que tentou se defender colocando o braço na frente do rosto, vendo Nion o atacar bestialmente, arrancando um pedaço de sua túnica e a tingindo parcialmente com sangue. O ataque foi tão rápido que os druidas mal tiveram tempo de agir, demorando a retirar Nion de cima de Vero, que sofreu alguns hematomas.
— TIRE AS MÃOS DE MIM, AMALDIÇOADO NOJENTO! — Vero gritou e sacou sua adaga contra Nion, sendo contido por Ortus.
— JÁ CHEGA! Os dois, parem com isso! Já chega! Já acabou! Podemos ir para casa agora!
— Só saio daqui quando tiver a cabeça desse desgraçado nas minhas mãos! — Nion gritou e foi contido pelos irmãos humanos, que o seguraram.
— Não posso deixar com que isso aconteça, Nion! Não me obrigue a levantar minha espada contra você! — A fala de Ortus desanimou Nion, que pesou o corpo contra os gêmeos. — Por favor! Sei que era importante para você, mas era só um lobo!
— Não… Não é sobre o lobo. — Nion disse sem força alguma, sendo posto no chão por Danyl e Gregory. — É sobre mim, Ortus. É sobre como eu não sou nada para vocês. Nem eu, nem nada que me represente. Nem mesmo uma cria da natureza.
— Não é verdade!
— Então por quê? Por que vocês deixaram isso acontecer? Não mintam mais para mim! — O silêncio brutal que reinou naquele vale demorou a ser quebrado. Nem Ortus nem qualquer um dos druidas tinha um argumento para se defender.
— Vamos embora. Elonai nos espera. — Vero disse, cuspiu no chão e saiu da duna, sendo lentamente acompanhado pelos irmãos humanos.
— Ainda podemos sair daqui juntos. Não precisa terminar desse jeito. — Ortus falou e estendeu a mão para Nion, que nem cogitou aceitar o gesto.
— Eu achei que você fosse diferente. Mas não é. Você é até pior que o Vero. Só finge que se importa, mas também me despreza… Todos vocês…
Envergonhado, Ortus se foi, e Nion havia terminado sua jornada da mesma forma que começou: sozinho.
Lembrou-se então de tudo que havia vivido até ali. Não era uma vida boa. Seu destino era marcado por uma série de erros, dores e, principalmente, injustiças. Nion focou nesse último aspecto de si e resolveu criar sua própria justiça.
Tentando se reerguer da própria dor, o amaldiçoado se levantou e encarou seu animal. Chorou mais uma vez, mas decidiu que aquele não seria o fim.
Nion começou a correr por aquele vale a procura de objetos variados. Pegou velas, cera, areia e sangue de seus inimigos. Formou um círculo com as velas, desenhou símbolos necromantes com o sangue e chorou e sangrou sob o corpo de Aarhus, terminando o ato com uma longa reza.
Ajoelhado perante o altar que marcava a morte de seu melhor amigo, Nion rezou em várias línguas, mas não homenageava deus algum. Aquela reza era um ritual necromante elaborado, e, até aquele momento, não explorado; advindo do conhecimento extraordinário de Nion sobre o assunto e da situação adversa.
O sangue desenhado no chão se iluminou, as velas se ascenderam no ar, os olhos de Nion se branquearam e o chão começou a tremer. Nion não sabia, mas era observado pelo par de olhos roxos que o fizera um acordo no deserto. Discretamente, Doerdhun se movimentou por de trás do elfo e recolheu o pedaço de tecido rasgado da luta contra Vero; ao mesmo tempo em que não tirava os olhos da criação daquele necromante.
Gritando enquanto rezava, Nion se recordou do que sentia ao estar com aquele animal. Lembrou-se do companheirismo, do amor e da pura compreensão que era estar ao lado daquele lobo, que, na visão de Nion, pagou o preço por ter amado uma alma tão desprezada quanto a dele. Tendo tudo isso em mente, completou uma das últimas partes do ritual, cortando os dois pulsos com uma adaga, sem parar de rezar.
Então o corpo de Aarhus flutuou e começou a se movimentar na direção de Nion, que abriu os dois braços como se fosse envolver o amigo em um antigo abraço. Desafiando as leis do provável, Nion não só achou a alma de seu fiel companheiro, como também a fundiu com a dele, assim como os corpos.
O corpo de Aarhus adentrou o peito de Nion como se fosse líquido, e o elfo começou a gritar enquanto o chão não parava de tremer. Do braço de Nion pelos amarelos começaram a surgir e, seus ossos, dolorosamente, se expandiram. Os olhos deram lugar a glóbulos maiores e as pernas passaram a também acompanhar o crescimento dos braços, fazendo o elfo experienciar uma dor igual a que Aarhus sentiu na mão daqueles perturbados homens.
O rosto de Nion foi tomado pelo formato do crânio de Aarhus, mantendo apenas os olhos verdes élficos do antigo druida. Ali, naquele ritual, duas almas e dois corpos foram unidos, formando o primeiro lobisomem da história, filho do caos e da natureza, fruto de uma história de dor e um necromante surreal.
Unidos, lobo e homem uivaram para a lua cheia, que, ainda brilhante e solitária nos céus, os saudou; dando a criatura força e poder.
Apesar de esguio, o lobisomem também era extremamente musculoso, e, decidido a iniciar sua própria justiça, agiu.
A criatura correu pelo deserto, marcando suas enormes patas na areia. Como lobisomem era muito maior que um urso e bem mais rápido que um cavalo. Corria com a lembrança da dor que sentiu em outra vida e dos homens que eram seus irmão e poderiam tê-la impedido.
Separados do resto do grupo que ia para Elonai, Danyl e Gregory percorriam sozinhos pelo deserto. O lobisomem os avistou a quilômetros de distância e aumentou ainda mais o ritmo de sua corrida, fazendo o chão tremer levemente na medida em que suas quatro patas o tocavam.
Sentindo algo grande se aproximando deles, os gêmeos não tiveram tempo de olhar para trás; apenas se entreolharam e rapidamente se transformaram em ursos, sendo surpreendidos pela criatura que os atacara, que era consideravelmente maior que ambos.
O lobisomem jogou sua pata como um soco no rosto de Danyl, de cima para baixo, que voou e instantaneamente voltou a forma humana, batendo a cabeça na areia enquanto tentava reformular os pensamentos, surpreso.
Gregory também atacou usando as patas, arranhando o ombro direito da criatura, sem conseguir tirar sangue da mesma, pela pele ser bizarramente grossa. O lobo então golpeou o urso no peito, fincando as enormes garras no druida, que sangrou muito e também voltou a forma humana.
— Desgraçado! Largue-o! — Danyl gritou e estranhou quando foi respondido.
— Você deixou ele morrer e agora vai pagar por isso. Vai ver como é bom assistir quem você ama morrer. — A voz do lobisomem era grossa, profunda, e seu ódio era perceptível.
— Nion? — Conectando os fatos, Gregory se assustou com tal possibilidade, mas tarde demais.
O lobisomem fincou a outra garra no pescoço de Gregory e a puxou para cima, fazendo sua espinha sair de dentro do corpo junto com a cabeça, banhando a areia com sangue e entranhas. Danyl não conseguiu acreditar que, seu irmão, o homem mais durão que já tinha visto na vida, havia sido derrotado e morto tão facilmente.
— GREGORY, NÃO! DESGRAÇADO! — O druida gritou com lágrimas nos olhos e correu na direção do lobisomem, que, com uma facilidade extrema, encurtou ainda mais a distância entre os dois e o atingiu com um golpe de cima para baixo, rasgando Danyl e deixando-o a sua mercê.
Com um ferimento longo que ia da barriga até a parte superior do rosto, Danyl não conseguiu se opor ao lobo, que pôs uma das garras em sua barriga e outra em seu ombro.
— Seu miserável! Matou meu irmão!
— Você matou ele, Danyl. Matou ele no momento em que desprezou a mim e uma cria da natureza. Eu lhe entrego de volta tudo o que causou a mim!
— Seu… Amaldiçoado de merda!
O grito de Danyl foi interrompido pela boca do lobisomem, que mordeu sua cabeça e a sacudiu, por fim cavando os caninos enormes em seu crânio e separando-a do resto do corpo.
Sangue e carne alimentaram o lobo pela primeira vez, que, com muita adrenalina no corpo, jogou o corpo do antigo companheiro para longe e correu, desesperado por mais.
Não demorou muito tempo até seus olhos astutos observarem Ortus caminhando sozinho. Ele não sabia, mas Ortus e Vero haviam brigado durante a volta e não viajavam mais juntos. Para a criatura, pouco importava.
O lobisomem uivou alto e rapidamente angariou a atenção de druida, que cerrou os olhos e tentou visualizar o que ocorria, mas a pelagem amarela da criatura, quase idêntica a areia, tornava a tarefa mais difícil.
O lobo, com suas garras longas e afiadas, girou-as rapidamente por diversos pontos na areia, formando uma cortina de fumaça que de longe quase poderia ser confundida por uma tempestade de areia. Ortus, acreditando estar em perigo, se conectou com a natureza e pediu ajuda de uma coruja que voava pela região, tomando emprestado os olhos dela por um breve momento.
Apesar da ideia ter sido boa, quando se conectou com a visão da coruja que observava de cima, já era tarde demais. Visualizou o lobisomem correndo ferrenhamente em sua direção e, voltando ao próprio corpo, não conseguiu se defender, tendo seus dois braços retirados dele com brutalidade. Ortus gritou e se ajoelhou, completamente indefeso.
— Por quê? POR QUE O DEIXARAM PARA MORRER?!
— O… O quê? — O druida, sentindo a vida saindo de seu corpo, não entendia o que ocorria.
— Podem me odiar, mas ele não! Era uma cria inocente da natureza!
— Nion…?
— Ele era inocente! Puro! POR QUE NÃO SALVARAM ELE?! — Irritado, o lobo ergueu um dos braços, pronto para acabar com aquele elfo de uma vez por todas, mas foi interrompido.
— Ele não queria… não queria que houvesse risco… O plano mais inteligente seria esperar todos eles se reunirem e então atacar… Sabíamos que eles se reuniriam se vissem um animal pronto para ser torturado. Por isso Vero queria que o lobo fosse atrás deles, não você… — Tirando as últimas forças que tinha, Ortus confessou seu pecado e viu a criatura chorar.
— Mas ele era INOCENTE! — O lobo disse, chorando. — Porque você concordou?
— Me desculpe, Nion… Eu só… Só queria que essa viagem acabasse logo…
Ortus disse e fechou os olhos, pronto para receber o ataque final. Mas causara nojo demais, então o lobisomem o deixou a mercê do deserto, sangrando e morrendo lentamente, sem o entregar a misericórdia de uma morte honrosa.
O lobo respirou fundo e passou a farejar. Sua vingança ainda não estava completa. Em pouco tempo já sentiu o cheiro de seu algoz e reiniciou sua corrida.
Enquanto corria sendo iluminado pela baixa lua cheia, que quase dava lugar ao sol da manhã, viu seu inimigo ao longe e uivou, chamando lobos místicos para atuar ao lado dele. Cinco lobos de pelos diversos apareceram de repente e uivaram junto ao seu líder, correndo ao lado dele para finalizar aquela vingança.
Vero rapidamente percebeu a mudança nos ventos e se virou, encarando a alcateia liderada pelo que ele acreditava ser um monstro. Conjurou rapidamente quatro raios elétricos, acertando dois lobos e brevemente impedindo suas corridas.
Notando que as criaturas inevitavelmente chegariam até ele, transformou-se em tigre, atacando com a pata o primeiro lobo que chegou e já emendando o ataque com um pulo, por perceber que o lobisomem seria mortal, conseguindo se agarrar aos ombros dele e tentando morder sua pele.
Rapidamente percebeu que aquela criatura era anormal e que seus dentes mal o machucavam; pelo contrário, pareciam que iriam quebrar se continuassem em contato com aquele pele dura.
O lobisomem agarrou o tigre e o jogou com violência três vezes contra a areia. Na terceira, Vero voltou a forma élfica, mas o lobo não parou, atacando continuamente o druida até sentir sua coluna quebrar.
— Por favor… Por favor pare! — Sentindo uma dor excruciante, Vero pediu por clemência.
— Pede misericórdia de um amaldiçoado, Blackhand?
— O quê?
— Eu sou aquele que você humilhou. Sou o elfo que azucrinou. Sou o lobo que desprezou. Eu sou a fúria da natureza de volta até você! — O lobisomem disse e atacou o elfo mais uma vez, largando-o no chão ao fim do ataque.
Os lobos ao lado de seu líder esperavam impacientemente pela ordem para destruir aquele druida. Mas uma boa vingança seria feita devagar.
— Nion… O que foi que você fez?
— Agora você olha para mim? Porque não me observou enquanto meu lobo gritava de agonia? Porque não me olhou enquanto podia ter feito algo? — A fúria do lobisomem ecoou pelo deserto, que se tornava claro a medida que o sol ascendia. Vero pensou por um momento e finalmente deu resposta ao seu inimigo.
— Era só um lobo… Só a MERDA de um lobo… — Direto, o elfo aceitou seu destino.
O lobisomem uivou e deu a recompensa que suas crias tanto queriam. Cada um dos lobos agarrou uma das extremidades do elfo e começou a morder e rasgar sua carne. Seus gritos, ainda que extremamente altos, eram ínfimos em relação a grandeza de Obhitar.
Cada um dos lobos dilacerava sua pele e bebia seu sangue, com certo cuidado para a morte não ser rápida demais. Depois de algum tempo, o lobisomem também atacou, mordendo a barriga do druida e expondo suas entranhas, se atentando ao calor do sangue para se aproveitar de todo tempo que aquele homem ainda teria de vida.
Quando estava na vertigem da morte, mais dor lhe foi entregue. O lobisomem subiu a boca e agarrou sua cabeça, mordendo-a até o rosto não ser mais reconhecível, e então a arrancando por completo.
Depois de devorar todo aquele corpo, o lobisomem e sua alcateia uivaram para o céu, dessa vez sem a benção da lua. Ao fim do uivo, transformou-se novamente em Nion, não mais uivando, mas gritando; por fim ajoelhado na areia.
Sozinho novamente no deserto, acompanhado apenas dos restos mortais daquele que um dia foi seu companheiro, o amaldiçoado percebeu que não se sentia melhor com nenhum dos atos. Dentro de seu âmago ainda sentia muita dor. Então, percebendo que não tinha mais rumo,resolveu não parar sua vingança.
Mas quem seria o alvo da tal vingança agora se os homens que ignoraram seu animal já estavam mortos? Simples. Nion iria atrás aos primeiros causadores de seu sofrimento. A deusa que o havia amaldiçoado e o povo que o havia exilado. Voltou a caminhar sob o sol, mas agora com destino a Elonai.
Não foi fácil, mas, ainda que com pouquíssimas moedas de ouro, Nion conseguiu convencer uma embarcação pirata a levá-lo para Nuntius. Em menos de um dia de viagem o druida atravessou o estreito que separava os dois continentes, sendo deixado discretamente na costa de Elonai.
Vendo que a lua novamente o observava, não pensou duas vezes. Rapidamente transformou-se em lobo, e, assim como da última vez, reviveu a dor de Aarhus enquanto seu corpo se ajustava a nova forma.
Agora não mais era um lobo no deserto, mas um lobo na floresta. Sua cor amarelada contrastava em relação ao verde intenso de Elonai, e as árvores, compridas e grossas, não escondiam seu corpo enorme. Era a primeira vez em anos desde a última vez em que esteve em Elonai. O frescor do ar ainda era o mesmo, e uma ponta de seu coração doeu mais uma vez, desta vez por saudade.
Millenium, a árvore da vida, sentiu-o assim que chegou, contudo, não foi capaz de expulsá-lo, pois, pela sua forma, a árvore da vida o reconheceu como uma de suas crias, e não como um inimigo que estava lá para destruí-la.
O lobisomem uivou e então diversos lobos, naturais e míticos, uivaram de volta, saudando-o. Assim começou o ataque.
Os primeiros a morrer eram simplesmente patrulheiros élficos que rondavam a floresta naquele momento. Tiveram uma morte rápida, limpa e quase indolor. A criatura guardava suas forças para quando chegasse ao centro de Elonai. E assim aconteceu.
O momento não poderia ser melhor. Um casamento ocorria diante Millenium. A árvore soltava suas folhas verdes sob aquela união, que era linda de se ver. Depois de Millenium, um grande lago que seria palco da continuação da festa podia ser visto, mas jamais seria realmente usado para aquele intuito.
O noivo, trajado com uma robe élfica ornamentada por rosas, segurava a mão de sua esposa, que usava um vestido verde claro que arrastava no chão. O casal, rente a um arco de madeira branca, era assistido por uma plateia de elfos de todas as idades, que se sentavam a esquerda e direita dos noivos em cadeiras claras. O clérigo que regia a cerimônia, um orc de idade avançada, foi o primeiro a perceber a chegada do lobisomem e de suas crias, e também foi o primeiro a gritar para que todos fugissem.
O lobisomem, aproveitando-se do momento de surpresa, pulou no centro da plateia que assistia o casamento, devorando a cabeça de um homem e perfurando dois outros convidados com suas garras.
De repente, o casamento havia sido pintado com sangue. Todos começaram a correr e foram perseguidos por lobos. O lobisomem visualizou o casal e decidiu que aqueles seriam seus alvos, e apenas dele.
Colocando-se pé com as patas dianteiras rentes ao corpo, como se fosse bípede, encarou os noivos que caíram no chão, assustados. Mas, para a surpresa de todos os presentes, o velho orc clérigo, que estava encarregado apenasde unir o matrimônio dos noivos, não se intimidou perante a ameaça, se colocando de frente ao casal e sacando sua velha maça, dizendo para os cônjuges correrem.
Apesar de nobre, a defesa do orc não foi longínqua. O lobisomem desferiu um tapa no orc que o pôs no chão e arranhou completamente seu rosto. Sádica, a criatura fincou uma das garras no ombro do senhor e começou a passear a outra pelo corpo do velho, o perfurando e causando muita dor.
— A natureza lhe trairá, criatura das trevas! — O orc disse, já prevendo sua própria morte.
— Eu renuncio esta terra de hipócritas! Eu sou a traição! — O lobisomem disse e ergueu a mão, pronto para partir o velho orc em dois.
No entanto, um corajoso soldado elfo pulou contra o lobisomem, fazendo-o cair, e o atacou no peito com sua espada. Esperava ver a criatura morta, mas se surpreendeu quando notou que a lâmina quebrou ao entrar em contato com a pele do lobisomem.
Uma parte da guarda de Elonai se reuniu e rapidamente cercou a besta. Orcs e elfos bradavam suas espadas, aprontavam suas magias e já se preparavam para combater aquele novo inimigo. Mas, ao mesmo tempo, lobos cercavam os soldados por quase todos os flancos.
O primeiro golpe foi uma lança de gelo, conjurada por um mago elfo, que acertou o ombro da criatura. O lobo se assustou quando percebeu que a lança havia perfurado sua pele e o machucado.
Notando então que magia poderia feri-lo, ordenou que os lobos atacassem os magos e feiticeiros, e assim eles o fizeram.
Os guerreiros que lutaram contra o lobisomem eram corajosos, mas coragem não bastaria em uma batalha como aquela. Pouco a pouco eles eram dilacerados e esquartejados pelo lobo, que tinha sede de sangue.
Vendo o mar de sangue e vísceras adulterar Elonai e um evento festivo, Dryade, a deusa que a pouco contava com Nion como um dos seus, se entristeceu.
Uma história de redenção destruída por tantos motivos. Um homem que não possuía um mal coração agora estava completamente rendido a desejos primais; cegado pelo mal que o destruiu por completo.
Percebendo quão injusta essa história era para quase todos os envolvidos, Dryade chorou. Não só por isso, mas por saber que teria que continuar com a injustiça.
As lágrimas da deusa da natureza caíram do céu e atingiram Elonai como chuva, banhando a batalha que ocorria naquele casamento e encharcando a floresta.
Quase todos os guerreiros que foram defender os cidadãos de Elonai estavam mortos. Poucos estavam de pé sem escoriações e nenhum deles tinha muita coragem para se opor aquela criatura. Todos exceto um.
O orc não saiu de sua posição em momento algum. Invocando os poderes dos deuses, curou os aliados como podia e era a última força imediata contra a criatura.
— Ajoelhe-se, velho. — O lobisomem proferiu, colocando-se mais uma vez sob duas patas apenas para falar com o homem.
— Eu só me ajoelho perante a natureza. E você… — O orc cuspiu no chão. — Você é uma aberração. Um monstro.
— Já chega! — Uma voz ao longe gritou e angariou a atenção da fera.
Um homem ficava a frente de um exército, observando o orc, o lobisomem e os lobos por detrás dele. Este elfo, um nobre guerreiro de Elonai, de cabelo acinzentado, trajando vestes claras escurecidas pela chuva e um pálido sabre prateado, falou e fez o mundo ao redor dele se calar.
Caminhando pela grama encharcada de Elonai, Vicenz Malliz, herói e lenda de Nuntius, podia escutar murmúrios da guarda do reino, que falava sobre como ataques de espada não surtiriam efeito contra a fera. Vicenz estava prestes a descobrir isso por conta própria.
Parando a alguns metros de distância da criatura e do sangue por detrás dela, Vicenz continuou sua fala.
— Darik. Vá embora. Você já fez muito por nós. — O elfo disse e viu o orc trocar olhares com o lobisomem, que nada fez quando o clérigo partiu. — Você não é bem-vinda aqui, criatura demoníaca.
— Eu não sou um demônio. Eu nasci nestas terras. Bebi das águas deste reino maldito.
— Então vá embora agora, antes que eu torne aqui tua última moradia. — Vicenz disse firmemente, com seu sabre em punhos.
Ignorando a afirmação, o lobisomem correu na direção do elfo, querendo morder seu rosto. O elfo colocou-se em posição de defesa e esperou.
Os soldados se desesperaram. Estavam prestes a ver seu homem mais forte ser dilacerado sem ter chance alguma de se defender contra aquela criatura que havia matado tantos elfos. Mas estavam enganados.
O choro de Dryade não servia apenas para mostrar a tristeza da deusa diante toda aquela história, mas para abençoar. As lágrimas de Dryade, que caíram sobre toda Oitarrna, abençoaram toda a prata que havia no mundo. Prata que, não coincidentemente, era o minério mais comum de Elonai.
Quando a fera lançou sua bocada contra o elfo, surpreendeu-se ao vê-lo desviar e atingi-la com seu sabre. Mas, muito mais impressionante do que isso, era o sangue que se formou depois do golpe.
Uma pequena fumaça podia ser vista onde o sabre encostou com a pele do lobisomem, que pasmou e segurou o local atingido com o braço. Para azar dele, Vicenz também percebeu.
— Prata! Usem prata! — O guerreiro gritou e viu a guarda se prontificar. O lobisomem também ordenou que seus lobos fossem atrás dos guardas, mas eram muitos, mesmo para eles.
Se aproveitando do momento, Vicenz deu um passo para frente, atacando, e dessa vez foi o lobo quem se viu na necessidade de defender, desviando do golpe e vendo-o ser emendado outra e outra vez, até finalmente ser atingido no ombro.
Aproveitando-se do estímulo de seu adversário, animado por acertar outro golpe, fingiu fraqueza e no momento certo atacou, arranhando o peito do guerreiro e tirando sangue, manchando suas robes comvermelho.
Machucados, ambos sabiam que seus ataques seriam mutuamente fatais. O lobisomem por ser tão poderoso e o guerreiro por sua habilidade extrema e arma. Os dois calculavam seus movimentos, rondando um ao outro, esperando uma abertura ou movimento errado. Contudo, um elemento desbalanceou essa luta.
Os arqueiros, que ouviram a fala de Vicenz e decidiram agir, se posicionaram nas árvores de Elonai e se armaram com flechas de prata. Um arco disparou do alto e acertou as costas da criatura, que urrou e foi atingida por um golpe de Vicenz, depois outra flecha e mais outra.
Pouco a pouco a criatura passou a se assemelhar a um porco espinho. O lobo podia sentir sua pele queimar, sendo castigado não só pelas flechas, mas pela espada de prata do elfo a frente dele.
Vendo que não teria chances de vencer aquela luta, tentou correr, mas foi atingido por um golpe de sabre na perna, que o fez cair sem chances de se levantar.
Encharcado pela chuva que terminou sendo sua benção, Vicenz ergueu as mãos, se preparando para decepar a cabeça do lobisomem.
Duas vidas compartilhavam aquele corpo. Nion e Aarhus. Duas vidas morreriam de uma só vez.
Aarhus, inocente, estava cedido aos estímulos bestiais que surgiram com a lembrança de sua morte, tão brutal. Outrora uma criatura tão bela e admirável, agora estava cedida a uma parte tão selvagem de si.
Nion não era tão inocente, mas também não era tão atroz. Ali, naquele momento, vendo como tinha se entregue ao desejo de retribuir todo mal que lhe havia sido feito, até mesmo àqueles que nada tinham a ver com sua dor, Nion se lembrou de como queria provar que não era um monstro; e então sentiu-se como um. Não só pelos assassinatos, mas por estar causando morte ao seu companheiro Aarhus mais uma vez. Sentindo isso, ele finalmente cedeu a uma proposta antiga.
— DOERDHUN! EU ACEITO SUA OFERTA!
As palavras da fera foram rápidas o suficiente. Vicenz continuou o golpe, mas acertou apenas a chuva que não parava de cair. O lobisomem não estava mais lá e nunca mais voltaria a estar. Agora seria, pelo resto da vida de dois seres, um servo do caos e filho da natureza.
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