O Livro em Branco
3 Team Work
Notas iniciais
O dia já começava a sumir, dando lugar a noite. Era quase sete horas, e já não havia muita gente confiável na rua da lotérica. Os cinco, com sorte, acharam no jornal do dia, junto com os números da sorte, o ultimo ganhador, e, seu endereço logo abaixo.
– É muito longe pra ir a pé. E está escuro. – Reagan murmurou encarando os outros.
– É o único jeito. Vamos, quanto mais rápido começarmos, mais rápido chegaremos lá.
Newt mal terminou de falar e já começou a andar. O vento batia forte na direção oposta a eles, fazendo Tessa bater os dentes. Viraram duas esquerdas seguidas e cruzaram um viaduto, na rua a direita, uma casa gigante verde musgo se erguia na esquina e ia até a outra virada.
– Seja quem for o vencedor, fez bom uso do dinheiro. – Levi disse, batendo o ombro no de Tessa, fazendo graça.
– Mas bem que poderia ter escolhido uma cor mais bonita. – Reagan murmurou.
Assim que pararam em frente a casa, viram o quão assustadora ela era, ainda mais de perto. Os portões de ferro que não deixavam brechas para ver o interior, a caixa de correio praticamente caída e enferrujada, tudo fazia subir um arrepio de medo na espinha.
Caden foi até a porta e tentou colocar a chave que Tessa pegara, mas ela nem entrou. Ele forçou até ouvir a porta ranger com a brutalidade do movimento, e ele bufou frustrado.
– Não é dessa porta.
Os cinco começaram a procurar outra porta aparente do lado de fora da casa, mas nada que fosse óbvio demais. Olharam todos os cantos, mas não acharam.
– Não pode ser. Tem que haver alguma outra entrada que não vimos. – Newt disse irritadiço.
– Cara, tem certeza que não é dessa porta? – Levi argumentou.
– Tenho, quer tentar? – Caden entregou a ele a chave.
Enquanto Levi tentava inutilmente abrir a porta com a chave errada, Tessa e Reagan apenas se entreolharam e se encostaram no portão de ferro da casa, ambas tremendo de frio. Tessa, instintivamente colocou o pé para trás, dobrando os joelhos e o apoiando contra o portão. Ele rangeu pra trás, fazendo as duas se inclinarem.
– Tessa...
– Empurra!
As duas se desencostaram e começaram a empurrar o portão pra trás, e ele começou a ceder, encolhendo-se para dentro e abrindo aos poucos. O barulho de ferrugem era alto, e logo os garotos as estavam ajudando.
Com o portão aberto, podiam finalmente analisar a casa por dentro, pelo menos a fachada. Era uma porta de madeira velha que parecia ceder a qualquer momento, janelas fechadas com grade, algumas áreas que aparentemente eram canteiros de flores e grama, mas agora estavam mortas e secas, e uma garagem vazia, que aparentava ter sido evacuada com pressa, pelas marcas de pneu no chão em direção ao lado de fora do portão.
Levi, que estava com a chave correu para a porta e tentou abri-la, porém, sem sucesso, esbravejou com raiva.
– Mas qual é a porta dessa chave?!
– Não abre? – Caden disse irritado.
– Não.
–Tenta empurrar, quem sabe ela cede. – Newt foi de encontro dos dois.
Tessa e Reagan se viram sozinhas de novo, desta vez, começaram a procurar outro lugar para a chave. Não demorou muito para Reagan achar um tipo de porão que dava debaixo da casa.
– Meninos! – ela chamou. – Achamos. – as duas disseram juntas.
Não demorou nem um minuto até que eles estivessem ao lado delas. Tessa pegou a chave de Levi e abriu a porta do porão sem dificuldades, puxando as duas partes pra cima e entrando escada a baixo.
Quando todos estavam dentro do local, Newt esticou o braço para acender a luz. Os cinco tiveram uma surpresa. Não era um local antiquado, longe disso. Era mofado e escuro, talvez sem encanação de qualidade e o cheiro não era um dos melhores, mas era aconchegante.
Um tapete encardido cobria todo o chão, um enorme sofá vermelho estava no canto, de frente a ele, uma televisão velha com uma antena. Atrás do sofá, uma estante enorme de livros estava escorada na parede, com pequenos travesseiros quase pretos de sujeira no chão. Uma mesa enorme de madeira estava ocupando o lado esquerdo do porão, com papéis e lápis e canetas espalhados por todos os lados, sete banquetas ao todo espalhadas por sua extensão e um computador velho na sua ponta, com CPU e tudo, dos mais antigos possíveis. Na parede lateral da mesa, prateleiras com mais livros, algumas coisas que nem sabiam descrever ao certo e bonés. Atrás da mesa havia uma geladeira, vazia e empoeirada, mas uma geladeira. E do lado dela, um negócio de colocar casacos, que estava com pelo menos três casacos. Alguns puffs encardidos espalhados pelo lugar e uma única janela, que dava pra rua de trás, mas estava com grades e emperrada, quase impossível de abrir, e uma cortina laranja quase preta de poeira.
– Era isso? Tudo isso... por um porão. Sujo. – Reagan dizia indignada.
– Eu gostei. – Tessa contrapôs, puxando um banco e sentando. – Claro, depois de uma limpeza e talvez uma dedetização.
Ela murmurou colocando os pés pra cima no banco e fazendo uma careta de nojo ao ver o rato passando ao lado do pé de Newt, que riu para ela e foi para seu lado.
– Bom, o que faremos agora? – Caden murmurou escorado na estante de livros. – Já seguimos as pistas e chegamos até aqui, e agora?
– Acho que vemos o livro novamente. Certo? – Levi disse se sentando ao lado de Tessa e colocando o livro sobre a mesa.
Ela abriu-o com cuidado, examinando cada página. Passou o bilhete e passou a página que acharam escrita de manhã, a outra estava limpa, sem absolutamente nada, como todas as outras.
– Como assim? Não deveria ter algo escrito como da ultima vez? – Newt murmurou irritado, e pegou o livro das mãos de Tessa, fazendo cair um papel. Ela o pegou.
– Gente. Achei.
“Ótimo, se estão lendo isto provavelmente chegaram ao lugar onde irão passar a maior parte do tempo, isso se conseguirem seguir com as fases. E falando em fases, passaram da primeira, que fazia referência à se conheceram melhor, terem mais confiança um no outro, pois irão precisar de intimidade nos próximos dias.
Fico feliz de lhes informar que não terá mais enigmas, pelo menos não por agora. Esta próxima fase é longa, assim como seu prazo. E muito complexa também, diria que não conseguirão resolvê-la apenas se vendo no dia final e se virando para achar acidentalmente todas as pistas. Terão de conviver juntos, se ver diariamente, e ter um trabalho contínuo. Então, sem enrolar, vamos á segunda fase:
‘Para passar é simples,
seus maiores medos serão enfrentados,
e seus limites, testados.
Não pense que terá de lutar,
ou até mesmo guerrear.
Não, seu maior poder e
sua maior arma,
será sua mente.
Um livro não esconde segredos de batalha,
sim conhecimentos, mas
para entender um conhecimento,
deve dominar outro.
Mostre sua capacidade,
e resolva em quinze dias
os seguintes desafios:
para o loiro, atenção
um computador pode ser útil,
mas quando tem acesso à ele,
quando conseguir conexão,
procure pelo digito errado e repetido,
ele lhes levarão para o rumo certo.
Para a morena, lhe aviso
experimentos podem ser eficientes, mas
nem todos são para um bem maior,
há um, que apenas os corajosos executam
por ser extremamente complexo e trabalhoso
mas que apenas a química pode explicar,
seu trabalho, já esta dito.
Para o baixinho,
cálculos para uns é decepção,
para você, diversão, mas
conseguirá resolver o cálculo mais complexo
e mais difícil que Einstein já realizou, e ainda mais,
dominá-lo? A matemática lhe dirá o que fazer, e
você, a dirá como agir.
Para o moreno,
geografia ajuda os perdidos, mas
complica a vida dos localizados, e
sendo você habilidoso,
conseguirá descobrir o lugar a leste, que
mesmo tendo altas montanhas
tenha a maior espécie de mamífero aquático do mundo?
Para a loirinha,
seu trabalho será precioso, pois
sendo sociável, relaciona-se com a espécie biológica mais
destrutiva e gananciosa do planeta, mas será que
nos dias de hoje, consegue achar
uma planta que ao mesmo tempo que mata,
cura?
Bom, a largada está dada, e lembrem-se: quinze dias. Boa sorte.”
+++
Assim que Tessa acabou de ler, os quatro dispararam a falar ao mesmo tempo. Todos reclamando que não tinham tempo, que era muito difícil e que estavam cansados dessa brincadeira que não ia dar em nada.
– Gente. – Tessa tentou uma vez. Nada. – Gente. – tentou outra. – GENTE! – os quatro a olharam quietos. – É tarde, vamos embora, vamos dormir e amanhã pensamos melhor nisso, pode ser?
Assunto encerrado, os cinco seguiram caminhos diferentes, cada um para sua casa, mas o mesmo pensamento na mente de cada um: o que eu vou fazer?
+++
Quinta feira, 9h36min, cafeteria Jack’s Coffe, cidade de Greensville.
Os cinco se encontravam sentados na mesa do canto, encostada na parede, do lado de dentro da cafeteria. Todos em silêncio, tensos e preocupados. Estava um dia super frio. Tessa usava uma calça jeans escura, tênis branco, uma blusa de mangas compridas roxa, um casaco preto por cima e cachecol, o cabelo longo estava solto.
Reagan estava com uma calça jeans, uma blusa branca, um sobretudo azul escuro de veludo e uma bota de cano médio preta de saltos, seus cabelos pro lado como sempre, mas hoje estava sem maquiagem.
Levi estava com uma calça jeans folgada, tênis, blusa de mangas longas azul claro e um casaco preto por cima. Seus cabelos estavam mais bagunçados que o habitual.
Caden estava de calças claras, tênis, uma pólo preta e um casaco marrom por cima. Seus olhos estavam mais duros hoje, e com o tempo frio, suas sardas estavam quase que sobressalentes na bochecha e nariz.
Newt estava com calças pretas, coturnos, uma blusa preta de mangas longas por baixo de um casaco do exército, os cabelos esvoaçantes escurecendo o rosto pálido.
O livro estava em cima da mesa, quase que encarando os cinco jovens. Até que Levi quebra o gelo.
– Pesquisei ontem. – ele disse, simplesmente. Demorou um tempo longo, o suficiente para Reagan achar que ele não fosse continuar a falar. – O cálculo de Einstein tem dezoito linhas. Só a equação. A primeira.
Ele parecia normal, não decepcionado ou triste ao dizer isso, como se não importasse.
– Também pesquisei. – Reagan disse encarando seu café frio na mesa. – Existem inúmeras espécies de plantas que curam e matam ao mesmo tempo, vai demorar anos para analisar cada uma delas.
O silencio se instalou novamente, os cinco se encarando. Até que Tessa abre o livro.
– Acho que deveríamos tentar. Chegamos até agora, vamos até o final. Vai dar um pouco de trabalho, sim...
– Um pouco? – Levi interrompeu.
– Mas acho que tentar não arranca braço de ninguém. – ela terminou. – O que acham? Estão comigo?
– Vamos pro porão.
+++
Lógico, não começaram o trabalho assim que chegaram lá. Começaram a limpar, e quando era quase duas horas da tarde, o lugar se encontrava habitável. Limpo, dedetizado, cheiroso, desempoleirado e mais aconchegante que antes. Haviam levado pelo menos cinco copos de café, pegaram alguns refrigerantes e doces no caminho e agora a geladeira encontrava-se cheia. O sofá estava com um cobertor e a televisão funcionava agora que Caden havia dado uma olhada nela, assim como o computador. O lugar estava personalizado.
Agora, os cinco se encontravam em ação. Tessa, que havia pego um casaco que estava pendurado na ponta da escada para se proteger do frio, estava sentada na mesa, literalmente em cima da mesa, de perna de índio, os cabelos presos para não atrapalhar.
Tinha um livro de química na mão, um caderno nas pernas e um lápis entre os dentes. Ela procurava a tal experiência perigosa e complexa que o livro mencionara que ela teria de executar.
Ao seu lado, sentado educadamente na mesa, Caden mexia no computador. Aparentemente, ele estava com uma senha complexa na qual ele tentava descobrir para liberar o acesso aos dados que escondia. Pelo frio, além de usar seu casaco, colocou um boné que estava no mesmo cabideiro que Tessa havia pego o casaco.
No sofá, Reagan estava quase que deitada, seu notebook, que havia levado, estava ligado. Procurando espécies de plantas mortíferas e curadoras, e assim que conseguisse a lista, iria ao trabalho. Os cabelos estavam presos por uma boina que achara perdida pelo porão.
Newt estava concentrado. Ele havia sentado no lado oposto ao de Caden na mesa, ele estava com um livro de geografia na mão e um mapa enorme ao seu lado, com vários canetões. Ele procurava espécies de mamíferos aquáticos que vivem em regiões de montanhas, mas pela sua cara, estava difícil de achar.
No outro lado da sala, Levi escrevia na parede. Ele precisava de um quadro, mas não o achara, então estava escrevendo nas paredes com o canetão. Ele abriu um espaço enorme e começou a escrever a tal equação de Einstein, mas ainda não acabara de copiar.
Os cinco estavam focados, mas no final do dia, chegaram a mesma conclusão: não evoluíram em nada. Nenhuma informação, nenhum progresso. Nada. Isso os deixou tristes. E irritados.
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– Trinta e seis espécies. – Reagan exclamou. – Como vou achar uma que seja boa e ruim ao mesmo tempo, dentre trinta e seis espécies de plantas? É quase impossível, e quase todas são feitas ou desenvolvidas em laboratório.
Ela e Levi voltavam para casa, obviamente, pegavam o mesmo caminho. Haviam passado o dia no porão da misteriosa casa, perdendo, conseqüentemente, um dia de aula. Ele apenas riu.
– Aquela equação que é impossível! – Levi contrapôs divertido. – Tem tantas incógnitas que não sei como as vinte e seis letras do alfabeto foram suficientes.
Os dois riram.
– Não sei como vamos terminar isso em quinze dias.
– Tenha fé. – Levi riu de seu próprio comentário. – E um cérebro. Iremos conseguir.
– Espero.
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– Espero.
– Calma, Tessa. Não deve ser tão difícil assim.
Newt, Caden e Tessa voltavam de metro para casa. Eles iam para direções opostas mas mesmo sentido. Caden tentava convencer Tessa de que ela podia fazer a tal experiência.
– Não esta entendendo. É quase impossível. E super perigoso. – ela murmurou irritada e chateada. – São tantos reagentes que não sei se consigo ao menos entender aonde isso vai dar.
Os dois amigos riram.
– Mas e vocês?
– Tem noção do quão absurdo é a idéia de um mamífero aquático viver em montanhas? – Tessa riu de Newt. – Uma baleia no meio de um vale? É absurdo.
– Absurdo é um computador de dez anos atrás ter uma senha mais complexa que o sistema de uma conta bancária.
– Acho que isso não vai dar certo. – Tessa disse logo após Caden. Os dois a encararam.
– Vai dar certo.
– Têm que dar.
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