O Livro Sagrado Dos Deuses
1 Novamente uma expulsão
Notas iniciais
O dia corria normalmente até que na aula de química (a última do dia), que mal havia começado, foi interrompida por algumas batidas na porta. Após um tempo da batida, a diretora Marta surgiu com mais duas garotas, que classificaria como... No mínimo esquisitas.
— Professor Gabriel essas são Ana Letícia e Mariana. Alunas novas, que acabaram de se transferir. – Explicou a diretora Martha enquanto empurrava as duas garotas para dentro da sala.
— Bom dia garotas! Sejam bem-vindas. Agora podem deixar o material de vocês lá no fundo, e tragam as cadeiras a frente. Depois se juntem ao círculo. Vamos fazer uma experiência e tanto não é turma?. — Disse o professor Gabriel. Ele era o único que estava animado com o fato de fazermos aquela experiência utilizando vários ingredientes, os quais eu não consegui ler os nomes por conta da minha dislexia.
A sala estava organizada em círculo para que todos nós conseguirmos ver cada detalhe da experiência. Mesmo com essa organização todos os alunos, menos Tommy, estavam afastados de mim. Sou o que pode se classificar com uma "C.D.F" muito hiperativa, já que não consigo ficar parada e prestar atenção em uma só coisa por muito tempo. Nunca consegui entender direito o que realmente tenho, já que meu pai me impediu de ir até um médico, apesar de todas as escolas que estudei solicitarem isso. É como se tratar dessa minha imperfeição deixasse meu pai extremamente irritado, e por isso não insisto muito no assunto. Imagino que quando ele era mais novo sofreu da mesma forma, já que tem muitas características iguais as minhas. Mas, meu pai fingir que esse problema não existe não faz com que as pessoas no colégio ajam da mesma forma, e por isso sou o que a maioria considera como “esquisita” e “isolada”, tendo como único amigo o Tommy, que também tem dislexia, mas por ser bonito não é um esquisitão do colégio como eu. Provavelmente por serem novas e não possuírem uma cara de muitos amigos, Ana Letícia e Mariana pegaram suas cadeiras e sentaram perto de mim e de Tommy.
Ao decorrer da experiência percebi que Tommy ficava olhando de uma forma estranha para as duas garotas, como se elas fossem algum tipo de ameaça, o que tornou a aula ainda mais estranha. Quando o professor enfim terminou de fazer a experiência, a qual eu não entendi nada (nem tentei entender para falar bem a verdade), ele propôs que fazermos trios para escrever um resumo sobre o que aprendemos com a aula de hoje. Eu já estava me virando para ir com Tommy quando a Maristella estava na frente dele, e começou a falar:
— Tommy, lembra que você prometeu que ia fazer dupla comigo da última vez, mas acabou não fazendo pra ir com a Manuela? — Esqueci de falar a vocês da Mariestella. Ela é a típica garota popular, fútil e patricinha que adora atormentar minha vida (porque sempre precisa ter uma?), e como ela sabe que eu tenho uma quedinha (bem grande por sinal) pelo Tommy, ela fazia questão de tentar seduzi-lo só para me deixar triste. Tanto é que ela nem esperou ele dizer sim e já se sentou ao seu lado. Fiquei tentada a quebrar a cara dela, mas então ele se virou com aqueles olhinhos verde como o mar para falar comigo eu já me esqueci repentinamente porque estava tão brava.
— Manu tem problema eu ir com a Mariestella hoje? É que da última vez eu não fui e... – Antes que termninasse interrompi-o dizendo:
— Tudo bem Tommy, não me importo. Vou com as garotas novas. Nunca se sabe quando vai fazer uma nova amizade, certo? — Acho que ele não acreditou muito no que eu disse, mas, por outro lado, nunca gostei muito dessa imagem isolada minha, e fazer amigas não me faria mal algum.
— Oi meu nome é Manuela, vocês podem fazer o trio comigo? — Pedi quando fui para mais perto delas. Uma olhou para outra com cara de espanto, mais depois de muita conversa de sinais entre as duas, Mariana se virou para mim e disse:
— Não tem problema nenhum, Manuela Bolton. – Ao pronunciar meu sobrenome, assustei. Eu o havia mencionado?
— Como vocês sabem meu sobrenome? — Perguntei espantada.
— Sabemos muito mais do que você pensa minha querida, e logo nossa senhora a terá em suas mãos. — Ana Letícia disse aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo, e ainda depois soltou uma risada meio estranha.
Mariana viu que eu ia soltar um grito então deu um tapa na cabeça da Ana e disse:
— É brincadeira sua boba, nós não vamos fazer nada não, não liga pro que essa tonta fala... — Definitivamente mudei minha opinião. Não quero mais ser amiga delas! Para disfarçar meu desconforto, pedi licença e fui ao banheiro colocar meus pensamentos em ordem.
Dentro do banhei, por estar sem vontade realmente de usar o vaso, aproveitei para analisar meu reflexo no espelho. A mesma cara feia de sempre, mas com uma nova espinha no queixo. Enquanto decidia que nome daria a minha nova espinha alguém começou a bater freneticamente na porta.
— Manuela? — Reconheci aquela voz. Era Mariana. O que ela queria? Será que eu não posso ter um momento a sós com a minha espinha mais nessa escola não hein? Resolvi que não iria responder e esperar ela voltar pra sala para eu sair de lá.
Passaram-se 10 minutos e ela ainda estava lá batendo na porta pedindo para eu abrir, quando de repente a temperatura do banheiro começou a cair e logo em seguida outra coisa foi para o chão: a porta. Quando a porta caiu eu dei um grito gigantesco, e ouvi vários alunos saindo de suas salas para ver o que tinha acontecido. Olhei de relance para a porta e vi duas coisas que pareciam estar flutuando no ar e com mais um pequeno e agudo grito eu percebi que se tratava de Ana Letícia e Mariana. Ao perceberem a agitação das outras pessoas elas desapareceram como mágica. Eu estava traumatizada demais para sair do banheiro. Todos que chegavam perto de mim me olhavam assustados e saiam apressados. Ah, que beleza, mais uma história para se espalhar sobre a esquisitona.
Tommy saiu da sala e entrou dentro do banheiro. Vendo minha cara de aterrorizada me abraçou e perguntou:
— Manu o que aconteceu? — Mas antes de conseguir responder, ouvi os gritos da diretora mandando todos voltarem as suas atividades normais. Quando ela entrou no banheiro e viu que eu estava abraçada com o Tommy, deu a maior bronca nele e mandou-o voltar pra sala. Ele protestou mas acabou voltando pra sala como o resto dos alunos.
— Manuela o que aconteceu aqui? Porque a porta do banheiro está no chão? Quem fez isso? — Eram perguntas de mais pra mim, eu ainda não tinha passado do choque que acabara de sofrer, então a única coisa que eu consegui fazer foi chorar, até que a diretora me arrastou para a secretaria, me fazer sentar no sofá e tomar um copo d’água com açúcar.
Quando eu estava mais calma ela olhou pra mim e repetiu as perguntas que tinha feito no banheiro. Fiquei pensando por um tempo... Não podia dizer pra ela que eu vi as alunas novas flutuando no ar, ela me chamaria de louca. Então antes de eu conseguir inventar uma desculpa Ana Letícia e Mariana entraram chorando na secretária.
— Diretora você tem que expulsar esta marginal. Ela nos atacou lá no banheiro. Ficou louca só por que falamos que o Tommy faz um par perfeito com a Mariestella.
— Ela arranhou meu braço todinho, e ainda tentou me chutar só que daí eu desviei e ela acertou na porta. Quando viu várias pessoas se fez de tadinha, o que deu tempo da gente sair correndo! — Não estava acreditando naquilo que estava ouvindo. Como assim eu que ataquei elas? A diretora me mandou um olhar severo, e eu soube na hora o que ia acontecer: Expulsão na certa. Já não tenho uma ficha muito limpa nas escolas que frequentei. Sempre fui expulsa desde o pré-zinho, coisas estranhas costumam rodear minha vida, mas nunca nada como isso que acabara de acontecer. Não adiantou nada eu me defender falando que era tudo mentira o que elas estavam falando, já que eu não tinha uma explicação mais convincente.
Acabou que no final daquela aula meu pai foi chamado a escola e foi comunicado o que tinha ocorrido, e informado também, que eu estava expulsa.
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